Rei Dos Ghouls by C. Cactos at Inkitt
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Rei dos Ghouls

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Summary

Rei dos Ghouls Ninguém morre em Valência. Existe uma cidade no mundo onde nenhum humano é devorado. Ninguém sabe por quê. Nenhuma Casa vampírica se instalou ali em oitocentos anos, nenhuma matilha de luphares cruza suas fronteiras, e quatrocentos mil pessoas dormem com as janelas abertas sem imaginar o que passa por baixo delas. Cecília não sabe nada disso quando aceita o acordo. Está morrendo, tem vinte e seis anos e ninguém para deixar para trás, e a coisa que aparece no quarto do hospital é muito clara sobre os termos: um corpo emprestado em outro mundo, duas mortes encomendadas, e uma vida inteira como pagamento. Ela precisa ser vilã de verdade — sem pena, sem hesitar, sem recuar no último instante. Os nomes são Victor Kovač e Selene. Trezentos e dezoito anos e cento e três de casamento depois, um defeito banal numa bomba de combustível obriga os dois a descer na única cidade do mundo onde os da espécie deles não descem. O avião vai levar semanas para ser consertado. O hotel é comum, a recepcionista é simpática, e do lado de fora da pista há mato, encosta e um cheiro seco e doce que Victor reconhece na hora. Uma ninhada pequena. Dez, no máximo. Ele apostaria a Casa nisso. O que está esperando por eles na clareira, sentado numa pedra, não é uma ninhada. E, quando fala, diz apenas que eles demoraram.

Genre
Romance
Author
C. Cactos
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Prólogo

O quarto tem duzentos e onze placas no forro. Contei na segunda semana, quando ainda conseguia virar a cabeça sem que o mundo demorasse a chegar junto. Contei de novo no mês passado e deu duzentos e nove. Não sei qual das contas está errada e não vou refazer.

A enfermeira da noite se chama Rute. Ela troca o soro às onze e diz *bom descanso* de um jeito que não espera resposta. Gosto dela por isso. As do dia perguntam como eu estou, e aí eu tenho que decidir se minto.

Hoje ninguém veio. Ontem também não. Não é queixa — não sobrou ninguém para vir. Meu pai foi primeiro, minha mãe três anos depois, e a gente nunca teve o resto. Tias, primos, essas coisas que outras pessoas parecem ter aos montes. A gente era três, e agora é um, e daqui a pouco é zero, e a aritmética disso é tão simples que nem dói mais.

Vinte e seis anos. É a única parte que ainda me irrita. Não morrer — morrer eu já aceitei em algum momento entre o segundo e o terceiro ciclo, sem cerimônia, do jeito que a gente aceita que vai chover. O que me irrita é o número. Vinte e seis é curto demais para ter opinião formada sobre qualquer coisa. Eu ia ter opiniões. Estava juntando.

O médico usou a palavra *semanas* na quinta-feira. Ele olhou para o prontuário quando disse. Eu olhei para as placas.

---

Ela chega às três e alguma coisa da manhã.

Não tem porta abrindo, não tem luz, não tem vento levantando a cortina. Não tem nada. Eu estou acordada porque a essa altura eu estou sempre acordada, e de repente há mais alguém no quarto, do mesmo jeito que há mais alguém numa sala quando você desvia os olhos e volta.

Eu não grito. Considerei gritar e descartei; gritar é para quem tem o que perder na próxima hora.

— Cecília — diz aquilo.

Não é voz de homem nem de mulher. Não é bem voz. Chega como se eu já tivesse ouvido e estivesse só lembrando.

— Você é o quê? — pergunto.

— Isso não vai fazer diferença para você.

Decido chamar aquilo de *a coisa*, na minha cabeça, porque preciso chamar de alguma coisa e nada mais serve.

— Eu vim propor uma troca — diz a coisa. — Você tem uma coisa de que eu preciso, e eu tenho uma coisa que você quer.

— Eu não tenho nada — digo.

— Você tem a disposição de morrer. Isso é mais raro do que você imagina.

---

E então ela explica, e explica direito, sem rodeio, do jeito de quem já disse aquilo outras vezes.

Existe outro mundo. Não *o além*, não coisa nenhuma de padre — outro mundo, com terra e bicho e gente, funcionando do seu jeito. Nele existe uma criatura chamada Rei dos Ghouls, e essa criatura é um corpo. Um corpo grande, difícil de matar, que ninguém procura e ninguém ama, no fundo de um buraco embaixo de uma cidade.

O corpo pode ser meu.

— Para quê? — pergunto.

— Para matar duas pessoas — diz a coisa.

Ela pronuncia os nomes com cuidado, separados, como quem entrega dois objetos frágeis.

— Victor Kovač. Selene, esposa dele.

— Quem são eles?

— Vampiros. Casa antiga. — A coisa faz uma pausa curta, como se escolhesse o que é meu direito saber. — Não importa quem são. Importa quem sobra. Victor tem um irmão mais velho, Arthur. Quando os dois morrerem, Arthur vai passar anos procurando o que matou o irmão e a cunhada. Ele é obstinado de um jeito que a própria família considera defeito. Ele vai procurar até encontrar, e ele vai encontrar o Rei dos Ghouls.

— E aí? — pergunto.

— E aí ele mata você.

Fico olhando para o lugar onde ela não está.

— Você quer que eu morra lá também — digo.

— Eu quero que você morra lá **daquele jeito**. Pelas mãos dele. Isso é o serviço.

— Por quê?

— Isso também não vai fazer diferença para você.

---

— E se eu não matar? — pergunto. — Se eu chegar lá e não conseguir?

— Então não há troca.

— Eu podia só... deixar acontecer. Esperar ele me achar.

— Não. — É a primeira vez que a coisa responde depressa. — Não serve. Ele precisa ter um motivo, e o motivo é o que você vai fazer com os dois. Sem pena, Cecília. Sem hesitar, sem recuar no último instante, sem deixar um vivo porque olhou para você. Você não vai ser a criatura que a história perdoa no fim. Você vai ser a criatura que a história precisa que exista.

— Você está me pedindo para ser o vilão — digo.

— Estou. É exatamente isso que eu estou pedindo.

Alguma coisa em mim devia se recusar aqui. Eu sei que devia. Fico esperando essa parte chegar, do jeito que a gente espera espirrar, e ela não chega. Só o que chega é o cansaço, que já estava, e a curiosidade, que é uma coisa horrível de descobrir sobre si mesma às três da manhã.

— O que eu ganho? — pergunto.

— Uma vida — diz a coisa. — Quando terminar, você volta. Este mundo, este tempo, do jeito que você deixou. Corpo de mulher, jovem, saudável. Sem nada crescendo dentro. Você acorda em algum lugar daqui e continua, e continua por muito tempo.

— Sã?

— Inteira.

Penso nas placas do forro. Penso na Rute dizendo *bom descanso*. Penso em ter opiniões.

— Dois — digo.

— Dois — repete a coisa.

— E ninguém mais.

— Ninguém que eu esteja pedindo.

Devia ter reparado nisso. Reparei, inclusive. Só que quando você tem semanas, a diferença entre *ninguém* e *ninguém que eu esteja pedindo* parece muito pequena, e todo o resto parece muito grande.

---

— Vai doer? — pergunto.

— A passagem, não.

— Tudo bem — digo.

E é isso. É essa a parte que eu ia querer contar para alguém, se tivesse alguém: não teve discurso, não teve lágrima, não teve última olhada pela janela. Eu disse *tudo bem* como quem confirma horário de consulta.

— Diga em voz alta — pede a coisa.

— Eu aceito.

O quarto continua igual. As duzentas e nove placas continuam onde estavam. A bomba do soro continua fazendo o barulhinho dela a cada quarenta segundos, e eu penso, com uma clareza esquisita, que é a última coisa deste mundo que eu vou ouvir.

Depois o barulho fica mais longe. Não para: fica mais longe, como se o quarto estivesse recuando de mim, educadamente, para abrir espaço.

Victor Kovač. Selene.

Repito os dois nomes na cabeça enquanto atravesso, do jeito que a gente repete um endereço para não esquecer no caminho.

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