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A história de Jeremy

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Summary

Jeremy é o segundo em comando no reino de Kayon, um lobisomem que, após milhares de anos, aprendeu a não acreditar em companheiras predestinadas, muito menos no amor. Sua vida segue exatamente como deseja: livre, tranquila e sem as complicações de um relacionamento. Até que ela aparece. Sua companheira predestinada. E, de repente, tudo aquilo em que acreditou por milhares de anos começa a desmoronar. Será Jeremy capaz de se entregar a esse amor ou continuará fugindo do único destino do qual talvez não possa escapar?

Genre
Romance
Author
JA
Status
Ongoing
Chapters
30
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - O tratado

JEREMY

O Grande Salão do castelo resplandecia sob a luz de milhares de velas suspensas em lustres de cristal. As chamas refletiam nas taças, nas joias e nos fios metálicos bordados nas vestes dos convidados.

Músicos ocupavam a galeria superior, preenchendo o ambiente com uma melodia elegante, enquanto representantes dos principais reinos circulavam entre mesas cobertas por bebidas e iguarias.

Aquela não era apenas uma celebração.

Pela primeira vez em séculos, licans, vampiros e Fae haviam firmado um tratado comercial capaz de alterar o equilíbrio econômico entre os reinos.

Os Fae abririam parte de suas rotas e permitiriam a comercialização controlada de ervas curativas, minérios encantados e tecidos produzidos em território sagrado. Em contrapartida, receberiam proteção militar nas fronteiras e acesso aos recursos provenientes das terras governadas por KAYON e Alaric.

A importância histórica do acordo justificava a presença de reis, príncipes, nobres e comandantes. Ainda assim, Jeremy observava aquela ostentação com o mesmo entusiasmo de um homem obrigado a assistir a uma reunião interminável.

Permanecia próximo a uma das colunas, segurando uma taça de uísque. Seus cabelos castanho-avermelhados caíam em ondas desalinhadas sobre a testa.

A barba espessa acentuava as linhas fortes do rosto, enquanto os olhos âmbar percorriam o salão com atenção aparentemente preguiçosa. Sob o casaco preto, ornamentado com bordados escuros, o corpo robusto denunciava anos de treinamento.

Embora demonstrasse desinteresse, nada escapava à sua percepção.

Jeremy era o beta de KAYON, seu braço direito e segundo em comando. Caso o alfa morresse, seria ele quem assumiria a matilha e o reino. Por esse motivo, enquanto os outros se permitiam aproveitar a festa, Jeremy registrava instintivamente cada entrada, cada saída e cada pessoa que se aproximava da família real.

— Você está com essa expressão há quase uma hora — comentou Christopher, aproximando-se. — Parece que está considerando arrancar a própria cabeça para não precisar ouvir mais ninguém.

Jeremy bebeu um gole antes de olhar para o amigo.

— Estou calculando quantas conversas inúteis ainda preciso suportar antes de poder desaparecer sem que KAYON mande alguém atrás de mim.

Christopher riu.

— Considerando que você é o beta e ajudou a negociar o tratado, eu diria que todas.

— Então arrancar a cabeça continua sendo uma alternativa razoável.

— Você poderia tentar sorrir.

Jeremy ergueu uma sobrancelha.

— Eu sorri quando o documento foi assinado. Minha contribuição social terminou naquele momento.

Christopher acompanhou a direção do olhar dele e percebeu que, apesar das reclamações, a atenção do beta não estava mais concentrada nas saídas. Do outro lado do salão, próxima ao rei Fae, uma mulher observava Jeremy por cima da borda de uma taça.

A rainha Azmecis possuía a beleza quase sobrenatural característica de seu povo. Os cabelos dourados desciam até a cintura, entrelaçados com pequenas pedras verdes, e o vestido parecia ter sido confeccionado com folhas banhadas pela luz da lua. Seus olhos, de um violeta intenso, permaneciam presos ao beta.

— Agora eu entendi — murmurou Christopher, contendo um sorriso. — Você encontrou uma razão para permanecer na festa.

Jeremy não desviou os olhos da rainha.

— Eu não faço ideia do que você está falando.

— Claro que não. Por isso está encarando a esposa do rei Vaelthar como se estivesse imaginando quantas peças daquele vestido conseguiria arrancar de uma vez.

O sorriso que apareceu nos lábios de Jeremy foi lento e indecente.

— Duas.

Christopher engasgou com a bebida.

— Você é um filho da puta.

— Nunca afirmei o contrário.

— Ela é uma rainha.

— Eu percebi pela coroa.

— E está acompanhada do marido.

Jeremy finalmente olhou para o amigo.

— Os costumes conjugais dos Fae não são iguais aos nossos. Vaelthar possui amantes, Azmecis também. Nenhum dos dois considera fidelidade carnal uma obrigação política ou afetiva.

— Você pesquisou os costumes matrimoniais deles?

— Eu ajudei a construir esse tratado durante meses. Precisava conhecer a cultura Fae.

Christopher riu, incrédulo.

— Evidentemente por motivos diplomáticos.

— Evidentemente.

Antes que Christopher respondesse, KAYON chamou Jeremy com um gesto discreto. O beta esvaziou a taça, entregou-a a um criado e atravessou o salão. Conforme avançava, algumas mulheres acompanhavam seus movimentos. Jeremy percebia cada olhar, mas não oferecia falsas esperanças. Gostava de mulheres, gostava de sexo e jamais escondera isso. O que não desejava era transformar prazer em promessa.

Companheiras, vínculos e declarações pertenciam aos sonhos de KAYON e Christopher. Jeremy preferia conservar a própria liberdade. Não pretendia entregar à deusa da lua o direito de escolher quem permaneceria ao seu lado por toda a vida.

Ao chegar ao grupo, posicionou-se à direita de KAYON. Angel estava próxima aos dois companheiros, enquanto Elijah permanecia ao lado dela. Alaric conversava com o rei Vaelthar, acompanhado de Arabella e dos filhos Alec, Tristan e Ethan.

— Jeremy conhece melhor os detalhes referentes às rotas ocidentais — explicou KAYON ao soberano Fae. — Foi ele quem reorganizou a segurança das passagens.

Vaelthar voltou os olhos prateados para o beta.

— Meus conselheiros afirmaram que sua proposta reduzirá pela metade o tempo necessário para transportar nossas mercadorias.

— Se os postos forem construídos exatamente nos lugares indicados, sim — respondeu Jeremy. — A rota antiga contorna as montanhas por medo dos renegados. Minha sugestão atravessa a garganta rochosa e instala três bases permanentes no percurso. Os Fae oferecem as barreiras mágicas; nós fornecemos os guerreiros.

Alaric girou o uísque dentro da taça.

— Ainda existe o problema dos filhos da puta que controlam a ponte de Vharos. Eles cobram pela passagem e atacam qualquer comitiva que se recuse a pagar.

Jeremy assentiu.

— Por isso o primeiro posto será construído antes da ponte. Quando nossa presença estiver consolidada, eles terão duas opções: abandonar a região ou enfrentar soldados licans, vampiros e Fae simultaneamente.

Um sorriso frio surgiu no rosto de Alaric.

— Espero sinceramente que sejam burros o bastante para escolher a segunda opção.

— Não transformaremos uma negociação comercial em provocação militar — advertiu KAYON, embora houvesse um traço de divertimento em seus olhos.

— Que negociação, porra? — Alaric abriu os braços. — Se atacarem nossos homens, deixam de ser comerciantes inconvenientes e passam a ser cadáveres em potencial.

Vaelthar soltou uma risada grave.

— Disseram que o rei dos vampiros possuía métodos diretos.

— Diretos funcionam, caralho.

Arabella tocou o braço do marido.

— Alaric, tente não declarar uma guerra durante a celebração da paz.

Ele inclinou o rosto e beijou os dedos dela.

— Por você, meu amor, tentarei esperar até amanhã.

Enquanto o grupo ria, Jeremy sentiu Azmecis aproximar-se. O perfume dela lembrava flores noturnas e chuva sobre folhas. A rainha parou ao lado dele, perto o bastante para que seu braço roçasse discretamente no casaco do beta.

— Sua estratégia é ousada — disse Azmecis, observando-o. — Atravessar a garganta rochosa exigirá homens capazes de lidar com muitos perigos.

Jeremy virou o rosto para ela, sustentando-lhe o olhar.

— Gosto de caminhos perigosos. Geralmente são mais interessantes e levam mais depressa ao lugar onde desejo chegar.

A rainha inclinou a cabeça. Um sorriso insinuante curvou seus lábios.

— E sempre consegue chegar aonde deseja, beta?

— Quando quero alguma coisa de verdade, encontro uma maneira.

— Isso parece arrogância.

Jeremy aproximou ligeiramente o rosto do dela.

— Prefiro chamar de experiência.

Azmecis levou a taça à boca, mas não bebeu. Seus olhos percorreram lentamente o peito do beta antes de retornarem ao rosto dele.

— Talvez sua experiência seja exagerada pelas mulheres deste reino.

— Existe apenas uma maneira segura de descobrir.

A resposta fez os olhos violetas da rainha brilharem. Vaelthar continuava conversando com KAYON e Alaric, aparentemente indiferente ao jogo que se desenvolvia a poucos passos dele. Jeremy compreendia perfeitamente os costumes Fae e reconhecia a permissão silenciosa do soberano.

— E qual seria essa maneira? — perguntou Azmecis.

Jeremy inclinou-se até que os lábios quase tocassem a orelha dela.

— Meu quarto fica na ala sul, depois da galeria dos fundadores. É um espaço bastante reservado, com paredes grossas o suficiente para impedir que os curiosos escutem qualquer ruído inconveniente.

Azmecis respirou mais fundo, mas preservou a postura majestosa.

— Está me convidando para conhecer seus aposentos?

Jeremy recuou e exibiu uma inocência que não alcançou seus olhos.

— Eu apenas mencionei onde ficam. Qualquer interpretação maliciosa partiu inteiramente de você, majestade.

— Naturalmente.

Ele permitiu que o silêncio carregasse tudo aquilo que não precisava ser dito. Depois, voltou-se para KAYON.

— Se não houver mais nenhuma questão relacionada à segurança, vou me retirar. Passei o dia inteiro recebendo representantes e preciso desesperadamente de um banho.

A maneira como pronunciou a última palavra fez Azmecis apertar a haste da taça.

KAYON observou primeiro o beta, depois a rainha Fae, compreendendo imediatamente a situação. Balançou a cabeça, dividido entre a censura e o divertimento.

— Vá antes que sua presença provoque algum incidente diplomático.

— Meu comportamento sempre fortalece as relações entre os reinos.

— É justamente isso que me preocupa — respondeu KAYON.

Jeremy despediu-se dos demais e deixou o salão sem olhar para trás. Caminhou pelo corredor da ala sul com passos tranquilos, embora seus sentidos estivessem atentos ao som delicado que o seguia. O perfume de Azmecis tornou-se mais intenso a cada curva.

Ele sorriu.

Não tomou o caminho dos próprios aposentos. Ao passar por um escritório desocupado, abriu a porta e entrou, deixando-a apenas encostada. Segundos depois, a rainha passou pelo corredor, procurando por ele.

Jeremy estendeu o braço, segurou-a pela cintura e a puxou para dentro. Azmecis soltou uma exclamação surpresa antes que ele fechasse a porta e a encostasse contra a madeira.

— Você disse que seu quarto ficava mais adiante — murmurou ela, com a respiração acelerada.

— Eu disse onde ele ficava. Não prometi que conseguiria esperar até chegarmos lá.

Jeremy tomou a boca dela num beijo intenso. Azmecis agarrou os cabelos dele e correspondeu com a mesma urgência. As mãos do beta desceram pela cintura da rainha, apertaram suas curvas e voltaram a subir, envolvendo seus seios por cima do tecido delicado.

Ela gemeu contra os lábios dele.

O som arrancou de Jeremy uma risada baixa, rouca e absolutamente cafajeste.

— Majestade — sussurrou ele, mordendo-lhe suavemente o lábio inferior —, tenho a impressão de que esse tratado acaba de se tornar muito mais interessante.

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