01. Demônio raposa
— Fígado?
O sangmin que trazia a cesta com a pesca recente nos ombros, assentiu com tanta força, que a cabeça poderia saltar do seu pescoço.
— Um demônio? — o açougueiro murmurou, sem conseguir esconder o medo que tomara suas feições, quase cortando-se com o facão em suas mãos trêmulas.
— Tem um demônio na cidade? — uma dama yangban que usava o sseugaechima, perguntou ao ouvir a conversa.
O açougueiro contorceu-se, uma expressão amedrontada surgiu em sua face curtida do sol.
— Agassi, perdoe este humilde... é que... eu mereço cem chibatadas por amedrontá-la.
Uma mão delicada que segurava o sseugaechima moveu-se para tocar o braço do homem, deixando-o chocado, pois uma dama yangban nunca tocaria num cheonmin como ele.
— Então existe mesmo um demônio na cidade?
— Uma gumiho, agassi.
A sobrancelha dela arqueou-se, sutilmente.
— Oh? É mesmo? — sorriu, afastando a mão do ombro dele, deixando o sseugaechima cair sobre seus ombros, revelando suas feições delicadas.
— É o que estão dizendo, agassi — ele respondeu, olhando ao redor, baixando a voz, como se o demônio raposa pudessem ouvi-los. — Sete pessoas foram encontradas mortas no último mês, tudo indica que foi uma gumiho.
Ela abriu a boca para dizer algo — ou talvez fazer mais perguntas —, quando uma voz sem fôlego chegou aos seus ouvidos.
— Agassi! Finalmente encontrei você! — exclamou a serva, cansada da corrida, para então resmungar como uma repreensão, por que sua agassi lhe dera tal liberdade. — Não suma mais desse jeito, agassi me assustou.
— Sim, sim.
Ela virou-se para mirar o cheonmin que havia abordado anteriormente, mas ele já estava atendendo um nobi, virou as costas, para encarar à sua criada.
— Você encontrou a residência, Gyuri?
— Quem agassi pensa que sou?
Ela beliscou o nariz da criada.
— Eu mimei muito você — suspirou. — Está abusada demais para uma serva.
— Jovem mestre.
O criado fez uma reverência profunda, quase tocando o chão do pavilhão com a testa.
Im Jae-hoon nem levantou os olhos.
Estava sentado no pavilhão do jardim, cercado pelo cheiro amargo e reconfortante do chá que fumegava à sua frente.
Sobre a mesa baixa de madeira, os relatórios do Ministério das Obras estavam abertos.
A caligrafia apressada dos oficiais informava que a Rainha Mãe desejava erguer um novo templo fora dos muros do palácio.
Ele virou a página com tédio.
— O que foi?
— A prima da senhorita chegou para o casamento.
Finalmente, Jae-hoon ergueu o olhar.
— Prima?
— Eu também fiquei confuso, jovem mestre — o criado respondeu, hesitante. — Ela disse que se chama Ahn Wol-hae.
Jae-hoon levantou-se.
Deixaria para revisar os relatórios mais tarde.
— Peça uma criada para chamar Won-hee agassi.
O criado fez uma reverência, afastando-se.
Quando abriu a porta deparou-se com uma jovem sentada no chão aquecido, o olhar dela ergueu-se para mirar Jae-hoon, levantando-se com graciosidade, fazendo uma reverência adequada para o jovem mestre.
— Jovem mestre Im.
— Agassi — ele franziu a testa suavemente, ao que ela olhou para ele debaixo para cima. — Eu não sabia que minha noiva tinha uma prima.
Os lábios vermelhos abrindo-se lentamente na sugestão de um sorriso.
— Suponho que não — ela tocou o norigae, sua voz soando ligeiramente suave. — Eu sempre fui doente desde que nasci, quando fui tirada na barriga sangrenta de eomma, e tive que viver no campo até a vida adulta por causa da minha saúde frágil. Uma xamã disse que minha doença é o karma de outra vida, onde fui um espírito maligno.
Jae-hoon piscou.
— Seriamente?
Ela sorriu.
— A última parte é brincadeira, jovem mestre.
Ele pareceu aliviado.
— Bom. Isso é bom.
Ahn Won-hee adentrou à sala acompanhada por duas servas, ela se curvou para Jae-hoon, não conseguindo olhar para ele uma segunda vez.
Seu olhar fora para a outra dama na sala.
— Você é...
Ela moveu-se para frente, suas mãos delicadas entrelaçaram-se nas mãos de Won-hee.
— Eu sou sua prima — ela disse, sua voz hipnotizante, baixa e como um eco irresistível. — Meu nome é Ahn Wol-hae. Eonni não se lembra de mim? Você costumava me enviar doces para mim, mesmo com o medico me proibindo de comer, mas eu sempre comia escondida.
Won-hee piscou, seu olhar hesitante tornando-se brilhante quando o reconhecimento veio.
— Dongsaeng — Won-hee apertou sua mão, carinhosamente. — Como você tem passado? Sua saúde melhorou para você deixar o campo?
— Eonni não se preocupe — ela sorriu. — Estou bem melhor agora, não há saúde frágil que faça-me perder seu casamento.
Won-hee tocara sua bochecha, um beslico gentil.
— Jovem mestre! Jovem mestre!
Era um criado em pânico.
— O que foi agora?
— O jovem mestre Woo-seok — disse o criado. — Ele chegou.
Jae-hoon passou uma das mãos no rosto.
— Como está o irresponsável?
— Bêbado — respondeu. — E machucado.
— Perdoe-me, agassi — Jae-hoon desculpou-se. — Jantarei com você essa noite, Won-hee agassi.
Ela conteve seu entusiasmo.
— Sim, jovem mestre.
Ele fechou a porta atrás, a frustração agora evidente em suas feições.
Este irmão mais novo tolo e irresponsável.
— Hyungnim!
O hanbok amassado e sujo de sangue — o chapéu gat perdido, e seu olho estava inchado, o lábio partido.
E claramente bêbado, tendo provavelmente passado mais uma noite cercado de cortesãs.
— Você é um tolo, irmão mais novo.
E apertou as costelas, que sem surpresa estava machucado ali também, pelo gemido doloroso do irmão.
— Dói, hyungnim!
Jae-hoon não se comoveu.
— Você estará muito bonito em meu casamento.
Woo-seok teria sorrido se isso não fizesse sua boca doer.
— Invente uma desculpa convincente para abeonim quando ele retornar do palácio.
Ele quase gemeu.
— Abeonim vai querer me casar novamente.
Jae-hoon sorriu.
— Você não pode fugir do casamento para sempre, irmãozinho.








