Capítulo 1 - A fuga para o desconhecido.
Elise
A chuva caía como se o próprio céu estivesse tentando esconder todos os horrores daquela noite.
Eu corria desesperadamente.
Meus pés descalços afundavam na lama da estrada antiga enquanto os galhos das árvores arranhavam meus braços, mas não podia parar.
A cada passo que eu dava, uma dor aguda atravessava minha perna. O corte na lateral da coxa direita ardia como fogo, o sangue quente escorria, misturando-se com a chuva encharcando o meu vestido.
A adrenalina me obrigava a continuar, mas eu sentia minhas forças se esvaindo pouco a pouco.
Atrás de mim, as luzes da fazenda já haviam desaparecido em meio àquela imensa escuridão, e os gritos ficavam cada vez mais longe.
Apertei a barra do vestido entre os dedos e olhei pela última vez para trás por cima do ombro, rezando para que eles não estivessem mais correndo atrás de mim.
Eu não fazia ideia para onde estava indo, nem em qual direção estava seguindo, só sabia que precisava fugir o mais rápido possível.
Por alguns segundos, a imagem do homem que havia me enganado e levado até aquela fazenda surgiu em minha mente.
Meu tio.
Uma promessa que aquele trabalho seria uma oportunidade para mim. Que eu teria um lugar para ficar, comida e uma maneira de começar minha própria vida.
Eu acreditei nele.
Apertei os olhos com força e afastei aquela lembrança.
Não queria pensar nisso agora.
Só queria sobreviver.
— Por que fizeram isso comigo? — sussurrei para mim mesma, tentando achar forças entre uma respiração e outra.
A chuva escorria pelo meu rosto, deixando minha visão embaçada, enquanto alguns fios do meu cabelo grudavam na minha pele.
Parei por alguns segundos. Apoiei uma mão em uma árvore enquanto tentava recuperar o fôlego.
O ar entrava, mas nunca parecia suficiente. Meu coração disparava tão forte que eu conseguia ouvi-lo ecoando nos ouvidos, abafando até mesmo o som da chuva.
— Não... não agora. — repeti para mim mesma, tentando recuperar o controle do próprio corpo.
Quanto mais tentava me acalmar, mais me sentia sufocada. Minhas mãos tremiam, e o formigamento subia pelos meus braços enquanto eu lutava para não desabar ali.
Olhei ao redor. Tudo era estranho, as árvores eram altas demais, o ar era frio e úmido carregado pelo cheiro de terra molhada.
Algumas histórias eram contadas sobre aquele lugar, e desde criança eu conhecia cada uma delas...
Ouvi sobre as pessoas que entravam na floresta e demoravam dias para encontrar o caminho de volta, sobre os caçadores que se perdiam entre árvores que pareciam todas iguais ou sobre as trilhas que sumiam.
E quando alguém mencionava a floresta, a conversa terminava antes que alguém pudesse explicar mais.
Naquela noite, porém, eu começava a entender o motivo.
Meu corpo pedia para parar, mas o medo de ser encontrada era maior do que minha dor.
Então continuei avançando sem saber para onde estava indo.
Até que avistei uma luz... fraca, dourada e quente.
Pisquei algumas vezes, sem ter certeza se meus olhos cansados estavam enxergando direito.
Entre as árvores, escondida pela névoa, havia uma pequena trilha que eu tinha quase certeza de que não estava ali antes.
Decidi seguir o caminho que me levou até uma clareira escondida.
E foi quando vi.
Uma pequena casa.
As paredes de madeira pareciam antigas, as janelas brilhavam com uma luz aconchegante e uma fina coluna de fumaça saía da chaminé.
Talvez eu pudesse pedir ajuda. Ou talvez fosse apenas mais um lugar onde eu não deveria estar.
Mas eu não tinha mais forças para continuar.
Aproximei-me devagar e subi os poucos degraus da varanda. Ergui a mão trêmula e bati na porta.
O som ecoou no silêncio da floresta. Prendi a respiração aguardando alguma resposta.
Passos soaram do outro lado da porta. Em seguida a maçaneta começou a girar, lentamente…








