Chapter 1 : Antes da Luz
Às vezes, a pior parte de estar sozinha não era não ter ninguém.
Era ter pessoas ao redor e, ainda assim, sentir que ninguém seria capaz de enxergar você.
Aurora Valença tinha aprendido isso cedo demais.
Aos vinte e um anos, ela já sabia sorrir quando queria chorar, dizer “está tudo bem” quando tudo dentro dela estava desmoronando e permanecer em silêncio quando cada parte do seu corpo gritava por socorro.
Ela também havia aprendido a não esperar nada de ninguém.
Era mais seguro assim.
Naquela noite, Aurora estava sentada no parapeito da janela de seu quarto, com os joelhos encostados ao peito e uma manta envolvendo os ombros.
A cidade brilhava lá embaixo.
Milhares de pequenas luzes.
Milhares de pessoas vivendo histórias que ela jamais conheceria.
Aurora observava tudo através do vidro enquanto uma mecha de seus longos cabelos loiros escapava da franja perfeitamente alinhada.
Seus olhos verdes refletiam a lua.
Bonitos.
Era isso que todos diziam.
“Você é linda.”
“Seu cabelo é perfeito.”
“Esses olhos parecem de filme.”
Mas Aurora nunca acreditou completamente.
Porque beleza nunca havia sido suficiente para impedir que alguém a machucasse.
Desde criança, ela tinha sido alvo de comentários, risadas, apelidos e crueldades que pareciam pequenas para quem dizia, mas que permaneciam enormes dentro dela.
E em casa...
Em casa, ela também havia aprendido a ficar quieta.
Então ela se fechou.
Primeiro um pouco.
Depois mais.
Até construir dentro de si uma espécie de muralha.
Ninguém entrava.
Ninguém sabia.
Ninguém perguntava.
E, quando perguntavam, Aurora sorria.
Naquela noite, porém, nem o sorriso apareceu.
Ela segurava o celular entre os dedos, olhando para a tela apagada.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma notificação.
Nada.
— Ridículo... — murmurou.
Ela mesma não sabia por que estava esperando alguma coisa.
Talvez uma distração.
Talvez alguém.
Talvez qualquer coisa que fizesse aquela noite parecer menos vazia.
Aurora desbloqueou o celular e abriu um aplicativo qualquer.
Deslizou a tela sem realmente prestar atenção.
Uma postagem.
Outra.
Outra.
Casais felizes.
Viagens.
Sorrisos.
Declarações.
Pessoas dizendo que tinham encontrado o amor de suas vidas.
Ela soltou uma risada baixa.
— Claro.
Bloqueou o celular.
Colocou-o ao lado.
E fechou os olhos.
Foi então que ouviu.
Um som distante.
Um uivo.
Aurora abriu os olhos imediatamente.
Seu coração acelerou.
Ela olhou para a janela.
Silêncio.
Nenhum animal.
Nenhuma floresta próxima.
Nada que pudesse explicar aquilo.
— Eu estou ficando louca.
Levantou-se.
Foi até o espelho.
Por alguns segundos, ficou encarando o próprio reflexo.
Cabelos loiros.
Franja.
Olhos verdes.
Pele pálida.
Uma garota bonita.
Uma garota cansada.
Aurora tocou o próprio reflexo.
E, por um instante, seus olhos pareceram brilhar.
Ela recuou.
Piscou.
Tudo voltou ao normal.
— Não.
Era uma palavra que ela dizia muitas vezes.
Não.
Não sentir.
Não confiar.
Não esperar.
Não amar.
Ela voltou para a cama.
Pegou o celular novamente.
E foi nesse exato momento que uma notificação apareceu.
Nova mensagem.
Aurora franziu a testa.
Não reconheceu o nome.
Davi.
Ela quase ignorou.
Quase.
Mas alguma coisa dentro dela — aquela coisa estranha que parecia despertar sempre que a lua surgia — fez com que seu dedo tocasse na notificação.
A mensagem era simples.
«Davi: Oi.»
Aurora ficou olhando.
Só isso?
“Oi”?
Ela quase riu.
Digitou:
«Aurora: Oi.»
A resposta veio poucos segundos depois.
«Davi: Você parece triste.»
Ela parou.
O sorriso desapareceu.
Como ele poderia saber?
Aurora olhou para a própria foto de perfil.
Não havia nada ali.
Nenhuma lágrima.
Nenhum sinal.
Nada.
«Aurora: Por quê?»
Demorou alguns segundos.
Então:
«Davi: Não sei.
Davi: Só parece.»
Aurora respirou fundo.
Talvez fosse apenas impressão.
Talvez ele dissesse aquilo para qualquer garota.
Ainda assim...
Alguma coisa naquela mensagem a incomodou.
Ou talvez tivesse sido justamente o contrário.
Talvez tivesse tocado em um lugar que ninguém tocava havia muito tempo.
«Aurora: Você nem me conhece.»
A resposta demorou um pouco mais dessa vez.
«Davi: Verdade.»
Depois veio outra.
«Davi: Mas posso conhecer.»
Aurora ficou imóvel.
Do outro lado da conversa, Davi provavelmente não fazia ideia de que acabara de dizer algo que ninguém dizia a ela.
Não “você é linda”.
Não “você precisa melhorar”.
Não “esquece isso”.
Apenas:
posso conhecer.
Ela encarou a tela durante alguns segundos.
Então digitou:
«Aurora: E se eu for complicada?»
A resposta veio quase imediatamente.
«Davi: Todo mundo é.»
Aurora sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
Mas verdadeiro.
Pela primeira vez naquela noite.
Do lado de fora, a lua estava mais brilhante.
E, em algum lugar dentro dela, algo também começava a despertar.
Algo antigo.
Algo selvagem.
Algo que Aurora não sabia explicar.
Ela não sabia que aquela conversa duraria até a madrugada.
Não sabia que aquele garoto de cabelos cacheados e olhos cheios de luz se tornaria uma parte impossível de ignorar de sua vida.
Não sabia que, em poucos dias, ele faria uma pergunta que mudaria tudo.
E muito menos sabia que, quando finalmente se encontrassem, Davi descobriria o segredo que Aurora havia escondido até de si mesma.
Naquela noite, ela só sabia de uma coisa:
havia alguém do outro lado da tela.
E, pela primeira vez em muito tempo...
Aurora não queria fugir.
Ela queria ficar.
Queria conversar.
Queria descobrir quem era aquele garoto.
E talvez, só talvez...
Queria descobrir quem ela ainda poderia ser.
Naquela noite, sem perceber, Aurora abriu a primeira fresta na muralha que levou vinte e um anos para construir.
E do outro lado daquela fresta...
havia luz.
Mas também havia uma lua.
E uma loba que finalmente estava acordando.








