O que eu deveria ser
Se você me perguntasse quem eu sou, eu provavelmente ficaria em silêncio.
Não porque eu não saiba.
Mas porque existem muitas versões de mim.
Existe o garoto que entra na quadra e tenta jogar como o Ja.
Existe o garoto que olha para o Kobe e pensa:
"É assim que eu quero ser."
Existe o garoto que pinta a própria mente de azul-marinho porque encontrou nessa cor um lugar para existir.
Mas também existe outro garoto.
Um garoto que quase ninguém vê.
Porque ele passa a maior parte do tempo tentando escondê-lo.
Eu passo a vida inteira tentando ser frio.
E essa é a minha maior contradição.
Porque eu não nasci para ser frio.
Eu sou intenso.
Eu me apego.
Eu abraço.
Eu me preocupo.
Eu demonstro.
Eu amo.
E talvez seja exatamente por isso que eu passe tanto tempo tentando me transformar em alguém que eu não sou.
Porque sentir dói.
Porque perder dói.
Porque ver pessoas indo embora dói.
Porque guardar lembranças dói.
E eu me canso.
Então eu olho para personagens como Kaneki, Viole, Eren, Kurapika, Aomine e penso:
"Talvez eu precise ser igual a eles."
Mas eu nunca consigo.
Porque, no final, eu continuo sendo eu.
O garoto que faz piada.
O garoto que transforma qualquer conversa em brincadeira.
O garoto que escreve poemas às três da manhã.
O garoto que cria histórias dentro da própria cabeça.
O garoto que conversa sozinho porque existem personagens vivendo dentro da mente dele.
Eu acho engraçado.
Porque eu admiro personagens frios.
Mas as minhas histórias sempre falam sobre sentimentos.
Eu escrevo músicas.
Escrevo poemas.
Crio mundos.
Invento personagens.
E todos eles carregam alguma coisa minha.
Um pouco da minha saudade.
Um pouco da minha dor.
Um pouco da minha solidão.
Talvez eu seja mais artista do que gostaria de admitir.
Talvez exista um escritor preso dentro de um atleta.
Porque eu amo o basquete.
Mas também amo as palavras.
Eu amo a competição.
Mas também amo os sentimentos.
Eu amo a intensidade de uma enterrada.
Mas também amo a delicadeza de um poema.
Eu sou feito de extremos.
E isso me destrói.
Porque eu me apego demais.
E eu odeio isso.
Eu não gosto de ficar sozinho.
Eu não consigo esquecer completamente as pessoas que passaram pela minha vida.
Eu guardo tudo.
As conversas.
As lembranças.
Os apelidos.
Os momentos.
As promessas.
Eu guardo até aquilo que deveria deixar para trás.
E talvez seja por isso que eu tenha tanto medo de perder as pessoas.
Porque eu sei que elas vão embora.
Mas eu também sei que uma parte delas sempre fica.
E isso me machuca.
Porque eu queria esquecer.
Mas esquecer nunca foi o meu forte.
Eu queria ser como o Viole.
Eu queria ser como o Kaneki.
Eu queria aprender a esconder tudo.
Mas eu não consigo.
Porque existe uma parte de mim que ainda acredita no amor.
Uma parte que sonha em encontrar alguém que goste de carinho tanto quanto eu.
Alguém que não tenha medo dos abraços.
Alguém que queira ouvir as minhas histórias.
Alguém com quem eu possa conversar sem travar.
Alguém diante de quem eu não precise fingir.
Porque eu estou cansado de fingir.
Cansado de fingir que sou forte.
Cansado de fingir que não sinto.
Cansado de fingir que não me importo.
Existe outra coisa que pesa dentro de mim.
Eu sou filho de um pastor.
Filho de uma mãe evangélica.
Minha história começou com uma promessa.
Minha mãe disse que não queria ter outro filho.
Mas Deus tinha outros planos.
Então eu nasci.
E recebi um nome que significa presente.
E, às vezes, isso me assusta.
Porque eu olho para a minha vida e me pergunto:
Como alguém que nasceu cercado por uma promessa conseguiu se perder tanto?
Minha luta espiritual é uma guerra.
Uma guerra silenciosa.
Uma guerra que ninguém vê.
Uma guerra que me afastou da igreja.
E isso me machuca mais do que as pessoas imaginam.
Porque eu não queria me afastar.
Eu queria conseguir voltar.
Mas existe alguma coisa dentro de mim que me impede.
E, às vezes, eu me sinto culpado.
Porque eu sei qual é o caminho.
Mas não consigo caminhar por ele.
E talvez ninguém entenda isso.
Porque, por fora, eu sou só mais um garoto.
Mas, por dentro, eu sou um universo inteiro tentando não desabar.
Eu sou o garoto que quer aprender a tocar violão, mas acha difícil demais.
O garoto que ama cantar, mesmo achando a própria voz imperfeita.
O garoto que sonha em escrever músicas que alguém vai ouvir um dia.
O garoto que quer se tornar alguém de quem possa se orgulhar.
Talvez seja por isso que eu goste tanto do azul.
Porque o azul parece infinito.
E eu também me sinto assim.
Profundo demais.
Confuso demais.
Intenso demais.
E talvez o meu maior erro seja lutar contra aquilo que eu sou.
Porque, depois de tanto tempo tentando entender quem eu deveria ser, eu finalmente percebi uma coisa.
Eu nunca quis ser frio.
Eu só queria sofrer menos.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Talvez eu nunca me torne o Kobe.
Talvez eu nunca me torne o Kaneki.
Talvez eu nunca me torne o Viole.
Porque eu não fui feito para ser eles.
Eu fui feito para ser o Math.
O garoto do cabelo azul na imaginação.
O garoto que ama o basquete.
O garoto que escreve.
O garoto que sente demais.
O garoto que carrega promessas.
O garoto que se perde.
O garoto que ama.
O garoto que cai.
O garoto que continua.
Porque, apesar de tudo, eu continuo aqui.
E talvez isso signifique alguma coisa.








