Capítulo 1 -Helsinki
A luz da manhã entrava fraca pela janela, cinzenta e mansa como quase
tudo em Helsinki naquela época do ano. Alexia abriu os olhos devagar.
Ficou deitada olhando pro teto branco do quarto novo — sempre branco,
sempre diferente, sempre o mesmo tipo de novo — e respirou fundo.
Primeiro dia. De novo.
Ela já tinha perdido a conta de quantas vezes acordou assim. Quarto
estranho, cidade estranha, escola estranha. Sete mudanças em dezesseis
anos. Amsterdã, Lisboa, Berlim, Praga, Estocolmo, Reykjavík, e
agora Helsinki. Cada vez a tia Esme dizia a mesma coisa — "vai ser bom pra
vocês, vai ver" — e cada vez Alexia fingia acreditar. Não porque fosse
ingênua, mas porque discutir com Esme era como discutir com o vento:
gasta energia e não muda a direção.
Levantou. O espelho do banheiro devolveu o rosto de sempre — sardas
demais, cabelo ruivo e cacheado que nunca obedecia, olhos esverdeados
que a tia dizia serem iguais aos da mãe. Alexia nunca soube se isso era
carinho ou crueldade. Falar da mãe sem falar da mãe. Um fantasma feito de
adjetivos soltos.
Vestiu uma blusa de frio, calça jeans, tênis All Star de cano médio — o
mesmo uniforme invisível de sempre, roupa que diz "não me olha" sem
precisar de palavras. Pegou a mochila e desceu.
Amy já estava na cozinha.
A irmã mais velha andava de um lado pro outro abrindo gavetas,
fechando armários, procurando alguma coisa com aquela energia nervosa
que Alexia conhecia de cor. Amy era loira, altura mediana, pele clara como
a de Alexia mas de um jeito diferente — a de Amy parecia calma, a de Alexia
parecia inquieta. Duas versões da mesma pintura, feitas por artistas
diferentes.
— Ande, Alexia. Não quer chegar atrasada no primeiro dia.
— Chegar cedo também não resolve nada — disse Alexia, sentando na
cadeira e puxando a caneca de café que Amy tinha deixado na bancada.
— Alexia.
— Tô tomando, tô tomando.
Bebeu devagar. O café estava fraco demais — Amy nunca acertava o
ponto — mas Alexia não disse nada. Olhou pra irmã que ainda vasculhava a
cozinha e percebeu, sem querer, o que ela procurava. Levantou, abriu a
segunda gaveta da esquerda e tirou a chave do carro.
— Era isso?
Amy olhou pra chave, depois pra Alexia, e soltou o ar.
— Como você sempre sabe?
— Porque você sempre perde no mesmo lugar.
Amy pegou a chave e balançou a cabeça. Mas sorriu — aquele sorriso
rápido que era o jeito dela de dizer obrigada sem usar a palavra.
— Cadê a tia? — perguntou Alexia, pegando a mochila.
— Trabalho. Mandou eu te levar. Vamos?
* * *
O carro era um Volvo velho que rangia nas curvas e cheirava a couro
gasto. As ruas de Helsinki passavam pela janela como uma pintura em tons
de cinza e verde — prédios baixos, árvores altas, pessoas de casaco
andando com a cabeça abaixada contra o vento. Alexia encostou a testa no
vidro frio e ficou olhando sem ver.
Amy dirigia em silêncio. Não era o silêncio bom que às vezes existia
entre as duas — era o outro, o cheio de coisas não ditas, o que pesava.
— Vai ficar tudo bem — disse Amy, sem tirar os olhos da rua.
— Você sempre diz isso.
— Porque sempre fica.
— Fica, sim. E depois a gente se muda de novo.
Amy não respondeu. Apertou o volante com as duas mãos e fez uma
curva. O colégio apareceu no fim da rua — fachada branca, estátuas na
entrada, um gramado onde alguns alunos já estavam sentados. Parecia um
postal. Parecia todas as escolas por onde Alexia já tinha passado — bonitas
por fora, solitárias por dentro.
— Boa sorte — disse Amy, parando o carro.
Alexia abriu a porta. Parou.
— Nem precisa desejar, Amy. Sempre que começo a me adaptar, temos
que nos mudar.
Desceu antes que a irmã pudesse responder. Não olhou pra trás.
* * *
A diretoria ficava no fim de um corredor comprido que cheirava a
madeira encerada e livros velhos. Uma senhora de cabelos brancos e óculos
redondos atendeu Alexia com a simpatia exagerada de quem sabe que
alunos novos estão sempre assustados.
— Bem-vinda, querida. Aqui estão seus horários e a lista de livros. A
diretora está ocupada agora — ela indicou uma porta fechada de onde
vinham vozes firmes e irritadas — mas não se preocupe, ela não é má
pessoa. Só que alguns alunos gostam de testar os limites.
Alexia pegou os papéis e agradeceu. Não teve dificuldade de achar a
sala — anos de escolas novas tinham ensinado a navegar corredores
desconhecidos como quem lê mapas. A sala era grande, clara, com carteiras
quase todas ocupadas. Alexia varreu o lugar com os olhos e sentiu o alívio
habitual: a única carteira vaga era no fundo.
Perfeito. Por mais que fosse boa aluna, Alexia nunca gostou da primeira
fileira. A primeira fileira era pra quem queria ser visto. Alexia queria o
contrário.
Sentou, colocou a mochila no chão, e estava tirando o caderno quando
ouviu uma voz.
— Olá. Me chamo Cristina. Como se chama?
Alexia levantou os olhos. A garota na carteira ao lado era bonita de um
jeito que chamava atenção sem pedir — pele muito branca, quase pálida,
olhos verdes, cabelos castanhos escuros e longos. Tinha um sorriso fácil,
aberto, desses que parecem custar pouco.
— Oi. Alexia. Prazer em conhecer.
— Senta aqui do meu lado, vai — disse Cristina, como se já fossem
amigas. Como se a conversa já tivesse começado antes de Alexia chegar.
O professor entrou. A aula começou. E pela primeira vez em sete
cidades, Alexia não sentou sozinha.
* * *
No intervalo, as duas lancharam juntas no pátio. Cristina falava como
respirava — sem pausa, sem esforço, como se o silêncio fosse um espaço
que precisava ser preenchido. E Alexia, que tinha passado a vida inteira no
silêncio, descobriu que gostava de ouvir. Não era barulho — era companhia.
Em algum momento, uma folha escapou do caderno de Alexia e planou
até o chão. Cristina pegou antes que o vento levasse.
— Nossa, que desenho lindo. Você que fez?
Alexia sentiu o rosto esquentar.
— Sim. Eu gosto de desenhar. Me distraio, relaxo um pouco. Esqueço
dos problemas.
— Você é nova e já tem problemas? Nossa, onde esse mundo vai parar —
disse Cristina, rindo.
— Não tenho problemas de verdade. É só que... é estressante viver
mudando de cidade. Por isso não tenho amizades. Só tenho minha tia e
minha irmã.
Cristina parou de rir. Olhou pra Alexia com uma atenção que não estava
ali antes — uma atenção quieta, séria, que não combinava com o sorriso
fácil de um minuto atrás.
— Imagino que deve ser difícil — disse ela, e a voz tinha mudado. Tinha
ficado suave de um jeito que Alexia sentiu no peito.
— Já tá na hora de voltar pra sala — disse Cristina, levantando. —
Vamos?
Alexia foi. E enquanto andava ao lado da garota que tinha conhecido há
três horas, sentiu pela primeira vez em muito tempo uma coisa perigosa.
Esperança.
* * *
A tarde se arrastou. Alexia chegou em casa, arrumou tudo, ligou a TV,
fez pipoca. Quando Esme entrou pela porta, encontrou a sobrinha no sofá
com a expressão de quem teve um dia que não sabia classificar.
— Boa tarde, Lexi. Como foi o primeiro dia?
— Foi legal, tia. Fiz amizade com uma garota chamada Cristina. Ela é
bastante divertida. Ah, por falar nisso, ela se ofereceu pra me mostrar a
cidade esse final de semana. Posso ir?
Esme pendurou o casaco no gancho da porta. Ficou de costas por um
segundo — um segundo a mais do que o normal.
— Claro que pode. Mas depois quero conhecer essa sua amiga, tá bem?
— Tá bem, tia. Vou lá pro quarto desenhar e fazer as lições.
Alexia subiu. Sentou na escrivaninha e olhou pela janela. A vista do
quarto era uma paisagem de telhados e árvores, com o céu de Helsinki se
tingindo de laranja e roxo enquanto o dia morria devagar. Era bonito. Era
inspirador. Era temporário — como tudo.
Pegou o lápis e começou a desenhar. Não a paisagem. Uma mão
estendida. Não sabia de quem.
O dia se arrastou até anoitecer. Alexia jantou, escovou os dentes, e
deitou na cama do quarto novo, na casa nova, na cidade nova. Fechou os
olhos.
E pela primeira vez em sete cidades, dormiu pensando em voltar pro
colégio no dia seguinte.








