1 | concubina
— Eonni.
Uma mão delicada coloca o pincel sob o suporte, indiferente à pintura incompleta.
Jihye ergue a face para alinhar os olhos amendoados no rosto preocupado de Heejin.
— Dongsaeng? — ela se ouve calmamente, dizer.
A mais jovem quase tropeça na chima de suas vestes de criada, quando moveu-se para frente, sentando-se no chão, esquecendo momentaneamente a etiqueta que deveria apresentar no palácio.
— Uma nova concubina adentrou o palácio essa manhã — ela diz — pelo que ouvi dos sussurros, ela vem da Província de Daewon.
Jihye pisca.
— Daewon?
— Isso mesmo, eonni — confirma ela. — Parece que é a única filha do Governador Lim.
Jihye brinca com o anel de jade em seu dedo indicador, refletindo sobre a vez que Minji e ela foram a Província de Daewon, onde ficaram hospedadas na mansão Lim, disfarçadas de duas damas yangban.
O Governador Lim Seungjae era um homem de meia-idade que, pelo que, Jihye notara estava constantemente buscando o favor de Sua Majestade, que ainda era o Seja naquela época.
E agora havia conseguido de fato chamar a atenção do rei, que fizera da única filha de lorde Lim sua mais nova concubina.
— Eonni — veio o sussurro de Heejin. — Ela é uma ameaça a sua posição? Ou pior, ao nosso segredo?
Ela vê o medo na face bonita de sua dongsaeng, e leva uma das mãos ali para acariciar carinhosamente, ciente de que, o medo dela não é realmente infundado.
É um risco para as duas estar de todos os lugares dos Três Reinos, no palácio, com serpentes venenosas e tramas políticas derramando-se nestes corredores, especialmente, para Jihye que havia virado concubina do rei e adquirido seu favor.
Porém, Jihye sabe o quão tola seria se colocasse toda a sua confiança sobre os ombros de Sua Majestade, ainda mais com às tensões rondando à Corte Real, e a família da Rainha Consorte adquirindo cada vez mais poder.
Não seria tolice acreditar que Hong Daegam pretende livrar-se do rei para colocar o neto prestes a nascer no trono, onde ele possa reinar sob o nome do recém-nascido.
E Sua Majestade também sabe disso. Jihye resiste ao desejo de tocar o ventre – esse segredo deve permanecer como um segredo, como pediu seu amor tarde da noite, movendo-se dentro dela.
— Eonni, estamos longe do mar.
Jihye não responde – ela também sentia saudades do mar, estava há menos de cinco luas dentro das paredes do palácio, sem colocar um pé no pátio que a levasse para fora desta prisão fortificada.
E, pergunta-se em seu âmago se há arrependimentos em seu coração quando aceitou seu destino, quando sua mão tocara à dele e o deixara ser guiada por ele, focada apenas no calor de seu toque.
Quando a boca quente devorou a sua com fome e pertencimento, quando entregou-se à ele, chamando seu nome, quando beijou seus olhos, nariz e boca.
E surpreende-se ao perceber que não há arrependimentos dentro de si.
— Eu falarei com Sua Majestade — diz ela, tocando as sobrancelhas de sua dongsaeng — para permitir que você deixe o palácio temporariamente.
Heejin exalta-se.
— Não, eonni — ela nega. — Jamais deixarei você sozinha neste lugar.
— Há Sua Majestade.
Ela franze à testa.
— Sua Majestade não pode ficar com você o tempo todo, ainda mais agora que-... — ela se interrompe. — Não é como se fôssemos morrer se ficarmos longe do mar por muito tempo, não é?
Jihye quase rir, mas opta por apertar o nariz desta garota boba.
— Sim. Você está certa.
— Dói, eonni! Pare!
Jihye aperta uma última vez o nariz dela, e afasta sua mão.
— Irei escrever para Minji-eonni — Jihye diz, depois de um momento. — Sinto falta dela.
Heejin apoia uma das mãos na face.
— Não seria mais fácil convidá-la ao palácio?
Jihye pega o pincel novamente.
— Sim-...
Qualquer outra coisa que diria morreu em seus lábios, quando a voz de uma criada soa do outro lado da porta.
— Bin Mama?
Jihye lança um olhar para Heejin para ela ajeitar a postura, que rola os olhos e o faz.
— Entre — ela diz, depois.
A porta abre-se, e Sookhee entra, fazendo uma reverência respeitosa.
— Perdoe esta serva humilde por incomodar Bin Mama.
— Não há nada a perdoar — ela responde, sua face é gentil. — Diga-me, o que você precisa?
— Jeonha lhe aguarda no jardim leste.
O sorriso surge na face de boneca de Jihye, ao que, Heejin levanta-se com rapidez para ajudar sua eonni a levantar cuidadosamente da almofada de seda.
— Acompanhe-me, Heejin.
Ela inclina a cabeça.
— Sim, Bin Mama.
O rei está parado em frente ao lago, as mãos cruzadas atrás das costas, ainda usando o Gonryongpo — exceto o Myeonryuwan.
Sua Majestade de Daeseong ainda não tinha trinta anos.
Havia subido ao trono aos dezessete anos quando seu pai sucumbiu a uma febre dez dias, ainda era um monarca jovem no trono.
E, por causa desta idade, muitos ministros ainda queriam manter suas vozes acima da dele.
— Jeonha.
Ele vira-se de uma vez ao som da voz suave na metade do jardim, sua criada pessoal dez passos atrás dela.
Ele vê como ela trata a garota mais como uma irmã mais nova do que uma mera criada, pois quando adentrou o palácio a menina já estava ao seu lado.
Jihye faz uma reverência respeitosa perante a ele, quando se aproxima, mesmo que não fosse necessário quando estão à sós.
Lee Hyo leva a mão a face dela, acariciando a pele macia com às costas da mão, observando como ela fecha os olhos e inclina a face para buscar mais de seu toque.
— Você se alimentou?
Ela abre os olhos, sorrindo.
— Eu que deveria estar fazendo essa pergunta a Sua Majestade — ela diz, a mão delicada, tocando a manga do seu Gonryongpo. — Ouvi dizer que Sua Majestade não saiu da sala do trono quase todo o dia.
— Os servos estão fofocando sobre o soberano?
Ela bufa.
— Estou falando sério, Orabeoni.
Hyo leva a mão a nuca dela, a outra para a sua cintura, tão perto que seu hálito morno fez cócegas na face dela.
— Eu quero outro tipo de refeição.
Jihye arregala os olhos.
— Você está louco? Este é um lugar público!
O canto da boca dele se contrai.
— Meu amor, que tais pensamentos são esses?
Um rubor doce atinge suas bochechas.
— Pare, você está me envergonhando!
Mas há um sorriso querendo formar-se, e não afasta-se quando ele lhe beija.
Ela apenas suspira, seus dedos enroscando-se no Gonryongpo dele.
Eu não me arrependo de nada, ela pensa, sempre farei tudo exatamente igual em minhas vidas que virão.








