O quarto 202
Um bistrô, com música jazz tocando pelo ambiente na penumbra, barulhos de taças sendo bebidas de seus últimos goles; outras brindadas de suas primeiras conversas. Fim de noite, bancada vazia, exceto pela dama a qual ficou me olhando de canto de olho a noite inteira — aliás a que mais me mostrou o sorriso quando nos cumprimentamos.
Após uma troca de olhares atrevidos, no escurinho me aproximo discretamente por trás dela, abro devagarinho o zíper da minha calça social, e a sua bunda empinada e de costas no banco, pronta; preparada para o que receberia por trás, sem poder soltar um gemido ou grito de êxtase. Só meu cheiro de perfume a envolvendo enquanto a seguro firme pelas ancas a fim de não escapar daquela breve fenda; janela de oportunidade: a fresta da cadeira na medida certa para elas se prostrarem anteriormente e me receberem por baixo do seu vestido no mesmo tom da música a qual diverte os demais convidados.
Retiro rapidamente e me viro para o bar como se fosse um estranho esperando pela volta do garçom. A dama congela como o copo com gelo na bancada por um momento, reajusta a postura e cobre minha silhueta com uma mais ereta, a qual escondia minha ereção. Era somente o homônimo de uma outra mulher. Minha colega bebe um pouco para molhar a garganta, mas por baixo do vestido continuava perfeitamente molhada. Sou mais devagar ainda quando me entreponho, para ela sentir cada segundo de saudade daqueles movimentos perdidos. Seu corpo reage e tempera a carne a qual lhe servia com meu vinho ao lado.
Desta vez chego quase lá: mais algumas investidas e finalizo meu serviço ali, tomando daquela bebida forte para refrescar o suor e me disfarçar do espasme descontrolado o qual ocorreu entre nós dois ali. Puxo de volta o que emprestei, mas derramo um pouco do conteúdo em sua taça para ela poder provar do gosto depois, e coloco meu zíper de volta a fechar como o último a encostar uma porta ao fim do seu expediente. Findada uma breve ajustada de roupa nossa, torno novamente ao balcão, como se aguardasse por um drinque gelado.
A gata sorri e se vira um pouco no banco de volta para o estande de onde despretensiosamente o girou, supostamente, a fim de contemplar a festa, e disfarçar-me o seu rubor. Bebe me vendo nos olhos de canto com suas íris escuras complementando os lábios vinho, primeiro encostando para sentir a textura; depois deglutindo tudo para ninguém perceber a aparência esbranquiçada que tomou conta dos tons negros. Dou uma última massagem na sua bunda por cima das pegadas da minha mão em seu vestido — ainda um pouco empinada e cansada das investidas, porém de postura ainda firme como de sua coluna, como que se aparentasse haver treinado no salão hoje para isto.
Fingindo naturalidade, puxa um pequeno papel com uma caneta de sua bolsa ao lado e, quando garantiu que ninguém estivesse olhando, passou-o a mim enquanto fingia contemplar os demais anfitriões. Seu rubor de pele clara misturada com o suor das mãos e o carmesim dos rubores me revelam seu número de contato, como um cartão de visita oferecido a um hóspede singelo. Puxo o bilhete ao bolso com meu celular e bebo um último gole da taça que viera, indo me lavar e refrescar do calor fulgurante ao toalete, para aproveitar o resto daquela noite com a sinfonia melódica em palco. Não me importava com os demais convidados; fomos os anfitriões daquela festa de gala entre nós, a sós.
Por mensagem — as luzes no momento escuras — recebo logo uma notificação, em seguida à confirmação: “Você me serviu melhor que os ‘garçons’ daqui”. Leio isso com um sotaque francês picante, de lado. “Não deixe frestas entre nós da próxima vez. Quero só a porta do nosso quarto trancada. Hospedo-me no 202, a propósito. Espero-o amanhã às 02:00 da madrugada com a entrada aberta. Só girar a maçaneta. Não toque a campainha para não preocupar os vizinhos... As paredes têm ouvidos, hum. Traga o mesmo perfume a fim de me satisfazer; estarei pronta. Quero conversar a noite inteira com você“.








