Caelum, a Cidade dos Céus
Muito antes de qualquer rei erguer uma coroa sobre a própria cabeça, antes que as fronteiras fossem desenhadas sobre mapas e antes que os povos de Drakmora aprendessem a chamar uns aos outros de aliados ou inimigos, havia apenas a natureza e entre todas as terras do continente, poucas eram tão dominadas por ela quanto Altaira.
No extremo noroeste de Drakmora, as montanhas se erguiam como muralhas intermináveis, seus picos desapareciam entre as nuvens, enquanto vales estreitos cortavam a pedra e pequenos bosques surgiam onde o terreno permitia, havia caminhos escondidos entre as encostas, passagens conhecidas apenas pelos habitantes locais e penhascos onde uma rajada de vento poderia carregar um corpo por dezenas de metros. Ali, o céu não era apenas o espaço acima das montanhas, era parte da vida, era caminho, era proteção e para alguns, era também destino. No coração das montanhas encontrava-se Avíra, a capital de Altaira, a cidade parecia ter sido construída para desafiar a própria gravidade, suas construções ocupavam grandes plataformas de pedra espalhadas pelas encostas, ligadas por pontes suspensas, escadarias e passarelas estreitas. Torres altas se projetavam acima das casas, muitas delas equipadas com plataformas abertas para pouso, por toda parte havia movimento, aves cruzavam os céus em diferentes direções, algumas carregavam pequenas bolsas presas ao corpo, outras transportavam mensagens enroladas em tubos de couro, soldados voavam em formação entre as torres, enquanto comerciantes ocupavam as praças com frutas, tecidos, ferramentas e mercadorias vindas das regiões mais baixas. Nas ruas, porém, nem todos tinham asas, galinhas caminhavam apressadas carregando cestos, galos discutiam preços nas barracas, pavões exibiam suas plumagens coloridas pelas praças, muitas vezes chamando mais atenção do que pretendiam, Altaira não pertencia apenas às aves que dominavam os céus, era lar de todos aqueles que haviam aprendido a viver entre as montanhas.
No ponto mais alto de Caelum ficava o palácio real, era uma construção ampla, erguida sobre uma formação rochosa que se projetava sobre um dos maiores vales da região, suas torres eram claras, com grandes janelas abertas para o horizonte. Bandeiras de Altaira tremulavam constantemente nos pontos mais altos, agitadas pelo vento, no salão principal, o rei observava a cidade. Ágis, Guardião do Céu, permanecia diante de uma das grandes janelas, a águia era uma figura imponente, suas penas eram cuidadosamente cuidadas, e sua postura transmitia a autoridade de alguém acostumado a ser obedecido. Ainda assim, não havia arrogância em seu olhar, ele simplesmente observava.
— O movimento na Fratura aumentou, disse uma voz atrás dele.
Ágis não se virou imediatamente.
— Soldados?
— Sim.
Era Corália, Voz da Razão. A coruja aproximou-se da janela e ficou ao lado do rei, diferentemente de muitos membros da corte, ela não precisava levantar a voz para ser ouvida, sua maneira calma de falar fazia com que os outros prestassem atenção.
— Vultur acredita que os treinamentos devem ser reforçados, continuou ela. As correntes de vento têm estado mais fortes nos últimos dias.
Ágis finalmente desviou os olhos da cidade.
— Mais fortes?
Corália assentiu.
— E irregulares.
O rei ficou em silêncio. Lá fora, uma rajada atravessou as montanhas, as bandeiras estalaram.
Por alguns segundos, um grupo de aves que voava sobre o vale precisou mudar de direção. Ágis observou.
— Talvez seja apenas uma mudança de estação.
— Talvez.
A resposta de Corália não pareceu convencê-lo, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta do salão se abriu.
Vultur, Guardião da Fronteira, entrou, o corvo carregava parte de sua armadura sobre o corpo e trazia consigo um pequeno rolo de couro.
— Majestade.
Ágis fez um gesto para que se aproximasse.
— O que temos?
Vultur colocou o rolo sobre a mesa.
— Relatórios das regiões próximas à Fratura Ventosa.
Corália aproximou-se.
— Novamente os ventos?
— Sim.
O corvo apontou para alguns símbolos desenhados no mapa.
— Três soldados tiveram dificuldade para retornar ontem, um deles quase foi lançado contra a encosta.
— Ferimentos? Perguntou o rei.
— Nenhum grave.
Ágis respirou lentamente.
— Aumente a vigilância.
— Já fiz isso.
— E os treinamentos?
Vultur hesitou por um instante.
— Continuarão normalmente.
Corália ergueu uma sobrancelha.
— Normalmente?
— A Fratura Ventosa continua sendo uma prova, se começarmos a interrompê-la sempre que o vento mudar, teremos soldados incapazes de enfrentar as montanhas quando realmente precisarem.
Ágis olhou para o comandante, não discordava completamente.
— Apenas não coloque jovens em perigo desnecessário.
Vultur inclinou a cabeça.
— Como desejar, majestade.
O corvo recolheu o mapa e antes de sair, porém, Ágis perguntou:
— Vultur.
— Sim?
— Você sentiu alguma coisa diferente durante seu último voo?
O comandante ficou imóvel.
— Diferente?
— No vento.
Vultur pensou por alguns segundos.
— Não sei dizer.
Então saiu.
Corália permaneceu olhando para a porta fechada.
— Isso não pareceu uma resposta muito tranquilizadora.
Ágis voltou os olhos para as montanhas.
— Não foi.
Muito abaixo do palácio, a vida continuava como sempre, na praça central de Ávira, uma barraca de frutas estava cercada por clientes, laranjas, mangas, bananas, frutas vermelhas, frutas amarelas, algumas vindas das regiões mais baixas e outras cultivadas nos próprios vales de Altaira.
— Mais uma!
— Você já comeu quatro!
— Essa informação é irrelevante.
O vendedor encarou o jovem tucano à sua frente, Tavian segurava uma fruta nas mãos, seu corpo esbelto estava coberto por penas predominantemente negras, contrastando com o peito branco-creme, pequenas penas no topo de sua cabeça formavam uma espécie de coroa natural e, entre elas, destacava-se uma pena de vermelho mais intenso, seus olhos âmbar percorriam a praça com curiosidade, ou talvez procurassem outra fruta.
— Você vai explodir, disse o vendedor.
Tavian olhou para a própria barriga.
— Acho que ainda cabe mais uma.
— Essa é a quinta.
— Então definitivamente cabe.
O vendedor suspirou.
— Soldado?
Tavian fez uma expressão ofendida.
— Futuro soldado.
— Ainda não passou pela Fratura.
— Tecnicamente, não.
— Então você não é soldado.
— Tecnicamente, ainda.
O vendedor balançou a cabeça.
— E você pretende passar na prova desse jeito?
Tavian olhou para a fruta que segurava.
— Pretendo passar voando.
— Espero que sim.
Tavian sorriu.
— Eu também.
Ele pagou a fruta e a colocou entre algumas tiras de tecido presas ao corpo, seu olhar então subiu, muito acima da praça, as montanhas dominavam o horizonte e entre elas, era possível ver uma das passagens que levavam à Fratura Ventosa. Tavian ficou em silêncio por alguns segundos, o sorriso desapareceu, a prova se aproximava e embora jamais admitisse isso em voz alta, a ideia de atravessar aquelas montanhas o deixava nervoso, não era o voo, voar era fácil, o problema era o vento, as correntes da Fratura não respeitavam ninguém, um erro de direção, uma asa fora do lugar ou um segundo de distração e a montanha estaria esperando.
— Você está olhando para ela de novo.
Tavian se virou, um jovem galo estava parado atrás dele.
— Não estou.
— Está.
— Estou olhando para as montanhas.
— Que ficam exatamente na direção da Fratura.
Tavian cruzou os braços.
— Coincidência.
O galo riu.
— Está com medo?
Tavian abriu um sorriso exagerado.
— Eu? Nunca.
— Então amanhã você vai passar sem dificuldade.
— Evidentemente.
— E depois?
Tavian pensou.
— Depois eu como.
— Você sempre come.
— É uma tradição pessoal.
Os dois riram, mas quando o amigo se afastou, Tavian voltou a olhar para as montanhas, dessa vez, não sorriu, uma rajada atravessou a cidade, as penas de seu corpo se movimentaram, Tavian ergueu o rosto, o vento parecia diferente. Por apenas um instante, sentiu um frio forte e estranhamente irregular, ele piscou, então a sensação desapareceu.
— Amanhã, murmurou.
E abriu as asas, Tavian saltou da plataforma. Por um momento, seu corpo caiu, então as asas se abriram completamente, o vento o tomou e ele subiu, passou entre duas torres, inclinou o corpo e atravessou uma ponte suspensa por baixo, uma galinha gritou quando ele passou perto demais.
— DESCULPA!
Tavian continuou voando, seu riso ecoou entre as montanhas, Ávira ficou abaixo dele e por alguns minutos, Tavian esqueceu completamente a prova, esqueceu a Fratura, esqueceu o medo. Só havia o céu, só havia o vento e aquele imenso mundo além das montanhas que ele ainda não conhecia. Muito distante dali, porém, algo se movia nas profundezas de Drakmora, algo que ninguém em Altaira podia ver, ainda e o vento continuou soprando.








