Os lugares que não cabem
O café de Davi Cerqueira já estava frio às nove e quarenta da manhã, e Sera sabia disso porque observava o vapor parar de subir do copo de isopor fazia pelo menos vinte minutos, desde que ele o apoiou na borda da mesa e se inclinou sobre a planta cadastral do lote 47 da Rua Anchieta com aquela concentração que ele tinha — não forçada, não performática, apenas o rosto de alguém que achava genuinamente interessante a diferença entre uma cota altimétrica de 1963 e a medição atual. Ele passava o indicador sobre as curvas de nível como quem lê braile. Sera achava isso bonito. Achava e não dizia, porque dizer significaria que alguém ouviria, e se alguém ouvisse, olharia para ela, e se olhasse para ela, veria o que sempre viam: a menina estranha da mesa do canto que desenhava coisas nos cadernos e fechava tudo rápido quando qualquer pessoa se aproximava.
Então ela não disse. Voltou os olhos para a própria tela, para o shapefile aberto no software de geoprocessamento, para os polígonos que representavam os lotes do bairro Aparecida e que precisavam ser atualizados antes do fim do mês. Trabalho de rotina. Trabalho que ela fazia bem, com uma precisão que os supervisores elogiavam sem entender de onde vinha — porque a verdade é que Sera não precisava do software para enxergar a geografia de um lugar. Ela via. Sempre viu. Os contornos, as distâncias, os espaços entre as coisas. Via com uma clareza que não cabia em coordenadas UTM nem em projeções cartográficas, uma clareza que às vezes a assustava, porque mostrava coisas que não estavam em nenhum mapa oficial.
Como o corredor.
Ficava entre o edifício Miraflores e o prédio comercial da esquina da Rua Sete, dois blocos de concreto colados um no outro sem nenhum espaço visível entre eles. Mas Sera via o corredor. Sempre viu. Estreito na entrada — mal cabia uma pessoa de ombros largos — e depois se abria num espaço impossível, longo, silencioso, com o chão de um ladrilho hidráulico que não existia em nenhuma loja da cidade e uma luz que não vinha de cima nem dos lados, mas do próprio ar, como se o lugar produzisse sua própria claridade. O tempo ali era diferente. Não parado, exatamente, mas desacelerado, como se cada segundo se esticasse para caber mais dentro de si mesmo.
Sera o desenhou pela primeira vez aos treze anos, num caderno quadriculado que ganhou da avó. Desenhou com régua e esquadro, como se fosse um levantamento topográfico de verdade, porque mesmo naquela idade já sabia que a única maneira de fazer justiça àqueles lugares era tratá-los com a mesma seriedade que o mundo dava aos lugares reais. Anotou medidas. Inventou uma legenda. Marcou o norte.
O caderno estava agora na gaveta de baixo da sua mesa no instituto, embaixo de uma resma de papel A3 e de um estojo de nanquim que ela nunca usava no trabalho. Ninguém nunca abriu aquela gaveta. Ninguém nunca perguntou.
Às dez e quinze, Renata da recepção passou pela sala com uma bandeja de biscoitos de polvilho e ofereceu a cada mesa. Quando chegou na de Sera, estendeu a bandeja com aquele sorriso educado que as pessoas usam quando não sabem o que dizer para alguém que nunca diz nada. Sera pegou um biscoito, murmurou obrigada, e Renata seguiu em frente. O biscoito ficou ao lado do teclado, intocado, pelo resto da manhã.
Davi, duas mesas à frente, pegou três e agradeceu pelo nome. “Valeu, Rê. Polvilho da padaria da Dona Irene?” Renata riu. “Esse você reconhece pelo cheiro, né?” Ele riu também, e o som atravessou a sala e chegou até Sera como uma coisa física, uma vibração morna que ela sentiu no peito antes de registrar nos ouvidos.
Ela não entendia como ele fazia aquilo. Como ocupava o espaço ao redor de si com tanta naturalidade, como transformava uma bandeja de biscoitos numa conversa que fazia duas pessoas se sentirem vistas. Sera passava o dia inteiro tentando não ser notada, e Davi passava o dia inteiro fazendo as pessoas se sentirem contentes por estarem ali. Eram forças opostas. Ela, um ponto de fuga. Ele, um ponto de convergência.
Às vezes, nos dias em que a solidão pesava mais do que o medo, Sera se permitia imaginar. Imaginar que dizia bom dia para ele ao chegar. Que comentava alguma coisa sobre o café frio. Que ele ria daquele jeito e a risada era para ela, não para a sala inteira. Mas a imaginação durava o tempo de um fôlego, e depois ela voltava para os polígonos, para as coordenadas, para o trabalho que não exigia que ela fosse nada além de precisa.
O expediente terminou às seis. Sera esperou os outros saírem — sempre esperava, porque o corredor do casarão era estreito e ela não gostava de disputar espaço com corpos e mochilas e conversas sobre o que jantar. Quando o silêncio se instalou, guardou o material, desligou o computador, e abriu a gaveta de baixo.
O caderno estava ali. O de capa dura preta, não o quadriculado da infância — esse ela guardava em casa, junto com os outros onze. O de capa preta era o atual. O que ela levava para todo lugar, como um diário que não continha palavras.
Saiu pela porta dos fundos do instituto, a que dava para o beco de paralelepípedos onde ninguém estacionava porque o chão era irregular demais. A noite já tinha descido, e com ela veio a neblina — fina, rasteira, o tipo que se enrosca nos tornozelos e faz as luzes dos postes parecerem algodão amarelo.
Sera caminhou até o ponto de ônibus, mas não parou. Continuou andando. Seus pés sabiam para onde ir antes da sua cabeça decidir, e ela os deixou guiar, porque era assim que sempre funcionava: os lugares a chamavam, e ela ia.
Desta vez era o quintal.
Ficava atrás de uma casa abandonada na Rua do Rosário, uma construção de pau-a-pique com o telhado cedido e o mato tomando conta da fachada. De dia, o quintal era um retângulo de terra batida com um pé de goiaba e um varal enferrujado. Mas de noite — e Sera sabia disso com a mesma certeza com que sabia seu próprio nome — o quintal se abria.
Ela entrou pelo portão lateral, que não tinha tranca. O mato arranhou suas canelas. O cheiro de terra molhada subiu forte, misturado com goiaba madura e algo mais, algo que não tinha nome no mundo de cá: um cheiro de distância, como se o ar viesse de muito longe.
E o quintal se abriu.
O retângulo de terra batida se estendia agora em todas as direções, um campo vasto sob um céu que não era exatamente noite — era uma coisa entre o crepúsculo e a madrugada, uma luz azul-cinza que não mudava, que não se movia, que simplesmente era. O pé de goiaba ainda estava ali, mas agora era enorme, com o tronco largo como o de uma figueira centenária e os galhos se espalhando como um teto vivo. O varal enferrujado tinha sumido. No lugar dele, havia um caminho de pedras claras que se perdia na distância.
Sera se sentou na raiz exposta da goiabeira, abriu o caderno de capa preta e começou a desenhar.
Desenhou o campo. Desenhou o céu parado. Desenhou o caminho de pedras com a precisão de quem levanta uma estrada — cotas, distâncias, curvas. Seus dedos se moviam com uma segurança que ela não tinha em nenhum outro momento da vida, como se ali, naquele lugar que não existia, ela finalmente soubesse exatamente quem era e o que estava fazendo.
Quando terminou, olhou o mapa. Estava bom. Estava certo. Cada traço no lugar exato.
Mas havia uma coisa que ela não tinha desenhado.
No canto inferior direito do mapa, onde o caminho de pedras desaparecia na borda do papel, havia uma marca. Pequena. Quase imperceptível. Não era um traço de lápis — era uma impressão, como se algo tivesse pressionado o papel por baixo. Uma forma que lembrava uma pegada.
Sera ficou olhando para aquela marca por um longo tempo. O campo ao redor dela continuava imenso e silencioso, o céu continuava parado, a goiabeira continuava respirando acima da sua cabeça.
A marca não tinha sido feita por ela.
Fechou o caderno. Guardou o lápis. E pela primeira vez em muitos anos, ao sair do quintal e voltar para a Rua do Rosário, para a neblina e os postes e o mundo que cabia nos mapas oficiais, Sera sentiu que alguém a estava observando de volta.








