Capítulo 1
Há dias em que, no instante em que você abre os olhos, sabe que alguma coisa vai acontecer.
Na maioria das vezes, essa sensação se instala como um alarme constante no fundo da mente – discreto, insistente, impossível de ignorar.
Ethan não dormira bem.
Primeiro foi a temperatura. O quarto parecia abafado demais. Abriu as janelas, mas não havia vento algum, então acabou ligando o ar-condicionado, mesmo sabendo que acordaria com dor de cabeça no dia seguinte.
Depois, a coberta passou a irritá-lo, pinicando sua pele de um jeito absurdo. Não fazia sentido. Ela não era nova, não tinha sido lavada com um sabão diferente e, até onde sabia, algodão não pinicava.
Então o problema se tornou o silêncio.
Do vigésimo quarto andar, era impossível ouvir qualquer som vindo das ruas de um bairro residencial como aquele. O tique-taque do relógio misturava-se ao ronco baixo do ar-condicionado em uma melodia que, em outras noites, quase funcionava como uma canção de ninar. Naquela madrugada, porém, cada ruído parecia ampliado dentro de sua cabeça.
Ligar a televisão só faria a luz incomodá-lo, e ele não tinha a menor vontade de ouvir música.
Com um suspiro longo e resignado, Ethan saiu da cama e arrastou o corpo cansado até o banheiro. Abriu o armário sob a pia, pegou a caixa de medicamentos e procurou um comprimido que usara meses antes.
Sabia que provavelmente perderia a hora no dia seguinte.
Mas precisava dormir.
Se houvesse uma câmera naquele quarto, ela registraria o quanto ele se revirou na cama durante a noite.
Apesar de não se lembrar de nenhum sonho – ou pesadelo –, Ethan acordou exausto. Ficou alguns segundos encarando o teto branco do quarto, tentando decidir se levantaria ou simplesmente faltaria ao trabalho. Poderia trabalhar de casa, se quisesse. Ninguém questionaria.
O celular vibrou durante alguns minutos antes de voltar ao silêncio.
Só então ele o pegou para verificar quem estava tentando falar com ele.
107 ligações perdidas.
Da prima. Do marido da prima. Da mãe. Do pai.
E até do homem que ele queria matar.
Ethan sentou-se na beirada da cama e desbloqueou a tela. As primeiras ligações tinham começado pouco depois de ele tomar o remédio. Havia também uma sequência de mensagens pedindo que retornasse com urgência.
Algo acontecera.
E algo muito ruim.
Quando estava prestes a tocar no contato de Mila, o celular vibrou novamente.
Nolan Rivers.
O homem que ele queria matar.
E que, de alguma forma, parecia saber exatamente o que estava acontecendo.
— Que foi? — Ethan atendeu, a voz rouca de sono e irritação. — Por que caralhos vocês estão me ligando?
Do outro lado, houve um breve silêncio antes da resposta.
— Você precisa voltar. Agora.
— Voltar? Do que você está falando?
A respiração de Nolan falhou por um instante.
— Ethan… — o nome dele veio carregado de algo que fez seu estômago afundar. — Rhea sofreu um acidente.
O mundo pareceu parar por um segundo.
— Ela está no hospital. — e então, mais baixo, quase como se as palavras doessem para serem ditas. — Ela pode não sobreviver.
Não respondeu. Não reagiu. Apenas desligou a chamada.
Ficou sentado na beirada da cama, encarando os próprios pés descalços como se eles pertencessem a outra pessoa.
Rhea surgiu em sua mente antes que pudesse impedir.
O jeito como prendia o cabelo enquanto trabalhava. O som da risada baixa quando algo realmente a divertia. As noites silenciosas no apartamento dela. A discussão. A porta batendo. O olhar magoado que ele nunca permitira que ela explicasse.
Três anos condensados em poucos segundos.
Ethan passou as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos, mas não havia nada para organizar. Só um vazio desconfortável crescendo no peito.
Não sabia o que sentia.
Raiva? Culpa? Medo?
Talvez tudo ao mesmo tempo.
Só sabia de uma coisa: não podia deixar que aquilo terminasse daquele jeito.
Em menos de meia hora, jogou algumas roupas dentro de uma mala, pegou os documentos, a carteira e as chaves do carro. Não pensou em avisar ninguém. Não fez planos. Apenas saiu.
O caminho até o aeroporto parecia irreal.
Pela primeira vez em muito tempo, tudo fluía com uma facilidade estranha. Não havia trânsito. Os semáforos pareciam abrir no instante em que ele se aproximava. O aeroporto, normalmente caótico naquele horário, estava surpreendentemente vazio.
Havia um voo para casa saindo em menos de uma hora.
E ainda restavam lugares disponíveis.
Ethan soltou uma risada curta, sem humor, enquanto entregava os documentos no balcão.
Parecia uma piada cruel do universo.
Porque, de algum jeito, tudo relacionado a Rhea sempre encontrava uma forma de escapar de seu controle – até mesmo agora, quando ela talvez estivesse morrendo.
Durante o voo, Ethan manteve os olhos presos à janela.
As paisagens mudavam lentamente sob as nuvens. Em determinado momento, o oceano surgiu abaixo deles, refletindo a luz do sol como uma imensa superfície de vidro. Era bonito demais – calmo demais – para alguém que sentia o peito afundar a cada minuto.
Não avisara ninguém que estava voltando.
Mas também não era como se quisesse surpreender alguém. Seu único objetivo era chegar ao hospital e ver, com os próprios olhos, a mulher que um dia amara.
E como se arrependeu disso no instante em que saiu do elevador e encontrou sua família reunida diante da UTI.
O corredor cheirava a antisséptico e café velho. As luzes brancas pareciam fortes demais para aquela hora, e o silêncio era quebrado apenas pelos sons distantes dos monitores cardíacos vindos dos quartos próximos.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Ethan deu dois passos rápidos em direção à porta da UTI, mas uma mão segurou seu braço.
Mila.
Só então ele percebeu a criança em seus braços.
A menininha devia ter cerca de dois anos. Tinha os cabelos escuros presos em um pequeno rabo de cavalo torto e sorria para ele com a curiosidade despreocupada de quem ainda não entendia o peso daquele lugar.
Por um segundo, Ethan pensou em perguntar quando Mila tivera uma filha. Ou em parabenizá-la pelo atraso absurdo da notícia.
Mas ela falou antes.
— Ela está em coma. — disse, a voz baixa e cansada. — Os médicos acham que existe uma chance de ela conseguir ouvir a gente, então… por favor, Ethan… não seja cruel com ela. Se precisar se despedir, faça isso com gentileza.
As palavras o atingiram como um golpe seco.
— Me despedir?
A garganta ardeu. Os olhos queimavam, mas ele se recusou a deixar que as lágrimas viessem ali, diante de todos.
Mila apertou a menina um pouco mais contra o peito.
— Eu só não quero que a última coisa que ela ouça seja ódio.
Ethan desviou o olhar para a porta da UTI. Do outro lado, separada dele por alguns metros de corredor e uma parede de vidro, estava Rhea.
Talvez morrendo.
Talvez ouvindo tudo.
— Não prometo ser gentil, Mila. — respondeu por fim, a voz rouca. — Sinto muito.
Ethan caminhou até o balcão das enfermeiras e informou o nome da paciente que desejava visitar.
A enfermeira conferiu os dados no computador, entregou-lhe uma máscara descartável e pediu que a acompanhasse.
— Leito 11.
O corredor parecia mais silencioso dali para frente.
Cada passo aumentava a sensação absurda de que ele estava atravessando uma porta para um passado que jamais deveria ter sido deixado para trás.
Quando parou diante do leito, por um instante, não conseguiu entrar.
Rhea estava ligada a tantos aparelhos que a cena parecia irreal.
O monitor cardíaco marcava um ritmo constante. Havia um tubo de oxigênio, fios presos ao peito, sensores espalhados pelos braços. Parte do rosto ainda permanecia inchada, tingida por tons arroxeados que denunciavam a violência do acidente. Cortes já suturados atravessavam a pele pálida, alguns escondidos sob curativos, outros ainda visíveis ao longo dos braços.
Aquela não era a imagem que ele guardara dela.
A última lembrança de Rhea era viva demais – os olhos cheios de lágrimas e raiva, a voz tremendo enquanto tentava explicar, a porta se fechando atrás dele.
Agora havia apenas silêncio.
O choque o atingiu com tanta força que as palavras morreram antes mesmo de se formarem. Ethan permaneceu imóvel junto à entrada, incapaz de dar um único passo em direção à cama.
Durante três anos, alimentara a raiva como se ela fosse suficiente para justificar sua ausência.
Mas, diante dela, toda aquela fúria pareceu pequena. Ridícula.
O estômago se contraiu violentamente.
A raiva deu lugar à culpa.
Depois ao remorso.
E, por baixo de tudo, surgiu um medo tão intenso que quase o fez perder o ar.
Porque, pela primeira vez desde que recebera a ligação, Ethan entendeu uma verdade simples e devastadora: ele ainda a amava.
E não queria perdê-la assim.
Ethan deu as costas para a cama.
Não pensou. Apenas saiu.
Os passos se transformaram em uma corrida desajeitada pelos corredores da UTI, depois pelo corredor principal, até atravessar as portas automáticas do hospital.
O corpo simplesmente não aguentou.
Curvou-se perto de um canteiro e vomitou tudo o que tinha no estômago. Uma vez. Depois outra. E outra, até o ar faltar e a garganta arder como fogo.
Mesmo assim, nenhuma lágrima veio.
Ficou apoiado nos joelhos, respirando com dificuldade, sentindo o gosto amargo subir pela boca enquanto o mundo girava ao seu redor.
— Podemos conversar? Eu pego uma garrafa d’água para você…
Ethan fechou os olhos por um instante.
Reconheceria aquela voz até no inferno.
Ergueu-se devagar, limpando a boca com as costas da mão.
— Mas é claro que você estaria aqui…
Nolan permaneceu a alguns passos de distância, segurando uma garrafa d’água ainda fechada.
— Ethan…
— Não tenho nada para falar com você.
A garganta queimava tanto quanto o estômago, mas a raiva queimava mais.
Nolan soltou um suspiro cansado.
— Pensei que ainda fôssemos amigos.
Ethan riu, um som curto e sem humor.
— Amigos? Depois do que você fez, você realmente acha que somos amigos?
— Dá para me escutar por cinco minutos?
— Vai se foder, Nolan! — a voz saiu mais alta do que ele pretendia. Algumas pessoas próximas olharam na direção deles, mas Ethan não se importou. — Eu não quero ouvir absolutamente nada que venha de você.
Nolan apertou a garrafa com força entre os dedos.
— Você não está entendendo. Não aconteceu nada.
Ethan deu um passo à frente.
— Ah, não?
— Não. Você precisa confiar em mim.
— Confiar? — ele repetiu, incrédulo. — Você realmente teve coragem de usar essa palavra?
— Ethan…
— Some da minha frente.
O silêncio entre os dois pareceu pesado demais para o estacionamento quase vazio.
Então Ethan deu mais um passo, os olhos escuros presos aos de Nolan.
— Porque, se continuar falando comigo agora, eu não vou ter problema nenhum em perder meu réu primário.








