ASSASSINATO
O som dos saltos Louboutin ecoava pelo prédio comercial da família. Com sua bolsa nas mãos, Elisa passou pela secretária sem ao menos olhar para ela.
- Dona Elisa! - gritou a secretária, sem ouvir uma resposta.
Elisa abriu a porta da sala de seu marido, que estava aos beijos com outra mulher. Jogou a bolsa em cima da mesa, sentou-se na cadeira e cruzou as pernas. Olhou para a mulher com desdém e fez apenas um sinal com os olhos para que seu marido pedisse à mulher para sair.
- A funcionária da contabilidade? - sorriu de canto, observando a mulher arrumar a saia.
- Não esperava sua visita hoje, Elisa - disse o marido, abrindo a gaveta e retirando um cigarro.
Elisa levantou-se, abriu sua bolsa, retirou um isqueiro e acendeu o cigarro para ele. Aproximou o rosto da orelha do marido e deu uma pequena mordiscada.
- Você sabe que eu permito essas coisas por causa dos nossos filhos - sussurrou no ouvido dele.
Ele virou o rosto para ela e soprou a fumaça do cigarro.
- Você permite por causa da vida luxuosa que eu forneço a você.
Ela sorriu, dando passos até a cadeira onde estava sentada antes.
- Não tem medo de um dos seus filhos entrar aqui? - falou, acomodando-se na cadeira.
- Eu sou homem, meus filhos me entenderiam.
- Acho que Matheus ficaria muito feliz ao saber que seu pai dorme com qualquer puta que esteja atrás de uma promoção na empresa - disse ela, com um leve sorriso.
- O que te traz aqui, Elisa? - Ele levou a mão ao cinzeiro, apagando o cigarro, e se curvou para trás, ficando mais confortável na cadeira.
Elisa pegou o celular que estava dentro de sua bolsa, começou a passar pelas fotos até parar em uma.
- Essa mulher - disse, inclinando o braço em direção ao marido.
- Ainda com essa ideia? O que essa mulher fez para você? - Ele colocou os braços sobre a mesa, inclinando-se para encarar Elisa.
- Eu também tenho meus segredos - Elisa tirou um maço de cigarros da bolsa e acendeu um - assim como você tem os seus, Augusto.
Augusto apenas sorriu para ela, pegou o telefone e ligou para um de seus capangas.
- Fale com ele - entregou o telefone para Elisa.
- Tenho um serviço para você - disse ela, com a voz suave. - Pagarei caro por um serviço bem feito.
- Só me mandar as coordenadas, senhora - disse a voz rouca do outro lado da linha.
- Te mandarei por mensagem - devolveu o telefone para Augusto. - Agradeço por me emprestar o seu melhor capanga.
- O que eu não faço por você, meu amor - falou ele, em tom de sarcasmo.
Elisa pegou sua bolsa de cima da cadeira e sorriu para o marido como sinal de despedida.
Um pouco distante dali, vivia Ana. Ela era uma mulher de cabelos pretos, longos e lisos, que brilhavam como ébano à luz do sol. Sua pele parda possuía um tom quente, semelhante ao da terra úmida após a chuva, e seus olhos eram de um castanho profundo, revelando uma sabedoria tranquila. Suas feições eram marcantes, com maçãs do rosto altas e um sorriso que transmitia tanto confiança quanto gentileza. Ela se movia com graça e determinação, cada passo ecoando a força e a serenidade de sua presença.
- Ainda vou me casar com você, Ana! - gritava o atendente da barraca de mangas.
- Quem sabe um dia Joel.
Ela morava em uma comunidade situada nas encostas de um morro, onde as casas, feitas de tijolos aparentes e telhados de zinco, se amontoavam de forma caótica. As ruelas eram estreitas, pavimentadas com paralelepípedos ou apenas terra batida, e nelas circulavam crianças brincando e vendedores ambulantes com seus carrinhos. A energia vibrante do lugar contrastava com as dificuldades diárias, refletidas nos olhares atentos e na solidariedade entre os moradores. Ana caminhava em direção à sua casa, observando as pessoas ao seu redor. Ela morava a duas esquinas dali, entre a mercearia do Antônio e o bar da Dona Jô. Ao chegar em casa, percebeu que sua mãe estava no quintal lavando roupas à mão, pois não tinha condições financeiras para comprar uma máquina de lavar.
- Eu te ajudo - disse Ana, aproximando-se de sua mãe e pegando uma calça jeans azul para estender no varal que ficava no meio do quintal.
- Como foi na entrevista? - perguntou a mãe, sem ao menos olhar para a filha.
Ana havia saído para uma entrevista de emprego em uma loja de roupas, onde deixou um currículo dias atrás.
- Eu não sei, espero que tenha me saído bem - sorriu, enquanto pensava na importância daquele trabalho.
- Tenho certeza que sim. Isso vai ajudar tanto a gente.
- Eu sei que vai, mãe - Ana aproximou-se da mãe, abraçando-a por trás.
- Eu quero muito ver você e seu irmão numa vida boa - disse a mãe, passando a mão no braço de Ana.
- Eu vou preparar o jantar - disse Ana, afastando-se.
Desde que seu pai fora embora para o Ceará com uma suposta amante, Ana e sua mãe enfrentavam dificuldades para criar o irmão mais novo, Gutemberg, apelidado pela família de Guto. Enquanto o arroz e o feijão estavam no fogo, Ana cortava as batatas em rodelas para fritá-las, já que seriam o acompanhamento.
- Falei com a vizinha hoje, e parece que seu pai está querendo voltar para a cidade - disse a mãe de Ana, puxando uma cadeira para se sentar.
- Ele não é mais meu pai - disse Ana, sem ao menos olhar para a mãe.
- Eu sei que ele nos abandonou e deixou um monte de dívidas para nós, mas não pode dizer que ele não é seu pai.
- Mãe, eu já disse um milhão de vezes, ele morreu para mim.
- Eu só quero que seu irmão tenha uma boa relação com seu pai, apesar de tudo.
- Guto nem sabe que ele existe - Ana virou-se para a mãe - Ele foi embora quando o menino estava gatinhando.
- Mas Gutemberg sabe que tem um pai.
- Pai é quem cria, mãe, e ele não criou o Guto - Ana sorriu nervosa - Eu tive que estudar de manhã e trabalhar à tarde, faxinando casas pela comunidade para que meu irmão tivesse um prato de arroz com feijão em casa. A senhora fica passando roupas por míseros centavos.
- Eu não faço mais que isso por causa da minha coluna, e o advogado ainda está tentando me aposentar - disse a mãe, inclinando a cabeça para baixo.
- Eu sei, mãe - Ana se aproximou, segurou o rosto da mãe e elevou a cabeça dela - Eu sei que tudo vai dar certo, mãe.
- Eu amo tanto você e seu irmão.
- Eu amo a senhora, mais que tudo nesta vida - disse ela, sorrindo. - Bom, eu preciso ir buscar o Guto na casa do Luiz.
- Eu termino de fazer o jantar - disse a mãe, levantando-se e sorrindo.
Ana foi tomar um banho para tirar o cheiro de tempero que havia impregnado em sua roupa. A água que caía em seu corpo era gelada, mas ela quase não sentia o frio, já que estava acostumada com o banho frio.
Enquanto Ana se entregava ao fluxo constante da água, na mansão da família Safra, Matheu estava sentado em seu escritório, resolvendo questões da empresa. Matheus era um homem alto e esguio, com uma postura ereta que transmitia confiança. Seus cabelos pretos, espessos e levemente ondulados, caíam de forma despretensiosa sobre a testa. Os olhos verdes, brilhantes e penetrantes, eram seu traço mais marcante, capazes de capturar a atenção de qualquer um. Sua pele era clara e, quando não usava protetor solar, ficava vermelha por causa do sol. Os traços do rosto eram bem definidos, com um queixo firme e maçãs do rosto ligeiramente salientes. Seu sorriso, embora raro, era caloroso e iluminava seu rosto.
- Estou ocupado - disse Matheus, ouvindo a porta ser aberta devagarzinho.
- Posso falar com você? - Elisa entrou despretensiosa.
- Por que não vai encher o Amadeu? - perguntou ele, sem mover a cabeça, com os olhos focados nos contratos da empresa.
Amadeu era o filho mais velho de Elisa, um garoto rebelde desde a adolescência. Elisa nunca havia dito a nenhum deles, mas Matheus era seu filho favorito.
- Por que fala desse jeito com sua mãe? - Ela se aproximou, ficando ao lado de Matheus.
- Desculpa - disse ele, levantando o rosto e olhando para a mãe, esperando o beijo suave no rosto. Elisa baixou a cabeça e beijou o rosto de Matheus, um beijo que demonstrava todo o carinho que sentia pelo filho. - Eu me preocupo com o império da família.
- Eu só vim dizer que preparei o seu prato favorito - disse ela, sorrindo e passando a mão na bochecha de Matheus, limpando o batom que havia deixado em seu rosto.
- Você fez ou mandou uma das cozinheiras fazer? - perguntou ele, sorrindo e movendo levemente a cabeça para olhar nos olhos da mãe.
- Isso importa? - disse ela, afastando-se. - O importante é que foi para você.
Invadindo a sala, arreganhando a porta, entrou Amadeu, o irmão mais velho, com um sorriso largo na boca, como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. Ele se aproximou de Matheu e esboçou o seu contentamento.
- Comprei um carro novo - disse, tirando a chave do bolso e jogando-a sobre a mesa.
- Outro? - perguntou Matheus.
- Nossa família tem grana, então vamos gastar.
- Dinheiro não dura para sempre - respondeu Matheus, voltando sua atenção para os contratos. - Por que você não vai dar uma volta no carro novo do seu filho?
- Vou tomar um banho de espuma - murmurou Elisa. - E, Amadeu, é decepcionante a forma como você desperdiça o dinheiro desta família.
Elisa saiu da sala, deixando um clima tenso.
- Você sabia que nosso pai anda investindo alto em jogos de cassino?
- Lá vem você tirar a minha felicidade. Vai viver, Matheus. Nosso dinheiro nunca vai acabar.
- Amadeu, você deveria se preocupar mais com esta família. Parece que ninguém se importa com nada aqui.
- Relaxa, irmão - disse Amadeu, escorando-se na mesa, apoiando as duas mãos. - Tenho uns contatos de umas garotas que vão te deixar bem relaxado.
- Sai daqui, Amadeu - falou Matheus, nervoso.
- Se precisar, é só me pedir - Amadeu piscou para o irmão, com um sorriso.
Amadeu saiu da sala saltitante. Matheus não entendia por que era o único que se importava com o futuro de todos ali, parecia que ele sentia que algo estava por vir.
Ana andava pela rua conversando com seu irmão, depois de pegá-lo na casa de Luiz.
- Mamãe está preparando uma janta bem gostosa para nós - disse ela, com os olhos brilhando ao olhar para o irmão.
- Estou com tanta fome, Ana - disse ele, passando a mão na barriga. - Ana, quando você vai comprar a bicicleta que me prometeu?
- Assim que eu arrumar um emprego, eu te disse.
- E vai demorar?
- Espero que não, Guto. Eu preciso tanto encontrar um trabalho logo. Papai deixou a gente com muitas dívidas.
- Será que um dia vou conhecer meu pai? - perguntou ele, olhando para ela com os olhos cheios de lágrimas.
- Um dia, Guto - disse ela, passando a mão na cabeça do irmão.
Ao se aproximar de sua casa, Ana escutou vários disparos. "Tiros?" ela pensou. De repente, viu dois homens saindo de sua casa. Um deles estava com o celular no ouvido.
- Está feito, Elisa - disse o homem para alguém do outro lado da linha.
Assim que aqueles homens entraram no carro, Ana correu, gritando.
- Mãe?
Ao entrar em casa, deparou-se com sua mãe estirada no chão, com três tiros na barriga. Ana se jogou no chão aos prantos, implorando para que sua mãe não morresse.
- Mamãe? - Guto começou a chorar, desesperado.
- Foi a família Safra - disse a mãe de Ana, forçando a respiração. - Segredo...
- Que segredo, mãe? - Ana ficou sem resposta.
Sua mãe fechou os olhos, a respiração havia cessado, e o sangue escorria pelo chão. A última coisa que ela havia dito era que a família Safra teria feito aquilo.








