Capitulo 1
As seis da manhã chegaram como um assassino educado: sem pressa, sem ruído, e mesmo assim direto para a jugular.
A cortina automática recolheu-se num zumbido macio, e a luz limpa do amanhecer atravessou o quarto do príncipe herdeiro de Valterra e pousou, com precisão cruel, sobre o rosto dele.
Owen Halloran não se moveu.
*Faz seis anos que uma garota de dezesseis anos morreu em outro mundo. E hoje, nesse aqui, um príncipe tem que sobreviver a acordar às seis da manhã.*
*Se isso é vida após a morte, o inferno tem gerência melhor.*
Ele abriu um olho. O teto era o mesmo teto caríssimo de sempre, alto e branco, com aquela moldura de gesso que devia custar o salário anual de uma pessoa de bem. A cabeça latejava numa batida grave, teimosa, que descia da têmpora até o fundo dos dentes. Havia um gosto de champanhe morno e má decisão colado no céu da boca.
*Quatro horas. Cheguei quatro horas. Fiz as contas rápido — se eu não tivesse dançado com aquele idiota da máscara de raposa, teriam sido três e meia, e três e meia é praticamente uma noite de sono responsável.*
A porta se abriu sem que ninguém batesse. Uma só pessoa no reino tinha permissão para fazer aquilo, e ela entrou com uma bandeja, um terno impecável e a expressão de quem já viu esse filme muitas vezes e sabe como termina.
— Vossa Alteza — disse Cassian.
Owen fechou o olho de novo.
— O senhor está fingindo dormir.
— O príncipe herdeiro de Valterra não finge nada — disse Owen, a voz saindo rouca e arrastada contra o travesseiro. — O príncipe herdeiro de Valterra descansa. Há uma diferença de classe entre as duas coisas.
— O príncipe herdeiro de Valterra chegou às quatro e sete da manhã pela entrada de serviço, sem escolta, com um sapato de cada cor.
Uma pausa.
— Eram da mesma cor em iluminação de festa — disse Owen. — Culpe o eletricista.
Cassian pousou a bandeja na mesa lateral com um tinido controlado. Café, água, dois comprimidos brancos numa saboneteira de prata que valia mais que os comprimidos. Ele não parecia zangado. Cassian nunca parecia zangado; parecia, no máximo, um homem de quarenta anos calculando quantos dos que ainda lhe restavam seriam gastos ali, naquele quarto, extraindo um herdeiro de dentro dos lençóis.
— Reunião com Sua Majestade e as Casas às sete — disse ele. — O senhor está na pauta.
Owen sentou-se. O quarto oscilou, considerou tombá-lo, e depois desistiu por preguiça.
*Na pauta. Eu odeio estar na pauta. Estar na pauta significa que onze famílias que se odeiam entre si concordaram, por uma vez, em olhar todas para a mesma coisa. E a coisa sou eu.*
Ele pegou os comprimidos. Engoliu-os com o café — quente, amargo, perfeito, a única lealdade sincera daquele palácio — e por um momento apenas segurou a xícara com as duas mãos, deixando o calor subir pelos dedos.
Cassian já estava do outro lado do quarto, abrindo o armário, retirando de dentro dele a coisa que Owen mais detestava no mundo depois de acordar cedo: o uniforme.
Não era um uniforme militar, embora tivesse a mesma vocação para sufocar. Era o traje de corte — linhas retas, gola fechada, um azul tão escuro que só se percebia azul quando a luz batia de lado, e sobre o peito o brasão dos Halloran em fio de prata. A roupa de um homem que não tem o direito de parecer humano.
— Cassian.
— Alteza.
— Se eu morrer nessa reunião, quero que saiba que a culpa é sua, por ter me acordado.
— Anotado — disse Cassian. — Braços.
Owen levantou os braços.
E então aconteceu o que sempre acontecia, a coisa que ninguém no reino jamais veria e que por isso mesmo nunca acreditariam ser possível: enquanto Cassian o vestia, camada sobre camada, o rosto de Owen foi mudando. A moleza da ressaca escorreu para longe. A boca, que um instante antes reclamava de sapatos, endureceu numa linha calma e desinteressada. Os ombros desceram e assentaram. Os olhos — que tinham rido sozinhos com a piada dos sapatos — apagaram-se como duas janelas onde alguém, de dentro, tivesse fechado as cortinas.
Quando Cassian ajustou o último botão da gola e deu um passo atrás para conferir, não havia mais nenhum resto daquele que chegara às quatro da manhã com um sapato de cada cor.
Havia um príncipe.
— Perfeito — disse Cassian, baixo, e por um segundo pareceu quase triste ao dizê-lo.
*Perfeito*, pensou Owen, e a voz de dentro não combinava em nada com o rosto de fora. *Vamos lá enterrar mais uma manhã, então.*
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A Sala do Conselho ficava no terceiro subsolo do complexo, o que era, quando se pensava a respeito, uma escolha arquitetônica interessante para um reino que gostava de falar sobre luz e transparência. Nenhuma janela. Nenhum céu. Só uma mesa oval de pedra negra comprida o bastante para pousar um avião, e ao redor dela onze cadeiras que não eram cadeiras mas posições, e no topo uma décima segunda que não era uma posição mas um trono disfarçado de móvel de escritório.
Owen entrou dois minutos antes das sete, que era o horário exato para um herdeiro: nem cedo a ponto de parecer ansioso, nem tarde a ponto de parecer desafiador. Cassian ficou à porta, onde a guarda fica. As conversas baixas em torno da mesa não pararam quando ele entrou, mas mudaram de temperatura — aquele arrefecimento sutil, aquele meio-grau a menos, que percorre uma sala quando alguém de quem todos precisam e a quem ninguém confia atravessa a porta.
Ele conhecia cada rosto. Era obrigado a conhecer.
Ashford, das finanças, com os óculos que valiam menos que o menor de seus segundos de atenção. Voss, da energia, curvado sobre o telefone como se o mundo pudesse acabar caso desviasse os olhos dele por três segundos — e, considerando o setor de Voss, talvez pudesse. Thornbury. Merrick. Draven, da mineração, com aquele silêncio de pedra que combinava com o ofício. A cadeira dos Lancaster ocupada não pelo velho duque, mas por um secretário — o que era, por si só, uma informação, embora Owen ainda não soubesse ler qual.
E no topo da mesa, já sentado, imóvel, o Rei.
Aldric Halloran não se levantava para ninguém, nem mesmo para o filho que o reino inteiro acreditava ser seu. Ele ergueu os olhos quando Owen se aproximou, e nesses olhos não havia calor nem falta de calor — havia avaliação, apenas, a mesma com que se olha um investimento antes de decidir se ainda vale a pena mantê-lo.
— Owen — disse o Rei.
— Majestade — disse Owen, e inclinou a cabeça no ângulo exato. Sentou-se à direita do trono, na cadeira que era sua e que ele nunca conseguira, em seis anos, sentir como sua.
*Bom dia para você também, pai. Dormiu bem? Sonhou com taxas de câmbio? Que bom.*
A reunião começou, e por quarenta minutos foi tudo aquilo que Owen esperava que fosse: tarifas, uma disputa territorial entre Sereno e Voss sobre um corredor logístico, o relatório trimestral de Ashford lido em voz de quem cobra dívidas. Owen manteve o rosto voltado para quem falava. Assentiu nas horas certas. Fez uma única pergunta — curta, afiada, calculada para custar pouco e render a impressão de que estivera atento o tempo todo —, e Ashford levou quatro segundos a mais do que devia para responder, o que valeu a manhã inteira.
*Foi por isso que eu perguntei. Não porque eu me importe se o câmbio sobe ou desce. Um herdeiro que só assente é um herdeiro que já está morto e ninguém contou a ele. Um que morde de vez em quando faz as pessoas checarem se ainda têm todos os dedos.*
*É cansativo. Deus, é tão cansativo. Prefiro mil vezes a festa. Na festa ninguém está calculando quantos dedos ainda tem.*
Foi quando os papéis já se recolhiam, quando as cadeiras faziam aquele primeiro rangido de quem se prepara para levantar, que o Rei falou de novo.
— Ainda não terminamos.
O rangido cessou. Onze pessoas voltaram a assentar.
Aldric não olhou para os papéis. Olhou para Owen.
— O casamento com a Casa Lancaster está confirmado para o outono. — A voz do Rei tinha o peso morno das coisas já decididas em outro lugar, por outras pessoas, e apenas anunciadas ali por formalidade. — A aliança exige que a corte veja o casal antes da cerimônia. Portanto, a partir da próxima semana, a segunda filha da Casa Lancaster passará a residir na ala do herdeiro. Sophie Lancaster iniciará com o príncipe o período de convivência.
Alguma coisa se moveu ao redor da mesa. Não um som — um deslocamento, cabeças que giraram um grau na direção de Owen, o interesse coletivo de onze predadores que farejaram, no meio da papelada, um pedaço de carne fresca.
Owen não moveu um músculo do rosto.
— Naturalmente — disse ele. A voz saiu perfeita. Baixa, cortês, sem uma única aresta onde alguém pudesse se pendurar.
*Espera.*
*Espera, espera, espera. Residir. Ele disse residir. Como em morar. Como em morar aqui. Como em uma pessoa, com olhos e ouvidos e uma personalidade inteira própria, dormindo do outro lado da parede, todos os dias, indefinidamente, no único lugar do mundo em que eu consigo tirar essa cara e respirar.*
O Rei sustentou o olhar mais um instante, como se esperasse alguma coisa. Owen lhe deu o nada de sempre, polido e reluzente, e o Rei, satisfeito ou apenas entediado, desviou os olhos e fez o gesto mínimo que encerrava a reunião.
As cadeiras rangeram. As Casas se levantaram. A sala começou a esvaziar-se em murmúrios que agora tinham um assunto novo e delicioso para mastigar nos corredores.
Owen levantou-se por último, no tempo de um herdeiro, com o rosto de mármore que seis anos de treino haviam esculpido tão bem que já quase não pesava.
*Ótimo*, pensou ela, atravessando a porta onde Cassian a esperava, sem que uma só linha daquele pensamento chegasse ao rosto.
*Adeus, único quarto sossegado do reino. Foi bom enquanto durou.*








