Prologo - O encontro
Prólogo O cruzamento
Lars estava correndo.
Não era novidade.
Correr era, tecnicamente, uma das suas habilidades mais desenvolvidas — não por treino, não por esporte, mas por necessidade. Por sobrevivência. Por uma sequência de decisões ruins que ele costumava justificar como azar e que todo mundo ao redor justificava como personalidade.
Naquela noite em específico, o problema tinha começado com um comentário.
Não um comentário importante.
Não um comentário necessário.
Apenas o tipo de comentário que Lars de Gaia era incapaz de segurar — aquele que todo mundo pensa mas ninguém fala, e que ele falava porque o filtro entre o cérebro e a boca nunca havia funcionado direito.
O homem à sua frente não tinha gostado.
Os três homens atrás dele também não.
Daí o correr.
Lars dobrou uma esquina.
Depois outra.
O beco era estreito, úmido, cheirava a lixo e chuva antiga — o tipo de lugar que aparece nos filmes como cenário de algo ruim prestes a acontecer.
Ele estava começando a entender por quê.
O som dos passos atrás dele ficou mais próximo.
Lars olhou para frente.
Beco sem saída.
— Claro — ele murmurou. — Claro que sim.
Virou para trás.
Os três homens dobraram a esquina.
Lars recuou mais um passo.
Mais um.
E então o chão sumiu.
Não literalmente.
Mas quase.
Algo rasgou o ar à sua esquerda — um som que ele nunca havia ouvido antes, como tecido e trovão ao mesmo tempo, como uma porta sendo aberta em algum lugar que não deveria ter portas.
Uma luz.
Lars olhou.
No meio do beco, onde havia apenas parede úmida um segundo antes, existia agora uma abertura.
Não uma janela.
Não uma porta.
Uma fissura no ar.
Brilhava em azul e dourado, pulsava como batimento cardíaco, e tinha o tamanho exato de uma pessoa.
Lars ficou parado por exatamente dois segundos.
Que era o tempo que levou para os três homens avançarem.
— Tá bom — ele disse para ninguém em específico.
E pulou.
Do outro lado, alguém saiu.
Uma garota.
Cabelos ruivos sob a luz fraca do corredor de pedra.
Uma bolsa de ombro.
Uma adaga na cintura.
Ela atravessou o portal sem hesitar — o passo firme de alguém que já havia feito isso antes, que sabia exatamente o que estava fazendo e aonde estava indo.
Akyin Kor’llen não olhou para trás.
Nunca olhava.
O portal se fecharia sozinho. Ela voltaria em três dias. A missão estava clara.
Ela já havia descido dois degraus na rua úmida quando parou.
Algo tinha passado por ela.
Não um toque.
Não exatamente.
Mais como uma presença — o tipo de coisa que você sente quando alguém entra no mesmo cômodo que você no escuro. Um deslocamento de ar. Uma mudança de temperatura.
Ela virou o rosto levemente.
O portal havia fechado.
A rua estava vazia.
Akyin ficou imóvel por um segundo.
Depois continuou andando.
Provavelmente nada.
Do outro lado do portal, Lars estava no chão.
O impacto havia sido considerável.
Ele ficou imóvel alguns segundos — o tempo suficiente para confirmar que os ossos ainda estavam no lugar certo e que o chão era de pedra, não de asfalto.
Depois abriu um olho.
Depois o outro.
Caverna.
Pedras negras cobertas de símbolos que não pareciam de nenhum idioma que ele já havia visto. Cristais enterrados nas paredes — não o tipo de cristal de loja de esoterismo, mas algo maior, mais pesado, que pulsava com uma luz azulada própria. Um teto alto demais para ser natural. Um silêncio que parecia ter textura.
Lars se sentou devagar.
Olhou para trás.
Não havia mais portal.
— Isso é...
Ele olhou para as paredes.
Para os cristais.
Para os símbolos.
Para a completa ausência de beco, lixo, chuva e três homens irritados.
— ...melhor do que eu esperava, na verdade.
Uma chama apareceu no escuro.
Pequena. Laranja. Flutuando na altura dos seus olhos.
Lars a encarou.
A chama o encarou de volta.
— Você demorou — ela disse.
Lars piscou.
— A chama falou.
— Você é humano.
— Você é uma chama.
— Sim.
— Então acho que estamos empatados.
Silêncio.
A chama se aproximou alguns centímetros.
Lars não recuou dessa vez.
— Eu me chamo Flam — disse a chama. — E você...
Uma luz surgiu no fundo da caverna.
Não a luz dos cristais.
Outra coisa.
Mais quente. Mais dourada. Pulsando devagar como se estivesse respirando.
Lars se levantou sem perceber.
Caminhou em direção à luz.
No centro da caverna, sobre uma pedra plana coberta de runas, havia uma espada.
Grande demais para ele.
Antiga demais para qualquer museu.
Levemente desgastada — como se tivesse esperado muito tempo e estivesse começando a perder a paciência.
Lars ficou parado diante dela.
A espada pulsou.
Uma vez.
Ele estendeu a mão.
— Não — disse Flam atrás dele.
Ele tocou o cabo.
O brilho explodiu.
Lars recuou um passo, os olhos fechados, e quando os abriu, a luz havia diminuído para algo suportável.
A espada continuava no lugar.
Mas algo havia mudado.
Ela parecia... menos pesada.
Menos distante.
Como se tivesse decidido algo.
— Você acabou de fazer uma coisa muito idiota — disse Flam.
— Parece que sim — concordou Lars.
— A espada escolheu você.
Lars olhou para a espada.
Depois para Flam.
— Isso é bom ou ruim?
Flam considerou.
— As duas coisas.
Lars assentiu lentamente.
Olhou ao redor da caverna.
Para os cristais.
Para os símbolos.
Para a ausência completa de qualquer coisa que ele reconhecesse.
— Onde eu estou?
— Em Névoolom — disse Flam. — No reino de Zelênia. Numa caverna que ninguém via há milênios.
— E como eu saio?
— Essa é uma pergunta excelente.
Pausa.
— Você sabe a resposta?
— Não imediatamente — admitiu Flam.
Lars respirou fundo.
Olhou para a espada.
Para a chama flutuante que havia acabado de ter sua primeira conversa.
Para as paredes de pedra sem nenhuma saída visível.
— Tá — ele disse. — Tá bom.
E foi a única coisa que havia para dizer.
Naquele mesmo instante, do outro lado de uma fissura que já havia se fechado, uma garota de cabelos ruivos caminhava por uma cidade que não era a dela.
Ela não sabia que havia alguém na caverna.
Ele não sabia que ela existia.
Mas o portal que ela havia aberto para cumprir uma missão era o mesmo que ele havia atravessado por acidente.
E esse detalhe, pequeno demais para qualquer um dos dois notar naquela noite, era o tipo de detalhe que muda tudo.
Mas antes que essa história pudesse acontecer...
muito antes do portal...
muito antes do primeiro dia de missão...
muito antes de qualquer coisa...
havia uma caixa de madeira.
E dentro dela, uma criança.
Com cabelos que não deveriam existir.
Capítulo 1 — A alma da terra
16 anos atrás
A primeira coisa que ouviram foi o choro.
Não era alto.
Não era desesperado.
Era apenas... insistente.
Um som pequeno vindo de dentro de uma caixa de madeira abandonada na entrada do orfanato Lúmen.
A mulher que cuidava da instituição parou diante da porta.
Olhou para os lados.
Nada.
Nenhuma carruagem.
Nenhum responsável.
Nenhuma carta.
Apenas a caixa.
E o choro.
— Meu Deus...
Ela se ajoelhou.
Abriu a tampa.
E encontrou uma criança.
Uma menina.
Muito pequena.
Enrolada em um tecido fino demais para aquela época do ano.
Mas não foi isso que fez a mulher prender a respiração.
Foram os cabelos.
Brancos.
Não grisalhos.
Não claros.
Brancos.
Brancos como a luz dos cristais.
Brancos como neve recém-caída.
A mulher tocou cuidadosamente a cabeça da criança.
A menina abriu os olhos.
Verdes.
Por um instante, o choro cessou.
E a mulher teve a estranha sensação de que aquela criança estava olhando diretamente através dela.
Como se estivesse tentando reconhecer um rosto que nunca havia visto.
— Quem deixou você aqui?
A menina não respondeu.
É claro que não poderia.
Era apenas um bebê.
A mulher a pegou no colo.
— Vamos entrar.
Naquela noite, o nome da criança foi registrado.
Sem pai.
Sem mãe.
Sem família conhecida.
Origem desconhecida.
E, ao lado do nome, escreveram:
Akyin.
A criança que não deveria existir.
Naquela mesma noite, muito longe dali, um cristal começou a pulsar.
Uma vez.
Duas.
Três.
A mulher que dormia em um quarto escuro abriu os olhos.
Ela tinha cabelos brancos.
Naturais.
Quatro séculos haviam passado desde que aquela mulher nascera pela primeira vez em outro mundo.
Ela se levantou.
Caminhou até o cristal.
Tocou sua superfície.
Uma imagem apareceu.
Um orfanato.
Uma criança.
Cabelos brancos.
Olhos verdes.
A Senhora Zero permaneceu imóvel.
Pela primeira vez em muitos anos...
ela sorriu.
— Finalmente.
Ela chegou três dias depois.
Sem aviso.
Sem carta.
Sem escolta.
Apenas uma mulher de cabelos brancos que parou diante da porta do orfanato como se soubesse exatamente onde estava — e como se nunca precisasse apressar nada.
A diretora a recebeu com desconfiança.
Visitas assim não eram comuns.
Visitas assim nunca eram inocentes.
— Posso ajudá-la?
A mulher não respondeu de imediato.
Seu olhar percorreu o corredor com uma calma que incomodava — não porque fosse fria, mas porque parecia antiga. Como se ela já tivesse visto corredores assim. Como se tivesse visto muita coisa.
— Há uma criança aqui.
Não era uma pergunta.
— Temos várias crianças — respondeu a diretora com cautela.
— Uma específica.
Pausa.
— Cabelos brancos. Olhos verdes. Chegou há três dias.
A diretora apertou as mãos.
— Como a senhora sabe disso?
A mulher finalmente a olhou.
— Porque estive esperando por ela muito tempo.
O quarto das crianças pequenas cheirava a madeira úmida e tecido velho.
Havia seis berços.
A mulher de cabelos brancos parou diante do último.
A criança estava acordada.
Não chorava.
Apenas olhava para o teto com aquela expressão estranha que a diretora ainda não sabia nomear — como se a menina estivesse tentando lembrar de algo que nunca havia vivido.
A mulher se inclinou.
A criança virou o rosto.
E as olhou.
Silêncio.
Por um momento, ninguém se moveu.
A mulher de cabelos brancos ficou imóvel diante daqueles olhos verdes.
E algo aconteceu no rosto dela.
Não foi emoção exatamente.
Não foi surpresa.
Foi reconhecimento.
Como quem reencontra algo que havia perdido há tempo demais para calcular.
— Aí está você — ela murmurou.
Baixinho demais para a diretora ouvir.
A criança não respondeu.
É claro que não poderia.
Mas não desviou o olhar.
Os papéis foram assinados naquela tarde.
A diretora fez todas as perguntas que devia fazer.
A mulher respondeu todas elas com paciência e precisão cirúrgica.
Nome: Elara Voss Zero.
Ocupação: Administradora do Conselho Econômico de Zelênia .
Residência: Zelênia.
Relação com a criança: Nenhuma anterior.
Motivo da adoção: Pessoal.
A diretora olhou para o último campo por um longo momento.
Depois assinou.
Não sabia explicar por quê.
Havia algo naquela mulher que tornava a resistência desnecessária — não por medo, mas por uma certeza estranha de que ela estava fazendo a coisa certa ao deixar a criança ir.
Como se aquela mulher de cabelos brancos fosse exatamente onde aquela criança deveria estar.
Zero a carregou até a saída com cuidado.
A menina estava quieta.
Os olhos brancos do corredor passavam por ela como água.
Na porta, a diretora hesitou.
— Como vai chamá-la?
Zero parou.
Olhou para a criança.
A criança olhou de volta.
— O nome já está nos documentos — disse Zero.
— Akyin.
A diretora assentiu lentamente.
— É um nome incomum.
— É um nome antigo.
E então saíram.
Do lado de fora, o ar de Zelênia cheirava a cristal e a vento frio.
Zero caminhou sem pressa.
Akyin continuava quieta no seu colo.
Não chorava.
Não dormia.
Apenas existia — com aquela presença silenciosa que não combinava com uma criança tão pequena.
Depois de alguns passos, Zero parou.
Olhou para ela.
— Você vai aprender muito — disse, com voz baixa e direta. — Vai ser difícil. Vou exigir coisas que nenhuma criança deveria precisar aprender.
Pausa.
— Mas você não é exatamente uma criança comum, é?
Akyin a olhou.
Naqueles olhos verdes, Zero não viu medo.
Não viu choro.
Não viu nada do que esperaria de um bebê abandonado.
Viu apenas uma calma que só existe em duas categorias de seres:
os muito velhos.
Ou aqueles que já viveram antes.
Zero assentiu levemente.
Como se tivesse confirmado algo que já sabia.
— Bem-vinda a Névoolom — ela disse, quase para si mesma.
— Desta vez.








