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The boy who couldn't wake up

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Summary

Miguel viveu durante meses uma rotina aparentemente comum de escola, amigos e família. No entanto, sua mente era constantemente atormentada por pesadelos sombrios e por uma entidade assustadora chamada Destem. No clímax da narrativa (Capítulo 9), descobre-se que nada do que ele viveu era real: Miguel sofreu um grave acidente de carro e está em coma em um leito de UTI há cinco meses. Os pesadelos e monstros eram a forma como sua mente processava o trauma e a dor física. Para sobreviver, ele precisa encarar a perda, se despedir do passado e reunir forças para despertar para a realidade.

Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
13+

CHAPTER I — Entre o Sono e o Real

Meu nome é Miguel. Tenho quatorze anos e sou o tipo de pessoa que sonha muito — não apenas no sentido poético da palavra, mas de forma literal. Várias vezes aquilo que aparece nas minhas noites acaba se tornando realidade.

O problema é que ninguém acredita em mim.

Meus amigos acham graça. Minha família me chama de louco. Minha mãe chegou ao ponto de me levar ao psicólogo, convencida de que eu estava inventando coisas, confundindo ficção com realidade. Mas não era nada disso. Eu realmente via, enquanto dormia, fragmentos do que estava por vir — e acordava com a certeza pesada de que aquilo ia acontecer.

Toda vez que eu tentava explicar, a resposta era sempre a mesma:

"Você está ficando maluco, Miguel."

E isso me deixava com uma raiva que eu mal conseguia engolir.

Mas tudo bem. Podem esperar. Vocês ainda vão entender como é a minha vida — e o que os meus sonhos realmente significam.

A voz da minha mãe, Aline, ecoou pelo corredor por volta das onze da manhã de uma segunda-feira. Ela atravessou as paredes e a porta fechada com a autoridade natural de quem não precisa repetir as coisas duas vezes.

— Arissa! Miguel! Venham comer!

Do quarto ao lado, ouvi a resposta imediata e igualmente alta da minha irmã:

— Já vou, mãe!

No meu quarto, porém, o chamado mal encontrou espaço. Eu estava inclinado sobre a mesa, o lápis firme na mão e os olhos fixos no caderno de desenhos aberto à minha frente. Ao redor, dezenas de folhas espalhadas cobriam quase toda a madeira — esboços de rostos angustiados, paisagens sombrias e criaturas que só existiam na fronteira tênue entre o sono e a vigília.

— Esse ficou bom... — murmurei para mim mesmo, satisfeito com os traços no papel.

De repente, a porta se abriu com força, quase saindo das dobradiças.

Arissa apareceu no vão com seu visual típico: o cabelo bagunçado, uma camiseta desbotada de banda de rock e a clássica expressão de quem tinha coisas muito melhores a fazer no mundo.

— Ei, pivete. A mamãe tá chamando pra comer — disse ela, cruzando os braços. — Anda logo. E para de ficar conversando sozinho. Parece doido.

Ergui os olhos do caderno e observei minha irmã por um segundo. Aquela era a Arissa: minha irmã mais velha, fã de rock, que adorava dançar músicas que eu jamais entenderia e que tinha o dom especial de aparecer na hora errada com a cara mais irritante do mundo. Mas, no fundo... ela era minha irmã. Fazer o quê, né?

Desci as escadas devagar, como se cada degrau fosse um sacrifício. Quando cheguei à cozinha, por volta das onze e quinze, Arissa já estava sentada com o garfo na mão. Minha mãe servia os pratos em pé, já vestida com o uniforme do trabalho.

— Que demora, Miguel — reclamou minha mãe.

— Eu tava desenhando.

— E falando sozinho — Arissa provocou, sem tirar os olhos do prato.

— Deixa seu irmão ser feliz, Arissa — defendeu minha mãe, com tom firme, mas afetuoso.

— Tá, né.

Minha mãe terminou de servir, pegou a bolsa encostada na cadeira e jogou as chaves do carro na mão.

— Arissa, você vai levar seu irmão pra escola. Eu preciso ir trabalhar agora.

Arissa parou de mastigar na hora, indignada.

— De novo eu? Não quero levar esse pivete, mãe.

— Vai levar sim — sentenciou minha mãe, olhando para o relógio e caminhando apressada em direção à porta. — Estou atrasada! Arissa, cuida do seu irmão na escola. Tchau, amo vocês dois!

A porta bateu com força. O barulho do motor do carro foi diminuindo pela rua até sumir por completo. Arissa virou o rosto para mim com uma mistura de tédio e impaciência.

— Ô, pivete. Acaba de comer e vai se arrumar.

— Eu sei.

Terminei o prato em silêncio, subi as escadas e voltei para o meu quarto. Enquanto trocava de roupa, resmunguei baixinho, desabafando com as paredes:

— Que irmã chata...

Minutos depois, Arissa apareceu na porta novamente. Já estava arrumada, com a mochila no ombro, mas parou ao me ver no canto do quarto, gesticulando e conversando com o ar.

— Ô, doido! Já são doze e quinze. A gente tem que estar na escola meio-dia e meia. Anda logo!

— Já tô indo — respondi, pegando minha mochila.

Saímos de casa às doze e dezesseis e seguimos em silêncio pelas ruas do bairro. O sol batia forte, criando aquele tipo de manhã ensolarada que parecia abafada e pesada demais. Faltando pouco para chegarmos ao portão da escola, resolvi quebrar o gelo.

— Irmã... que dia o papai volta?

Ela demorou um segundo antes de me responder, olhando para o horizonte.

— Não sei. Ele ainda tá viajando a trabalho.

Assenti com a cabeça, mas guardei o resto dos meus pensamentos para mim enquanto continuávamos a caminhada.

Quando entrei na escola, por volta de meio-dia e meia, os olhares vieram de todos os lados — discretos, mas inevitáveis. Todo mundo me conhecia. Eu era o garoto dos sonhos estranhos. O louco da turma. Ignorei cada um daqueles olhares com a prática de quem já estava acostumado a carregar esse fardo. Arissa nem olhou para trás; foi direto para a sala dela.

Segui para a minha. Assim que me sentei na carteira, dois colegas se aproximaram: Gabriel e Ruan, os únicos que ainda falavam comigo de forma relativamente normal.

— E aí, Miguel. Como estão os desenhos? — perguntou Gabriel.

— E você melhorou das suas... loucuras? — emendou Ruan.

— Eu não sou louco — respondi de imediato, mantendo o tom firme. — Estou falando a verdade. Quando eu sonho, vejo o que vai acontecer na vida real.

— Isso é coisa de louco, sim — debochou Ruan.

— É — concordou Gabriel. — Ah, e vi você chegando com sua irmã de novo. Ela claramente não aguenta você.

— Eu sei. Mas não me importo.

Ruan deu um passo à frente, mudando de assunto.

— Bom, deixa isso de lado. Você fez a atividade da professora de inglês?

— Não.

— Puxa, ia pegar seu caderno se tivesse feito.

— Eu também — admitiu Gabriel.

Olhei para os dois com frieza.

— Vocês só falam comigo quando precisam de alguma coisa.

Eles trocaram um olhar e riram juntos.

— Para de drama — disse Gabriel.

— É, você é muito dramático, Miguel — completou Ruan, virando as costas.

Não respondi. Os dois voltaram para os seus lugares sem menor cerimônia.

Às doze e quarenta, a professora Claire entrou na sala e começou a escrever a matéria no quadro. Comecei a copiar mecanicamente — minha mão se movia no papel, mas minha cabeça flutuava para longe. Os pensamentos foram ficando cada vez mais lentos, densos e pesados, como se o ar da sala estivesse sendo substituído por algo sufocante.

Sem perceber, meus olhos se fecharam. Sem perceber, adormeci.

Abri os olhos e me vi no meio do corredor da escola.

Tudo parecia exatamente igual — as mesmas paredes desencapadas, os mesmos armários —, mas havia um erro sutil que eu não conseguia nomear. O ar estava absurdamente frio. A iluminação parecia fraca e gasta, como se o sol tivesse decidido se afastar do prédio. Um silêncio espesso preenchia cada canto.

Dentro de um transe, lembrei de ter pedido licença à professora para ir ao banheiro. Ela havia acenado sem nem olhar para mim.

Agora, os corredores estavam completamente vazios. Cada passo que eu dava no piso frio ecoava mais alto do que deveria.

Ao entrar no banheiro e bater a porta da cabine, a sensação de que algo estava terrivelmente errado virou uma certeza absoluta. O silêncio pesava nos meus ouvidos.

Então, ouvi as batidas.

Tudo... tudo... tudo.

Lentas. Ritimadas. Vindo das outras cabines. Uma por uma, como se algo estivesse testando e verificando cada porta trancada.

Um calafrio violento atravessou a minha nuca e desceu até meus pés. Criei coragem e olhei para a fresta inferior da divisória.

E vi.

Embaixo da porta da cabine ao lado, havia dois pés pálidos, quase negros nas pontas, totalmente imóveis sobre o piso gélido.

Em seguida, uma voz soprou o ar. Era rouca, arrastada, desprovida de qualquer pressa.

— Você está perdido... Você não deveria estar aqui...

Uma risada seca e rasgada ecoou no ambiente. E então vieram mais palavras — horríveis, sussurradas, moldadas especificamente para me assustar por dentro.

Fiquei paralisado. Meus músculos não respondiam, minha garganta havia secado.

A porta da cabine ao lado se abriu devagar.

No vão, surgiu uma figura medonha. Ela sorria de um jeito grotesco que não tinha nada de humano, revelando olhos fundos demais, completamente tomados por uma escuridão sem fim. A criatura se inclinou na minha direção.

O terror finalmente destravou minha garganta e eu gritei.

Acordei com um solavanco violento, me projetando para a frente na carteira.

— Sai! Sai! Nãoooo!

A sala inteira emudeceu e virou para me encarar. A professora Claire deu dois passos rápidos em direção à minha mesa, assustada.

— Miguel! O que foi isso?

Levantei-me devagar, em choque. Foi quando percebi o olhar horrorizado de todos fixado em mim. Olhei para baixo e vi o pesadelo se materializar: minhas calças estavam molhadas. O constrangimento foi instantâneo, uma dor quente e ensurdecedora.

A risada começou no fundo da sala e se espalhou como fogo em mato seco.

Não pensei. Corri para fora da sala sem olhar para ninguém.

Disparei pelo corredor e me tranquei na última cabine do banheiro. Encostei as costas contra a parede fria e fiquei ali, hiperventilando, tentando respirar fundo. As risadas dos meus colegas ainda ecoavam no meu cérebro.

Fechei os olhos.

E foi então que senti.

O calafrio.

O mesmo calafrio de antes.

Meu coração errou uma batida. Olhei para o chão... e os pés estavam lá. Pálidos. Imóveis. Exatamente do outro lado da divisória.

Fiquei estático. Fechei os olhos com toda a força que tinha e comecei a repetir para mim mesmo em silêncio, como uma oração desesperada:

Não é real. Não é real. Não é real.

Abri os olhos. Os pés haviam sumido.

Soltei o ar devagar, sentindo um alívio momentâneo... até que um pingo gelado caiu direto no topo da minha cabeça.

Lentamente, olhei para cima.

A criatura estava lá. Pendurada no teto como uma aranha humana, sorrindo para mim com aquela boca larga e escura demais.

O meu grito mal conseguiu sair da garganta antes que ela se projetasse sobre o meu rosto.

Acordei pela segunda vez.

Desta vez, de verdade.

Eu ainda estava sentado na minha carteira na sala de aula. A professora Claire estava ao meu lado, ligeiramente inclinada, com a mão a milímetros de tocar o meu ombro.

— Você está bem, Miguel? — perguntou ela, com a voz suave e preocupada.

Não consegui responder. Ao fundo, Gabriel e Ruan me observavam à distância, desajeitados e sem saber como reagir. Olhei para as minhas calças — estavam secas. Tudo não passara de um sonho dentro de outro sonho.

Levantei-me devagar, tentando disfarçar o tremor nas mãos.

— Vou beber água...

A professora assentiu, permitindo que eu saísse.

No corredor silencioso, encostei a testa no bebedouro de alumínio e bebi a água gelada por um longo tempo, deixando que ela fizesse o trabalho de acalmar o fogo no meu peito.

"O que foi isso? Que sonho horrível...", pensei, tentando me convencer de que tudo estava bem.

Mas no fundo — bem no fundo, onde a minha mente ainda tinha medo de olhar — havia uma pergunta muito mais perturbadora e real:

E se não tiver sido só um sonho?

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