A lamparina
O quadro nunca ficava pronto. Mateus passava horas diante da tela — recuava, comparava, voltava — e quando o cansaço finalmente o forçava a parar, acordava no dia seguinte convicto de que havia algo errado. Uma sombra fora do lugar. Um tom que só se revelava mentiroso à luz do dia. Então ele corrigia, e a correção exigia outra correção, e assim a pintura ia crescendo em camadas como uma ferida que se recusa a fechar.
Fazia dois anos que Clara havia morrido. Fazia dois anos que ele pintava o mesmo campo. O campo era o de fora: a planície aberta à frente da casa herdada, as montanhas sumindo na neblina, as flores silvestres que ela colhia com as mãos cheias de terra. Ele havia começado o quadro como tributo — uma forma de guardar o que a memória já estava desbotando. Mas virou obsessão. Virou o único lugar onde ele ainda conseguia estar perto dela.
A casa era enorme e silenciosa. Ele havia mandado embora a moça que fazia a limpeza porque o barulho do pano no assoalho o tirava de dentro da pintura. Comia pouco. Dormia menos ainda. O único cômodo vivo era aquele quarto no andar de cima, onde a tela ficava encostada na parede e as velas queimavam até virar toco.
Pintava de noite porque a luz artificial era impiedosa com os detalhes — e ele precisava da impiedade. De dia, era fácil demais se convencer de que estava bem.
Naquela noite, ele achou que havia terminado. Ficou um longo tempo parado com o pincel na mão, olhando para a figura que havia pintado no centro da tela: um jovem sentado entre as flores, segurando uma lamparina, o rosto semicoberto pela noite. A chama iluminava apenas um lado — a bochecha, parte da testa, os dedos em torno do vidro. O resto ficava na sombra, que era como Mateus se lembrava dela: sempre com alguma parte escondida, sempre um pouco mais do que ele conseguia alcançar.
Recuou e olhou pela janela. O campo lá fora estava escuro, idêntico ao da tela. As mesmas flores, as mesmas montanhas engolidas pela névoa, o mesmo silêncio pesado de madrugada.
— Acho que é isso — murmurou.
A voz saiu estranha. Rouca de desuso.
Quando voltou a olhar para a pintura, o coração deu uma batida fora de ritmo. A lamparina no quadro estava acesa.
Não a luz que ele havia pintado — aquela era tinta, pigmento seco, uma ilusão calculada de brilho. Era outra coisa. Uma luz viva pulsando de dentro da tela, suave e constante, como brasa respirando atrás de um vidro. Ele piscou. Esfregou o olho com o punho. A luz continuava.
Deu um passo à frente. A mão da figura — a mão pintada, a mão que ele mesmo havia construído pincelada por pincelada — se moveu. Devagar. Com cuidado. Como quem chama sem querer assustar.
Venha.
Mateus virou a tela de frente para a parede. Ficou parado no meio do quarto, respirando. Então olhou pela janela. No campo, havia uma figura de pé entre as flores. Segurando uma lamparina. Fazendo o mesmo gesto.
Desceu as escadas sem pensar. O instinto o levava — não em direção à porta dos fundos, não para fora, mas para a mesa da sala, onde havia uma lamparina velha que ele nunca tinha usado. Riscou o fósforo três vezes antes de a mão parar de tremer o suficiente. A chama pegou.
O campo à noite tinha um cheiro diferente. Úmido, denso, com alguma coisa vegetal apodrecendo nas camadas mais baixas. O vento frio entrou pela gola da camisa. Mateus levantou a lamparina e chamou para o escuro:
— Quem está aí?
O campo respondeu com grilos. Com o farfalhar seco das flores.
Ele deu alguns passos hesitantes na grama encharcada. Estava prestes a voltar quando ouviu a voz — baixa, próxima, chegando de nenhum lugar específico.
— Mateus.
Parou como se tivesse batido em algo invisível. Era a voz de Clara.
Não parecida com a voz de Clara. Era a voz de Clara — o timbre exato, aquela leveza no final das sílabas, como se cada palavra fosse uma pergunta disfarçada.
— Clara — sussurrou. O nome saiu partido ao meio.
A lamparina tremeu na mão.
— Não deixa a luz acabar — veio de novo a voz, agora quase encostada no ouvido, quente demais para ser vento. — Eles vão te achar no escuro.
— Quem vai me achar? — ele perguntou, e detestou o quanto a própria voz soava com medo de saber a resposta.
Uma rajada forte dobrou as flores e quase apagou a chama. Ele curvou o corpo sobre ela, protegendo com as mãos em concha, a respiração curta. Quando ergueu o olhar, havia uma mulher parada entre as flores. Vestido branco. Cabelo solto. Parada.
— Clara — chamou de novo.
Ela virou o rosto para ele. E era ela — o rosto que ele havia tentado pintar por dois anos, o rosto que aparecia e desaparecia da memória como algo visto no fundo de água. Era ela. Mas os olhos estavam errados. Olhavam para ele sem o ver, serenos, vazios, como olhos numa fotografia muito antiga.
Mateus recuou. Um passo. Outro. Só percebeu o erro quando o chão mudou sob os pés.
Pedras. O vento trazia agora cheiro de sal e o som das ondas batendo no penhasco lá embaixo — o penhasco nos fundos da propriedade, que ele havia esquecido que existia, que ficava a menos de dez passos atrás dele. Caiu de joelhos. A lamparina balançou e a chama sobreviveu por milagre.
Atrás dele, os passos recomeçaram. Muitos, arrastados, com um gemido baixo tecido por várias gargantas — um som que era quase humano da mesma forma que um boneco é quase uma criança. Ele se levantou e correu. Correu com a lamparina erguida, o campo se fechando dos dois lados, as flores batendo nas pernas. Correu sem olhar para trás porque sabia, com uma certeza que vinha do estômago e não da cabeça, que se olhasse a chama apagaria.
A porta da casa estava aberta. Emoldurada pela fresta de luz amarela do interior, havia uma figura parada no vão. Mateus freou. Era ele mesmo. O mesmo rosto, os mesmos olhos fundos, a mesma expressão exausta que ele via no espelho havia meses. A figura segurava uma lamparina e levou o dedo aos lábios.
Psiu.
O campo inteiro parou. O gemido cessou. Os passos cessaram. As flores pararam de se mover mesmo com o vento ainda soprando. Mateus entrou. A figura recuou para o interior das sombras e desapareceu. Ele trancou a porta. Ficou encostado nela até a respiração desacelerar, até as mãos pararem de tremer, até o coração aceitar que ainda havia chão firme sob os pés.
O quarto estava como ele havia deixado — as velas, os pincéis sujos, o cheiro de terebintina impregnado nas paredes. O quadro estava diferente. A figura havia sumido. O campo na tela estava vazio: só as flores, a noite, as montanhas distantes. Como uma cena depois que alguém vai embora.
No chão, ao lado da mesa, havia pegadas úmidas. Iam da janela aberta até o meio do quarto e paravam ali, diante de nada. Mateus olhou para a lamparina na própria mão. A chama estava baixa, vacilante, consumindo o que restava de óleo.
Ele não foi buscar mais óleo. Ficou sentado no chão, encostado na parede, olhando para o quadro vazio enquanto a chama foi ficando menor. Pensou em Clara. Não na Clara do campo, não a de olhos vazios — a outra, a de antes. A que ria com a boca aberta sem se preocupar com o barulho. A que dormia com o braço por cima do rosto. A que havia dito, numa tarde de domingo, que o campo era o lugar mais bonito que ela conhecia.
Pensou que fazia dois anos que ele não saía daquela casa. Pensou que fazia dois anos que ele não falava com ninguém. Pensou que talvez o luto não fosse o que acontecia quando alguém morria. Talvez fosse o que acontecia com quem ficava.
A chama piscou. Uma voz murmurou atrás dele — suave, familiar, doendo como uma fratura antiga:
— Eu te avisei pra não deixar a luz apagar.
A chama se apagou. No escuro, Mateus não se levantou.