CAPÍTULO 1
“A câmera captura tudo. Menos o exato segundo em que você percebe que estava vivendo uma mentira.”
O ar estava carregado de um cheiro doce e artificial: bolo de chocolate, suor infantil e glitter barato. Elisa agachou, a câmera pesando nas mãos como uma extensão do próprio corpo. Através da lente, viu o exato momento em que o mundo de um menino de calça jeans desabou, ele chorava porque não podia pegar o terceiro pedaço de bolo. O universo dele, naquele instante, era aquela fatia de chocolate. E a mãe, distraída conversando com outra senhora, disse “não” com uma firmeza que fez o labirinto de emoções da criança ruir.
Elisa ajustou a lente. Capturou a cena: o rosto contorcido, as lágrimas escorrendo pelo rosto redondo, a mão estendida em direção à mesa de doces. Para ele, o mundo estava acabando.
Click.
— E pensar que já fomos assim um dia.
A voz veio ao seu lado, suave e melancólica. Elisa se ergueu e encontrou o olhar de uma mulher elegantemente vestida, não aparentava mais de 35 anos, mas seus cabelos eram de um grisalho prematuro e impecável, presos num coque baixo tão perfeito que parecia não ter sido tocado pelo vento nem uma vez na vida. Seus olhos claros sorriam, mas havia uma sombra neles, como se também conhecessem o sabor do desmoronamento.
Elisa devolveu o sorriso, o reflexo automático que sempre vinha acompanhado de uma piada pronta.
— Ah, sim. A fase onde as maiores catástrofes eram: refrigerante derramado e balões estourados. Hoje a gente só derrama a autoestima e estoura a própria paciência. Uma evolução trágica, não acha?
A mulher riu. Um som genuíno e surpreso, daqueles que escapam antes que a pessoa decida se vai rir ou não.
A festa infantil era um turbilhão de cores, gritos e cheiros fotografar esse tipo de evento era quase um esporte radical. As crianças não posavam, elas *aconteciam.* E a melhor foto era sempre a não ensaiada: o choro, o abraço, o olho arregalado na hora do susto. Elisa trabalhou por mais duas horas, garantindo cada momento-chave, o parabéns, a brincadeira da cadeira, o abraço nos avós antes de se despedir da família e pegar o trem de volta para o subúrbio.
No vagão vazio, com a câmera no colo e a cidade passando pela janela em borrões de luz laranja, ela pensou em Eduardo, seu namorado.
Ele havia mandado mensagem de manhã, uma coisa curta e prática:
“Boa sorte no trabalho hoje! Vou tentar te encontrar, mas estou atolado no trabalho”
Ela havia respondido com um “ok” e seguido o dia sem sentir falta. Guardou o celular no bolso e não pensou mais nisso até agora.
Isso era normal. Devia ser normal.
Eduardo era um homem bom. Pontual, organizado, sem vícios aparentes e com um emprego estável numa corretora de seguros que ela nunca tinha se dado ao trabalho de entender direito. Não era o tipo de homem que mandava flores sem motivo ou ligava só para ouvir a voz. Mas era confiável. Previsível. E depois de tudo... o pai desaparecido, a mãe internada, os irmãos... previsível parecia uma forma de amor que ela podia sustentar.
Ela encostou a cabeça no vidro frio da janela. A cidade continuou passando.
O apartamento ficava numa periferia arrumadinha da cidade. O prédio, de tijolos à vista, tinha um letreiro enferrujado na entrada: *“Sweets Apartamentos.“* O “T” estava apagado há dois anos, e ninguém nunca se dera ao trabalho de consertar. *“Swees Apartamentos”* parecia o nome de uma marca de queijo suíço barato, não de um lugar onde pessoas viviam. As portas da entrada eram de grades pesadas que quase nunca estavam fechadas, mas as dos apartamentos eram blindadas a segurança era seletiva: deixe o perigo entrar no prédio, mas não na sua casa.
Elisa subiu as escadas. Preferia o exercício ao elevador que vivia piscando.
No segundo andar, Dona Ana saía com a bolsa de feira, os olhos atentos e curiosos como os de um pássaro.
— Nossa, Lisa, tão cedo?
— É, Dona Ana. Trabalhei numa festinha. O cheiro de bolo com glitter e o cheiro do meu estúdio não combinam. Resolvi dar trégua pro meu nariz.
Dona Ana riu, sacudindo a cabeça.
— Essa sua vida de artista é cheia dessas coisas. Mas olha, seu namorado chegou tem uma hora. Vai ser bom passarem o resto do dia juntos!
Elisa estranhou. Eduardo havia dito que estava atolado. Ela abafou o pensamento com um sorriso automático, provavelmente a reunião tinha terminado mais cedo. Provavelmente ele havia resolvido aparecer sem avisar, mesmo sendo o Eduardo exato e previsível de sempre, que achava que surpresas eram coisas que aconteciam em filmes.
— Ah, bom. Valeu pela informação, Dona Ana.
A mulher já se virava quando pareceu se lembrar de algo.
— E ó, Lisa? Feliz aniversário, minha flor.
Elisa piscou.
Aniversário. Vinte e quatro anos. Tinha esquecido completamente, o trabalho, as contas... A data tinha passado batida como uma terça-feira qualquer.
E Eduardo, ela percebeu agora subindo os últimos degraus, não havia mandado nenhuma mensagem sobre isso. Nenhum “feliz aniversário” no meio da lista de tarefas da manhã. Ela não havia sentido falta.
Quando parou diante da porta do apartamento 302, o ar saiu dos pulmões.
A porta estava entreaberta. Não muito, apenas uma fenda escura de uns dois dedos, cortando a faixa de luz que vinha da janela do corredor. Um silêncio denso vazava por ali. Elisa piscou. Respirou fundo. O punho se fechou em torno da chave que já estava na mão. Era provavelmente Eduardo, desastrado como sempre nas coisas pequenas fechaduras, tampas de pasta de dente, promessas vagas de aparecer. Só isso.
Empurrou a porta.
O apartamento estava mergulhado na penumbra do fim de tarde. A porta do quarto também estava entreaberta. Ouviu um ruído, um suspiro, um movimento de lençóis. Um sorriso nervoso começou a se formar nos lábios dela.
*Ele deve ter dormido esperando. Que patético. Vou fazer uma piada.*
Empurrou a porta com um sorriso genuíno no rosto.
Na cama, dois corpos. Dois homens.








