Capítulo 1 - O tratado
JEREMY
O Grande Salão do castelo resplandecia sob a luz de milhares de velas suspensas em lustres de cristal. As chamas refletiam nas taças, nas joias e nos fios metálicos bordados nas vestes dos convidados.
Músicos ocupavam a galeria superior, preenchendo o ambiente com uma melodia elegante, enquanto representantes dos principais reinos circulavam entre mesas cobertas por bebidas e iguarias.
Aquela não era apenas uma celebração.
Pela primeira vez em séculos, licans, vampiros e Fae haviam firmado um tratado comercial capaz de alterar o equilíbrio econômico entre os reinos.
Os Fae abririam parte de suas rotas e permitiriam a comercialização controlada de ervas curativas, minérios encantados e tecidos produzidos em território sagrado. Em contrapartida, receberiam proteção militar nas fronteiras e acesso aos recursos provenientes das terras governadas por KAYON e Alaric.
A importância histórica do acordo justificava a presença de reis, príncipes, nobres e comandantes. Ainda assim, Jeremy observava aquela ostentação com o mesmo entusiasmo de um homem obrigado a assistir a uma reunião interminável.
Permanecia próximo a uma das colunas, segurando uma taça de uísque. Seus cabelos castanho-avermelhados caíam em ondas desalinhadas sobre a testa.
A barba espessa acentuava as linhas fortes do rosto, enquanto os olhos âmbar percorriam o salão com atenção aparentemente preguiçosa. Sob o casaco preto, ornamentado com bordados escuros, o corpo robusto denunciava anos de treinamento.
Embora demonstrasse desinteresse, nada escapava à sua percepção.
Jeremy era o beta de KAYON, seu braço direito e segundo em comando. Caso o alfa morresse, seria ele quem assumiria a matilha e o reino. Por esse motivo, enquanto os outros se permitiam aproveitar a festa, Jeremy registrava instintivamente cada entrada, cada saída e cada pessoa que se aproximava da família real.
— Você está com essa expressão há quase uma hora — comentou Christopher, aproximando-se. — Parece que está considerando arrancar a própria cabeça para não precisar ouvir mais ninguém.
Jeremy bebeu um gole antes de olhar para o amigo.
— Estou calculando quantas conversas inúteis ainda preciso suportar antes de poder desaparecer sem que KAYON mande alguém atrás de mim.
Christopher riu.
— Considerando que você é o beta e ajudou a negociar o tratado, eu diria que todas.
— Então arrancar a cabeça continua sendo uma alternativa razoável.
— Você poderia tentar sorrir.
Jeremy ergueu uma sobrancelha.
— Eu sorri quando o documento foi assinado. Minha contribuição social terminou naquele momento.
Christopher acompanhou a direção do olhar dele e percebeu que, apesar das reclamações, a atenção do beta não estava mais concentrada nas saídas. Do outro lado do salão, próxima ao rei Fae, uma mulher observava Jeremy por cima da borda de uma taça.
A rainha Azmecis possuía a beleza quase sobrenatural característica de seu povo. Os cabelos dourados desciam até a cintura, entrelaçados com pequenas pedras verdes, e o vestido parecia ter sido confeccionado com folhas banhadas pela luz da lua. Seus olhos, de um violeta intenso, permaneciam presos ao beta.
— Agora eu entendi — murmurou Christopher, contendo um sorriso. — Você encontrou uma razão para permanecer na festa.
Jeremy não desviou os olhos da rainha.
— Eu não faço ideia do que você está falando.
— Claro que não. Por isso está encarando a esposa do rei Vaelthar como se estivesse imaginando quantas peças daquele vestido conseguiria arrancar de uma vez.
O sorriso que apareceu nos lábios de Jeremy foi lento e indecente.
— Duas.
Christopher engasgou com a bebida.
— Você é um filho da puta.
— Nunca afirmei o contrário.
— Ela é uma rainha.
— Eu percebi pela coroa.
— E está acompanhada do marido.
Jeremy finalmente olhou para o amigo.
— Os costumes conjugais dos Fae não são iguais aos nossos. Vaelthar possui amantes, Azmecis também. Nenhum dos dois considera fidelidade carnal uma obrigação política ou afetiva.
— Você pesquisou os costumes matrimoniais deles?
— Eu ajudei a construir esse tratado durante meses. Precisava conhecer a cultura Fae.
Christopher riu, incrédulo.
— Evidentemente por motivos diplomáticos.
— Evidentemente.
Antes que Christopher respondesse, KAYON chamou Jeremy com um gesto discreto. O beta esvaziou a taça, entregou-a a um criado e atravessou o salão. Conforme avançava, algumas mulheres acompanhavam seus movimentos. Jeremy percebia cada olhar, mas não oferecia falsas esperanças. Gostava de mulheres, gostava de sexo e jamais escondera isso. O que não desejava era transformar prazer em promessa.
Companheiras, vínculos e declarações pertenciam aos sonhos de KAYON e Christopher. Jeremy preferia conservar a própria liberdade. Não pretendia entregar à deusa da lua o direito de escolher quem permaneceria ao seu lado por toda a vida.
Ao chegar ao grupo, posicionou-se à direita de KAYON. Angel estava próxima aos dois companheiros, enquanto Elijah permanecia ao lado dela. Alaric conversava com o rei Vaelthar, acompanhado de Arabella e dos filhos Alec, Tristan e Ethan.
— Jeremy conhece melhor os detalhes referentes às rotas ocidentais — explicou KAYON ao soberano Fae. — Foi ele quem reorganizou a segurança das passagens.
Vaelthar voltou os olhos prateados para o beta.
— Meus conselheiros afirmaram que sua proposta reduzirá pela metade o tempo necessário para transportar nossas mercadorias.
— Se os postos forem construídos exatamente nos lugares indicados, sim — respondeu Jeremy. — A rota antiga contorna as montanhas por medo dos renegados. Minha sugestão atravessa a garganta rochosa e instala três bases permanentes no percurso. Os Fae oferecem as barreiras mágicas; nós fornecemos os guerreiros.
Alaric girou o uísque dentro da taça.
— Ainda existe o problema dos filhos da puta que controlam a ponte de Vharos. Eles cobram pela passagem e atacam qualquer comitiva que se recuse a pagar.
Jeremy assentiu.
— Por isso o primeiro posto será construído antes da ponte. Quando nossa presença estiver consolidada, eles terão duas opções: abandonar a região ou enfrentar soldados licans, vampiros e Fae simultaneamente.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Alaric.
— Espero sinceramente que sejam burros o bastante para escolher a segunda opção.
— Não transformaremos uma negociação comercial em provocação militar — advertiu KAYON, embora houvesse um traço de divertimento em seus olhos.
— Que negociação, porra? — Alaric abriu os braços. — Se atacarem nossos homens, deixam de ser comerciantes inconvenientes e passam a ser cadáveres em potencial.
Vaelthar soltou uma risada grave.
— Disseram que o rei dos vampiros possuía métodos diretos.
— Diretos funcionam, caralho.
Arabella tocou o braço do marido.
— Alaric, tente não declarar uma guerra durante a celebração da paz.
Ele inclinou o rosto e beijou os dedos dela.
— Por você, meu amor, tentarei esperar até amanhã.
Enquanto o grupo ria, Jeremy sentiu Azmecis aproximar-se. O perfume dela lembrava flores noturnas e chuva sobre folhas. A rainha parou ao lado dele, perto o bastante para que seu braço roçasse discretamente no casaco do beta.
— Sua estratégia é ousada — disse Azmecis, observando-o. — Atravessar a garganta rochosa exigirá homens capazes de lidar com muitos perigos.
Jeremy virou o rosto para ela, sustentando-lhe o olhar.
— Gosto de caminhos perigosos. Geralmente são mais interessantes e levam mais depressa ao lugar onde desejo chegar.
A rainha inclinou a cabeça. Um sorriso insinuante curvou seus lábios.
— E sempre consegue chegar aonde deseja, beta?
— Quando quero alguma coisa de verdade, encontro uma maneira.
— Isso parece arrogância.
Jeremy aproximou ligeiramente o rosto do dela.
— Prefiro chamar de experiência.
Azmecis levou a taça à boca, mas não bebeu. Seus olhos percorreram lentamente o peito do beta antes de retornarem ao rosto dele.
— Talvez sua experiência seja exagerada pelas mulheres deste reino.
— Existe apenas uma maneira segura de descobrir.
A resposta fez os olhos violetas da rainha brilharem. Vaelthar continuava conversando com KAYON e Alaric, aparentemente indiferente ao jogo que se desenvolvia a poucos passos dele. Jeremy compreendia perfeitamente os costumes Fae e reconhecia a permissão silenciosa do soberano.
— E qual seria essa maneira? — perguntou Azmecis.
Jeremy inclinou-se até que os lábios quase tocassem a orelha dela.
— Meu quarto fica na ala sul, depois da galeria dos fundadores. É um espaço bastante reservado, com paredes grossas o suficiente para impedir que os curiosos escutem qualquer ruído inconveniente.
Azmecis respirou mais fundo, mas preservou a postura majestosa.
— Está me convidando para conhecer seus aposentos?
Jeremy recuou e exibiu uma inocência que não alcançou seus olhos.
— Eu apenas mencionei onde ficam. Qualquer interpretação maliciosa partiu inteiramente de você, majestade.
— Naturalmente.
Ele permitiu que o silêncio carregasse tudo aquilo que não precisava ser dito. Depois, voltou-se para KAYON.
— Se não houver mais nenhuma questão relacionada à segurança, vou me retirar. Passei o dia inteiro recebendo representantes e preciso desesperadamente de um banho.
A maneira como pronunciou a última palavra fez Azmecis apertar a haste da taça.
KAYON observou primeiro o beta, depois a rainha Fae, compreendendo imediatamente a situação. Balançou a cabeça, dividido entre a censura e o divertimento.
— Vá antes que sua presença provoque algum incidente diplomático.
— Meu comportamento sempre fortalece as relações entre os reinos.
— É justamente isso que me preocupa — respondeu KAYON.
Jeremy despediu-se dos demais e deixou o salão sem olhar para trás. Caminhou pelo corredor da ala sul com passos tranquilos, embora seus sentidos estivessem atentos ao som delicado que o seguia. O perfume de Azmecis tornou-se mais intenso a cada curva.
Ele sorriu.
Não tomou o caminho dos próprios aposentos. Ao passar por um escritório desocupado, abriu a porta e entrou, deixando-a apenas encostada. Segundos depois, a rainha passou pelo corredor, procurando por ele.
Jeremy estendeu o braço, segurou-a pela cintura e a puxou para dentro. Azmecis soltou uma exclamação surpresa antes que ele fechasse a porta e a encostasse contra a madeira.
— Você disse que seu quarto ficava mais adiante — murmurou ela, com a respiração acelerada.
— Eu disse onde ele ficava. Não prometi que conseguiria esperar até chegarmos lá.
Jeremy tomou a boca dela num beijo intenso. Azmecis agarrou os cabelos dele e correspondeu com a mesma urgência. As mãos do beta desceram pela cintura da rainha, apertaram suas curvas e voltaram a subir, envolvendo seus seios por cima do tecido delicado.
Ela gemeu contra os lábios dele.
O som arrancou de Jeremy uma risada baixa, rouca e absolutamente cafajeste.
— Majestade — sussurrou ele, mordendo-lhe suavemente o lábio inferior —, tenho a impressão de que esse tratado acaba de se tornar muito mais interessante.








