Prólogo
Luna era uma moça que não tinha forma de ser descrita em palavras, pois o vocabulário comum era pobre demais para descrever tamanha riqueza. Seus cabelos eram de um avermelhado que não se explicava, tão vivo que se confundia com sangue. Sua pele era branca, sem nenhuma queimadura ou mancha, a não ser uma lua marrom ao lado do olho direito. Os olhos eram imensos e cor de cobre. Realmente, ela era a forma materializada do amor.
Sempre brinquei com ela, mas, no fundo, era sério: por que eu? Com tantas pessoas no mundo, nos mundos, por que ela havia me escolhido para ser seu amor? Para ter a liberdade de beijar aquela boca, de apertar aquele corpo, de senti-lo rente ao meu?
Ela se envermelhava ao ouvir esse questionamento.
— Amor a gente não escolhe, simplesmente acontece — ela riu de canto de boca, tirou o cacho que cobria seu olho e, com um gesto tímido, fixou os olhos nos meus. De tímidos, passaram a ser extrovertidos. — Você acha que, se eu pudesse, teria escolhido você, Miguel?
Correu entre as árvores.
Estávamos em um bosque. Era outono. Fazia muito frio. As árvores estavam em fase de troca de folhas; os troncos eram brancos e o que restava da folhagem estava em um tom avermelhado. O chão fazia um tapete imenso de folhas secas que dialogavam com os cabelos de Luna.
Ela usava um vestido preto e se cobria com uma capa avermelhada, enfeitada com detalhes dourados. O céu estava completamente cinza. Era fim de tarde.
Nunca imaginei que sentiria tanta saudade daquele dia. Que iria querer voltar para aquele momento com todas as forças deste mundo.
— Você me paga, Lua! Volte aqui! — Fui atrás dela.
Corríamos muito pelo bosque. O cansaço me fazia respirar cada vez mais rápido. Eu segurava o instinto e tentava respirar mais devagar. Cheguei ao meu limite, parei e me apoiei em uma árvore.
Respirei de forma pausada e sentei em uma pedra que estava ao meu lado direito. Tirei o cachecol preto que cobria meu pescoço e as luvas cinzas que cobriam minhas mãos. Agora estava sentindo muito calor, apesar do frio que fazia naquele dia.
A fadiga me fez ficar tonto. Abaixei a cabeça e chamei por Luna, mas nada.
Após um tempo tentando normalizar a respiração, com a vista um pouco embaçada, consegui ver dois pés diante de mim.
"Finalmente! Achei que ela havia esquecido que fiquei para trás."
Ao levantar a cabeça, ainda meio tonto, percebi que não era Lua que estava ali, e sim outra moça.
Sua capa era verde-esmeralda, com detalhes prateados, muito parecidos com os que enfeitavam a capa de Luna. Seus olhos cinzentos me fitaram por um tempo, congelados e marcados também por muita dor.
Seus cabelos passavam pela touca da capa. Eram brancos e formados por dreads. Sua pele era preta, muito retinta. Tão jovem e linda que me fez esquecer que ela era uma moça estranha, que me encarava sem motivos — pelo menos era isso que eu achava.
Comecei a ouvir um cântico muito baixinho, de uma voz que parecia ter surgido do nada. Como se sempre tivesse existido. Como se aquela cantiga sempre tivesse sido cantada.
Era um encantamento.
Nesse momento, tudo congelou.
Eu, ainda olhando para a moça à minha frente. Ela me encarando. Tudo congelado.
Até uma mariposa que passava por trás dela e uma folha que estava prestes a cair no chão pararam sua ação.
O som ficava mais alto, mais nítido.
Uma voz feminina.
Não qualquer voz.
A voz de minha amada Luna.
Comecei então a entender que estava em perigo. Ela não fazia aquilo por qualquer motivo. Na verdade, Luna nunca havia utilizado aquele encantamento na minha presença.
O pânico tomou conta do meu corpo imóvel.
Meu coração batia tão rápido que doía. Eu podia sentir o suor encharcando meu corpo imobilizado. Cada linha de expressão do meu rosto era um caminho para que gotas de suor escorressem.
"O que está acontecendo? Por que essa moça é tão perigosa? Por que ela simplesmente não me tirou daqui com outro encantamento?"
Inúmeros questionamentos vinham à minha mente. No entanto, a única coisa que eu ouvia era o som da voz de minha amada.
A cantiga agora estava nítida:
— Como nasce o Sol, como vem o luar, ó remoto Tempo, eu te invoco, deusa. Me dê seu poder, me deixe a ti invocar, me permita controlar o tempo. Eu te pago com o luar...
Essas palavras se repetiam sem parar.
Pude ouvir então o barulho de alguém se aproximando.
Era Luna.
O barulho das folhas sendo quebradas foi aliviando meu coração, que já doía de tanto bater fora de seu ritmo.
— Então, posso ver que veio mesmo, não é mesmo, Faustine? — A cantiga continuava a ser cantada por Luna. Seus lábios não paravam de se mexer. No entanto, sua voz ecoava de sua mente com tanta força que eu a ouvia perfeitamente. — O exílio parece não lhe fazer sentido, certo? Como pode tu, uma exilada, uma traidora da nossa ordem milenar, ter audácia suficiente para pisar os pés em nosso solo mais uma vez? Tu foste banida e de lá nunca deveria ter saído.
— Minha querida, para ti, que vive neste belo lugar, é demasiadamente fácil falar dos termos de um exílio, pois nunca pisou os pés lá. — Sua boca não se mexia, mas, assim como fazia Luna, sua voz ecoava em minha mente. Isso era realmente surpreendente. — Lugar em que não desejaria nem a ti ficar.
— Acho que devo somente lhe dizer uma coisa... — Luna continuava se aproximando. — A morte agora te espera, Faustine! Irás morrer ou eu morrerei!
A cantiga parou de ser cantada.
Meu corpo, ainda adormecido, voltava lentamente ao movimento normal. No entanto, o medo ainda me tomava. O pânico, a vergonha de não poder fazer nada.
A impressão que eu tinha era de estar ali há uma eternidade.
Talvez até fosse.
Faustine se virou para Luna e retirou uma adaga prateada de dentro da capa.
Como um relâmpago, avançou em direção à minha amada, que não teve tempo sequer de respirar.
Nesse momento, meu mundo parou.
Um gelo tomou conta da temperatura do meu corpo. Minha garganta contraiu-se de tal forma que senti vontade de vomitar. No entanto, o vômito foi cortado pelo rasgo de uma gargalhada.
Eu estava abaixado, com as mãos e os joelhos no chão, a cabeça baixa. Não queria mais olhar.
A gargalhada se intensificou.
Eram agora duas gargalhadas.
Tive forças para levantar a cabeça e vi algo que me deixou surpreso, aliviado, com muita raiva e indignado.
Foi um misto de sensações muito difícil de explicar.
As duas bruxas estavam abraçadas, olhando para minha expressão de derrota e rindo como se eu fosse o mais talentoso dos palhaços.
Naquele momento, eu me senti exatamente assim.
Entendi então que nada daquilo era real.
Tudo não passava de uma armação para que elas pudessem se divertir com meu desespero.
Se fosse em ocasiões comuns, eu iria me magoar, brigar, talvez até sair dali e não voltar mais.
Contudo, eu entendia Luna.
Estava feliz em vê-la sorrir daquela forma.
Isso era muito raro.
Entendia seu humor. Entendia sua forma de ver os homens, assim como todas as suas parentes.
Eu, para elas, sou o eterno vilão.
O assassino.
O abusador.
O sequestrador.
Afinal de contas, eu sou homem.
E os homens as fizeram bruxas.








