Prólogo
O quarto tem duzentos e onze placas no forro. Contei na segunda semana, quando ainda conseguia virar a cabeça sem que o mundo demorasse a chegar junto. Contei de novo no mês passado e deu duzentos e nove. Não sei qual das contas está errada e não vou refazer.
A enfermeira da noite se chama Rute. Ela troca o soro às onze e diz *bom descanso* de um jeito que não espera resposta. Gosto dela por isso. As do dia perguntam como eu estou, e aí eu tenho que decidir se minto.
Hoje ninguém veio. Ontem também não. Não é queixa — não sobrou ninguém para vir. Meu pai foi primeiro, minha mãe três anos depois, e a gente nunca teve o resto. Tias, primos, essas coisas que outras pessoas parecem ter aos montes. A gente era três, e agora é um, e daqui a pouco é zero, e a aritmética disso é tão simples que nem dói mais.
Vinte e seis anos. É a única parte que ainda me irrita. Não morrer — morrer eu já aceitei em algum momento entre o segundo e o terceiro ciclo, sem cerimônia, do jeito que a gente aceita que vai chover. O que me irrita é o número. Vinte e seis é curto demais para ter opinião formada sobre qualquer coisa. Eu ia ter opiniões. Estava juntando.
O médico usou a palavra *semanas* na quinta-feira. Ele olhou para o prontuário quando disse. Eu olhei para as placas.
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Ela chega às três e alguma coisa da manhã.
Não tem porta abrindo, não tem luz, não tem vento levantando a cortina. Não tem nada. Eu estou acordada porque a essa altura eu estou sempre acordada, e de repente há mais alguém no quarto, do mesmo jeito que há mais alguém numa sala quando você desvia os olhos e volta.
Eu não grito. Considerei gritar e descartei; gritar é para quem tem o que perder na próxima hora.
— Cecília — diz aquilo.
Não é voz de homem nem de mulher. Não é bem voz. Chega como se eu já tivesse ouvido e estivesse só lembrando.
— Você é o quê? — pergunto.
— Isso não vai fazer diferença para você.
Decido chamar aquilo de *a coisa*, na minha cabeça, porque preciso chamar de alguma coisa e nada mais serve.
— Eu vim propor uma troca — diz a coisa. — Você tem uma coisa de que eu preciso, e eu tenho uma coisa que você quer.
— Eu não tenho nada — digo.
— Você tem a disposição de morrer. Isso é mais raro do que você imagina.
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E então ela explica, e explica direito, sem rodeio, do jeito de quem já disse aquilo outras vezes.
Existe outro mundo. Não *o além*, não coisa nenhuma de padre — outro mundo, com terra e bicho e gente, funcionando do seu jeito. Nele existe uma criatura chamada Rei dos Ghouls, e essa criatura é um corpo. Um corpo grande, difícil de matar, que ninguém procura e ninguém ama, no fundo de um buraco embaixo de uma cidade.
O corpo pode ser meu.
— Para quê? — pergunto.
— Para matar duas pessoas — diz a coisa.
Ela pronuncia os nomes com cuidado, separados, como quem entrega dois objetos frágeis.
— Victor Kovač. Selene, esposa dele.
— Quem são eles?
— Vampiros. Casa antiga. — A coisa faz uma pausa curta, como se escolhesse o que é meu direito saber. — Não importa quem são. Importa quem sobra. Victor tem um irmão mais velho, Arthur. Quando os dois morrerem, Arthur vai passar anos procurando o que matou o irmão e a cunhada. Ele é obstinado de um jeito que a própria família considera defeito. Ele vai procurar até encontrar, e ele vai encontrar o Rei dos Ghouls.
— E aí? — pergunto.
— E aí ele mata você.
Fico olhando para o lugar onde ela não está.
— Você quer que eu morra lá também — digo.
— Eu quero que você morra lá **daquele jeito**. Pelas mãos dele. Isso é o serviço.
— Por quê?
— Isso também não vai fazer diferença para você.
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— E se eu não matar? — pergunto. — Se eu chegar lá e não conseguir?
— Então não há troca.
— Eu podia só... deixar acontecer. Esperar ele me achar.
— Não. — É a primeira vez que a coisa responde depressa. — Não serve. Ele precisa ter um motivo, e o motivo é o que você vai fazer com os dois. Sem pena, Cecília. Sem hesitar, sem recuar no último instante, sem deixar um vivo porque olhou para você. Você não vai ser a criatura que a história perdoa no fim. Você vai ser a criatura que a história precisa que exista.
— Você está me pedindo para ser o vilão — digo.
— Estou. É exatamente isso que eu estou pedindo.
Alguma coisa em mim devia se recusar aqui. Eu sei que devia. Fico esperando essa parte chegar, do jeito que a gente espera espirrar, e ela não chega. Só o que chega é o cansaço, que já estava, e a curiosidade, que é uma coisa horrível de descobrir sobre si mesma às três da manhã.
— O que eu ganho? — pergunto.
— Uma vida — diz a coisa. — Quando terminar, você volta. Este mundo, este tempo, do jeito que você deixou. Corpo de mulher, jovem, saudável. Sem nada crescendo dentro. Você acorda em algum lugar daqui e continua, e continua por muito tempo.
— Sã?
— Inteira.
Penso nas placas do forro. Penso na Rute dizendo *bom descanso*. Penso em ter opiniões.
— Dois — digo.
— Dois — repete a coisa.
— E ninguém mais.
— Ninguém que eu esteja pedindo.
Devia ter reparado nisso. Reparei, inclusive. Só que quando você tem semanas, a diferença entre *ninguém* e *ninguém que eu esteja pedindo* parece muito pequena, e todo o resto parece muito grande.
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— Vai doer? — pergunto.
— A passagem, não.
— Tudo bem — digo.
E é isso. É essa a parte que eu ia querer contar para alguém, se tivesse alguém: não teve discurso, não teve lágrima, não teve última olhada pela janela. Eu disse *tudo bem* como quem confirma horário de consulta.
— Diga em voz alta — pede a coisa.
— Eu aceito.
O quarto continua igual. As duzentas e nove placas continuam onde estavam. A bomba do soro continua fazendo o barulhinho dela a cada quarenta segundos, e eu penso, com uma clareza esquisita, que é a última coisa deste mundo que eu vou ouvir.
Depois o barulho fica mais longe. Não para: fica mais longe, como se o quarto estivesse recuando de mim, educadamente, para abrir espaço.
Victor Kovač. Selene.
Repito os dois nomes na cabeça enquanto atravesso, do jeito que a gente repete um endereço para não esquecer no caminho.








