Capítulo 1 – O Despertar no Vazio
Capítulo 1 – O Despertar no Vazio
O cheiro de álcool e desinfetante tomou conta de seus pulmões antes mesmo de abrir os olhos. O bip ritmado de uma máquina era um metrônomo distante, marcando o compasso de algo que ele ainda não compreendia. Seu corpo pesava como se estivesse preso a uma âncora invisível.
Com esforço, ele piscou. A luz branca do teto do hospital o cegou momentaneamente, forçando-o a virar a cabeça para o lado. Sentiu a aspereza dos lençóis, a rigidez do colchão, a frieza do ambiente. Sua boca estava seca, a garganta arranhada.
Uma mulher sentada ao lado da cama segurava sua mão. Seu rosto estava pálido, os olhos vermelhos de tanto chorar. Ao perceber que ele acordara, ela soltou um soluço e apertou seus dedos com mais força.
— Meu amor… — a voz dela tremeu. — Graças a Deus. Você está acordado.
Ele tentou falar, mas apenas um gemido rouco escapou de seus lábios. Ela sorriu entre as lágrimas e trouxe a mão dele até o rosto, beijando seus dedos com ternura.
Foi então que ele percebeu.
Ele não sabia quem ela era.
Seu peito apertou em desespero. Ele olhou para a mulher, analisou seu rosto, tentou encontrar qualquer vestígio de reconhecimento. Nada. Seu nome, sua história, tudo estava em branco. Seu olhar vagou pelo quarto, buscando qualquer pista de si mesmo.
— Onde… onde estou? — conseguiu perguntar, com a voz fraca.
A mulher hesitou, como se sentisse um medo profundo da resposta que ele ainda não sabia dar.
— No hospital, meu amor. Você sofreu um acidente de carro. Os médicos disseram que… que sua cabeça sofreu um impacto forte.
Ele piscou lentamente, tentando absorver as palavras. Acidente. Cabeça. Hospital. Tudo fazia sentido, mas, ao mesmo tempo, nada fazia. Seu coração disparou.
— Quem… quem sou eu?
Os olhos da mulher se arregalaram, e por um instante, o tempo pareceu parar. A dor estampada no rosto dela foi como uma faca cravada no peito dele.
Ela apertou sua mão com mais força, como se, com esse simples toque, pudesse trazê-lo de volta.
— Você é o Gabriel. E eu sou a Laura. Sua esposa.
O nome não lhe dizia nada. Nenhuma lembrança, nenhuma fagulha de reconhecimento. Ele queria acreditar nela, queria sentir o que esperavam que sentisse. Mas tudo dentro dele era um grande vazio.
O bip da máquina ao seu lado se acelerou, refletindo a angústia crescente dentro dele.
Ele não sabia quem era. E pior: não sabia se algum dia voltaria a saber.








