A Música Continua Tocando
A música estava em sua décima terceira repetição quando Marshall percebeu que já conhecia o momento exato em que o piano falhava.
Não era uma falha real. A cantora apenas respirava entre duas frases, e o pianista demorava uma fração de segundo a mais para tocar a nota seguinte. Ainda assim, depois de ouvir a mesma canção tantas vezes atravessando a parede, Marshall aprendera a esperar por aquele pequeno intervalo. A pausa chegava aos dois minutos e vinte e sete segundos. Em seguida, a melodia continuava, lenta e triste, como uma gota escorrendo por um vidro.
Ele olhou para o relógio no canto do monitor.
20h46.
A planilha aberta diante dele continha quarenta e três linhas destacadas em amarelo, doze em vermelho e uma coluna inteira de prazos que precisavam ser reorganizados antes da reunião da manhã seguinte. Marshall apoiou os cotovelos na mesa da cozinha, passou as duas mãos pelo rosto e tentou se concentrar.
A música recomeçou.
Desta vez, ele contou desde o primeiro acorde.
O apartamento estava quase totalmente escuro. A única luz da cozinha vinha dos dois monitores e da lâmpada fraca sobre o fogão. Do lado de fora, os prédios formavam blocos negros contra um céu sem estrelas. A chuva que ameaçara cair durante toda a tarde ainda não chegara. O ar permanecia quente, imóvel e pesado, trazendo pela janela entreaberta o cheiro de asfalto, poeira e comida frita de algum apartamento vizinho.
Sobre a mesa, ao lado do teclado, havia uma caneca com café frio, uma calculadora e um prato coberto por outra louça para preservar o jantar.
Marshall tinha preparado macarrão com molho de tomate e manjericão. Não era uma receita complicada, mas ele cortara os tomates em pedaços pequenos porque Dália detestava encontrá-los inteiros no molho. Também deixara o queijo separado, sabendo que ela gostava de colocar mais do que ele considerava razoável.
Às 19h10, ele batera na porta do quarto.
— A comida está pronta.
— Já vou.
Às 19h42, batera novamente.
— Vai esfriar.
— Pode comer sem mim.
Ele não comera.
Às 20h15, mandara uma mensagem, mesmo estando a poucos metros dela.
Você precisa comer alguma coisa.
Dália visualizara, mas não respondera.
Marshall observou a porta fechada no fim do corredor. Uma linha de luz violeta escapava pela fresta inferior. A música passou novamente pela pausa dos dois minutos e vinte e sete segundos.
Ele salvou a planilha.
Levantou-se, cobriu o computador e caminhou até o quarto.
A porta não estava trancada, mas ele bateu antes de entrar.
— Dália?
Nenhuma resposta.
Marshall abriu devagar.
O cômodo fora planejado para ser um escritório compartilhado. Depois, tornou-se o ateliê de Dália. Nos últimos meses, transformara-se em algo sem nome: parte depósito, parte dormitório, parte mausoléu de tudo que ela já começara e não conseguira terminar.
Havia telas viradas contra as paredes, caixas de lápis abertas sobre o chão, pincéis endurecidos dentro de copos e potes de tinta que não eram tocados havia tanto tempo que uma camada seca se formara sobre as tampas. Recortes de revistas, fotografias e amostras de cores estavam presos em um quadro de cortiça. Alguns já haviam perdido as pontas e pendiam tortos, sustentados por alfinetes enferrujados.
Um fio de luz violeta contornava o teto. Dália instalara aquelas lâmpadas anos antes, quando ainda dizia que determinadas cores ajudavam a mudar a forma como ela enxergava um desenho.
Naquela noite, a luz não iluminava o quarto. Apenas tingia a desordem.
Dália estava sentada no chão, encostada na lateral da cama. Usava uma camiseta larga de Marshall, meias diferentes e um short escondido sob o tecido. O cabelo caía solto sobre o rosto. Uma mecha estava presa entre os lábios, hábito que surgia quando ela ficava ansiosa.
Ao redor dela havia seis folhas amassadas.
Uma sétima permanecia sobre seus joelhos.
O papel estava quase perfurado.
Dália desenhara um rosto, apagando-o tantas vezes que restavam apenas manchas cinzentas, marcas de pressão e sombras sem forma. O lado direito da folha se desfazia sob os dedos dela.
Marshall se aproximou.
— Você não comeu.
Dália continuou olhando para o papel.
— Eu sei.
— Fiz o molho daquele jeito que você gosta.
— Obrigada.
— Posso esquentar.
— Eu não estou com fome.
Marshall respirou fundo. Observou o quarto, procurando um lugar onde pudesse pisar sem esmagar nada. A música saía das caixas de som do computador, preenchendo cada intervalo entre eles.
— Você almoçou?
— Comi alguma coisa.
— O quê?
Dália demorou a responder.
— Não lembro.
— Dália.
Ela fechou os olhos.
— Não começa.
Marshall parou.
Sabia que aquelas duas palavras não significavam apenas “não comece a falar sobre comida”. Significavam não faça perguntas, não transforme isso em uma conversa, não me diga o que eu deveria fazer, não me mostre outra vez que estou falhando em tarefas que parecem fáceis para todas as outras pessoas.
Mesmo assim, ele não sabia o que dizer se não pudesse fazer perguntas.
Agachou-se perto dela.
— O que aconteceu com o desenho?
— Nada.
— Você está há horas aqui.
— Eu sei.
— Então aconteceu alguma coisa.
Dália soltou a folha. Ela escorregou de seus joelhos e tombou no chão, ao lado das demais.
— Eu não consigo desenhar um rosto.
Marshall olhou para as manchas de grafite.
— Talvez você esteja cansada.
— Não é cansaço.
— Você dormiu mal ontem.
— Eu durmo mal todos os dias.
— Exatamente. Se você descansar—
Dália levantou a cabeça.
Seus olhos estavam vermelhos, embora ela não parecesse ter chorado. Havia olheiras arroxeadas sob eles, e a pele de seus lábios apresentava pequenas feridas onde ela os mordera.
— Você acha que eu não tentei descansar?
Marshall se calou.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu descanso, Marshall. Eu passo dias inteiros descansando. Às vezes, eu não faço outra coisa. E continuo cansada. Então descanso porque estou cansada de descansar. E depois me sinto culpada porque não fiz nada, o que me deixa mais cansada ainda.
Ela disse tudo rapidamente, quase sem respirar. Quando terminou, desviou os olhos como se tivesse revelado algo vergonhoso.
Marshall sentou-se no chão diante dela.
— Podemos mudar sua rotina.
Dália soltou uma risada curta e vazia.
— Claro.
— Não estou dizendo como uma crítica.
— Eu sei.
— Você pode começar com coisas pequenas. Uma hora de manhã. Sem celular, sem cobrança. Depois faz uma caminhada. Podemos procurar outro terapeuta. Talvez rever a medicação com o médico. Eu também posso assumir mais coisas em casa durante algum tempo.
Ela observava uma mancha de tinta seca no rodapé.
Marshall continuou:
— E você não precisa desenhar um rosto inteiro de uma vez. Pode dividir em partes. Primeiro os olhos, depois o nariz. Ou fazer estudos menores. Existe uma lógica para reconstruir o hábito.
— Uma lógica.
— Sim.
Dália levou os joelhos ao peito.
— Eu não quero uma planilha.
— Não falei em planilha.
— Você falou do mesmo jeito que fala sobre elas.
Marshall franziu a testa.
— Estou tentando ajudar.
— Eu sei.
— Então por que você está agindo como se eu tivesse feito alguma coisa errada?
A música chegou à pausa.
Por uma fração de segundo, o quarto ficou quase silencioso.
Dália passou os braços em volta das pernas.
— Porque eu não queria que você resolvesse.
— Você acabou de dizer que não consegue desenhar.
— Eu queria falar sobre isso.
— Estamos falando.
— Não. Eu estou falando sobre como me sinto, e você está falando sobre como impedir que eu continue sentindo.
Marshall abriu a boca, mas não encontrou resposta imediata.
Aquilo o incomodava. Não por raiva, mas porque não compreendia a distinção. Quando alguém lhe dizia que uma torneira estava vazando, Marshall procurava ferramentas. Se uma conta estava atrasada, ele calculava. Se Dália dizia que doía, ele queria descobrir onde pressionar, qual parafuso apertar, qual peça substituir.
Permanecer diante de algo quebrado sem tentar consertá-lo lhe parecia uma forma de negligência.
— Eu não quero que você continue sofrendo — disse ele.
A expressão de Dália se desfez um pouco.
— Eu também não quero.
— Então preciso fazer alguma coisa.
— Às vezes você pode só ficar comigo.
— Eu estou aqui.
— Seu corpo está.
Marshall sentiu a frase como um golpe, embora ela a tivesse dito quase num sussurro.
Ele olhou para as próprias mãos. Ainda trazia no punho a marca avermelhada do relógio que usara durante todo o dia. Havia respondido a mensagens enquanto preparava o jantar. Conferira o e-mail durante o banho. Na semana anterior, prometera assistir a um filme com ela e passara metade do tempo olhando discretamente para o celular.
Trabalhava porque o aluguel subira. Porque o carro precisava de manutenção. Porque Dália reduzira o número de trabalhos que aceitava. Porque alguém precisava garantir que as coisas continuassem funcionando.
Ele acreditava que fazia tudo aquilo pelos dois.
Mas reconhecia que, em algum ponto, também começara a trabalhar para não pensar naquilo que não conseguia resolver.
— Eu não sei fazer isso — admitiu.
Dália ergueu os olhos.
Marshall raramente dizia que não sabia alguma coisa. Quando dizia, normalmente acrescentava que poderia aprender.
Desta vez, não acrescentou.
— Fazer o quê? — ela perguntou.
— Ficar sem tentar mudar nada.
O rosto dela adquiriu uma ternura cansada.
— Eu não preciso que você nunca tente. Só preciso que não tente o tempo todo.
Marshall apoiou as costas na cama, sentando-se ao lado dela. Seus ombros quase se tocavam.
— Quer me contar sobre o desenho?
Dália olhou para a folha destruída.
— Eu não reconheço mais nada que faço.
Ele esperou.
O impulso de perguntar quando aquilo começara surgiu imediatamente. Depois veio a vontade de sugerir que ela comparasse trabalhos antigos, que estabelecesse metas, que enviasse mensagens aos clientes anteriores. Marshall engoliu todas essas respostas.
Dália continuou:
— Eu vejo as coisas na minha cabeça. Às vezes, elas são bonitas. Não bonitas de um jeito perfeito. São... vivas. Têm texturas, cheiro, temperatura. Eu consigo ver como uma cor deveria tocar a outra. Consigo imaginar uma pessoa olhando para aquilo e sentindo alguma coisa que não sabe nomear.
Ela levantou a mão, movendo os dedos no ar como se contornasse uma imagem invisível.
— Então eu pego o lápis, e tudo desaparece. Minha mão parece pertencer a outra pessoa. O papel fica me olhando. Quanto mais eu tento, mais eu tenho certeza de que nunca fui boa. Talvez eu só estivesse fingindo e, por algum acidente, ninguém percebeu.
— Você não estava fingindo.
— Como sabe?
— Porque eu vi você trabalhar.
— Você viu os resultados.
— Vi você também.
Dália permaneceu quieta.
Marshall se lembrava de encontrá-la acordada às três da manhã, com tinta no nariz e uma expressão feroz de concentração. Lembrava-se da forma como ela dançava sozinha enquanto pintava. De como recuava três passos para observar uma tela, inclinando a cabeça como se escutasse a obra. De como reclamava, apagava, recomeçava e, ainda assim, parecia alimentada pelo processo.
Agora, até o lápis lhe parecia pesado.
— Eu sinto falta dela — disse Dália.
— De quem?
— De mim.
Marshall voltou o rosto para ela.
— Você ainda está aqui.
— Não inteira.
Ele poderia ter dito que aquilo não era verdade. Poderia ter insistido que ela continuava sendo a mesma pessoa. Mas percebeu que dizer isso seria negar a perda que ela tentava explicar.
— Deve ser horrível — respondeu.
Os olhos de Dália se encheram d’água.
Ela não chorou imediatamente. Primeiro, pressionou os lábios um contra o outro, como se tentasse impedir que o rosto se abrisse. Depois, uma lágrima desceu lentamente pela bochecha.
Marshall não sabia se deveria abraçá-la.
Por alguns segundos, ficou imóvel. Então estendeu a mão, deixando-a aberta sobre o chão entre os dois.
Dália olhou para ela.
Colocou seus dedos sobre os dele.
Marshall fechou a mão devagar.
A música recomeçou.
Ficaram assim durante algum tempo. Sem plano. Sem conclusão. A canção tocou outra vez, e Marshall não contou a duração.
Foi Dália quem interrompeu o silêncio.
— Você não precisa terminar seu trabalho?
— Preciso.
— Então pode ir.
— Posso terminar depois.
Ela soltou uma respiração que quase se transformou em riso.
— Isso deve ter doído.
— Um pouco.
Dália apoiou a cabeça no ombro dele.
O gesto era familiar, mas havia algo hesitante nele, como se ela precisasse testar se aquele lugar ainda lhe pertencia. Marshall encostou a face em seus cabelos. Sentiu o cheiro suave de xampu misturado à poeira, tinta seca e ao perfume floral que ela deixara de usar.
— O jantar está muito frio? — perguntou.
— Provavelmente.
— Você vai comer comigo?
Dália pensou.
— Vou tentar.
Marshall se levantou primeiro e ofereceu a mão. Ela aceitou. Quando ficou de pé, precisou permanecer alguns segundos parada, como se o corpo não acompanhasse imediatamente a decisão.
Ele desligou as caixas de som.
A música não parou.
Marshall moveu o cursor na tela e conferiu o aplicativo. A reprodução estava pausada.
Mesmo assim, o piano continuava.
— Você deixou o celular tocando? — perguntou.
Dália apalpou os bolsos da camiseta.
— Está na cama.
Ela pegou o aparelho. A tela estava apagada.
A música seguiu preenchendo o quarto.
Marshall aproximou-se das caixas de som e retirou o cabo da tomada.
Nenhuma mudança.
Dália ficou imóvel ao lado da cama.
— Marshall.
— Pode ser o computador usando outra saída de áudio.
Ele desligou o monitor e apertou o botão da torre. As ventoinhas diminuíram até pararem. A luz violeta permaneceu acesa no teto, mas todo o resto ficou escuro.
A música continuou.
Agora parecia mais distante.
Não vinha das caixas de som, do celular ou do computador.
Vinha de algum ponto dentro da parede.
Marshall aproximou o ouvido da superfície.
— O apartamento ao lado pode estar tocando a mesma música.
— Não existe apartamento desse lado.
Ele se lembrou disso no mesmo instante.
A parede do ateliê dava para o exterior do prédio.
Ainda assim, havia alguma coisa do outro lado.
A melodia parecia atravessar metros de corredor antes de chegar até eles. O som tinha uma qualidade estranha, comprimida e antiga, semelhante a uma fita gravada muitas vezes por cima de si mesma.
Dália se aproximou.
— Ela está diferente.
— O quê?
— A música.
Marshall ouviu com atenção.
A cantora chegava ao refrão, mas havia uma segunda melodia por baixo da primeira. Notas simples tocadas em algum instrumento infantil. Talvez um xilofone. Talvez uma caixa de música.
— Isso não estava antes — disse Dália.
O novo som ficou mais alto.
Junto dele, surgiu outra coisa.
Vozes de crianças.
Risos abafados. Passos rápidos. O rangido de alguma estrutura metálica. Um ruído plástico, seco, repetido, como milhares de objetos pequenos chocando-se entre si.
Dália encostou a palma na parede.
— Está fria.
Marshall tocou ao lado da mão dela.
A superfície estava gelada, apesar do calor no apartamento.
— Afaste-se.
— Você ouviu?
— Sim.
— Parece um parque.
— Parece um vizinho assistindo à televisão.
— Do lado de fora do nono andar?
Marshall não respondeu.
Retirou o celular do bolso e acendeu a lanterna. A parede parecia normal: tinta branca, algumas marcas de grafite próximas ao rodapé e um pequeno risco deixado quando haviam arrastado a mesa meses antes.
Então alguma coisa bateu do outro lado.
Três pancadas lentas.
Dália recuou.
Marshall ficou diante dela.
As batidas se repetiram.
Desta vez, mais próximas.
A parede vibrou sob a luz do celular.
Um traço apareceu no centro da superfície.
Primeiro, Marshall pensou que fosse uma rachadura. Porém, o traço desceu em linha perfeitamente reta, virou na altura do chão e prosseguiu para o lado. Outro surgiu em paralelo, formando um retângulo alto e estreito.
Dentro dele, a tinta branca escureceu.
A superfície afundou alguns centímetros, como se o concreto tivesse se transformado em tecido.
Dália segurou o braço de Marshall.
Uma maçaneta emergiu da parede.
Era pequena, arredondada e amarela.
A tinta estava descascada nas bordas, revelando camadas antigas de azul e vermelho. Marshall teve a impressão absurda de que aquela maçaneta pertencia a uma porta de escola infantil.
Dália soltou o braço dele.
Aproximou-se.
— Não toque.
Ela parou.
— Eu conheço essa cor.
— É amarelo.
— Não é só amarelo.
A voz dela tremia.
— Eu usava essa cor quando era criança. Minha mãe dizia que era feia porque parecia mostarda. Eu chamava de amarelo de dentro do sol.
Marshall observou a porta.
— Você tinha uma porta assim?
— Não.
As vozes infantis ficaram mais fortes.
Entre elas, alguém chorava.
Dália virou a cabeça, tentando identificar a direção.
— Tem alguém lá dentro.
— Não existe “lá dentro”.
— Você está ouvindo.
— Estou ouvindo um som. Isso não significa que existe uma criança atrás da parede.
— E essa porta significa o quê?
Marshall não tinha resposta.
A maçaneta girou sozinha.
A porta abriu apenas alguns centímetros.
Do outro lado, não havia corredor, apartamento ou exterior.
Havia escuridão.
Um ar morno escapou pela fresta, carregando cheiro de plástico, poeira, carpete úmido e açúcar artificial. A música tornou-se mais nítida.
Dália deu um passo.
Marshall segurou sua mão.
— Não.
— Alguém está chorando.
— Isso pode estar tentando fazer você entrar.
— “Isso” o quê?
— Eu não sei.
A porta abriu um pouco mais.
No escuro, surgiu uma pequena esfera vermelha. Ela rolou lentamente até atravessar a soleira.
Era uma bolinha de piscina infantil.
O objeto parou entre os pés de Dália.
Ela se abaixou para pegá-lo.
O chão cedeu.
Não quebrou. Não rachou. Apenas afundou, tornando-se subitamente macio e incapaz de sustentar seu peso.
Dália gritou quando suas pernas atravessaram o piso.
Marshall a segurou pelos braços.
Por um segundo, conseguiu mantê-la acima da superfície. Então o chão cedeu sob seus joelhos também.
— Segura em mim!
— Eu estou segurando!
A madeira, o carpete, as folhas amassadas e as caixas de tinta perderam a rigidez. Tudo ao redor afundava como objetos colocados sobre uma membrana líquida.
Marshall tentou alcançar a cama, mas ela se inclinou e desapareceu sob o chão.
Dália escorregou.
Ele a puxou para perto.
Os dois caíram.
A queda não foi rápida.
O apartamento subiu devagar acima deles, distorcido por uma camada invisível, como se estivesse sendo observado através da água. As folhas amassadas flutuaram em volta de Dália. Uma delas se abriu diante de seu rosto.
O papel que ela acreditava ter destruído estava coberto por um desenho.
Uma piscina de bolinhas.
Um túnel negro.
Duas pessoas minúsculas entrando de mãos dadas.
— Eu não desenhei isso — sussurrou.
Marshall apertou sua mão.
A luz do quarto tornou-se uma mancha violeta distante.
Depois desapareceu.
E a música, finalmente, parou.








