O SURRISO
O despertador tocou às 6h30.
Yuna abriu os olhos lentamente e ficou alguns segundos a olhar para o teto.
O quarto estava completamente silencioso.
Não havia ninguém a dizer “bom dia”.
Ninguém a perguntar se ela tinha dormido bem.
Ninguém à espera dela na cozinha.
Só o som irritante do despertador.
— Já acordei... — murmurou.
Desligou-o e levantou-se.
O apartamento era pequeno e simples. Yuna vivia sozinha e já estava habituada ao silêncio. Na verdade, depois de algum tempo, o silêncio tinha deixado de parecer estranho.
Vestiu o uniforme da escola, prendeu o cabelo e olhou-se ao espelho.
Por alguns segundos, ficou séria.
O rosto cansado.
Os olhos sem brilho.
Então respirou fundo e sorriu.
Um sorriso enorme.
— Bom dia, Yuna! — disse para o próprio reflexo.
Ela inclinou a cabeça, tentando parecer convincente.
— Hoje vai ser um dia maravilhoso!
O sorriso desapareceu assim que saiu do quarto.
Na cozinha, tomou o pequeno-almoço sozinha.
Depois pegou na mochila, calçou os sapatos e saiu.
---
A Academia Hanseong era uma das escolas mais prestigiadas da cidade.
O enorme portão estava cheio de estudantes.
Grupos de amigos conversavam, riam e tiravam fotografias juntos.
Yuna entrou pelo portão com a mochila às costas.
Algumas pessoas olharam para ela.
Ela imediatamente baixou o olhar.
— Olha, é a Yuna.
— Ela está sozinha outra vez.
Yuna fingiu que não ouviu.
Continuou a andar.
No corredor, passou por um grupo de raparigas.
Uma delas esbarrou no ombro de Yuna de propósito.
Os livros que ela carregava caíram no chão.
— Ups.
As outras começaram a rir.
Yuna ficou parada.
Olhou para os livros espalhados.
Depois levantou os olhos e sorriu.
— Sem problema.
Ajoelhou-se e começou a apanhar tudo.
— Foi sem querer, não foi?
Ninguém respondeu.
Yuna terminou de apanhar os livros e levantou-se.
O sorriso continuava no rosto.
Mas os olhos já estavam diferentes.
Ela entrou na sala e sentou-se no lugar mais afastado.
Sozinha.
Como sempre.
Colocou a mochila ao lado da cadeira e abriu o caderno.
A professora entrou alguns minutos depois.
— Bom dia, turma.
— Bom dia! — responderam os alunos.
Yuna também respondeu.
Baixinho.
— Bom dia...
A professora começou a aula.
Yuna olhou pela janela.
Por alguns segundos, esqueceu-se de onde estava.
Pensou nas amigas que veria depois das aulas.
Com elas, podia rir.
Podia brincar.
Podia ser ela mesma.
Mas ali...
Ali era diferente.
Yuna voltou a olhar para o caderno.
E escreveu uma única frase no canto da página:
“Só preciso aguentar até ao fim do dia.”
A professora continuava a explicar a matéria quando, de
repente—
TRIM!
A porta da sala abriu-se.
Uma rapariga apareceu à entrada, completamente ofegante, com a mochila pendurada num só ombro.
— Professora... desculpe o atraso!
Toda a turma virou-se para olhar.
A professora suspirou.
— Han Seo-ah. Esta é a terceira vez esta semana.
Seo-ah juntou as mãos.
— Eu sei, professora. Mas desta vez eu tenho uma desculpa!
— E qual é?
Seo-ah ficou em silêncio por alguns segundos.
— O meu despertador... decidiu trair-me.
Alguns alunos riram.
A professora fechou os olhos, tentando manter a paciência.
— Senta-te.
— Sim, senhora!
Seo-ah entrou rapidamente na sala.
Antes de chegar ao lugar, passou pela carteira de Yuna.
Parou.
Olhou para ela.
E abriu um enorme sorriso.
— Yuna!
Yuna levantou a cabeça.
Por um instante, o seu rosto continuou sério.
Mas assim que reconheceu Seo-ah, o seu sorriso mudou.
Desta vez era verdadeiro.
— Seo-ah! Tu estás atrasada outra vez!
— Eu sei!
Seo-ah sentou-se ao lado dela.
— Mas olha pelo lado positivo.
— Qual?
— Pelo menos cheguei antes do intervalo.
Yuna começou a rir.
— Isso não é um lado positivo!
— Claro que é!
— Não é!
— É sim!
As duas tentaram conter o riso.
A professora virou-se para elas.
— Meninas.
As duas ficaram imediatamente sérias.
— Desculpe...
A professora voltou ao quadro.
Seo-ah aproximou-se de Yuna e sussurrou:
— Estás bem?
Yuna olhou para ela.
Durante alguns segundos, não respondeu.
Depois sorriu.
— Estou.
Seo-ah continuou a observá-la.
Ela conhecia Yuna há anos.
Sabia que aquele sorriso significava alguma coisa.
— Tens a certeza?
Yuna deu-lhe um pequeno empurrão no braço.
— Para de te preocupar comigo.
— Não.
— Seo-ah...
— Yuna...
Yuna tentou não rir.
— És irritante.
— E tu adoras-me.
— Infelizmente.
Seo-ah sorriu.
— Também te adoro.
Yuna voltou a olhar para o quadro.
Mas, pela primeira vez naquela manhã, sentiu que talvez conseguisse suportar aquele dia.
Porque, pelo menos, ela não estava completamente sozinha.
---
Quando o sinal do intervalo tocou, Yuna levantou-se imediatamente.
— Finalmente!
Seo-ah pegou na mochila.
— Cantina?
— Cantina.
— Hoje pagas tu.
Yuna parou.
— O quê?!
— Eu cheguei atrasada. Preciso de compensação emocional.
— Isso nem sequer faz sentido!
— Para mim faz.
Yuna começou a rir enquanto as duas saíam da sala.
E, naquele corredor cheio de pessoas, Yuna parecia outra pessoa.
Ela sorria.
Ria.
Fazia piadas.
Por alguns minutos, ninguém conseguia perceber que aquela mesma rapariga passara a manhã inteira a tentar desaparecer.
Talvez porque, quando estava com Seo-ah...
Yuna não precisava fingir tanto.
O jardim da Academia Hanseong estava cheio de estudantes.
Alguns estavam sentados nos bancos, outros conversavam debaixo das árvores e vários grupos ocupavam as mesas espalhadas pelo jardim.
Yuna e Seo-ah caminhavam lado a lado.
— Finalmente, ar fresco — disse Seo-ah, esticando os braços.
Yuna riu.
— Tu dizes isso como se tivéssemos acabado de sair de uma prisão.
— Para mim a sala de aula é uma prisão.
— Dramática.
— Realista.
As duas sentaram-se num banco.
Seo-ah tirou o telemóvel do bolso.
— Queres alguma coisa da máquina?
Yuna pensou por alguns segundos.
— Um suco de banana.
— Banana?
— Sim.
— Que escolha estranha.
— Cala-te.
Yuna levantou-se.
— Já volto.
Ela atravessou o jardim e entrou no pequeno corredor lateral onde ficavam as máquinas de bebidas.
Quando chegou lá, parou.
Havia alguém sentado em cima da máquina.
Um rapaz.
Cabelo preto, ligeiramente despenteado, com o uniforme todo desarrumado, e um rosto tão bonito que parecia ter saído de uma revista.
Ele estava completamente tranquilo, com os braços apoiados atrás do corpo.
Yuna ficou a olhar.
Não porque estivesse apaixonada.
Só estava a tentar entender por que raio alguém estava sentado em cima de uma máquina de bebidas.
Ela aproximou-se.
— Com licença.
O rapaz abriu os olhos lentamente.
Olhou diretamente para ela.
Yuna ficou em silêncio por um segundo.
Aquele olhar era intenso.
Ele tinha aquele tipo de expressão confiante que fazia as pessoas imediatamente reconhecerem quem ele era.
Yuna apontou para a máquina.
— Podes sair daí?
O rapaz não respondeu.
Apenas continuou a olhar para ela com aqueles olhos verdes hipnotizantes.
Yuna franziu a testa.
— Estás à espera que eu desapareça?
Ele finalmente sorriu.
Um sorriso pequeno e convencido.
Yuna suspirou.
— Não vais sair mesmo?
O rapaz desceu da máquina.
— Pronto.
Yuna passou por ele sem dizer nada.
Colocou algumas moedas na máquina e começou a procurar o botão do sumo de banana.
Foi então que ouviu:
— Queres uma fotografia?
Yuna parou.
Virou lentamente a cabeça.
— O quê?
O rapaz apontou para si mesmo.
— Uma fotografia comigo.
Yuna ficou a encará-lo.
— Porquê?
Ele piscou os olhos.
— Como assim, porquê?
— Porque é que eu haveria de querer uma fotografia contigo?
O sorriso dele desapareceu por um instante.
— Tu não sabes quem eu sou?
Yuna voltou-se para a máquina.
— Não.
O rapaz parecia genuinamente chocado.
— Não sabes?
— Não.
— Mesmo?
— Sim.
Ele aproximou-se um pouco.
— E não quer saber quem eu sou?
— Não.
Yuna finalmente conseguiu tirar o sumo da máquina.
Pegou na garrafa.
— Parabéns.
E virou-se para ir embora.
O rapaz ficou parado.
Aquilo nunca tinha acontecido.
Normalmente, quando ele dizia quem era, as raparigas ficavam imediatamente animadas.
Mas aquela garota...
Nem sequer parecia interessada.
Ele reparou então numa coisa.
Uma mecha prateada destacava-se no meio do cabelo preto de Yuna.
— Espera.
Yuna parou.
— O teu cabelo...
Ele aproximou-se e levantou a mão, como se fosse tocar na mecha.
Mas Yuna afastou-se imediatamente.
O rapaz congelou.
Ela olhou para a mão dele.
Depois para ele.
— Não toques.
O rapaz baixou lentamente a mão.
Ninguém nunca se tinha afastado dele daquela maneira.
— Eu só...
Yuna não esperou pela explicação.
— Tenho de ir.
Começou a andar.
— Espera!
Ela continuou.
— Como você se chama?
Yuna não respondeu.
— Ei!
Ela continuou a caminhar.
— Pelo menos diz-me o teu nome!
(Ignorado)
Yuna desapareceu pelo corredor.
O rapaz ficou sozinho diante da máquina de bebidas.
Completamente confuso.
Olhou para o corredor por onde ela tinha desaparecido.
— Quem é ela...?
Yuna voltou para o jardim.
Seo-ah levantou os olhos assim que a viu.
— Finalmente! Demoraste.
Yuna entregou-lhe o olhar mais indiferente possível.
— Tive um pequeno problema.
— Que problema?
Yuna sentou-se.
— Um idiota estava sentado em cima da máquina de sumos.
Seo-ah começou a rir.
— O quê?
— E ainda achou que eu queria uma fotografia com ele.
Seo-ah parou de rir.
— Espera.
Ela olhou para Yuna.
— Cabelo preto?
— Sim.
— Alto?
— Sim.
— Bonito?
Yuna deu de ombros.
— Acho que sim.
Seo-ah arregalou os olhos.
— YUNA!
— O quê?
— TU ACABASTE DE RECUSAR O KANG JI-HO!
Yuna franziu a testa.
— Quem?
Seo-ah levou as mãos à cabeça.
— O rapaz mais popular da escola!
Yuna abriu o sumo de banana.
Bebeu um gole.
— Ah.
Seo-ah ficou boquiaberta.
—Como assim “Ah”?! você ficou doida ele é o cara mais bonito e gostoso da escola ele é praticamente uma celebridade!!
Yuna deu outro gole.
— Continua a ser um idiota.
—(Seo-ah começou a rir) Pelo menos falava quê tem uma amiga gata.
—Você devia ter falado sobre mim sua traidora!!
Yuna faz uma careta
— Desculpa não ter falado da minha amiga belíssima para ele
— Perdoada!
E, do outro lado do jardim, sem que Yuna percebesse...
Kang Ji-ho ainda estava a olhar para ela.
Pela primeira vez na vida, ele tinha encontrado alguém que não parecia minimamente interessada nele.
E, por alguma razão...
Isso tinha despertado a curiosidade dele.








