Capítulo I: Sombra cidadã
Poly Town é uma cidade gigantesca e isolada, com território equivalente a três ou quatro cidades comuns reunidas, localizada em uma vasta região de montanhas, florestas densas, vales profundos, penhascos e rios escuros e gelados, distante da maior parte da civilização.
Ela abriga milhões de habitantes, incluindo humanos e uma enorme variedade de criaturas sobrenaturais: fantasmas, vampiros, lobisomens, demônios, entidades desconhecidas e inúmeras outras formas de vida; a convivência entre eles varia muito. Alguns são amigos, colegas de trabalho, vizinhos ou até familiares. Outros mantêm rivalidades, preconceitos e conflitos violentos. Não existe uma divisão simples entre "humanos bons" e "monstros maus". Cada indivíduo é julgado por suas próprias ações.
A cidade possui bairros residenciais, escolas, hospitais, empresas, atividades pesqueiras e até um vasto mar interno. Ela funciona como uma sociedade complexa e amplamente capaz de sustentar sua própria população, embora enfrente desigualdade, escassez, fome e dificuldades periódicas.
Poly Town é marcada por neblinas frequentes, clima frio e úmido e céus constantemente encobertos. Dias claros existem, mas são raros; a sensação de estranheza está sempre presente. Mesmo os moradores acostumados ao sobrenatural sabem que existem criaturas, fenômenos e lugares que permanecem desconhecidos e perigosos.
A vida continua normalmente, mas nunca é tranquila.
O que torna Poly Town única é a imensa barreira que a cerca. Ela é uma estrutura colossal, ligeiramente opaca, semelhante a uma membrana transparente e resistente. Ao ser tocada, sua superfície afunda levemente e produz ondulações, como uma bolha gigantesca ou água extremamente densa. A barreira se estende por todo o perímetro da cidade:
sobe a alturas impossíveis no céu;
continua sob o oceano;
penetra profundamente no subsolo.
Ninguém conhece seu verdadeiro tamanho.
Sua regra é simples e cruel: qualquer pessoa pode entrar em Poly Town, ninguém pode sair, não importa de qual direção venha. Uma pessoa do mundo exterior atravessa a barreira normalmente, mas, após entrar, jamais consegue retornar.
Todos sabem que existe um mundo normal fora da cidade; não é uma lenda, não é um segredo. Os moradores conhecem sua existência, muitos de seus ancestrais vieram de lá. Porém, a cidade permanece isolada há tanto tempo que gerações inteiras nasceram sem nunca ter visto o exterior. Para muitos jovens, o mundo lá fora é algo conhecido apenas através de histórias, fotografias antigas e relatos dos mais velhos.
Dentro dos limites da cidade existe um mar gigantesco. É possível navegar por muitos quilômetros sem encontrar terra, porém, mais cedo ou mais tarde, a barreira também surge no horizonte. Ela continua sob as águas, impedindo qualquer tentativa de fuga.
Poly Town não é amplamente conhecida pelo mundo exterior. A maioria das pessoas jamais ouviu falar dela. As poucas que conhecem sua existência costumam tratá-la como lenda, superstição ou história de viajantes.
A cidade permanece escondida pela distância, pelo relevo difícil, pelas florestas extensas e pela própria descrença das pessoas. Mesmo assim, novas pessoas continuam chegando à cidade. Algumas procurando-a deliberadamente, outras seguem rumores, lendas ou interesses pessoais.
Algumas criaturas parecem ser atraídas naturalmente para a região e há aqueles que simplesmente estavam no lugar errado na hora errada:
caçadores;
aventureiros;
viajantes;
exploradores;
pessoas perdidas.
Muitos sequer percebem o momento em que atravessam a barreira. O verdadeiro horror começa apenas quando tentam voltar.
O horror da cidade não está apenas em seus monstros, está também na fome, desigualdade, violência, a hostilidade. Desaparecimentos, presença constante do desconhecido.
Algumas criaturas convivem pacificamente com os humanos, outras são predadoras. Algumas são compreendidas, outras permanecem completamente misteriosas. A cidade não é um inferno absoluto, mas também está longe de ser um lugar seguro. E sempre existirá a consciência de que o mundo continua lá fora. E inacessível. E enquanto alguns habitantes sonham em escapar, outros já aceitaram que Poly Town é seu lar.
Ali, pessoas nascem, crescem, trabalham, amam, sofrem, envelhecem e morrem enquanto observam um mundo que sabem existir logo além da barreira - próximo o suficiente para ser imaginado, mas distante demais para ser alcançado.
Suas rotas de entrada podem ser qualquer uma, mas as naturais conhecidas são três ou quatro estradas antigas atravessando montanhas, algumas trilhas esquecidas, ou uma ferrovia quase abandonada, um rio navegável que conduz à região.
Ninguém sabe quem criou a barreira, quando ela surgiu, por que a cidade foi isolada. Ou por que novas pessoas continuam podendo entrar ou por que ninguém consegue sair.
Essas perguntas permanecem sem resposta, e talvez sejam os maiores mistérios de Poly Town.
Porque ela não prende apenas corpos, ela prende vidas.
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