Capítulo 1: As Cinzas do Sangue
A fuligem de Minópolis tinha gosto de ferro velho e gordura queimada.
Doze anos de idade e Aveline já sabia que a cidade tinha duas peles: o mármore polido e aquecido por caldeiras subterrâneas da mansão Lorrain, onde os nobres ceavam perdizes regadas a vinho do Sul, e a carcaça de carvão e fumaça dos cortiços lá embaixo, onde os escravos e os bastardos tossiam sangue nas valas.
Minópolis era uma cidade construída sobre o próprio ventre da montanha.
Os nobres chamavam-na de "a joia do carvão", mas a verdade era mais crua: a cidade inteira respirava através das minas que a sustentavam. No alto, os bairros aristocráticos pendiam das encostas como ninhos de águia, com mansões de mármore aquecidas por caldeiras subterrâneas e jardins de inverno onde flores exóticas do Sul desabrochavam sob cúpulas de vidro. Lá embaixo, na garganta escura onde o sol nunca alcançava, os cortiços dos mineradores e dos escravos se amontoavam em camadas de madeira podre e fuligem, cortados por vielas onde a neve nunca ficava branca.
Entre os dois mundos, subia e descia, dia e noite, a engrenagem infinita das fundições: guindastes de ferro, cabos de aço, carvão queimando em fornalhas que nunca apagavam. O vapor das chaminés cobria o céu de Minópolis com uma manta cinzenta que cheirava a enxofre e a dinheiro.
A mansão Lorrain dominava o ponto mais alto da cidade, cravada na rocha como uma coroa de pedra e ferro. Ali, Aveline crescera entre dois mundos que se odiavam: o luxo gelado do salão nobre e o desprezo silencioso dos corredores de serviço, onde os criados baixavam os olhos quando ela passava — não por respeito, mas porque sabiam exatamente o que ela era.
Uma bastarda. Uma mancha no brasão. Uma peça que Alistair Lorrain mantinha no tabuleiro apenas porque descartá-la custaria mais caro do que tolerá-la.
O salão de refeições da mansão Lorrain era uma sala comprida e fria, iluminada por candelabros de prata e aquecida por um único braseiro que nunca dava conta do tamanho do recinto. As paredes de pedra eram cobertas por tapeçarias escuras retratando as vitórias da Casa Lorrain nas guerras do carvão — homens de armadura pisando sobre corpos queimados, estandartes erguidos sobre cidades em ruínas.
Alistair Lorrain presidia a mesa como um rei diante de súditos que desprezava. Era um homem alto, de cabelos grisalhos penteados para trás e olhos de um castanho-escuro que pareciam pesar cada moeda antes de gastá-la. Vestia sempre o veludo carmesim do norte bordado com fios de prata, o uniforme de quem governava pelo medo e pela contabilidade. Ele não olhava para os filhos como olhava para os livros de carga; os livros, ao menos, tinham valor calculável.
À sua direita, Lady Vivienne mantinha a postura impecável de uma nobre de Capitolium. Era uma mulher de beleza fria e envelhecida com elegância, o rosto esculpido em uma expressão de tédio aristocrático que raramente se quebrava. Ela não amava Alistair — Aveline aprendera isso cedo, lendo nas entrelinhas das discussões abafadas que atravessavam as paredes do gabinete. Vivienne amava o título, a posição e o poder que o casamento lhe garantia. O marido era apenas o preço que ela pagava por isso.
E, no extremo oposto da mesa, encolhido sobre o prato como um animal acuado, estava Garret.
Seu irmão gêmeo era a imagem invertida de tudo o que Aveline odiava na mansão: a fraqueza que se escondia atrás da covardia, a crueldade pequena dos que não têm coragem. Garret tinha os mesmos cabelos escuros e os mesmos olhos, mas neles não havia fogo — apenas o brilho opaco de quem aprendeu a sobreviver rastejando. Ele picava a comida com o garfo sem comer, os dedos tremendo, o olhar fugindo de qualquer contato.
— A menina não come — observou Vivienne, sem levantar os olhos do prato, a voz arrastada e indiferente. — Vai definhar antes de ser útil a alguém.
— Ela come quando eu mandar — respondeu Alistair, sem olhar para ninguém. — E não será útil a ninguém além de mim.
Aveline manteve o rosto neutro. Aprendeu cedo que naquela mesa qualquer emoção era uma fraqueza que podia ser explorada. Ela cortou o pão em pedaços pequenos, levou um à boca, mastigou devagar. O gosto era de cinza.
Foi então que a porta do salão se abriu, e o ar mudou.
Adrian Valoris entrou na sala de refeições da mansão Lorrain como quem entra em território conquistado — com um sorriso fácil e a confiança de quem nunca precisou lutar por nada.
Tinha catorze anos, dois a mais que Aveline, mas carregava-se com a postura de um homem feito. Era alto para a idade, de ombros largos e cabelos castanhos claros que caíam em ondas sobre a testa, e vestia as roupas finas do Sul — um gibão de veludo azul-escuro bordado com o brasão da Casa Valoris: um sol nascente sobre um campo de trigo. Seus olhos eram de um verde claro e quente, e neles brilhava uma curiosidade sincera que destoava de tudo o que a mansão Lorrain tinha a oferecer.
A Casa Valoris era uma das grandes famílias mercantes do Sul, dona de vinhedos, estaleiros e metade das rotas comerciais que ligavam o Império ao mar. Não eram guerreiros nem inquisidores; eram negociantes, e negociavam com tudo — inclusive com casamentos.
Aquele era o propósito de Adrian em Minópolis.
— Lorde Lorrain — cumprimentou o jovem, inclinando a cabeça com uma cortesia perfeita que não chegava a ser submissa. — Lady Vivienne. Que a casa de vocês prospere.
— Sente-se, menino — grunhiu Alistair, sem se levantar. — Sua comitiva chegou ontem à noite. Espero que as estradas do Sul tenham sido generosas.
— Generosas o bastante para trazer presentes — respondeu Adrian, tomando assento à mesa com uma naturalidade que irritou Alistair visivelmente. — Meu pai envia seus cumprimentos e uma caixa de vinho de Valoria. Diz que é o melhor da safra.
— Vinho não paga dívidas — cortou Alistair. — Mas vamos ao que interessa. Você veio ver a menina.
Adrian virou-se para Aveline, e pela primeira vez seus olhos verdes encontraram os dela.
Aveline sustentou o olhar sem piscar. Ela sabia o que era aquele encontro. Sabia o que significava a presença de um herdeiro da Casa Valoris na mesa de seu pai. Um contrato. Uma aliança. Uma moeda de troca com rosto e sangue.
E, no fundo do peito, onde guardava o ódio como um tesouro, ela viu a oportunidade.
— Então essa é a famosa Aveline — disse Adrian, com um sorriso que não tinha malícia. — Me disseram que você era bonita. Não me disseram que tinha olhos de tempestade.
Aveline baixou os olhos com uma modéstia ensaiada, deixando um fio de cabelo cair sobre o rosto. Quando os ergueu de novo, havia neles um brilho que ela aprendeu a ligar e desligar à vontade — o brilho de quem está sinceramente encantada.
— E me disseram que o herdeiro de Valoris era um homem — respondeu ela, com um sorriso pequeno e provocador. — Não me disseram que era um homem que sabe elogiar uma dama.
Alistair franziu o cenho, desconfiado da familiaridade. Vivienne ergueu uma sobrancelha, estudando a menina com um interesse novo.
Adrian riu, um som aberto e caloroso que ecoou estranho na sala fria.
— Gosto dela — declarou ele, virando-se para Alistair. — Meu pai quer a aliança. Eu quero... bem, eu quero ver se ela é tão afiada quanto dizem.
— Ela é afiada demais para o próprio bem — resmungou Alistair. — Mas se a Casa Valoris quer a menina, a menina tem um preço. Discutiremos os termos amanhã.
Aveline manteve o sorriso no lugar enquanto o ódio fervia por baixo. Um preço. Era assim que o pai a via. Um preço a ser negociado, como o carvão, como as minas, como tudo o mais.
Mas ela também viu algo nos olhos de Adrian que Alistair não viu: uma centelha de genuína curiosidade, quase de admiração. E Aveline sabia, com a certeza fria de quem aprendeu a sobreviver naquela casa, que a admiração era a alavanca mais fácil de todas.
Nos dias seguintes, Aveline cultivou Adrian como se cultiva uma planta rara — com paciência, com cuidado, e com a mão firme de quem sabe exatamente onde quer que as raízes cresçam.
Ela o encontrava nos jardins de inverno, fingindo passear ao acaso. Mostrava-lhe os cantos da mansão que os criados escondiam dos visitantes, contava histórias das minas com um brilho nos olhos que fazia o jovem rir. Aprendera cedo que Adrian Valoris não era como os outros nobres do Sul — não se impressionava com riqueza nem com títulos, porque tinha os dois de sobra. O que o impressionava era a coragem, a inteligência, o fogo.
E Aveline tinha fogo de sobra.
— Você não é como eles — disse Adrian certa tarde, encostado na balaustrada do jardim, observando-a com uma expressão séria que raramente lhe aparecia. — Os outros daqui. Você não se curva.
— Curvar-se é para quem tem algo a perder — respondeu Aveline, olhando para o vale de fumaça lá embaixo. — Eu não tenho nada.
— Tem a si mesma.
Aveline virou-se para ele, e por um instante o sorriso ensaiado vacilou. Havia algo naquela frase, naquele olhar, que a desarmava de um jeito que ela não gostava.
— E o que você faria — perguntou ela, baixando a voz — se tivesse apenas a si mesma, e quisesse mais?
Adrian a estudou por um longo momento. O vento frio agitou seus cabelos castanhos.
— Eu encontraria alguém que me ajudasse a conseguir — respondeu ele, com uma seriedade que não combinava com o sorriso fácil que costumava usar. — E eu pagaria bem por isso.
Aveline sorriu. Um sorriso verdadeiro, desta vez, embora ela não soubesse dizer por quê.
— Então talvez você seja mais esperto do que parece, Adrian Valoris.
A fachada do noivado foi montada com a precisão de um tratado comercial.
Alistair e os emissários da Casa Valoris assinaram os termos numa tarde de neve: Aveline seria prometida a Adrian quando completasse idade suficiente para o casamento, e em troca a Casa Lorrain receberia acesso às rotas comerciais do Sul e uma soma em ouro que Alistair já contava mentalmente antes mesmo de a tinta secar.
Aveline, por sua vez, desempenhou o papel de noiva prometida com uma habilidade que surpreendeu até a si mesma. Sorria nos banquetes, dançava nos salões, segurava a mão de Adrian diante dos convidados com uma naturalidade que fazia os criados cochicharem sobre o "romance" entre a bastarda e o herdeiro do Sul.
Mas, a portas fechadas, o jogo era outro.
— Você não quer se casar comigo — disse Adrian, numa noite, quando se encontraram a sós no jardim de inverno, longe dos ouvidos da mansão. A voz dele não tinha acusação, apenas uma curiosidade calma.
Aveline parou. Por um instante, o sorriso ensaiado hesitou.
— Por que diz isso?
— Porque eu não sou tolo — respondeu ele, encarando-a com aquela seriedade que aparecia quando ninguém mais estava olhando. — Você é boa em fingir, Aveline. Muito boa. Mas eu cresci numa corte de negociantes. Sei reconhecer um trato quando vejo um.
Aveline sustentou o olhar por um longo momento. O vento frio agitou seus cabelos escuros.
— E se eu disser que você está certo? — perguntou ela, baixando a voz. — Que eu não quero me casar com você, nem com ninguém, e que estou apenas esperando o momento certo para fugir desta casa?
Adrian não recuou. Em vez disso, um sorriso lento e cúmplice curvou seus lábios.
— Então eu diria que você é mais esperta do que eu pensava — respondeu ele. — E que talvez eu possa ajudar.
Aveline franziu o cenho, desconfiada.
— Por que ajudaria? Você não ganha nada com isso. Seu pai quer a aliança.
— Meu pai quer a aliança — concordou Adrian, dando um passo mais perto. — Mas eu não sou meu pai. E eu não quero me casar com uma mulher que me odeia, nem com uma mulher que finge me amar. Quero... bem, quero algo real, um dia. E você não é real aqui, Aveline. Você é uma peça num tabuleiro que não escolheu.
Ele estendeu a mão, e Aveline, por um instante, não soube o que fazer com ela.
— Eu te ajudo a fugir — disse Adrian, com uma firmeza que não admitia dúvida. — Quando você quiser. Mas me prometa uma coisa.
— O quê?
— Quando você estiver livre — respondeu ele, com um sorriso que tinha algo de triste —, lembre-se de que houve alguém no Sul que a deixou ir.
Aveline olhou para a mão estendida. O vento frio uivava entre as estátuas de mármore do jardim.
Ela apertou a mão dele.
— Eu me lembrarei — disse ela, e pela primeira vez em muito tempo, não estava fingindo.
Naquela noite, depois que Adrian se despediu e a mansão mergulhou no silêncio, Aveline desceu a encosta em direção ao beco das Costureiras, com o plano de fuga já formado na cabeça e a certeza de que precisava de mais do que a própria coragem para sair viva de Minópolis.
Ela desceu o declive da Rua dos Caldeireiros com passos rápidos e silenciosos. O calçamento de pedra estava coberto por uma crosta escorregadia de gelo negro e cinza fóssil. No fundo da garganta da cidade, onde as chaminés imperiais despejavam fumaça espessa que tapava as estrelas, ficava o beco das Costureiras.
O casebre de madeira podre e lona encerada cheirava a banha rançosa e chá de agulhas de pinheiro.
Aveline bateu três vezes na porta torta — dois toques curtos, uma pausa, um toque firme. O trinco de madeira rangeu.
— Menina... — A voz de sua mãe, Maria, soou em um suspiro rouco no escuro.
Os braços magros e calejados puxaram Aveline para dentro, fechando a tranca imediatamente. Um candeeiro de azeite tremeluzia sobre uma mesa de tábuas toscas, iluminando pilhas de casacos de couro rasgados que Maria remendava para os estivadores das minas.
— Eu disse para não descer a encosta esta noite — sussurrou Maria, as mãos ásperas segurando o rosto gelado da filha. Seus olhos castanhos, fundos pelas noites sem dormir, examinavam cada centímetro da garota. — Os guardas da Inquisição dobraram as rondas nas fornalhas. Alistair vai notar sua ausência.
— Ele não nota nada além dos livros de carga — respondeu Aveline, tirando de dentro da túnica um pedaço de queijo seco e pão de centeio enrolados em pano limpo. — Coma. Você mal tocou no caldo da semana passada.
Maria olhou para a comida com um sorriso cansado, a dor pesando nos cantos dos lábios rachados pelo frio. Ela fora jogada fora por Alistair no dia em que o ventre pariu uma menina bastarda em vez de um herdeiro legítimo. Alistair ficara com a criança apenas para manter as aparências de senhor benevolente, mas empurrara Maria para a sarjeta com duas moedas de cobre e a promessa de uma forca caso ousasse pisar no pátio nobre.
— Você precisa parar de arriscar o pescoço por mim, Ave — disse a mulher, quebrando o pão com dedos trêmulos. No pescoço ossudo de Maria, pendia um cordão de couro cru com três pequenas contas de pedra lilás, lapidadas de forma bruta, que emitiam um brilho fosco sob a penumbra. — Seu pai não tem piedade. Nunca teve.
— Eu não tenho medo dele.
— Deveria ter. O medo mantém as pessoas vivas nesta montanha.
O estalo do tabuado lá fora cortou a conversa.
Aveline congelou. Seus sentidos, aguçados por anos de desconfiança na mansão Lorrain, captaram apenas o som arrastado de botas pesadas sobre a lama congelada.
Uma pancada estrondosa fez a porta de madeira estalar.
— Abra essa pocilga! — rugiu uma voz grossa, pastosa de aguardente e arrogância.
Maria empurrou Aveline para trás da cortina de sacaria que escondia o canto da palha.
— Não faça barulho — sussurrou a mulher, o olhar tomado por um pânico agudo. — Fique onde está.
Antes que Aveline pudesse responder, a porta cedeu sob um chute violento. A madeira podre partiu-se na altura do ferrolho, e três homens invadiram o casebre com o bafo fétido do álcool e capas de veludo forradas com pele de raposa. Eram nobres menores das casas de carvão, jovens fidalgos que desciam aos cortiços após a meia-noite para caçar diversão entre os desesperados.
O mais alto deles, com o casaco entreaberto e uma garrafa de vidro escuro na mão, cuspiu no chão de terra batida.
— Olha só o que encontramos... a costureira do velho Lorrain. Disseram na taverna que você ainda sabe como agradar um homem de posses.
— Saiam daqui — disse Maria, a voz firme apesar do peito arfando. Ela recuou um passo em direção à mesa de trabalho. — Não há nada para vocês nesta casa.
— Nós decidimos o que há ou não — rosnou o segundo homem, avançando com uma risada rouca e agarrando Maria pelo ombro. O tecido fino do vestido rasgou com um estalo seco.
Aveline não pensou. O corpo agiu antes da mente. Ela irrompeu de trás da cortina com um pedaço de lenha pesada nas mãos e desferiu o golpe na têmpora do agressor. O impacto ecoou no casebre, fazendo o homem tropeçar de joelhos com um berro de dor.
O líder do grupo virou-se, os olhos injetados fitando a garota de doze anos. Um sorriso asqueroso repuxou seus lábios.
— Ora, ora... um filhote selvagem. Vamos ver se tem a mesma raça da mãe.
O homem avançou com a velocidade de um predador, agarrando Aveline pelos pulsos com dedos de ferro e jogando-a contra o chão de terra batida. A cabeça de Aveline bateu contra o pé da mesa, enchendo sua visão de faíscas brancas. O peso do homem esmagou suas costelas enquanto as mãos sujas rasgavam a gola de sua túnica de lã.
— Larga ela! — gritou Maria.
A mulher saltou da penumbra. Na mão direita, brilhava a adaga curta de desossar couro. Num movimento cego e desesperado para salvar a filha, Maria cravou a lâmina inteira na lateral da garganta do nobre.
O som foi um gorgolejo úmido e asfixiado. O sangue arterial espirrou quente e grosso, pintando o chão e a parede de tábuas de vermelho escuro. O homem soltou Aveline, levou as duas mãos ao pescoço aberto e tombou de lado, debatendo-se em espasmos violentos enquanto a vida escorria pela terra.
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo.
— Sua vadia imunda! — berrou o terceiro nobre, puxando a espada curta da bainha.
O que se seguiu foi um massacre covarde. Os dois homens restantes avançaram sobre Maria com murros e pontapés de botas ferradas. Aveline tentou rastejar, arranhando as pernas dos agressores, mas uma bota pesada acertou em cheio o seu estômago, dobrando seu corpo sem ar no chão. Ela assistiu, em agonia e impotência, Maria ser espancada até a madeira da mesa se partir e a mulher perder a consciência em uma poça de sangue e dentes quebrados.
O apito de metal estridente da guarda urbana rasgou a noite na ruela.
Quatro soldados com cotas de malha e estandartes do Império invadiram a choupana com alabardas em riste. Diante do corpo do nobre morto no chão e dos dois fidalgos ensanguentados gritando ordens de prisão, os guardas não fizeram perguntas. Amarraram os braços de Maria com cordas de cânhamo e arrastaram a mulher desacordada pela lama, enquanto dois soldados erguiam Aveline pelos cabelos e a empurravam aos pontapés para fora do cortiço.
A praça da forja de Minópolis fedia a fuligem fria e ferro oxidado.
O sol cinzento mal despontava por trás das colunas de fumaça das chaminés quando o palanque de madeira escura foi cercado por uma multidão silenciosa de mineradores e capatazes armados.
Aveline estava de joelhos na primeira fila, contida por dois guardas que pressionavam suas alabardas contra seus ombros machucados. A dor em suas costelas pulsava a cada respiração, mas seus olhos negros estavam cravados no topo do tablado.
Lá em cima, impecável em sua capa de veludo carmesim bordada com fios de prata, estava Alistair Lorrain. Ao lado dele, os nobres da casa do falecido exigiam reparação e sangue.
Alistair não hesitou um único instante. Não houve julgamento, não houve testemunhas. Para manter o monopólio das caldeiras e a simpatia da aristocracia imperial, ele ergueu a mão enluvada e proferiu a sentença em voz alta e gélida:
— Que o assassinato de um fidalgo pelas mãos de uma escória rebelde receba a única resposta que a lei do Império reconhece: a morte pela lâmina.
Dois carrascos arrastaram Maria até o cepo de carvalho. A mulher mal conseguia manter o tronco ereto, o rosto inchado e desfigurado pelos golpes da madrugada. Seus olhos mal abertos procuraram a multidão até encontrarem Aveline. Não havia medo naqueles olhos, apenas uma dor profunda e um sussurro sem som que moldou os lábios partidos: Viva.
— Mãe! Não! — gritou Aveline, projetando o corpo para a frente.
A coronhada de ferro do guarda acertou suas costas, jogando-a com a boca na lama congelada.
O carrasco ergueu o machado largo de ferro fundido. O arco de aço desceu em um silvo seco.
O golpe decepou o pescoço de Maria com um estalo surdo de osso partido.
A cabeça rolou pelo tablado de tábuas e despencou na borda da vala, a poucos passos de Aveline. O sangue arterial, viscoso e fervente, espirrou no ar gélido da manhã e atingiu em cheio o rosto da menina de doze anos.
O calor daquele sangue escorrendo por sua testa, por sua bochecha esquerda e colando seus cílios queimou mais do que qualquer brasa viva.
Aveline não gritou mais. O som morreu em sua garganta, substituído por um vazio glacial que congelou cada fibra de seu corpo. Ela rastejou pela lama ensanguentada, os guardas rindo enquanto a viam se esticar. Seus dedos pequenos e cobertos de fuligem fecharam-se sobre o chão onde o colar arrebentado de sua mãe repousava: ela recolheu as três pedras lilases soltas e as enfiou no fundo do bolso da túnica, apertando-as com tanta força que os cantos pontiagudos cortaram a pele de sua palma.
O retorno à mansão Lorrain foi um túnel de sombras.
Aveline foi arrastada pelos guardas até o salão principal do castelo, os pés descalços raspando no mármore frio, o rosto ainda manchado pelas crostas escuras do sangue de sua mãe. Os criados baixaram os olhos quando ela passou; ninguém ousou olhar para a bastarda que trouxera a desgraça para a casa.
Alistair Lorrain esperava por ela no centro do salão, de pé diante da lareira apagada, com as mãos cruzadas atrás das costas. O veludo carmesim de sua capa absorvia a pouca luz dos candelabros, e seus olhos cinza-escuros pesavam sobre a filha como chumbo fundido.
Os guardas soltaram Aveline, e ela caiu de joelhos no mármore.
— Você — disse Alistair, a voz baixa e cortante, sem nenhuma emoção. — Você desceu aos cortiços. Você provocou a morte de um fidalgo. Você trouxe a Inquisição para as portas da minha casa.
Aveline ergueu o queixo, os olhos negros cravados no pai sem pestanejar.
— Ela era minha mãe.
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo.
Então Alistair avançou. A mão enluvada bateu na mesa de carvalho com uma violência que fez os candelabros tremerem e as taças de cristal tilintarem.
— Cansei! — rugiu ele, a voz finalmente explodindo em fúria. — Cansei dessa miserável! Você vai pagar por causa dela, entendeu? Por causa dessa costureira da lama que pariu uma aberração e achou que podia manchar o nome da Casa Lorrain!
Aveline não recuou. O medo, que aprendera a engolir como engolia o pão seco, não apareceu em seu rosto.
— E como castigo — continuou Alistair, baixando a voz até um sussurro venenoso — você vai sentir o sangue dela jorrar em cima de você. Vai sentir o cheiro, o gosto, o peso da vida dela escorrendo pela sua pele. E vai saber que foi você quem a matou. Foi a sua desobediência que colocou a cabeça dela no cepo.
Aveline sentiu o sangue da mãe, ainda seco em sua bochecha, queimar como brasa viva sob o olhar do pai.
— Leve-a para os aposentos dos fundos — ordenou Alistair aos guardas. — E que fique sob a vigília do herdeiro de Valoris. Ele que assuma a responsabilidade pela noiva prometida. Se ela fugir, a culpa será dele.
O quarto dos fundos era uma cela disfarçada de aposento: paredes de pedra nua, uma cama estreita de palha e uma única janela gradeada que dava para o pátio interno. Aveline foi empurrada para dentro, e a porta de carvalho se fechou atrás dela com um baque pesado.
Ela não estava sozinha.
Adrian Valoris estava sentado numa cadeira junto à janela, com as pernas cruzadas e os braços apoiados nos joelhos. A luz fraca de uma vela desenhava sombras em seu rosto, e seus olhos verdes a estudavam com uma expressão que Aveline não soube decifrar.
— Então foi assim que terminou — disse ele, com uma calma que não combinava com a situação. — A noiva prometida, trancada como um animal.
Aveline não respondeu. Ela se encostou na parede oposta, mantendo distância, os olhos cravados nele.
Adrian se levantou devagar. Deu um passo em direção a ela, depois outro, até ficar a poucos palmos de distância. O cheiro de vinho e perfume do Sul o envolvia.
— Você sabe — disse ele, baixando a voz — que eu poderia fazer qualquer coisa com você agora. Ninguém entraria. Ninguém me impediria. Você é minha prometida, afinal. E talvez já esteja na hora.
Aveline sentiu o coração disparar, mas não deixou que o medo aparecesse em seu rosto. Em vez disso, ergueu o queixo e deixou um sorriso lento e provocador curvar seus lábios — o sorriso que aprendera a usar como arma.
— Claro que poderia — disse ela, a voz baixa e doce. — Você é forte, Adrian. E eu sou apenas uma garota trancada num quarto. Mas me diga uma coisa... você quer uma esposa que te obedeça por medo, ou uma que te escolha por vontade própria?
Adrian parou. Os olhos verdes se estreitaram, estudando-a.
— E o que você quer dizer com isso?
— Eu quero dizer — respondeu Aveline, dando um passo à frente, aproximando-se dele com uma coragem que não sentia — que se você me ajudar a sair daqui, um dia eu vou me lembrar de você. Não como o homem que me prendeu, mas como o homem que me libertou. E isso vale mais do que qualquer noite que você pudesse tomar de mim agora.
Adrian a encarou por um longo momento. O vento frio agitou os cabelos castanhos dele, e algo mudou em seu olhar — a tensão de predador cedeu lugar a uma curiosidade genuína.
— Você é perigosa, Aveline — disse ele, com um sorriso que não alcançava os olhos. — Sabe usar as palavras como se fossem lâminas.
— Aprendi com os melhores — respondeu ela. — Cresci nesta casa.
Adrian soltou um riso baixo, quase admirado. Ele deu um passo para trás, afastando-se, e a tensão no quarto diminuiu.
— Alistair vai querer puni-la — disse ele, a voz séria. — Ele não vai deixar isso passar. Mas eu posso abrir uma brecha para você escapar. Quando ele mandar te trancar de novo, eu estarei lá.
Aveline o encarou, procurando o engano em seus olhos. Não encontrou.
— Por que faria isso? — perguntou ela. — Você acabou de dizer que poderia me tomar à força. Por que me deixar ir?
— Porque você tem razão — respondeu Adrian, com uma sinceridade que a surpreendeu. — Eu não quero uma esposa que me obedeça por medo. E você... você não é feita para jaulas, Aveline. Você é feita para tempestades.
O castigo veio na manhã seguinte, como Adrian previra.
Alistair mandou trancar Aveline na torre dos fundos, sem comida e sem fogo, até que ele decidisse o que fazer com ela. Os criados sussurravam que o lorde estava negociando com a casa do fidalgo morto, e que a vida da bastarda valia menos do que o ouro que ela custava.
Aveline passou dois dias na cela fria, contando as horas pelas sombras que atravessavam a janela gradeada. No terceiro dia, o ranger da fechadura a fez erguer os olhos.
Adrian entrou, com um molho de chaves na mão e um fardo de provisões sob o braço.
— Está na hora — disse ele, baixinho. — Desça pelos corredores de serviço até a adega. Eu estarei lá esperando por você.
Aveline se levantou, as pernas fracas pela fome, mas os olhos firmes.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela. — Você arrisca tudo. Seu pai, a aliança, sua posição...
— Eu já te disse — respondeu Adrian, entregando-lhe o fardo. — Eu não quero me casar com uma peça de xadrez. E você não é uma peça, Aveline. Você é uma tempestade. E tempestades não ficam presas em jaulas.
Ele a encarou por um longo momento, e havia algo nos olhos verdes dele que Aveline não soube nomear — uma mistura de admiração e de uma tristeza que não combinava com o sorriso fácil que costumava usar.
— Se algum dia eu te encontrar de novo — disse Adrian, a voz baixa —, espero que você esteja madura o suficiente para me aceitar. Porque eu te considero bonita, Aveline. E digna. Mais digna do que qualquer nobre desta casa.
Aveline sentiu um aperto estranho no peito, mas não deixou que aparecesse em seu rosto.
— Obrigada pela confiança — disse ela, com um aceno de cabeça. — Eu não vou esquecer.
E então ela passou por ele, deslizando pela porta aberta, e desceu as escadas da torre em silêncio.
Mas Aveline não fugiu imediatamente.
Antes de alcançar a saída, ela ouviu vozes vindas do gabinete do pai — e a curiosidade, mais forte do que o medo, a fez parar. Ela se esgueirou até a porta entreaberta e espiou pela fresta.
Dentro do gabinete, Alistair Lorrain estava de pé diante de um homem alto e magro, vestido de luto, com o rosto marcado pela dor e pela fúria. Era o pai do fidalgo morto no casebre de Maria.
— Exijo justiça, Lorde Lorrain — disse o homem, a voz trêmula de raiva contida. — Sua bastarda matou meu filho. Ela deve ser exilada, ou você deve me compensar em ouro pelo sangue derramado.
Alistair não se mexeu. Os olhos castanho-escuros pesavam sobre o homem de luto com um cálculo frio.
— Exílio? — repetiu ele, com um desdém gelado. — Exílio é um presente. A menina fugiria e viveria livre, e eu ficaria com a vergonha. E ouro... ouro eu não pago por encrenca que não criei.
O homem de luto apertou os punhos.
— Então o que propõe?
Alistair deu um passo à frente, e a voz dele baixou até um tom de negociação.
— Eu tenho uma filha que já está prometida à Casa Valoris. Eles pagarão uma soma generosa pelo casamento. Mas se você quiser justiça de verdade... eu a negocio para você. Pague-me um valor maior do que a Casa Valoris oferecerá, e a menina é sua. Faça com ela o que quiser.
O homem de luto hesitou, os olhos percorrendo o rosto de Alistair em busca do engano.
— Você venderia sua própria filha?
— Ela não é minha filha — respondeu Alistair, com uma frieza absoluta. — Ela é uma mancha no meu nome. E você quer justiça. Eu quero me livrar da encrenca. É um bom negócio para os dois.
O homem de luto ficou em silêncio por um longo momento. Então, lentamente, um sorriso cruel e vingativo curvou seus lábios.
— Aceito — disse ele. — Faça-me o preço, e a menina será minha. Quero vê-la sofrer pelo que fez ao meu filho.
Do lado de fora da porta, Aveline sentiu o sangue gelar nas veias.
Ela não era uma filha. Não era uma noiva. Era uma moeda de troca, vendida ao melhor lance, como o carvão, como as minas, como tudo o mais naquela casa.
E ela sabia que não tinha mais tempo.
Aveline não hesitou.
Ela disparou escada abaixo, os pés descalços batendo contra os degraus de pedra fria. Invadiu a cozinha deserta, apanhou uma adaga de caça afiada sobre a bancada de corte e enfiou um casaco pesado de pele de carneiro nos ombros.
Quando empurrou o portão de ferro da adega, o vento glacial da noite bateu em seu peito como uma parede sólida.
E Adrian estava lá, esperando por ela.
O jovem herdeiro de Valoris estava encostado na parede de pedra ao lado do portão, envolto em um manto escuro que escondia o brasão do sol nascente. Nas mãos, segurava as rédeas de um cavalo de tiro do Norte, um animal robusto e silencioso, já selado e com os arreios ajustados. Aos seus pés, um fardo de lona com provisões e um casaco de pele de carneiro dobrado.
— Você veio — disse Aveline, a voz rouca, os olhos arregalados.
— Eu disse que ajudaria — respondeu Adrian, com um sorriso que não alcançava os olhos. — E eu cumpro o que prometo, mesmo quando dói.
Ele estendeu o fardo de provisões e o casaco. Aveline os tomou com mãos trêmulas, enfiando o casaco sobre os ombros e apertando o fardo contra o peito.
— A guarda do setor sul foi desviada — explicou Adrian, baixando a voz. — Paguei a um dos criados para acender um incêndio falso no armazém de carvão. Você tem talvez dez minutos antes que percebam o engano. Depois disso, vão soltar os cães.
Aveline olhou para ele, e pela primeira vez desde que o conhecera, não havia nenhum jogo em seu olhar.
— Por que está fazendo isso?
— Porque eu já te disse — respondeu Adrian, dando um passo mais perto. — Você não foi feita para esta casa, Aveline. Você nunca foi.
Ele ergueu a mão e, por um instante, pareceu que ia tocar o rosto dela. Em vez disso, deslizou os dedos pelo cabo da adaga que ela segurava, ajustando-o na mão dela com um gesto quase paternal.
— Vá para o Norte — disse ele, a voz firme. — Fuja para as montanhas. E quando estiver livre, não se esqueça de que existe um homem no Sul que torce por você.
Aveline apertou a mão dele por um segundo, um aperto rápido e firme, sem palavras.
— Eu não vou esquecer — disse ela.
E então ela montou no cavalo, cravou os calcanhares nos flancos do animal e disparou pela encosta escura, deixando Adrian Valoris para trás na neve, com o brasão do sol nascente escondido sob o manto e um sorriso triste que ninguém viu.
O cavalo de tiro do Norte era rápido e robusto, mas não era um animal de guerra. Quando o clarim de bronze cortou o céu escuro de Minópolis e os latidos estridentes dos mastins ecoaram pelos pátios industriais, o animal empinou, relinchando de pavor diante do barulho e das tochas que se aproximavam.
— Alarme no setor sul! — gritou uma sentinela do alto da muralha. — A bastarda fugiu! Soltem os cães!
Aveline puxou as rédeas com força, tentando acalmar o animal, mas o cavalo recuou, empinando diante da barreira de guardas que surgia na encosta. Não havia tempo. Se continuasse montada, seria cercada em minutos.
Com um salto, Aveline desmontou, soltando as rédeas e dando um tapa firme no flanco do animal para que ele disparasse sozinho pela estrada, arrastando os guardas atrás de si como uma isca.
— Corre! — gritou ela, e o cavalo obedeceu, galopando pela encosta escura com os mastins uivando atrás.
Aveline saltou sobre uma pilha de caixotes de carvão e alcançou o telhado inclinado de ardósia das fundições. O gelo sob suas botas era escorregadio, mas o desespero empurrava seus músculos. Ela correu sobre as telhas enquanto o vapor escaldante das chaminés de escape chiava ao seu redor, obscurecendo a visão das sentinelas com nuvens de fumaça branca.
Uma flecha imperial zuniu perto de sua orelha, cravando-se na madeira do beiral.
Um mastim colossal, com coleira de ferro e mandíbulas espumando, surgiu no topo da passarela de manutenção, bloqueando a descida para as muralhas perimetrais. A fera rosnou e saltou com o peso de um urso na direção da menina.
No instante do impacto, o medo paralisante em seu peito rompeu uma barreira interna invisível.
Uma faísca vermelha e estática crepitou sob a pele da palma de Aveline. Instintivamente, ela ergueu a mão esquerda e empurrou o ar: uma pequena onda geométrica de estática pura explodiu de seus dedos, descarregando um choque seco e ofuscante nos olhos e no focinho do cão. O animal uivou de dor no ar, desorientado pelo estalo elétrico, e despencou do parapeito no abismo de ferro lá embaixo.
Aveline não parou para entender o que fizera.
Ela correu até a borda da muralha externa da cidade. Quinze metros abaixo, a encosta rochosa e escarpada desaparecia sob um manto espesso de neve fofa acumulada pela nevasca contínua.
Atrás dela, os archotes dos guardas iluminavam as telhas e os gritos de captura aproximavam-se.
Apertando as três pedras lilases no fundo do bolso e segurando a adaga contra o peito, Aveline olhou para a escuridão do Norte.
E saltou no vazio.
O ar congelante uivou em seus ouvidos durante o segundo em que a gravidade a puxou para baixo.
O impacto contra o talude foi uma explosão branca e violenta. Aveline atingiu a encosta de costas, afundando mais de um metro no banco de neve fofa acumulado contra os contrafortes da muralha. O ar foi expulso de seus pulmões com um estalo áspero, e uma onda de choque reverberou por sua coluna, enchendo sua boca com o gosto metálico de sangue fresco.
Ela permaneceu imóvel, enterrada na neve, sem conseguir puxar o fôlego.
Quinze metros acima, o facho amarelado de uma lanterna de óleo varreu o parapeito de pedra. A luz cortou a névoa rodopiante, iluminando o buraco cavado pelo corpo da menina na encosta.
— Ali embaixo! — gritou uma sentinela do alto, o vento engolindo parte das palavras.
— Esqueça isso! — respondeu outra voz, áspera e alarmada. — É impossível uma garota de doze anos sobreviver a uma queda dessa altura. Ela quebrou o pescoço nas pedras.
— Se o Lorde Lorrain souber que ela morreu durante a nossa ronda, ele vai mandar arrancar as nossas cabeças na praça!
— Então cala a boca e corre! Vamos dizer que a perdemos nas galerias da drenagem. Saiam daqui, rápido!
O som dos passos apressados e os clarões das tochas afastaram-se pelas passarelas de ferro da muralha até que apenas o rugido da nevasca sobrou na noite.
Aveline forçou os braços a empurrarem o gelo. Cada músculo do seu corpo ardia como se tivesse sido triturado em uma prensa a vapor.
Ao se erguer de joelhos, uma pontada aguda e lancinante rasgou o lado direito de suas costelas. Na queda, a adaga de caça que ela segurava contra o peito havia se deslocado dentro do forro do casaco; a lâmina de aço afiada rasgara a lã e abrira um talho profundo em sua carne, escorrendo sangue quente que fumegava no contato com a neve.
A dor fez sua visão escurecer por um instante.
Com dedos trêmulos, Aveline arrancou uma tira comprida do forro de linho de seu velho pano imperial, enrolou o tecido sobre o corte e apertou com força, prendendo o curativo improvisado com as cordas do próprio casaco de carneiro. O sangue ensopou o pano quase imediatamente, mas a pressão conteve o fluxo mais pesado.
Ela tentou dar o primeiro passo.
Seus pés descalços afundavam na neve fofa até a canela. O frio inicial, que parecia picadas de agulha na pele crua, transformou-se rapidamente em uma queimação febril e, depois, em uma dormência assustadora. Ela não tinha botas; apenas o casaco nos ombros e a adaga embainhada no cinto.
Aveline começou a andar.
A cada dez passos, o corpo pesava mais. O vento uivava contra seu rosto, colando flocos de gelo em suas bochechas machucadas e reabrindo as crostas do sangue de sua mãe. A encosta rochosa parecia não ter fim. O corte na costela latejava em ritmo cardíaco, roubando-lhe as forças enquanto o oxigênio ralo da nevasca queimava em seus brônquios.
A dormência subiu dos tornozelos para as coxas.
Aveline perdeu o tato dos pés. Não conseguia mais sentir as pedras cortantes sob a neve. Ela tropeçou em uma raiz congelada, tentou se equilibrar em falso e despencou de cara na camada espessa de geada.
Seus braços não responderam. O corpo inteiro tremia em espasmos lentos, entregando-se à sonolência traiçoeira da hipotermia. A escuridão ao redor começou a parecer confortável, um cobertor macio e silencioso onde a dor da perda de Maria e o ódio por Alistair finalmente deixariam de queimar.
Vou morrer aqui, pensou ela, a bochecha colada na neve.
Foi então que um sussurro cortou o vento. Não era o rugido da tempestade; era uma voz quente, mansa e firme que ressoou diretamente no centro de sua mente:
— Levante-se, minha menina... Você não é uma Lorrain. Você carrega o sangue dos Wolff.
A lembrança da voz de Maria agiu como brasa viva sobre pólvora.
Uma descarga violenta de eletricidade estática estalou dentro do peito de Aveline. Um choque vermelho percorreu sua medula espinhal, reanimando as sinapses nervosas, forçando os pulmões a puxarem ar em um arquejo desesperado e disparando o calor do sangue pelas artérias congeladas.
Os olhos de Aveline se abriram de supetão.
Ela fincou as mãos na neve, forçou os joelhos ensanguentados a se erguerem e colocou-se de pé. O tremor ainda estava lá, mas suas pernas voltaram a responder.
Apertando as três pedras lilases no fundo do bolso como um amuleto de sobrevivência, Aveline arrastou-se colina abaixo até que o terreno começou a nivelar.
Entre os pinheiros retorcidos cobertos de gelo, ela avistou os sulcos escuros de uma estrada de carroças de carga.
Aveline cambaleou até a borda da trilha batida, apoiando-se no tronco de uma árvore. O barulho de cascos pesados e o chiar de eixos de madeira contra a neve a fizeram recuar a mão para o cabo da adaga.
Uma carroça rústica puxada por dois cavalos de tiro do Norte surgiu na curva, iluminada por um lampião de querosene pendurado na boleia. O condutor, um homem corpulento envolto em peles grossas de urso e um gorro de couro amarrado no queixo, puxou as rédeas ao ver o vulto pequeno e manchado de sangue na beira da estrada.
Os cavalos bufaram névoa branca pelas ventas e pararam.
O homem desceu da boleia com passos cautelosos, uma mão descansando sobre o machado de lenhador preso à cintura. Ele ergueu o lampião, examinando a garota de doze anos com o casaco ensopado de sangue na lateral e os pés em carne viva sobre a neve.
— Pelos deuses antigos... — murmurou o homem, a voz rouca pelo fumo e pelo frio. — De onde você fugiu, garota?
Aveline não respondeu. Seus olhos vazios fitaram o rosto enrugado do viajante com uma desconfiança afiada, a mão direita oculta sob o casaco pronta para desferir um golpe caso ele desse mais um passo.
O homem percebeu a postura defensiva e parou a dois metros, erguendo a mão livre em sinal de trégua.
— Tenha cuidado por essas bandas, menina — disse ele, o tom carregado de uma seriedade sombria. — Uma garota bonita e jovem como você, vagando sozinha no escuro desta estrada, é presa fácil. O Império espalhou batedores e mercenários famintos por toda a cordilheira. Qualquer homem mal-intencionado que cruzar o seu caminho vai fazer coisas com você que fariam a morte parecer uma bênção.
Aveline manteve o queixo erguido, o maxilar trancado.
— Para onde vai esta estrada? — perguntou ela, a voz fraca mas cortante como vidro.
O homem coçou a barba grisalha e apontou com o chicote de couro na direção noroeste, onde a silhueta das montanhas mais altas rasgava o céu tempestuoso.
— Siga os marcos de pedra por mais cinco ou seis quilômetros. Você vai chegar a Pedra do Corvo, um vilarejo encravado na encosta. Se há algum lugar onde você pode encontrar abrigo e comida sem que te entreguem de bandeja aos inquisidores, é lá. O vilarejo fica nas barbas de KarMorn... a última fortaleza da Casa Wolff e o coração da resistência do Norte.
O viajante tirou um par de botas velhas de couro de cabra da mala de carga e jogou aos pés da menina, antes de subir de volta na boleia.
— Se apresse, garota. A nevasca está fechando as passagens. Se a noite te pegar antes de você avistar os moinhos de Pedra do Corvo, nem o seu sangue quente vai te salvar do gelo.
O homem estalou o chicote e a carroça rangeu, afastando-se lentamente pela estrada escura.
Aveline abaixou-se, recolheu as botas e as calçou nos pés dormentes e ensanguentados. Com os pés finalmente protegidos do corte direto da neve, ela caminhou por quase uma hora ao longo da trilha batida, a mão esquerda pressionando o curativo na costela. O vento aumentava de fúria, e a fraqueza voltava a pesar em suas pernas quando o chiar de outras rodas sobre o gelo e o tilintar de arreios surgiram logo atrás.
Ela recuou para a margem da estrada, a mão escondida na adaga.
Desta vez, era uma carroça coberta por lona de cânhamo encerada, puxada por duas mulas fortes. Três mulheres viajavam na boleia, vestindo mantos de lã escura e capuzes amarrados contra o granizo.
Ao avistarem a menina cambaleando à beira do barranco, a mulher que segurava as rédeas — uma senhora idosa de feições duras e cabelos grisalhos trançados sob o capuz — puxou os freios imediatamente.
— Pelas chamas sagradas... olhem para essa criança — disse a anciã, descendo da boleia com passos pesados.
Duas mulheres mais jovens saltaram atrás dela. Uma delas segurava um facho de palha e a outra trazia um odre de couro.
— Não chegue perto — rosnou Aveline, a adaga reluzindo na penumbra da nevasca.
A anciã parou a um passo de distância e não recuou diante da lâmina. Em vez disso, seus olhos cansados desceram para o pano ensanguentado que amarrava as costelas da garota e para as botas surradas de couro que mal cabiam em seus pés machucados.
— Guarde esse ferro, menina. Não somos batedores do Império nem abutres da estrada — disse a mulher mais velha, com uma calma firme que desarmava a agressividade. — Beba isso. Está morno.
A jovem passou o odre de madeira e couro. Aveline hesitou por um segundo antes de agarrar o bico com sofreguidão: era água pura misturada com um toque de mel e ervas da montanha, descendo como alívio por sua garganta ressequida. A outra mulher abriu um cesto e lhe estendeu uma tira grossa de carne defumada e pão fresco.
— Você está indo para onde, com esse talho sangrando no corpo? — perguntou a mais jovem, enrolando uma manta de lã felpuda nos ombros de Aveline.
— Pedra do Corvo — respondeu a garota entre mordidas rápidas.
A anciã balançou a cabeça em um suspiro grave.
— Se fosse a pé, você levaria dias para cruzar a Garganta dos Ventos. O gelo teria comido os seus dedos antes da meia-noite e você morreria congelada na beira de uma ravina. Suba na carroça. Nós somos refugiadas das tecelagens do sul; estamos indo para o mesmo vilarejo buscar abrigo.
Aveline deixou-se erguer para o interior da carroça coberta. O calor do compartimento de carga, forrado com sacas de grãos e peles de carneiro, fez seu corpo relaxar pela primeira vez em dias. Ela se encolheu entre os fardos, mastigando o pão com o olhar fixo na fresta da lona traseira, sentindo o ritmo constante das rodas sobre a neve.
A viagem durou algumas horas sob a escuridão da tempestade.
Quando a carroça alcançou a garganta estreita entre dois paredões de pedra negra — a passagem que dava acesso ao vale de Pedra do Corvo —, o som de um assobio estridente cortou o ar.
Um tronco grosso despencou do alto da encosta e colidiu com a estrada, bloqueando a passagem das mulas com um estrépito violento. Os animais empinaram, relinchando de pavor.
— Emboscada! — gritou a condutora jovem da boleia.
Das sombras dos pinheiros congelados surgiram seis homens armados com clavas de ferro, machadinhas e facões enferrujados. Bandidos das montanhas, desertores que atacavam qualquer comboio que tentasse alcançar os refúgios do Norte.
— Peguem a carga e levem as mulheres! — rugiu o líder dos salteadores, pulando sobre a boleia e desferindo um golpe brutal de porrete que arremessou a jovem condutora na neve.
O caos explodiu em gritos e sangue.
A lona da carroça foi rasgada por uma lâmina. Um homem barbudo e de olhos arregalados enfiou a cabeça e o tronco para dentro do compartimento, esticando a mão suja para agarrar Aveline pelos cabelos.
A anciã avançou por trás do atacante com uma barra de ferro de carga e atingiu a nuca do homem com toda a força, fazendo-o tombar atordoado para fora da carroça.
A mulher virou-se para Aveline, o rosto pálido mas determinado.
— Corra, menina! — gritou a anciã, empurrando Aveline em direção à abertura traseira da carroça. — A vila fica a menos de uma milha subindo o desfiladeiro! Não olhe para trás!
Outro bandido saltou sobre o estribo traseiro com uma machadinha erguida. A anciã jogou-se contra as pernas do agressor, derrubando o homem na neve com o peso do próprio corpo para abrir passagem para a garota.
Aveline não hesitou.
Ela pulou da carroça para o banco de neve fofa e disparou colina acima.
Atrás dela, os gritos de socorro das mulheres e os xingamentos dos salteadores misturavam-se ao vento cortante. Um dos bandidos tentou correr atrás de Aveline, mas a neve espessa e a escuridão da tempestade engoliram o rastro da menina de doze anos.
Aveline correu até o ar parecer fogo líquido em sua garganta. O corte na costela latejava como se estivesse sendo reaberto por garras de ferro, mas ela continuou avançando, tropeçando em pedras e galhos congelados, movida pelo instinto cego de sobrevivência.
Quando rompeu a última linha de pinheiros no cume da encosta, a tempestade abriu uma clareira na névoa.
Diante dela, aninhado entre colinas íngremes de rocha escura e iluminado por archotes fumegantes nas paliçadas de madeira, erguia-se o vilarejo de Pedra do Corvo.
Aveline respirou fundo o ar gélido, limpou o suor e a neve da testa com a manga e desceu os últimos metros em direção aos portões do vilarejo.








