Capítulo 1: O segundo filho do clã Ye
Os primeiros raios do sol cortavam as nuvens que abraçavam as montanhas ao redor da Cidade de Qinghe, tingindo de um verde vívido os telhados de jade da imponente Mansão do Clã Ye. Por trás dos altos muros brancos e dos jardins milimetricamente planejados, a propriedade já fervilhava de atividade.
No pátio principal, dezenas de discípulos alinhavam-se sob a supervisão severa dos anciãos, o ar cortado pelo assobio agudo das lâminas em treinamento. Os gritos de concentração ecoavam pelas pedras:
— Mais rápido!
— Concentre sua energia espiritual!
— Não desperdice seu qi!
Enquanto o suor banhava a arena principal, longe dali, em um recanto esquecido nos fundos da ala oeste, o mundo obedecia a um ritmo completamente diferente. Ajoelhado diretamente sobre a terra úmida, Ye Ziqi afastava com extremo cuidado algumas folhas secas ao redor de um canteiro isolado. Vestia apenas uma roupa simples de linho branco, destituído de qualquer bordado ou símbolo que pudesse expor seu sangue nobre. Suas mangas, arregaçadas até os cotovelos, deixavam à mostra braços magros e mãos delicadas, marcadas por cicatrizes discretas e cortes superficiais deixados pelo manuseio de ervas espinhosas. Um suspiro suave escapou de seus lábios quando ele enfim avistou o pequeno milagre despontando entre o verde: uma flor azul-clara, de pétalas translúcidas, que emitia um brilho tênue e melancólico. Era uma Erva da Lua Serena, de uma raridade impressionante.
Com dedos trêmulos de expectativa, Ziqi puxou do cinto um pequeno caderno de couro já gasto pelo uso e rabiscou com caligrafia caprichada: “Primeira floração após cinquenta e dois dias. Aroma mais intenso que o esperado. Possível aumento das propriedades medicinais”. Ao fechar o diário, um sorriso genuíno iluminou seu rosto. Para ele, aquele pedaço de terra esquecido valia infinitamente mais do que qualquer pavilhão ostentoso da mansão. Ali, ninguém o encarava com desdém. As plantas não murmuravam sobre sua falha em atingir um nível alto de cultivo espiritual, nem o tratavam como uma vergonha viva. Naquele silêncio verde, ele encontrava a paz que o resto do clã lhe negava.
No entanto, a calmaria da ala oeste jamais conseguia apagar os ecos do poder que sustentava sua família. Conforme a manhã avançava, o barulho no pátio principal mudou de tom, transformando-se em murmúrios reverentes quando todos abriram caminho. Ye Zichun cruzou os portões da arena de treinamento vestindo trajes de um azul profundo, impecavelmente cortados e bordados com fios de ouro puro que reluziam sob a luz do sol. Alto, de postura altiva e feições marcantes, ele encarnava a própria imagem do herdeiro perfeito. Ao desembainhar sua espada, uma lufada de vento carregada de uma energia espiritual densa varreu o espaço, arrancando aplausos estrondosos dos discípulos ao redor. — Incrível! — Como esperado do Jovem Mestre! — O futuro Patriarca!
Do alto do terraço principal, o Mestre Ye observava a cena com um orgulho paternal que jamais dispensara ao filho mais novo. Ao seu lado, um dos anciãos sorria satisfeito, afirmando que o rapaz elevaria o nome do clã a patamares inéditos, ao que o patriarca assentia com convicção.
Nesse exato momento, ignorado pelas correntes de aplausos, Ye Ziqi cruzava a imensidão do pátio de cabeça baixa, retornando da horta com um cesto de bambu levemente pesado contra o quadril. Para os olhos de quem ali estava, ele simplesmente não existia. Um dos discípulos, distraído pela euforia do treino, esbarrou rudemente em seu ombro, fazendo o cesto inclinar e espalhar algumas raízes preciosas sobre as lajes de pedra.
— Olhe por onde anda, lixo — resmungou o discípulo, sem sequer parar o passo.
Ziqi não retrucou. Apenas engoliu a frustração em silêncio, tateando o chão para recolher cada fragmento de planta com um cuidado cirúrgico. No mundo dele, nada podia ser desperdiçado.
De volta aos domínios da ala oeste, o laboratório de alquimia o aguardava como um velho refúgio. Era um espaço acanhado, empoeirado e quase esquecido, onde prateleiras abarrotadas de tomos antigos dividiam espaço com frascos trincados e feixes de raízes secas penduradas no teto por cordas gastas. No centro, um modesto caldeirão de ferro fundido repousava sobre uma base de pedra. Movendo-se com a familiaridade de quem passara anos conversando apenas com o próprio reflexo nas panelas de infusão, Ziqi depositou as ervas colhidas no interior do recipiente e alimentou a base com uma centelha de sua própria energia espiritual. Uma chama de tom azulado, calma e constante, abraçou o fundo do caldeirão. Fechando os olhos, ele regulou a respiração, guiando o fluxo tênue de seu qi interno para dentro da mistura, estabilizando o calor segundo a cadência de suas batidas cardíacas.
Minutos depois, o aroma pesado da vegetação se transformou em uma fragrância limpa e adocicada. Quando levantou a tampa, o líquido espesso no interior havia migrado de um verde-escuro para um dourado translúcido.
— Ainda falta alguma coisa... — murmurou, tateando a prateleira ao lado até encontrar um frasco de vidro âmbar.
Pingou apenas uma gota daquela essência concentrada sobre o caldo. Houve um estalido luminoso, um clarão dourado que iluminou brevemente as paredes de madeira escura antes que o líquido serenasse por completo. Ziqi abriu um sorriso cansado, mas vitorioso. — Funcionou.
A batida abrupta na porta de madeira frouxa estilhaçou o momento. Um servo de expressão rígida invadiu o laboratório sem pedir licença.
— Segundo Jovem Mestre. — disse o servo.
Ziqi endireitou o corpo no mesmo instante, limpando as mãos no tecido simples das vestes. — Sim? — O Patriarca convocou sua presença no salão principal. Imediatamente.
O sorriso em seu rosto evaporou na mesma velocidade com que acendera a chama do caldeirão. Na hierarquia silenciosa daquela família, ordens vindas diretamente do topo nunca traziam boas novas para alguém como ele.
Quando pisou no vasto salão principal, o ar parecia denso o suficiente para sufocar. O Mestre Ye ocupava o assento mais elevado, com uma expressão pétrea; logo abaixo, Ye Zichun mantinha-se erguido, cercado por meia dúzia de anciãos cujos rostos formavam uma muralha de expectativa. Ziqi avançou com passos medidos, parou a poucos metros da plataforma central e curvou-se em um respeito profundo e automático.
— Este filho cumprimenta o Patriarca.
Nenhuma palavra de reconhecimento desceu do trono familiar. O silêncio pesava como chumbo nas vigas esculpidas do teto. Antes que o desconforto pudesse se transformar em som, as portas duplas de madeira maciça rasgaram-se em um rangido seco. Um mensageiro oficial, vestindo as pesadas túnicas bordadas com o dragão imperial em fios de ouro, entrou altivo no salão, escoltado por dois guardas de armadura prateada que tilintavam a cada passo. No mesmo segundo, todos os ocupantes do salão, com exceção do Patriarca, curvaram-se em reverência ao enviado do trono. O homem retirou de dentro de uma manga de brocado um pergaminho volumoso, selado com a cera vermelha da família real.
— Decreto Imperial! — disse o mensageiro oficial. — Por ordem de Sua Majestade, visando a harmonia duradoura entre o trono e os grandes clãs de cultivadores: o casamento entre Sua Alteza Imperial Lan Xichen e o herdeiro do Clã Ye fica oficialmente decretado, devendo ser consumado dentro do prazo de uma lua.
As palavras mal tinham terminado de ecoar e o salão transformou-se em um mar de murmúrios e comemorações contidas. Os anciãos sorriam uns para os outros com olhos brilhantes de ambição, enxergando naquilo a coroação definitiva do prestígio familiar, enquanto os servos trocavam olhares boquiabertos. O Mestre Ye ostentava um sorriso de triunfo absoluto.
No entanto, isolado no centro daquela atmosfera de glória, uma única pessoa permanecia como uma estátua de gelo. Ye Zichun não esboçara um único sorriso. Pelo contrário, seu rosto contraíra-se em uma máscara de repulsa feroz, e os punhos fechados ao lado do corpo tremiam com tanta força que os nós dos dedos haviam ficado brancos. De pé, na periferia do salão, Ye Ziqi observou a reação do irmão mais velho. Um calafrio inexplicável desceu pela espinha do segundo filho, apertando-lhe o peito de maneira dolorosa. Ele conhecia a arrogância de Zichun; sabia que o irmão jamais aceitaria curvar-se diante de um príncipe cercado por rumores sombrios e maldições de guerra. Olhando para a feição transtornada de Zichun, Ziqi teve a certeza absoluta de que, por trás daquele decreto festivo, havia algo terrivelmente errado.
Horas mais tarde, na ala residencial dos herdeiros, a porta de madeira nobre foi trancada com tanta violência que o batente estalou. Ye Zichun atirou o vaso mais caro de sua coleção contra a parede de pedra, estilhaçando a porcelana em dezenas de cacos coloridos que se espalharam pelo tapete.
— Eu nunca, jamais, vou me casar com aquele monstro do norte!
A passos lentos e calculados, o Mestre Ye cruzou a soleira, observando os cacos no chão antes de fixar os olhos frios no filho.
— Controle-se, Zichun.
— O senhor ouviu o decreto! Prefiro cortar minha própria garganta a pisar naquele palácio gelado!
— Isso não é um pedido que você possa aceitar ou recusar.
— Então use sua influência e mande recusarem o decreto imperial!
O patriarca avançou um passo, a fisionomia endurecida pelo desprezo à fraqueza alheia.
— Quer condenar todo o Clã Ye à decapitação por traição à coroa?
O silêncio despencou sobre o quarto, denso e sufocante. Zichun virou o rosto para a janela, com os olhos injetados de raiva e desespero, sibilando entredentes:
— Então encontre outro para mandar no meu lugar.
Aquelas palavras suspenderam-se no ar por alguns instantes. O Mestre Ye permaneceu imóvel, o cérebro calculista pesando o custo e o benefício de uma traição tão sutil debaixo dos panos. Então, como a sombra de um predador que finalmente encontra a presa perfeita, um nome ecoou na mente do patriarca, Ye Ziqi, um filho cujo cultivo fraco o tornava inútil para o combate, cujos interesses se resumiam a plantas e caldeirões, e cuja ausência jamais seria lamentada por ninguém nos salões do poder.
Nos lábios finos do Mestre Ye, um sorriso frio e estritamente calculista desenhou-se na penumbra do quarto.








