Um Novo Mundo
Eu estava voltando do trabalho, atravessando a rua, quando, de repente, um ônibus desgovernado me atropelou.
Eu nem senti a morte.
Só acordei em uma cama, com uma sensação estranha no corpo. Era como se tivesse despertado de um sonho.
Um sonho em um corpo que não era o meu.
— O que aconteceu? Onde estou? — pergunto, olhando ao redor.
A última coisa de que me lembro é do ônibus.
Então penso nos animes e nas histórias de isekai que assistia quando era adolescente.
"Como se isso fosse acontecer comigo, né? Hehe. Eu tenho 26 anos... Ou tinha, até ser atropelado."
Passo a mão pelo rosto e fico alguns segundos em silêncio.
Algo não fazia sentido.
— Se isso for mesmo um isekai... por que eu me lembro das memórias que esse corpo viveu?
Levanto-me devagar.
A primeira coisa que encontro é um espelho.
Caminho até ele e encaro meu reflexo.
Um garoto me encara de volta.
Cabelos, rosto, corpo... tudo diferente.
Pela aparência, eu devia ter uns dezesseis anos.
— Ainda estou na adolescência aqui. Isso é ótimo!
Pelo menos alguma coisa parecia estar a meu favor.
Olho ao redor.
As paredes eram simples, assim como os móveis de madeira. Não havia nada que eu reconhecesse como moderno. Nada de televisão, computador ou qualquer outra coisa que lembrasse o mundo de onde vim.
Abro a porta e saio.
Caminho por alguns corredores até encontrar outras pessoas. Algumas delas parecem trabalhar naquele lugar.
Um homem se aproxima de mim.
Assim que o vejo, sinto uma estranha familiaridade.
"Eu conheço esse cara?"
Talvez fosse alguma lembrança daquele corpo.
— Oi, Zaven. Como você está? — pergunta ele. — A propósito, uma das crianças mais novas foi adotada por alguns agricultores hoje.
Ele parece satisfeito com a notícia.
Paro por um instante.
"Então eu estou em um orfanato."
Olho ao redor.
"Mas o que aconteceu com meus pais?"
Talvez as memórias voltassem com o tempo. Ou talvez eu pudesse descobrir sozinho.
Perguntar diretamente poderia ser estranho.
— Logo, logo será a sua vez — continua o homem. — Eu sei que você não gosta muito da ideia depois do que aconteceu com seus... pais.
Ele hesita antes da última palavra.
Meu coração acelera.
Aquela palavra parece despertar alguma coisa.
"Espera..."
Forço a memória.
O rosto daquele homem.
O lugar.
O nome.
Kael.
"O nome dele é Kael. Ele trabalha aqui, acolhendo órfãos como eu."
As lembranças começam a se encaixar aos poucos.
E ele sabe o que aconteceu com meus pais.
Só preciso perguntar sem parecer estranho.
— A ideia é boa, só que ter outros pais seria estranho — respondo, tentando parecer natural.
— É melhor do que ficar aqui e depois ir para a rua aos dezoito, não é?
Ele sorri, tentando transformar aquilo em uma brincadeira.
"Não sei, talvez o orfanato seja melhor."
Pelo menos eu já sabia que poderia ficar ali por mais dois anos.
— Sim.
Sorrio de volta.
Por enquanto, era melhor não insistir.
Eu precisava entender aquele mundo primeiro.
Depois de sair do orfanato, começo a caminhar sem destino.
Quando finalmente chego à rua, paro.
Casas de madeira e pedra se espalham por todos os lados. As ruas não tinham nada de modernas. Algumas pessoas carregavam mercadorias, outras conversavam próximas às lojas.
Então vejo algo que me faz parar.
Uma pessoa usa magia.
Uma pequena chama surge na palma de sua mão.
"Então é verdade."
Não consigo evitar um sorriso.
"Eu realmente estou em um mundo de fantasia."
Olho ao redor com mais atenção.
"Se existe magia, preciso aprender como ela funciona. Mas, primeiro, preciso conseguir conhecimento. Provavelmente, livros seria o modo mais simples."
Livros.
Esse seria o meu primeiro objetivo.
Aproximo-me de alguns mercadores.
— Oi, boa tarde. Sabe me dizer onde posso encontrar uma biblioteca?
Um dos mercadores me encara dos pés à cabeça.
Olho para minhas próprias roupas.
"Ah. Ele está me julgando."
— Você sabe ler? Onde aprendeu? — pergunta ele, em tom de zombaria.
Antes que eu responda, ele continua:
— De qualquer forma, não quero perder tempo. Você pode encontrar livros na biblioteca da senhora Nyra, no centro.
— Muito obrigado.
Saio dali.
Dou alguns passos e paro.
"Espera."
Olho para os lados.
"Onde fica o centro?"
Suspiro.
— Não ajudou muito...
As memórias daquele corpo ainda estavam demorando para voltar.
Foi então que avistei duas garotas caminhando pela rua com livros nas mãos.
Olho para elas.
"Se elas estiverem indo para a biblioteca, talvez eu consiga encontrar o lugar."
Não era um plano muito elaborado.
Mas era melhor do que andar sem rumo.
Começo a segui-las de longe.
"Não sei como essas coisas funcionam neste mundo. Melhor manter distância. Não quero arrumar problemas por causa de algum mal-entendido."
Depois de alguns minutos, as garotas entram em um prédio.
Olho para a placa.
Biblioteca.
"Isso que é sorte."
Entro.
O interior era muito maior do que eu esperava.
Prateleiras cheias de livros ocupavam boa parte das paredes. Algumas pessoas estavam sentadas lendo em silêncio.
Vou até o balcão.
Uma senhora está organizando alguns papéis.
— Oi, boa tarde. Poderia me dizer se consigo algum livro sobre magia por aqui?
Ela levanta os olhos.
Por algum motivo, parece decepcionada.
— Vocês jovens só pensam em livros de magia.
Ela aponta para as prateleiras.
— Procurem livros sobre o passado. A história é a maior magia que existe.
Ela sorri, claramente empolgada com o próprio discurso.
— A propósito, meu nome é Nyra, caso não saiba.
— Prazer. Meu nome é Zaven.
"Talvez ela tenha razão."
Se eu queria entender aquele mundo, precisava conhecer sua história.
E talvez encontrasse alguma coisa sobre meus pais.
— Então, pode me mostrar algum livro sobre a história local?
Os olhos de Nyra brilham.
— Quer saber sobre a guerra? Os deuses? Os sete guerreiros da Guarda Real? Esse último é famoso entre o povo!
"Os sete guerreiros da Guarda Real..."
Isso chama minha atenção.
"Mas vamos começar pelo começo. Primeiro, a guerra."
— Vou optar pelos livros sobre a guerra.
Nyra desaparece entre as estantes.
Pouco depois, volta carregando cinco livros enormes.
Olho para eles.
"É nessas horas que eu lembro o quanto odeio ler."
Pego os livros mesmo assim.
Antes que eu consiga procurar um lugar para sentar, Nyra me interrompe.
— Como você é novo aqui, só pode levar um livro para casa. Mas, se quiser ler aqui, pode ficar à vontade.
— Tudo bem. Vou ler aqui por enquanto. Se gostar de algum, talvez leve para casa.
Ela sorri.
Procuro um lugar vazio e encontro uma mesa no fundo.
Coloco os livros sobre ela.
"Quanta gente..."
Olho ao redor.
"Pelo que vi até agora, essa biblioteca provavelmente é uma das melhores formas de conseguir conhecimento sem gastar muito. Ainda mais sem celular, computador ou energia elétrica."
Puxo o primeiro livro.
A Guerra dos Monstros — Volume 1.
Abro na primeira página.
"A guerra começou com a invasão de uma rainha que controlava monstros, golens e dragões."
"Primeiro, os dragões atacaram os muros, os portões e os postos de vigia. Depois, os golens avançaram, seguidos pelos monstros."
Alguns eram enormes.
Outros eram pequenos e rápidos.
Havia criaturas capazes de lançar fogo e até magia das trevas.
"Nossas tropas estavam sendo dizimadas. A invasão já havia chegado à cidade."
Então o rei chamou três dos sete guerreiros da Guarda Real.
O primeiro que chamou minha atenção foi o número 6.
Ele usava um arco.
Atacava de longe, e suas flechas invocavam raios e trovões. Algumas atravessavam os próprios golens.
"Esse cara é praticamente uma artilharia ambulante."
Continuei.
A guerreira número 4 era uma maga.
Ela voava sobre o campo de batalha e combinava várias magias ao mesmo tempo.
Invocava bolas de fogo do céu e controlava cada uma delas, direcionando-as para os dragões sem atingir os próprios soldados.
Além disso, criava enormes barreiras para impedir o avanço do exército inimigo.
"Isso é absurdo."
Mas então cheguei ao número 3.
Parei de ler por alguns segundos.
Ele não usava espada.
Não usava arco.
Não parecia depender de grandes magias.
Usava apenas um bastão.
"Um bastão?"
Continuei lendo.
O guerreiro lutava no campo de batalha, avançando contra monstros, golens e outras criaturas.
Seus golpes eram fortes e precisos. Ele alternava ataques leves e pesados, destruindo os inimigos sem desperdiçar movimentos.
Então cheguei à descrição de uma de suas técnicas.
"O guerreiro se posicionava como uma rocha, segurando o bastão com uma única mão."
"Concentrava toda a sua força..."
"E então lançava a arma."
O bastão atravessava tudo em seu caminho.
Muros.
Monstros.
Golens.
Quando chegava ao limite de seu alcance, o guerreiro ordenava seu retorno.
A arma girava no ar e voltava para suas mãos, atingindo tudo novamente pelo caminho.
Fecho o livro por alguns segundos.
"Isso foi muito mais interessante do que eu esperava."
Olho para o bastão que o guerreiro segurava na ilustração.
"Ele realmente lutava usando só isso?"
E mais uma coisa que sinto uma vontade genuína de aprender alguma coisa.
Essa técnica de lançar o bastão.
Volto a ler.
Quando termino o livro, já estou cansado.
Fecho a capa e me recosto na cadeira.
"Esses guerreiros estão em outro nível."
O número 3, principalmente.
"Eu queria aprender a lutar daquele jeito. Mas alguém como eu, um órfão, provavelmente nunca teria acesso a um treinamento desses."
Olho para o segundo volume.
"Talvez amanhã."
Levanto-me e volto ao balcão.
Nyra recebe os livros.
— Vou fazer o contrato com o símbolo para devolução — explica ela.
"Então existe um sistema mágico para controlar os empréstimos."
Faz sentido.
Sem algum tipo de garantia, qualquer pessoa poderia simplesmente levar os livros e nunca devolvê-los.
Nyra faz algumas marcas e coloca um símbolo mágico no segundo livro.
— Como é sua primeira vez aqui, vou explicar como funciona. O contrato dura cinco dias. Até lá, você deve devolver o livro.
Ela faz uma pausa.
— Se passar do prazo, teremos que te prender...
Arregalo os olhos.
Nyra segura o riso.
— Brincadeira.
— O símbolo mágico fará com que você seja teleportado de volta para a biblioteca assim que o contrato expirar. Porém, haverá uma multa de quatro moedas de bronze pelo atraso e outras cinco ou mais, dependendo do estado do livro. Ele deve ser devolvido exatamente como foi entregue. Entendeu?
— Sim. Devolver em perfeitas condições dentro do prazo.
— Exatamente.
Pego o livro.
— Obrigado.
Depois de me despedir, saio da biblioteca e começo o caminho de volta.
O céu já estava começando a escurecer.
Eu caminhava de volta para o orfanato quando percebi uma escadaria de pedra que subia pela lateral de uma montanha.
Olho para cima.
"Onde isso vai dar?"
Minha curiosidade vence.
Começo a subir.
Depois de algum tempo, encontro uma pequena casa de madeira.
Antes que eu consiga me aproximar, a porta se abre.
Um homem velho sai.
Ele devia ter uns cinquenta anos.
Assim que percebe minha presença, olha para mim.
— Oi, garoto. O que procura aqui?
Ele dá de ombros.
— Bom, não é da minha conta.
O tom é simpático.
— Eu estava passando em frente à montanha e decidi subir por curiosidade.
Quem é você?
O homem sorri.
— Sou Hank. Já estou aposentado há algum tempo. Nasci aqui, mas me mudei para a montanha depois da guerra. E você?
"Um homem aposentado morando sozinho no alto de uma montanha."
Olho para a casa.
"Até que parece um bom lugar para viver."
— Eu sou Zaven. Também sou daqui. Moro no orfanato, alguns passos antes da montanha.
Espero que ele não pergunte sobre meus pais.
"Se perguntar, teria problemas."
Hank me observa por alguns segundos.
Seu sorriso desaparece.
— Acho que já vi seu rosto em algum lugar.
Ele estreita os olhos.
— Talvez algum parente seu. Qual é o seu sobrenome? Desculpe perguntar.
"Meu sobrenome..."
Por algum motivo, não consigo lembrar.
Forço a memória.
Nada.
Então, depois de alguns segundos, uma palavra surge.
— Yxer.
Hank fica imóvel.
— Yxer...?
— Por quê?
O homem abaixa um pouco a cabeça.
Quando volta a olhar para mim, há algo diferente em seu rosto.
— Eu conheci seus pais.
Meu coração acelera.
— Eles lutaram comigo durante a guerra.
Silêncio.
— Eram ótimas pessoas — continua Hank. — E guerreiros ainda melhores.
"Então é verdade."
Finalmente encontrei alguém que os conhecia.
— O que aconteceu com eles?
Hank respira fundo.
— Seu pai lutou muito bem. Sua mãe também.
Ele olha para longe.
— Mas o inimigo era forte demais.
Minha garganta seca.
— Pena que eu não cheguei a tempo.
Fico em silêncio.
Então uma lembrança vaga surge em minha mente.
Uma mulher sorrindo.
Um homem segurando alguma coisa.
E depois... nada.
— Então você realmente conheceu eles?
Hank assente.
— Conheci.
— A morte deles foi triste — digo. — Eles mereciam mais.
Hank me encara.
— Bons guerreiros deveriam poder voltar para suas famílias. E também ter uma boa comemoração pelos seus feitos.
Ele sorri de leve.
— Concordo.
Depois solta uma pequena risada.
— Uma boa cerveja...
Por um instante, parece esquecer a tristeza.
— Embora sua mãe não gostasse quando seu pai bebia. Ela ficava emburrada.
Não consigo evitar um pequeno sorriso.
Olho para o céu.
Já estava ficando tarde.
"Droga. Esqueci que agora sou um adolescente. Se eu chegar muito tarde no orfanato, provavelmente vou ter problemas."
— Desculpe, mas preciso voltar para o orfanato.
Dou alguns passos.
— Amanhã eu volto. Quero saber mais sobre meus pais.
Hank sorri.
— Pode voltar.
Então ele cruza os braços.
— Mas, se realmente quer saber sobre seus pais, vai precisar treinar comigo.
Paro.
— Treinar?
Hank sorri.
— Acho que você pode se tornar um bom guerreiro.
Ele faz uma pausa.
— Assim como seus antecessores.
Olho para a varanda.
Um bastão de madeira está encostado na parede.
"Então é com isso que ele pretende me treinar?"
Sorrio.
Talvez valha a pena voltar amanhã.








