O véu de Prata
Anos 1650. Reino de Monteiro.
As tochas de cristal azul iluminavam o Grande Salão de Pedra Branca. O cheiro era de incenso e jasmim.
Valentina Monteiro estava pronta.
O vestido não era branco. Era prata. Tecido de fio lunar, que brilhava sozinho quando ela andava. A cauda tinha 10 metros e 3 servas carregavam. Na cabeça, o Véu de Prata da família Monteiro. Passava de mãe pra filha há 400 anos.
"Minha Dona" - aia se ajoelhou - "o povo do reino inteiro está na praça. O noivo, Lorde Rafael de Castro, já espera no Altar do Sol."
Valentina tinha 22 anos. Herdaria as terras, as minas de cristal e o título de "A Dona" quando dissesse o "sim" hoje. Sem esse casamento, o pacto entre as Casas Monteiro e Castro se quebrava. E a guerra voltava.
Ela respirou. A mão tremia dentro da luva de seda.
O sino de bronze soou 3 vezes. Hora da cerimônia.
A porta dupla se abriu. O corredor era de mármore. De um lado, nobres. Do outro, plebeus que ganharam permissão de assistir. Todos em silêncio.
E lá na frente... o Altar do Sol. Vazio.
Só o sacerdote estava lá. Com o livro sagrado aberto.
Esperaram.
1 sino. Nada.
2 sinos. Sussurros.
3 sinos. Um mensageiro entrou correndo, sujo de poeira da estrada.
Ajoelhou no chão e gritou pra todo salão ouvir:
"Lorde Rafael fugiu na madrugada! Levou 3 guardas e seguiu para as Terras do Norte! Deixou este pergaminho!"
O sacerdote leu em voz alta. A voz falhou:
`"Valentina, perdoa-me. Não posso me acorrentar a um casamento político. Não te amo. Não serei dono de nada por obrigação. Adeus."`
O silêncio pesou mais que o Véu de Prata.
200 pessoas. E ninguém respirava.
Valentina sentiu o salão girar. O título de "A Dona" que ia ganhar... virou vergonha na mesma hora.
Ela tirou o véu da cabeça. O tecido pesado caiu no chão com um som seco.
Sem dizer uma palavra, ela virou as costas pro altar, pra multidão, pro noivo que não veio.
E atravessou o salão sozinha. De vestido de prata, descalça, com a cabeça erguida.
Naquela noite, em todo o Reino de Monteiro se disse a mesma coisa:
"Valentina Monteiro foi abandonada no Altar do Sol."
Mas ninguém sabia ainda... que uma mulher abandonada pode se tornar a mais perigosa de todas. Porque ela não tem mais nada a perder.








