Capítulo 1 - Bom dia, flor do dia!
Rachel acorda cedo com o despertador, o que pra ela, já era um grande milagre.
Ela encara o teto por alguns segundos, com nenhuma vontade de se levantar, afinal, é o seu primeiro dia de aula do ano, e estava bem desanimada para ter que recomeçar tudo de novo.
São 5 horas da manhã exatas no relógio, ela se levanta, abre a janela, e presencia o começo do nascer do sol, um pequeno feixe de luz laranja começa a cobrir o seu quarto.
No espelho do seu quarto, fazia uma análise do próprio reflexo com uma expressão crítica, o cabelo estava bagunçado e havia algumas olheiras leves, nada fora do comum, vestindo a mesma jaqueta jeans que sempre a acompanhava em qualquer situação.
A sua mochila ficou guardada no armário fazia meses, foi intocada por todo esse tempo e estava toda empoeirada, dentro dela, ainda estavam todos os livros de segunda mão de seu irmão mais velho, Nathan, com as páginas todas amassadas e rabiscadas, com anotações que não eram dela
Ela desce as escadas até a cozinha, a sua mãe, Emily, já estava acordada e já havia preparado o café da manhã, na mesma hora, o irmão sai do quarto, praticamente desacordado ainda.
Rachel puxou uma cadeira e se sentou à mesa, a mãe já colocando um prato à sua frente sem dizer nada, já acostumada com o silêncio da manhã
- Dormiu bem? - Emily perguntou, depois de um momento
-Acho que sim- Disse Rachel, com uma expressão de indiferença
-Eu sei que está mentindo, ficou acordada durante a madrugada outra vez né? Esqueceu que as suas férias acabaram? Sua rotina voltou, Rachel...você precisa se acostumar com isso.
Nathan se aproxima, já entrando no meio da conversa
-Nossa, vocês já estão brigando essa hora?
As duas olharam para ele ao mesmo tempo, e então o ignoraram
-Olha, Rachel - Disse a mãe com uma voz serena -Já vai dar a hora, é melhor já juntar as suas coisas, o seu irmão te leva até a escola
Ela subiu as escadas rapidamente, pegou a mochila e antes de voltar, olhou novamente para o espelho e sorriu para si mesma.
A mãe ainda estava na cozinha, organizando algumas coisas, Rachel passou por ela, dando apenas um tapinha nos ombros, e saindo de casa.
O vento da manhã estava frio, mas agradável. O carro de Nathan já estava ligado, com ele esperando Rachel para irem logo.
Os dois entraram no carro e deram partida. Rachel encostou a cabeça no vidro, observando as mesmas casas e árvores de sempre passando, cansada, mesmo com o dia apenas começando.
Tudo parecia igual, como se estivesse repetindo algo que ela havia vivido antes, sempre o mesmo caminho, o mesmo horário, as mesmas pessoas, isso incomodava Rachel um pouco.
Ela estava tão distraída que nem percebeu que já havia chegado no portão. Nathan olhou ao redor, observando de lado pelo vidro.
-Esse lugar ainda tá caindo aos pedaços, impressionante - Disse soltando um pequeno riso - Bom, é aqui, boa sorte aí.
Rachel abriu a porta e saiu, sem nem olhar pra trás, o barulho aumentava quanto mais ela andava, ficou procurando algum rosto conhecido.
Até que finalmente encontrou, Lena, sua melhor amiga, parada em um canto, Rachel deu um leve sorriso e correu até ela, dando um abraço forte.
-Que saudade que eu senti de você!
-Eu também - Lena respondeu rindo - há quanto tempo a gente não se vê de perto!
-Nem parece que a gente ficou esse tempo todo trocando mensagens.
As duas continuaram conversando, o pátio estava cheio como sempre, pessoas falando, indo e vindo, tudo normal. Rachel olhou ao redor, sentiu que aquilo estava familiar demais, as mesmas pessoas, fazendo os mesmos caminhos de sempre, isso tudo parecia estar se repetindo.
-Você tá me ouvindo? - Lena perguntou
Rachel piscou rápido
-Sim... eu tô...
- Então vamos logo, antes que a gente chegue atrasada no primeiro dia!
As duas seguiram juntas, até a sala que ficariam durante o ano inteiro.
Ao abrirem a porta, alguns colegas conhecidos acenam para Rachel, ela responde com um sorriso, cumprimentando cada um enquanto ia até o fundo da sala
-A gente vai ficar no fundo mesmo? - Perguntou Lena
-Dá pra fingir que tá prestando atenção enquanto faz qualquer besteira que quiser, estratégia.perfeita
-Você realmente não consegue levar os estudos a sério né?
-Eu nunca consegui.
-Mas esse ano a gente vai fazer diferente eu prometo.
-Eu tenho certeza que você ta falando isso há uns 2 ou 3 anos já.
-Não duvide da minha capacidade.
As duas ficam em silêncio, Lena começa a observar ela com mais atenção, o sorriso de Rachel foi embora aos poucos
-Você ta bem?
-É só sono, eu tô meio cansada
-Tem certeza, não vai ser eu que vou te segurar se você desmaiar aí do nada.
Rachel revirou os olhos e não respondeu.
A sala logo ficou quieta quando o professor entrou na sala, já começando a falar sobre a matéria e escrevendo no quadro, Rachel até tentou prestar atenção, mas não conseguiu, desviou o olhar para a janela que ficava ao seu lado, que mostrava o pátio e o horizonte, ela ficou observando, logo, abriu o seu caderno, não pra copiar do quadro, mas escrever o que essa visão inspirava.
O tempo passou rápido, ficou escrevendo a aula inteira, e quando percebeu, já tinha preenchido uma página inteira, nesse exato momento, o sinal do intervalo toca. Ela fecha o caderno devagar
-Finalmente, eu tava contando os segundos - Lena disse, se levantando
As duas saíram da sala, seguindo o resto da turma, elas foram até o pátio e pararam perto dos bancos
-Você tava escrevendo alguma coisa? - perguntou Lena - Você ficou a aula inteira vidrada naquele caderno, e te conhecendo, sei que não tava copiando nada
-Um pouco
-Deixa eu ver?
-Não, outra hora eu te mostro, não ta pronto ainda
-É outra daquelas suas poesias certo? Desde o primeiro dia que te vi você já tava escrevendo essas coisas.
-Eu gosto, me faz sentir bem... sei lá, organiza as coisas.
-Faz sentido, é bom ter algo pra se distrair e escapar um pouco
-É...
Rachel olhou rápido para Lena, e desviou o olhar no mesmo instante, Falar sobre isso deixava ela levemente desconfortável, era algo só dela, não conseguia dividir nem mesmo com Lena.
O sinal do intervalo toca novamente, todos se direcionam para as salas.
Rachel ficou todas as outras aulas do mesmo jeito, quieta, continuou escrevendo o que pensava, sem parar, até o dia acabar, e sem que ela percebesse, o sol já estava começando a se pôr, ela piscou, como se tivesse acordado
Ela arrumou suas coisas, ficou o dia inteiro fazendo qualquer coisa menos prestar atenção na aula e ainda assim queria ir embora logo, Lena se levantou e foi embora junto dela até o portão, onde Nathan já estava lá fora para buscar Rachel, ela se despede da amiga, dando um abraço leve nela, se afastando dela e indo de volta para casa.
O céu começou a ficar escuro, e a noite começou a surgir, enquanto o carro andava, Rachel olhava pelo vidro, os postes lentamente se acendendo e o silêncio tomando conta das ruas.
-Você não parece muito animada. - Nathan comentou depois de alguns segundos -
-Nunca fico
O cansaço do dia começou a pesar,não só no corpo mas também na mente, fazendo o caminho parecer estranhamente lento, díficil de ignorar.
Quando eles chegam em casa e abrem a porta, o som da rua fica distante instantaneamente, a luz da sala estava acesa, Emily apareceu no fundo do corredor
-E aí? Como foi? - perguntou a mãe
-Normal, nada mais do que o esperado
Emily assentiu, entendeu sem precisar de mais explicaçôes
-Você quer que eu faça a janta logo?
-Não, eu não tô com fome.
Rachel se virou para a direção da escada
-Vou para o quarto.
-Não fica acordada até tarde
Rachel não respondeu, só subiu as escadas com pressa e abriu a porta do quarto, acendendo a luz azul fraca do ventilador.
Ela se deita na cama e respira fundo, finalmente podendo parar e descansar, virou para o lado e guardou o caderno dentro da gaveta do lado da cama, puxou o celular e começou a conferir mensagens e conversar com os colegas, o quarto ficou em silêncio, interrompido apenas pelo som de notificação de vez em quando, Rachel piscou devagar, várias vezes.
Os seus olhos começaram a pesar cada vez mais, ela largou o celular por cima da gaveta, e ficou olhando para o teto por alguns segundos, assistindo o ventilador girar lentamente, Rachel virou levemente para o lado, o corpo parecia cada vez mais pesado, os sons começaram a ficar menos nítidos, até que ela deixou os olhos fecharam por mais tempo...
Ela descansou os olhos até dormir finalmente, sem ter noção nem percepção do que estava acontecendo ao redor. Como se estivesse flutuando. Rachel, mesmo em estado de sono, sentiu algo diferente, algo a chamando, mas não era uma voz, então ela acorda e percebe que não está mais no seu quarto.
O primeiro instinto foi esperar o ambiente familiar, a luz fraca, a janela do quarto.
Mas nada disso estava lá
O espaço estava aberto até demais, definitivamente não era seu quarto, nem algo definido.
As cores do céu se alternavam, entre rosa, verde e roxo, quase sem bordas, fora de foco.
Rachel tentou se levantar.
O corpo respondeu, mas de forma lenta, como se estivesse aprendendo a existir de novo.
O silêncio era diferente, não era vazio, mas era como se o ambiente havia percebido de que ela estava ali. Mesmo assim, ela deu um passo a frente, confusa, tentando achar uma saída aquele lugar, sem saber onde estava, mas tendo a sensação clara de aquele não era o mundo que conhecia.
Rachel prosseguiu, andando em frente, mas com o sentimento de que estava andando em círculos, haviam alguns rastros semelhantes a caminhos no chão, que se alternavam constantemente, como se foram feitos propositalmente para confundir quem estivesse explorando a área, isso deixou ela mais confusa ainda, e fazendo ela se sentir mais perdida ainda.
O espaço parecia ficar mais irregular quanto mais ela caminhava, o chão parecia instável, deixando ela desesperada e sem rumo. Ela respira fundo e tenta se acalmar, de repente, o local muda sutilmente, com apenas um caminho a se seguir.
- Isso não pode ser real. - Ela sussurrou
Rachel deu um passo à frente, o solo não parecia sólido o tempo todo, mas era tocável.
De longe, algo se moveu, nem rápido nem brusco, mas aparentava ser consciente.
Rachel fechou os olhos levemente, tentando visualizar de longe o que era aquilo.
Não era algo, era alguém, ela não estava sozinha nesse mundo, havia um corpo vivo por ali, não era um animal, nem algo caótico.
Ela ficou observando de longe, até que a figura paralisou , e mesmo á uma certa distãncia, parecia ter notada a presença de Rachel ali
Rachel sentiu um leve aperto no peito
-Oi? - a voz dela saiu baixa, com um pouco de medo
Não houve resposta, apenas mais silêncio.
A figura inclinou levemente a cabeça, analisando ela, não com estranhamento, mas com reconhecimento, aquela coisa não parecia surpresa de ver ela por ali.
O medo dela aumentou, e a instabilidade voltou a aumentar, deixando tudo pior ainda, ela respirou fundo outra vez.
Antes que ela pudesse fazer algo, outra figura apareceu atrás dela, com naturalidade, mas dessa vez tinha uma forma parecida com um humano, mas distante de ser realmente um.
Rachel ficou parada, em alerta para o que quer que fosse acontecer. Ela sente insegurança, estava sozinha e apenas pede por uma coisa.
-Alguém me ajuda, por favor... - Ela pensa para si mesma...








