Chapter 1 - Uma mudança rota
Catarina Valença percebeu que alguma coisa estava errada quando a irmã ficou em silêncio por mais de dois minutos.
Não era um silêncio tranquilo.
Isadora nunca tinha sido especialmente talentosa em silêncios tranquilos.
Aos vinte e dois anos, ela possuía a habilidade extraordinária de conversar enquanto comia, digitava, procurava alguma coisa dentro da bolsa e reclamava de outra completamente diferente. Por isso, quando o banco traseiro do carro mergulhou numa quietude suspeita, Catarina desviou os olhos do tablet.
Isadora olhava para o celular.
Pálida.
— O que você fez?
— Por que sempre presume que eu fiz alguma coisa?
— Experiência.
— Isso é ofensivo.
— Isadora.
A irmã ergueu lentamente os olhos.
— Eu esqueci as flores.
Catarina esperou.
— E?
— As flores da mamãe.
— Ela não pediu flores.
— Não precisava pedir.
— Então o problema continua inexistente.
Isadora levou uma mão ao peito.
— Você é emocionalmente assustadora.
Catarina voltou os olhos para o documento aberto na tela.
— Mamãe recebe flores o tempo inteiro.
— De outras pessoas. Eu disse que levaria as favoritas dela para o jantar de hoje.
— Então deveria ter comprado.
— Obrigada. Essa informação mudou minha vida.
Catarina deslizou o dedo pela tela.
O Grupo Valença estava a quarenta e oito horas de concluir uma negociação que levara quase seis meses. Ela havia passado a manhã em reuniões, almoçado enquanto lia contratos e ainda precisava chegar à residência dos pais, trocar de roupa e participar de um jantar beneficente que, segundo sua mãe, seria pequeno.
Na linguagem de Beatriz Valença, pequeno significava menos de oitenta pessoas.
Não havia flores na agenda.
— Peça para alguém comprar — sugeriu.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu quero escolher.
— Você acabou de lembrar que precisava delas.
— Isso não significa que eu não me importe.
Catarina respirou fundo.
Isadora sorriu.
Era o sorriso.
O mesmo que usava desde criança imediatamente antes de pedir algo que já sabia que a irmã não gostaria.
— Não.
— Eu nem falei.
— Não precisa.
— Tem uma floricultura aqui perto.
— Não.
— Catarina.
— Temos horário.
— Você tem horário. Eu tenho uma mãe que vai passar os próximos seis meses lembrando que prometi magnólias e apareci de mãos vazias.
Catarina finalmente olhou para ela.
— Mamãe não faria isso.
Isadora inclinou a cabeça.
— Você conhece outra Beatriz Valença?
Catarina quase sorriu.
Quase.
Voltou-se para a frente.
— Raul.
O motorista encontrou seus olhos pelo retrovisor.
— Sim, senhora?
— Existe alguma floricultura no caminho?
Isadora comemorou antes mesmo da resposta.
— Sabia que você me amava.
— Ainda não chegamos a essa conclusão.
Raul consultou rapidamente o painel.
— Há uma em Rosewood. Dois minutos daqui.
— Dois minutos — repetiu Catarina, olhando para a irmã. — Você entra, compra e sai.
— Claro.
— Isadora.
— Juro.
Catarina deveria ter aprendido, ao longo de vinte e dois anos, que juramentos feitos por sua irmã tinham valor jurídico questionável.
O carro deixou a avenida principal pouco depois.
A mudança no cenário aconteceu gradualmente.
Os prédios comerciais deram lugar a construções mais baixas, árvores antigas e fachadas que pareciam ter sobrevivido a várias tentativas da cidade de se modernizar. Rosewood era um dos bairros mais antigos de Bellmont, conhecido pelas pequenas lojas, cafés familiares e casas estreitas que custavam muito mais do que aparentavam.
Catarina raramente passava por ali.
Não havia nenhuma razão específica.
Sua vida simplesmente acontecia em outros lugares.
— Ali! — Isadora apontou.
Raul reduziu a velocidade diante de uma esquina.
A fachada era verde-escura, com molduras claras ao redor das grandes vitrines. Vasos ocupavam parte da calçada, misturando folhagens e flores em diferentes alturas. Sobre a porta, letras delicadas formavam o nome:
Casa Magnólia.
— Bonita — Isadora comentou.
Catarina verificou o relógio.
— Você tem sete minutos.
— Você cronometra tudo?
— Agora, seis minutos e cinquenta e quatro segundos.
— Precisa de terapia.
Isadora abriu a porta.
Catarina permaneceu sentada.
Por exatos quatro segundos.
Então viu a irmã atravessar a rua sem olhar adequadamente para os dois lados e fechou os olhos.
— Senhora? — Raul perguntou, segurando um sorriso.
— Não diga nada.
Ela saiu do carro.
O primeiro impacto foi o cheiro.
Não um perfume artificial excessivamente doce, mas uma mistura fresca de folhas, madeira úmida e flores que Catarina não saberia identificar nem sob ameaça.
Um pequeno sino tocou acima da porta.
O interior da Casa Magnólia era maior do que a fachada sugeria.
Havia um balcão comprido de madeira clara, prateleiras com vasos, cartões e objetos artesanais, enquanto grandes recipientes com flores ocupavam uma parede inteira. Ao fundo, uma abertura levava para um espaço que parecia destinado à montagem dos arranjos.
Isadora já estava diante do balcão.
— Boa tarde!
A voz veio de algum ponto mais ao fundo.
— Boa tarde! Já vou.
Catarina parou perto da porta.
Pegou novamente o celular.
Três e-mails.
Duas mensagens da assistente.
Uma ligação perdida do diretor financeiro.
Era possível resolver muita coisa em seis minutos.
— Catarina.
Ela não levantou a cabeça.
— Hum?
— Guarde isso.
— Estou trabalhando.
— Estamos comprando flores.
— Exatamente.
— Você consegue ser inadequada em ambientes surpreendentemente diversos.
Antes que Catarina respondesse, ouviu passos.
— Desculpem a demora.
Aquela voz fez com que ela erguesse os olhos.
A mulher que surgiu por trás do balcão carregava algumas hastes entre as mãos.
Era jovem.
Mais jovem do que Catarina esperava.
Usava uma calça clara, camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos e um avental verde-oliva marcado por pequenas manchas de terra e água. Os cabelos castanhos estavam presos de maneira descuidada, embora algumas mechas tivessem escapado ao redor do rosto.
Ela sorria.
Não um sorriso comercial.
Um sorriso genuinamente fácil.
— Tive uma pequena discussão com um balde de hortênsias — explicou. — Elas venceram.
Isadora riu imediatamente.
Catarina guardou o celular.
Não porque a mulher tivesse alguma relação com isso.
Naturalmente.
— Você trabalha com magnólias? — Isadora perguntou.
— Trabalhamos, sim. Para quando você precisa?
— Agora.
A mulher levantou as sobrancelhas.
— Gosto de desafios.
— É para nossa mãe.
— Ocasião especial?
Isadora abriu a boca.
Fechou.
— Eu prometi levar flores.
— E esqueceu.
Catarina desviou o rosto para esconder o início de um sorriso.
Isadora apontou para ela.
— Não ajude.
— Eu não disse nada.
A florista riu.
— Está tudo bem. Acontece com frequência.
— Com você também?
— Não. Com os clientes.
Isadora estreitou os olhos.
— Isso foi cruel de uma maneira muito gentil.
— É um talento.
Catarina observou quando a mulher colocou as hastes sobre a bancada.
Seus movimentos eram seguros, realizados com a familiaridade de quem conhecia cada centímetro daquele espaço.
— Sua mãe gosta de magnólias brancas? — perguntou.
— Sim. São as favoritas dela.
— Quer apenas magnólias ou posso misturar?
— O que você recomendar.
— Isso é muita responsabilidade para entregar a uma desconhecida.
— Eu confio em você.
— Nós nos conhecemos há quarenta segundos.
— Sou uma excelente avaliadora de caráter.
Catarina soltou uma pequena expiração.
A mulher virou o rosto na direção dela.
— Discorda?
Por um instante, Catarina teve a estranha impressão de estar sendo observada, embora os olhos castanhos da florista não estivessem exatamente fixos nos seus.
— Minha irmã já comprou três bolsas porque vendedores pareciam pessoas confiáveis.
— Duas — corrigiu Isadora.
— Uma delas era falsificada.
— E muito bonita.
O sorriso da florista aumentou.
— Talvez eu deva solicitar pagamento antecipado.
— Gostei de você — Isadora declarou.
— Isso está acontecendo rápido demais.
Uma segunda mulher apareceu carregando uma caixa.
— Lívia, as rosas de—
Ela parou quando viu as clientes.
O olhar passou primeiro por Catarina.
Depois por Isadora.
E voltou para Isadora.
Por tempo suficiente para ser perceptível.
Interessante.
A recém-chegada tinha cabelos negros presos num rabo de cavalo alto, algumas tatuagens pequenas no antebraço e uma expressão que parecia viver permanentemente a meio passo de uma observação inconveniente.
— Desculpem — disse. — Não sabia que tínhamos clientes.
— Marina, essa é...
Lívia parou.
— Eu não perguntei os nomes de vocês.
— Isadora.
A resposta saiu rápida demais.
Marina ergueu uma sobrancelha.
Isadora pareceu perceber.
— Isadora Valença.
— Marina Duarte.
Catarina assistiu à troca.
Ah.
Aquilo explicava algumas coisas.
— E essa é minha irmã — Isadora acrescentou. — Catarina.
Marina olhou para ela.
Houve um pequeno segundo de reconhecimento.
Era algo a que Catarina estava habituada.
O sobrenome Valença circulava por Bellmont com facilidade suficiente para que ela raramente precisasse se apresentar duas vezes.
Lívia, porém, apenas sorriu.
— Prazer, Catarina.
Sem mudança na voz.
Sem surpresa.
Sem perguntas sobre o Grupo Valença.
Nada.
Catarina não sabia por que percebeu.
Mas percebeu.
— Igualmente.
— Marina, temos magnólias disponíveis?
— As que chegaram pela manhã.
— Ótimo.
Lívia estendeu a mão sobre a bancada até encontrar um pequeno marcador preso à lateral de um recipiente. Os dedos percorreram rapidamente os relevos sobre a etiqueta.
Catarina franziu levemente a testa.
Só então percebeu outros detalhes.
Pequenas marcações elevadas junto às gavetas.
Um celular apoiado num suporte com a tela escura enquanto uma voz eletrônica muito baixa escapava do fone sobre o balcão.
E, encostada discretamente ao lado de uma estante, uma bengala branca dobrada.
A compreensão veio sem anúncio.
Lívia era cega.
Catarina olhou novamente para ela.
Talvez por tempo demais.
— Catarina.
A voz tranquila a surpreendeu.
— Sim?
Lívia sorria na direção dela.
— Se sua irmã me deu liberdade completa, vou precisar de alguém para impedi-la de acrescentar metade da loja ao arranjo.
— Posso fazer isso.
— Traidora — murmurou Isadora.
— Ela perguntou.
— E você parece gostar muito de obedecer quando é conveniente.
Lívia riu novamente.
Catarina gostou do som.
O pensamento apareceu de maneira tão deslocada que ela imediatamente o ignorou.
— Quantos anos sua mãe está fazendo? — Lívia perguntou.
— Não é aniversário — explicou Isadora. — É um jantar da fundação dela.
— Ah.
— Mas eu prometi levar flores porque ela teve uma semana difícil.
O rosto de Lívia suavizou.
— Então podemos fazer algo mais pessoal.
Ela tocou cuidadosamente algumas hastes que Marina havia colocado diante dela.
Os dedos percorreram pétalas e folhas com delicadeza.
— Magnólias como base. Talvez lisianthus e algumas rosas de jardim. Nada muito formal.
— Ela odeia arranjos que parecem decoração de hotel — Catarina comentou.
Lívia voltou o rosto na direção da voz.
— Informação importante.
— Também não gosta de cores muito fortes.
— Catarina — Isadora disse. — Pensei que você não ligasse para flores.
— Não ligo.
— Mas sabe exatamente quais mamãe não gosta.
— Conhecer nossa mãe não exige conhecimento botânico.
Lívia sorriu.
— Felizmente.
Marina colocou outro recipiente próximo ao balcão.
— Essas?
Lívia tocou uma das flores.
— Essas são as rosas champanhe?
— Sim.
— Quantas abriram bem?
— Umas quinze.
— Perfeito.
Catarina observou as duas trabalharem.
Não havia hesitação nos movimentos de Lívia.
Marina não lhe entregava cada objeto nem descrevia tudo que fazia. Apenas colocava determinadas coisas nos lugares habituais e respondia quando perguntada.
Aquilo era uma rotina antiga.
Natural.
— Vocês fazem apenas arranjos da loja? — Isadora perguntou.
Marina respondeu:
— Eventos também.
— Casamentos?
— Casamentos, aniversários, jantares, eventos corporativos, pedidos de casamento, festas de divórcio...
Isadora piscou.
— Festas de divórcio?
— Mais comuns do que você imagina.
— Quero uma.
— Você precisa casar primeiro — Catarina comentou.
— Detalhes.
Marina olhou para Isadora.
— Quando acontecer, me procure.
— Para o casamento ou para o divórcio?
— Posso fazer os dois. Desconto para cliente recorrente.
Isadora ficou sorrindo.
Catarina conhecia aquele sorriso.
Pobre Marina.
— Tia Lívia!
Uma voz infantil atravessou a loja.
Passos pequenos vieram correndo do fundo.
— Clara, devagar — Lívia chamou.
— Eu estou devagar!
A menina surgiu segundos depois numa velocidade que contradizia completamente a afirmação.
Tinha cabelos castanhos presos em duas tranças desiguais, uma mochila lilás nas costas e um papel amassado nas mãos.
Parou ao notar as desconhecidas.
Olhou para Isadora.
Depois para Catarina.
Demorou um pouco mais em Catarina.
— Você é muito alta.
O silêncio durou um segundo.
Lívia fechou os olhos.
— Clara.
— O quê?
Isadora mordeu o lábio para não rir.
Catarina olhou para a criança.
— Tenho um metro e setenta e oito.
Clara abriu a boca.
— Isso é muito?
— Para algumas pessoas.
A menina considerou a informação.
— Eu tenho cinco anos.
— Isso não é uma medida de altura.
— Eu sei.
— Então por que me contou?
Clara deu de ombros.
— Porque você falou uma coisa sobre você.
Isadora perdeu a batalha e começou a rir.
Até Marina desviou o rosto.
Lívia pressionou os lábios, claramente tentando se controlar.
Catarina olhou novamente para Clara.
— Argumento justo.
A menina sorriu imediatamente.
Como se Catarina tivesse acabado de passar em algum teste invisível.
— Essa é minha sobrinha, Clara — Lívia explicou. — Clara, essas são clientes.
— Eu sei.
— E o que dizemos?
Clara virou-se primeiro para Isadora.
— Oi.
Depois para Catarina.
— Oi, mulher alta.
Isadora fez um barulho estranho.
— Clara — Lívia repetiu, agora rindo.
— Ela é.
— Catarina — corrigiu a CEO.
— Oi, Catarina.
— Melhor.
A menina se aproximou da tia e colocou o papel em sua mão.
Lívia passou os dedos sobre a folha.
— O que é?
— Um desenho.
— Eu imaginei essa parte.
— Sou eu, você e tia Marina.
— Bonito?
— Muito.
— E por que você está me entregando se eu não consigo ver?
Clara suspirou com a paciência de quem precisava explicar o óbvio a um adulto.
— Porque eu posso contar.
O sorriso de Lívia mudou.
Ficou menor.
Mais delicado.
— Então conte.
Clara apontou para o papel, embora aquilo não fosse necessário.
— Aqui sou eu. Estou de vestido amarelo. Aqui é você.
— Estou bonita?
— Sim.
— Excelente.
— Mas seu cabelo ficou meio estranho.
Marina riu.
— Pelo menos ela é sincera.
— E aqui é tia Marina. Ela ficou feia porque me mandou guardar os lápis.
— Perfeitamente justo — Marina respondeu.
Catarina sentiu alguma coisa se acomodar silenciosamente dentro do peito.
Não soube nomear.
Talvez fosse apenas a estranheza daquele ambiente.
Na família Valença, crianças normalmente eram mantidas longe de reuniões, eventos e qualquer espaço que não tivesse sido previamente preparado para elas.
Clara parecia fazer parte da floricultura como os vasos e o cheiro de folhas frescas.
— Vá deixar sua mochila lá atrás, amor — Lívia pediu. — Já vou ver o desenho com você.
— Você não vai ver.
— Vou do meu jeito.
Clara aceitou imediatamente.
Antes de sair, olhou outra vez para Catarina.
— Você gosta de flores?
— Não muito.
Clara arregalou os olhos.
Como se tivesse acabado de ouvir uma confissão criminosa.
— Por quê?
Catarina abriu a boca.
Não encontrou resposta.
— Clara — Lívia chamou, divertida.
— Já estou indo.
A menina desapareceu.
Isadora aproximou-se da irmã.
— Uma criança de cinco anos conseguiu deixar você sem resposta.
— Ela fez uma pergunta inesperada.
— Você negocia empresas.
— Empresas são previsíveis.
— Evidentemente crianças são seu ponto fraco.
— Não tenho ponto fraco.
Lívia soltou uma risada baixa.
Catarina virou-se.
— O quê?
— Nada.
— Você riu.
— Posso ter me lembrado de alguma coisa.
— Mentira.
Lívia inclinou levemente a cabeça.
— Você costuma acusar comerciantes de mentir durante a primeira visita?
— Apenas quando tenho provas.
— E quais seriam?
— Você riu imediatamente depois do comentário da minha irmã.
— Circunstancial.
Catarina encarou-a.
Lívia continuou sorrindo.
Havia algo desconcertante naquela mulher.
Talvez fosse o fato de não parecer minimamente impressionada.
Talvez fosse a facilidade com que conversava.
Ou talvez Catarina estivesse simplesmente cansada.
Definitivamente cansada.
— Pronto — Lívia anunciou alguns minutos depois.
O arranjo era grande sem ser exagerado.
Magnólias claras ocupavam o centro, cercadas por rosas em tons suaves e pequenas flores brancas entre folhagens verdes.
Catarina não entendia nada sobre composição floral.
Ainda assim, era bonito.
— Nossa — Isadora murmurou. — Mamãe vai amar.
— Espero que sim.
— Quanto ficou?
Marina foi até o caixa com Isadora.
Catarina permaneceu diante do balcão.
Lívia começou a recolher algumas folhas soltas.
Uma delas caiu no chão.
Catarina se abaixou automaticamente.
Pegou-a.
— Caiu uma folha.
Lívia estendeu a mão.
— Obrigada.
Catarina colocou-a em seus dedos.
Simples.
Sem constrangimento.
Lívia jogou a folha num pequeno recipiente ao lado.
— Sua irmã parece divertida.
— Essa é uma palavra.
— Você discorda?
— Convivo com ela há vinte e dois anos. Tenho um vocabulário maior.
Lívia sorriu.
— Vocês são próximas.
Não era uma pergunta.
Catarina olhou para Isadora, que estava aparentemente tentando convencer Marina de alguma coisa.
— Somos.
— Dá para perceber.
— Como?
Lívia apoiou as mãos no balcão.
— Ela provoca você sem medo de levar uma bronca de verdade.
— Eu dou broncas.
— Tenho certeza.
— Muitas.
— Ainda assim ela continua.
Catarina considerou aquilo.
— Isadora possui pouca preocupação com autopreservação.
— Ou muita certeza de que é amada.
Por alguma razão, Catarina não respondeu imediatamente.
Lívia pareceu perceber o silêncio.
Mas não tentou preenchê-lo.
Foi Catarina quem perguntou:
— Há quanto tempo a Casa Magnólia existe?
— Vinte e nove anos.
— É sua?
— Minha e da Marina. Mas começou com meus pais.
A resposta permaneceu no ar apenas pelo tempo necessário.
Sem tristeza performática.
Sem detalhes.
Catarina não perguntou mais.
— Vocês têm um cartão?
— Temos.
Lívia procurou sobre o balcão, os dedos encontrando uma pequena caixa.
Retirou um cartão e estendeu.
Catarina pegou.
Casa Magnólia — Flores & Design Floral.
Abaixo estavam telefone, endereço, site e redes sociais.
— Se sua mãe gostar, diga a ela que aceitamos elogios em dinheiro — Lívia comentou.
Catarina levantou os olhos.
— Isso foi uma piada?
— Foi ruim?
— Um pouco.
Lívia colocou a mão no peito.
— Cruel.
— Você perguntou.
— Justo.
— Catarina! — Isadora chamou.
Ela se virou.
A irmã segurava o arranjo enquanto Marina lhe entregava uma pequena sacola.
— Precisamos ir. Aparentemente alguém me deu apenas sete minutos.
Catarina consultou o relógio.
— Foram vinte e três.
— E o mundo continuou girando.
— Por pouco.
Isadora voltou-se para Marina.
— Até a próxima.
— Você pretende esquecer flores novamente?
— Posso encontrar outro motivo.
Marina sorriu de lado.
— Imagino que consiga.
Definitivamente.
Pobre Marina.
Catarina caminhou até a porta.
O sino tocou quando Isadora saiu primeiro.
Ela colocou a mão na maçaneta.
— Catarina?
Parou.
Virou o rosto.
Lívia permanecia atrás do balcão.
— Sim?
— Espero que um dia encontre uma flor de que goste.
Catarina olhou para os inúmeros vasos espalhados pela loja.
— Não criaria expectativas.
Lívia sorriu.
— Eu trabalho com plantas. Paciência faz parte do currículo.
Catarina permaneceu parada por um segundo além do necessário.
Então saiu.
O carro já havia percorrido quase três quarteirões quando Isadora falou:
— Você gostou dela.
Catarina nem levantou os olhos do celular.
— A dona da loja parece competente.
— Eu não falei de competência.
— Então sua afirmação foi vaga.
— Catarina.
— Isadora.
— Você guardou o cartão.
Catarina olhou para a própria mão.
O cartão da Casa Magnólia ainda estava entre seus dedos.
Ela o colocou dentro da bolsa.
— Podemos precisar dos serviços para algum evento.
Isadora virou lentamente o rosto para ela.
— Nosso grupo possui contrato com uma empresa de decoração há oito anos.
Silêncio.
— Podemos avaliar fornecedores.
— Claro.
Catarina abriu novamente o e-mail que estava lendo.
— Você está sorrindo.
— Não estou.
— Está um pouquinho.
— Isadora.
— Tudo bem.
A irmã voltou a olhar pela janela.
Ficou em silêncio por aproximadamente cinco segundos.
— Eu achei Marina linda.
Catarina fechou os olhos.
Finalmente.
Um problema que fazia sentido.
— É claro que achou.








