PRÓLOGO
O sol ainda não havia ultrapassado as montanhas quando os primeiros sinos de Aurevânia anunciaram o nascimento de um novo dia. Seu som atravessava os campos dourados, deslizava pelos rios cristalinos e alcançava cada vila, fazenda e rua de pedra da capital. Não era um chamado para a guerra, nem um aviso de perigo. Era apenas mais uma manhã em um reino que aprendera a viver em paz.
Durante quarenta anos, aquela paz tivera um único nome: Atanagildo.
As estradas estavam cheias. Carroças carregadas de trigo seguiam para a capital enquanto mercadores cruzavam os portões escoltados por soldados que cumprimentavam cada viajante com respeito. Crianças corriam entre os cavalos de madeira vendidos pelos artesãos, mulheres negociavam tecidos coloridos nas feiras e o cheiro de pão recém-assado escapava das padarias antes mesmo de o sol aquecer os telhados.
Nas oficinas, o som ritmado dos martelos ecoava pelas ruas. Ali, os ferreiros não fabricavam apenas espadas; produziam enxadas, ferraduras, ferramentas e dobradiças. Em Aurevânia, o ferro servia tanto para proteger quanto para construir. Na praça principal, músicos preenchiam o ar com melodias alegres enquanto artistas faziam pequenas apresentações para divertir as crianças. Os guardas observavam tudo com tranquilidade — não porque fossem relaxados, mas porque quase nunca precisavam desembaínhar suas espadas. A criminalidade era rara, e os impostos eram pesados o suficiente para manter o reino funcionando, mas leves o bastante para que nenhum camponês passasse fome.
As colheitas eram fartas, os rios eram limpos e as cidades prosperavam. Aurevânia não era perfeita — nenhum reino era —, pois ainda havia disputas entre comerciantes, anos de chuva escassa e famílias que enfrentavam dificuldades. Mas havia algo que existia acima de tudo isso: confiança. O povo acreditava na própria coroa, e isso era mais valioso do que ouro.
Naquele mesmo amanhecer, um homem caminhava pelas ruas da capital usando uma capa simples de lã escura. Sem escolta, sem trombetas e sem anunciar quem era, poucos o reconheciam. Os que reconheciam apenas abaixavam discretamente a cabeça, atendendo a um pedido do próprio rei, que não gostava que interrompessem o trabalho das pessoas para homenageá-lo.
Atanagildo caminhava devagar. Os cabelos, outrora negros, agora eram completamente grisalhos, e a barba bem aparada denunciava a idade. As rugas marcavam seu rosto, mas seus olhos ainda carregavam a mesma firmeza de décadas atrás.
Ele parou diante de uma pequena oficina. Um menino tentava erguer um balde de água muito maior do que seus próprios braços permitiam. O garoto fez força, escorregou e o balde caiu, espalhando a água pelo chão. Envergonhado, o menino abaixou a cabeça, esperando uma bronca.
Atanagildo sorriu, pegou outro balde vazio e ajoelhou-se ao lado dele.
— Parece que hoje a água resolveu fugir.
O garoto o encarou por alguns segundos antes de rir. Juntos, voltaram até o poço e encheram o balde novamente. Enquanto trabalhavam, o menino perguntou:
— O senhor é viajante?
— Hoje... apenas alguém fazendo uma caminhada — respondeu Atanagildo.
Quando o garoto conseguiu levar o balde até a oficina, levantou o braço em comemoração. O rei apenas observou, sabendo que aquele pequeno sorriso valia mais do que qualquer desfile militar.
Mais tarde, caminhou pelos campos. Centenas de agricultores trabalhavam sob o céu azul. Um velho camponês limpou o suor da testa e comentou com outro:
— Faz anos que não vejo uma colheita tão boa.
— Enquanto Atanagildo estiver vivo, Deus continuará olhando por nós — respondeu o amigo.
O rei ouviu aquelas palavras em silêncio. Não respondeu, nem sorriu; apenas continuou andando, porque sabia de uma verdade que poucos conheciam: nem mesmo um rei podia impedir o tempo.
Ao meio-dia, chegou aos quartéis. Centenas de soldados treinavam ao mesmo tempo. Espadas colidiam, escudos estremeciam e instrutores gritavam ordens. No centro do pátio estavam seus dois filhos. Recaredo desarmou o adversário usando técnica e velocidade. Leovigildo venceu o próprio combate obrigando o oponente a recuar até não ter mais espaço para continuar. Os dois terminaram praticamente ao mesmo tempo.
Ao perceberem o pai observando, aproximaram-se. Recaredo sorriu.
— Veio nos vigiar?
— Vim lembrar que um rei precisa conhecer a espada — disse Atanagildo.
— Mas não depender dela — completou Leovigildo.
O velho rei sorriu discretamente.
— Vejo que ainda escutam meus ensinamentos.
Os três caminharam juntos pelo quartel sem que nenhum soldado ousasse interrompê-los. Atanagildo observava os dois em silêncio. *Como cresceram tão rápido...*, pensou ele, enquanto lembrava de quando ambos mal conseguiam erguer uma espada de treino.
Recaredo conversava com naturalidade com qualquer pessoa que encontrava; Leovigildo analisava cada detalhe ao redor antes mesmo de falar. Tão diferentes e, ainda assim, dois homens que ele amava da mesma forma.
Ao cair da tarde, Atanagildo decidiu subir até a muralha mais alta da capital. A subida pelos longos degraus de pedra cobrou seu preço. Na metade do caminho, as pernas falharam levemente e o peito queimou. Ele precisou parar, apoiando a mão pesada na parede fria de pedra para puxar o ar, sentindo o peso implacável da idade que acumulava no corpo. Respirou fundo algumas vezes, recuperou o fôlego e terminou de subir.
Dali era possível enxergar praticamente toda Aurevânia: os telhados, as torres, os campos, as estradas e os rios que cortavam o reino como veias levando vida a cada cidade. Um vento frio passou por seu rosto. Ele fechou os olhos.
Lembrou-se da primeira batalha, dos amigos que perdera e do sangue derramado para unir aquelas terras. Lembrou-se do dia em que colocou a coroa sobre a própria cabeça. Naquele momento, acreditava que o maior desafio seria vencer seus inimigos. Descobriu, anos depois, que governar era muito mais difícil do que conquistar. Porque vencer uma guerra levava dias; manter a paz levava uma vida inteira.
Naquela noite, um jantar foi preparado apenas para três pessoas. Sem ministros, sem generais e sem criados dentro do salão. Somente um pai e seus dois filhos.
Conversaram sobre a infância, sobre caçadas e sobre o dia em que Recaredo caiu de um cavalo tentando impressionar o irmão. Leovigildo riu tanto daquela lembrança que precisou apoiar a mão na mesa, enquanto Recaredo prometia que um dia contaria aos filhos de Leovigildo a história inteira. Durante alguns instantes, não existiam reis, nem herdeiros — apenas uma família.
Quando a refeição terminou, Atanagildo levantou lentamente, sentindo o peso dos anos sobre os ombros. Olhou primeiro para Recaredo, depois para Leovigildo. Seu semblante mudou. A alegria desapareceu.
— Quero que me prometam uma coisa.
— Qualquer coisa, pai — responderam os dois, quase ao mesmo tempo.
O velho rei respirou fundo. Sua voz saiu baixa, mas firme:
— Nunca deixem Aurevânia conhecer uma guerra entre irmãos.
O salão mergulhou em silêncio. Recaredo deu um passo à frente e colocou a mão sobre o peito.
— Eu juro.
Leovigildo repetiu o gesto.
— Eu também.
Atanagildo fechou os olhos por um instante, como se finalmente pudesse descansar. Aproximou-se dos dois. Abraçou Recaredo, depois Leovigildo e, por fim, abraçou os dois ao mesmo tempo. Nenhum deles imaginava que seria a última vez.
Na manhã seguinte, os sinos voltaram a tocar. Mas o som era diferente: mais lento, mais pesado.
As ruas silenciaram, os mercados pararam, os ferreiros largaram os martelos e os agricultores interromperam a colheita. Toda Aurevânia olhou para o Castelo Real. Na torre mais alta, o estandarte da coroa desceu lentamente até a metade do mastro.
Naquele instante, sem que fosse preciso dizer uma única palavra, todos compreenderam: o rei havia partido.
E enquanto o povo chorava por quem os guiou na luz, as sombras do amanhã começavam a se desdobrar. A promessa selada em amor seria testada pelo fogo do poder, pois o maior legado de Atanagildo não fora a paz que construiu em vida, mas a difícil missão de evitar que seu próprio sangue destruísse o futuro de Aurevânia.








