Recomeçando
Quando completei meus 27 anos, decidi recomeçar a vida após um complicado divórcio, mudando de casa com meu querido amigo: Husck.
Husck era um cachorro. Sua pelagem era comprida e branca. Ele era muito grande e forte, mas incrivelmente dócil.
Durante o processo do divórcio, ele era minha companhia. Em momentos de silêncio, ele se deitava comigo. Era quem me fazia pensar que apesar de tudo, eu não estava sozinho.
Em um dia comum, estávamos passeando pelo novo bairro.
Um dia quente.
Ele adorava conhecer novos lugares. Estava com sua bela coleira azul.
Ele amava aquela coleira...
Após longos minutos de caminhada, estávamos cansados. Então, achei melhor encontrar um lugar para parar um pouco.
Encontrei uma praça destinada aos cães. O lugar estava silencioso, parecia abandonado. Havia lixo espalhado pelo chão. Os brinquedos, consumidos pela ferrugem, serviam apenas para plantas crescerem. Não parecia ser um lugar muito frequentado.
Soltei a coleira de Husck e coloquei um pouco de água em uma vasilha de metal que se encontrava por lá.
Acariciei meu grande amigo.
- Beba tudo, vamos ter um pouco mais de caminhada pela frente, meu grandão.
Assim que terminei minha fala, Husck parou de beber sua água. Olhou para trás de mim, como se tivesse acabado de ver algo muito estranho.
Seu olhar era fixo.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Virei rapidamente.
Um homem.
Alto. Magro. Sua postura era encurvada. Usava roupas desgastadas, largas demais para o seu próprio corpo. Ele sorria.
Seu sorriso não era comum. Era exagerado. Dentes podres apareciam entre seus lábios, enquanto seus olhos permaneciam arregalados, quase sem piscar. Eu conseguia sentir minha espinha arrepiar por completo.
Husck se encolheu. Seus pelos se arrepiaram enquanto rosnava para o homem. Seu rabo estava entre as pernas. Demonstrava medo. Medo genuíno.
Ele nunca foi de rosnar para alguém.
De forma ligeira, prendi novamente a coleira em Husck. O homem tomou a iniciativa de deixar o silêncio.
- Eu posso ser seu também?... Eu posso? - sem desfazer o sorriso, ele falava em um tom baixo.
O silêncio voltou entre nós.
Seu dedo longo e magro quase seco apontava para Husck.
Continuava sorrindo, sem desviar os olhos do meu cachorro.








