Chapter 1 O Silêncio que Habito
O vento soprava frio pelas ruas de Itaquirai, trazendo consigo o cheiro de chuva prestes a cair e o murmúrio distante do rio que corta a cidade. Mas dentro daquela casa de paredes claras e janelas sempre fechadas, o silêncio era mais denso, mais pesado — quase uma terceira presença.
Eu, Caroline Brigitte Müller, estava sentada à janela, os dedos traçando sem querer a mesma linha na madeira do parapeito. A família Müller não falava muito. Nós aprendíamos a calar antes mesmo de aprender a falar. “Guarde para si, Caroline. O que se diz, se quebra.” Era a frase que ouvira desde criança, gravada em cada olhar severo, em cada jantar sem palavras. Eu carregava segredos nos ossos, e eles pesavam mais do que qualquer palavra poderia pesar.
Um som de motor quebrando o silêncio. Um carro parou em frente ao portão. Não era um carro que eu conhecia.
Meu coração deu um salto, e eu me afastei um pouco da janela, mas não o suficiente para deixar de ver. O motorista saiu: alto, ombros largos, cabelo escuro bagunçado pelo vento. Ele olhou para a casa, e por um instante tive a impressão de que seus olhos castanhos encontraram os meus, mesmo através do vidro. Havia nele uma intensidade que doía de olhar. Como se ele conseguisse ver tudo o que eu escondia.
Pedro Synx. O nome veio à minha mente sem que eu soubesse de onde, como se sempre tivesse estado ali, esperando para ser pronunciado. Ele não parecia alguém que pertencia àquele lugar calmo e contido. Parecia tempestade em pessoa.
— Você não deveria ficar espiando, Caroline. — A voz veio de trás, baixa e familiar. Era Amanda Gouveia, minha melhor amiga desde os sete anos, a única que sabia ouvir o meu silêncio. Ela entrou no quarto, fechando a porta com cuidado. — É ele, não é? O homem de que você falou… sem falar.
Eu apenas acenei, engolindo em seco. Minha garganta sempre ficava apertada quando o assunto era ele.
— Ele veio falar com o seu pai. — Amanda aproximou-se, os olhos cheios de preocupação. — E eu vi o jeito que ele olhou para você quando entrou. Caroline… cuidado. Pessoas assim não ficam quietas. Elas fazem perguntas. E perguntas aqui… são perigosas.
Eu sabia disso melhor do que ninguém. Mas quando a porta da frente abriu e ouvi a voz dele — grave, firme, sem qualquer hesitação — senti que algo dentro de mim se partia ao meio. Metade queria correr, a outra metade queria finalmente ser ouvida.
Desci as escadas devagar, cada passo uma luta contra o próprio instinto. Na sala de estar, Carlos Vitor já estava ali, de pé, as mãos entrelaçadas nas costas. Ele olhou para mim com aquele olhar doce e triste que sempre tinha, como se carregasse um peso que não era seu, mas que aceitou levar. Ele amava-me, eu sabia. E nunca me disse. Outro silêncio.
— Caroline. — Chamou-me meu pai, rígido como sempre. — Este é Pedro Synx. Veio tratar de assuntos da propriedade.
Pedro virou-se para mim. E quando seus olhos pousaram em mim, o mundo pareceu diminuir de velocidade.
— Prazer, Caroline. — Ele disse meu nome devagar, como se estivesse provando cada sílaba. — Eu ouvi muito sobre você.
Minhas bochechas queimaram. Eu não conseguia falar. Nunca conseguia. Mas ele não desviou o olhar. Não olhou para mim como se eu fosse quebrar, como se eu fosse frágil. Olhou como se estivesse esperando que eu falasse. Como se eu tivesse algo importante a dizer.
— Ela é… reservada. — Interrompeu Gabriel Hertevt, que surgiu na porta com um sorriso meio torto, sempre observando tudo de canto de olho. — Não é de muitas palavras, nossa Caroline.
— Talvez ninguém nunca tenha dado motivos para falar. — Rebateu Pedro, baixo, mas firme.
E então veio a risada seca, direta, sem rodeios, de Matheus Kelor, que estava encostado na parede, calado até então.
— E lá vamos nós. — Disse ele, cruzando os braços. — Mais um que acha que pode quebrar o gelo. Cuidado, Synx. O gelo aqui é grosso. E quando racha… afunda todo mundo.
Ninguém respondeu. Mas eu senti. Todos ali carregavam alguma coisa não dita. Todos estávamos presos na mesma teia de silêncios, segredos e escolhas que já não podíamos desfazer. E naquele instante, eu soube: a minha vida de calada tinha acabado. Não havia mais volta. O silêncio pesava — mas talvez a verdade doesse mais, e fosse a única coisa que poderia me libertar.
O vento bateu forte na janela, e a primeira gota de chuva escorreu pelo vidro. Pedro ainda me olhava. E pela primeira vez em toda a minha vida, eu quis falar. Quis gritar. Quis quebrar tudo.
Mas eu apenas baixei os olhos. E continuei em silêncio. Por enquanto.








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