Customize readability
Aa

A Pousada das Ondas

All Rights Reserved ©

Summary

Laura Vasconcelos tinha uma vida inteira planejada. Uma carreira construída ao longo de doze anos em São Paulo. Um apartamento. Um casamento marcado. Um futuro que parecia decidido. Até perder tudo quase de uma vez. Quando uma tia distante lhe deixa como herança uma antiga pousada à beira-mar, Laura enxerga na pequena cidade de Vento Sul a oportunidade perfeita para desaparecer por algum tempo — e talvez descobrir quem é quando já não existe um plano a seguir. Só há um pequeno problema. A pousada está caindo aos pedaços. E o único homem capaz de salvá-la é Rafael Duarte. Marceneiro, teimoso e tão ligado àquela cidade quanto Laura está determinada a acreditar que sua passagem por ela será temporária, Rafa deixa claro desde o primeiro encontro que não espera que a mulher da cidade grande dure mais que um verão. Laura pretende provar que ele está errado. Entre vigas apodrecidas, manhãs com cheiro de café, noites embaladas pelo som das ondas e uma cidade pequena onde segredos duram pouco, os dois começam a reconstruir muito mais do que uma velha pousada. Porque Rafa também sabe o que significa perder. Desde que o mar levou seu pai, ele aprendeu que amar alguma coisa é dar a ela o poder de partir. Laura, depois de ver doze anos de sua vida desaparecerem, decidiu que nunca mais construiria seu futuro ao redor de outra pessoa. Nenhum dos dois está procurando por amor. Mas, às vezes, um recomeço chega exatamente na forma que mais assusta. E quando uma proposta milionária coloca nas mãos de Laura a chance de abandonar Vento Sul e recuperar a segurança que perdeu, ela terá que decidir o que realmente significa começar de novo. Porque algumas casas podem ser reformadas. Alguns corações também. Mas é preciso coragem para ficar quando fugir parece muito mais fácil.

Genre
Romance
Author
jeneffer
Status
Complete
Chapters
10
Rating
n/a
Age Rating
18+

A Chave Enferrujada


O ônibus tinha deixado São Paulo doze horas antes, mas foi só quando a estrada de asfalto virou terra batida, e o cheiro de maresia começou a se infiltrar pelas frestas do vidro do carro alugado, que Laura Vasconcelos sentiu que estava mesmo deixando a vida antiga para trás.

Vento Sul aparecia aos poucos: primeiro os coqueiros tortos beirando a estrada, depois os telhados baixos das casas de pescadores, depois o mar — enorme, azul-esverdeado, batendo contra um paredão de pedras que parecia guardar a cidade do resto do mundo. Era bonito de um jeito que doía olhar, o tipo de paisagem que fazia qualquer pessoa lembrar do tamanho da própria vida.

O caminhão de mudanças, que ela tinha contratado numa transportadora da cidade vizinha, parou no meio da rua de terra, e Laura teve certeza, pela primeira vez em três meses, de que tinha cometido um erro. Um erro bonito, talvez, mas ainda assim um erro.

A Pousada Girassol — herdada num parágrafo seco de testamento, assinado por um advogado que mal escondia a impaciência com aquela cliente de cidade grande — erguia-se no alto da duna como um bicho ferido: telhas quebradas em pelo menos três pontos visíveis, a varanda tombada para um lado como se estivesse cansada de ficar de pé sozinha havia tanto tempo, uma placa de madeira descascada balançando no gancho enferrujado, as letras GIRASSOL quase completamente apagadas pelo sol e pela maresia. Atrás dela, o mar batia contra as pedras com uma indiferença que Laura quase invejou.

— A senhora vai ter que tirar esse barco daí — disse o motorista do caminhão, tirando o boné e coçando a cabeça, apontando para o pequeno cais de madeira onde uma embarcação branca e azul balançava, amarrada bem no caminho da rampa de descarga. — Não dá pra passar com os móveis.

— Vou resolver — respondeu Laura, com uma segurança que doze anos de reuniões em São Paulo lhe haviam ensinado a fingir mesmo quando as pernas tremiam por dentro.

Ela desceu até a areia, os sapatos de couro afundando de um jeito que fez uma nota mental — comprar sapatos apropriados, item um da lista de sobrevivência — e encontrou o dono do barco sentado na proa, torso nu, consertando uma rede de pesca com dedos ágeis, como se o mundo não tivesse pressa nenhuma e ele fosse a única pessoa que sabia disso.

— Com licença — chamou ela, a voz mais firme do que se sentia. — Esse barco está bloqueando a única entrada da minha pousada.

O homem ergueu os olhos devagar, quase relutante, como quem é interrompido no meio de um pensamento importante. Tinha a pele tostada de quem vive debaixo do sol o ano inteiro, um maxilar quadrado coberto por uma barba de dois dias, cabelo escuro bagunçado pelo vento, e olhos de um castanho tão escuro que pareciam absorver a luz da tarde em vez de refleti-la. Havia algo nele — na postura relaxada, no jeito de segurar a rede sem pressa — que dizia claramente: esse é o meu território, e você é a visitante aqui.

— Esse cais é público há quarenta anos — respondeu ele, sem se levantar, sem sequer parecer especialmente incomodado. — E a Dona Iolanda nunca reclamou.

— A Dona Iolanda morreu. Agora eu sou dona daquele terreno — Laura apontou para a pousada, tentando manter a voz calma —, e preciso da rampa livre pra descarregar meus móveis.

Alguma coisa atravessou o rosto dele — não raiva exatamente, algo mais fundo, mais antigo, como se a menção da tia morta tivesse aberto uma porta que ele preferia manter fechada. Ele ficou em silêncio por um segundo mais longo do que o necessário, olhando para ela com uma atenção que Laura sentiu quase física, um exame rápido que ia dos sapatos inadequados até o coque apertado demais no cabelo.

— A senhora é parente dela?

— Sobrinha.

— Ela nunca falou de sobrinha nenhuma. — Havia uma pontada de desconfiança na voz dele, como se aquilo mudasse alguma coisa.

— Ela também nunca falou de mim pra mim, então acho que empatamos. — Laura cruzou os braços. — Olha, eu realmente preciso desse cais livre. Tenho um caminhão inteiro de móveis e uma reforma pela frente, e não vim aqui pra discutir posse de rampa com um pescador que não quer sair do lugar.

O comentário atingiu um ponto sensível — ela viu isso pelo jeito que a mandíbula dele se contraiu.

— Marceneiro — corrigiu ele, se levantando enfim, alto o bastante para que Laura precisasse erguer o queixo para manter contato visual. — E não estava discutindo posse de nada. Só estava terminando um trabalho antes de me mudar.

Ele se levantou, desamarrou o barco sem pressa, como quem faz um favor que não é obrigado a fazer, e o empurrou para longe do cais com um pé só, saltando a bordo com a leveza de quem nasceu na água.

— Rafael Duarte — disse, sem estender a mão, apenas cravando os olhos nela por um segundo a mais do que o necessário, um segundo que Laura sentiria, muito mais tarde, ter sido o início de tudo. — Bem-vinda a Vento Sul, Dona Laura. Espero que a senhora dure mais que o verão.

— E por que eu não duraria?

— Cidade grande não costuma gostar do silêncio daqui depois que a novidade passa. — Ele deu partida no pequeno motor. — Boa sorte com a reforma. Vai precisar.

Ele partiu sem olhar para trás, o som do motor se afastando devagar pela água, deixando Laura parada na areia, o vento salgado bagunçando o cabelo que ela tinha alisado de manhã antes de sair de São Paulo, sentindo — pela primeira vez em muito tempo — algo que não era exaustão nem tristeza. Era raiva. Uma raiva boa, viva, que fazia o sangue correr depois de meses de um torpor cinzento que ela tinha confundido com normalidade.

— Vizinho simpático — comentou o motorista do caminhão, escondendo um sorriso.

— Um doce — respondeu Laura, sarcástica, já caminhando de volta para supervisionar a descarga.

Ela não sabia, ainda, que aquele mesmo homem seria dono da única marcenaria da cidade capaz de salvar as vigas podres do telhado da pousada. Não sabia que dois meses depois teria memorizado o formato exato das costas dele curvado sobre uma prancha de madeira, o jeito que ele franzia a testa quando estava concentrado, o som específico da risada dele quando finalmente, depois de muitas semanas, ela conseguisse arrancar uma de verdade. Não sabia de quase nada, na verdade, sobre a vida que estava prestes a começar naquela cidade minúscula na ponta do mapa — e talvez fosse melhor assim, porque se soubesse de tudo que viria pela frente, talvez não tivesse coragem de descer daquele carro alugado.

Os móveis foram descarregados ao longo da tarde inteira, o motorista e o ajudante dele suando sob o sol forte enquanto Laura tentava organizar, no meio do caos, uma lógica qualquer para onde cada caixa deveria ir. O sofá ficou provisoriamente no meio da sala, envolto em plástico bolha, parecendo tão deslocado ali quanto ela própria se sentia. Quando o caminhão finalmente partiu, já quase escurecendo, Laura ficou sozinha pela primeira vez dentro da casa que agora era sua — um silêncio grosso, diferente de qualquer silêncio que ela já tinha experimentado em São Paulo, onde mesmo de madrugada sempre havia o zumbido distante de trânsito, o latido de algum cachorro, a vida da cidade nunca parando de verdade.

Ali, o silêncio era interrompido apenas pelo mar, uma respiração constante e enorme que ela ainda não sabia decifrar — se era calmante ou apenas mais um lembrete do tamanho da solidão que ela tinha escolhido para si mesma. Sentou-se numa caixa de papelão, no meio da sala vazia, e chorou por um tempo que não soube medir, um choro que misturava exaustão física, saudade antecipada de uma vida que ela mesma tinha decidido abandonar, e um medo cru de ter cometido o maior erro da própria existência.

Foi o toque do celular, tocando insistentemente no bolso da calça, que a trouxe de volta. Marina, é claro, ansiosa por notícias.

— Chegou bem? Como é a casa? Me conta tudo.

— A casa é um desastre, Marina. Literalmente. E o único marceneiro da região me odeia antes mesmo de me conhecer direito.

— Só isso? — A voz de Marina soava genuinamente aliviada. — Achei que fosse coisa pior.

— É a primeira noite. Dá tempo pra piorar.

Elas riram juntas, um riso cansado mas real, e por alguns minutos Laura sentiu a distância entre São Paulo e Vento Sul encolher um pouco, como sempre acontecia quando conversava com a amiga. Depois de desligar, ela abriu uma das malas, tirou um lençol qualquer e um travesseiro, e dormiu ali mesmo, no chão da sala vazia, exausta demais para procurar o quarto entre as caixas — a primeira de muitas noites que passaria aprendendo, aos poucos, a fazer daquele lugar estranho um lar de verdade.

· · ·

Let jeneffer know what you thought about this chapter!
Love this

0

Love this

Funny

0

Funny

Spicy

0

Spicy

Suspenseful

0

Suspenseful

Emotional

0

Emotional

Profound

0

Profound

Heartwarming

0

Heartwarming

Shocking

0

Shocking

Good Writing

0

Good Writing

Compelling Plot

0

Compelling Plot

Great Character

0

Great Character

Strong Dialog

0

Strong Dialog

Further Recommendations

Silver's Second Chance

Clare: Loved the second chance mate story line. But loved even more the strong female lead. Would love to a mini fic of this couple a few years down the line.

Read Now
Buried Alive

Irene: Its the story revolves in the same kind of situation I was hoping abit more like the story of Jane's family, life of mx and Jane, like how is the relationship between Lynn and Caleb more. Probably first readers who are starting to have reading hobby, I feel it could be higher rating but honestly I w...

Read Now
Mystic Wolf

Shawna: I really enjoying reading this book, I read it twice back to back just in case I missed something lol. Mira & Devryan are actually perfectly fit one another, even when they tried to deny it. You could tell that he wanted her, human or mystic, he was just scared to admit it to himself. She was scared...

Read Now
Called by the Alpha

Just Luv Readin: Very interesting storyline. The author creates curiosity, intrigue, and suspense throughout the story. Great characters as well. I didn't want to stop reading once I started.

Read Now
The Grumpy Next Door

D: I loved reading every second of this book! I couldn't stop once I started!

Read Now
My Blacksmith Savior

Mieha: Nice story, it keep me interested to continue Reading. i don't feel bored at all. Good job!

Read Now
We Only Fake It on the Weekends

Raven : I loved everything about this! Stayed up way too late on a week day to finish it! Love love loved it! And fuck fake friends who want our sloppy seconds!!

Read Now
Marked By His Touch

Bettina: I didn't click on the love icon much because I was more wrapped up in the suspense side of the story. I do love Ava's writing and hope I get to read more of it! 😄

Read Now
My Horny Alien

Scarlett_xx_: This story was great! I loved the creativity with a different language and the names of the characters. I loved the bond between Zenaxor and Lily. If you like novellas that have spice but also romance and a heartwarming ending, I recommend this book to you. 5 stars!

Read Now