O Riacho
Roseiral, anos 1600.
Cidade pequena. 3 ruas de terra, igreja de pedra, cheiro de fumaça de lenha e flor de laranjeira no ar. Todo mundo se conhecia.
E em Roseiral morava Hélio.
26 anos. Filho de Andreia, viúva que vivia da roça e de uns panos que vendia na feira.
Hélio era bonito demais pra ficar quieto: alto, cabelo castanho sempre bagunçado, olhos cor de mel e mão calejada de trabalhar na serraria. Mas era calado. De pouca risada.
Numa quinta-feira de calor, ele desceu até o *riacho* que corta a fazenda pra lavar as botas e encher o cantil. A água era gelada e clara.
Quando ele se abaixou, viu.
Uma jovem caída na margem.
Molhada, pálida, a respiração fraca. O vestido simples encharcado. Sem bolsa, sem nada.
O peito de Hélio apertou. Não era dó. Era urgência.
Como se ele já conhecesse aquela cara.
Ele pegou ela no colo com cuidado. Era leve.
"Ei... me ouve?"
Correu pra casa.
Andreia estava estendendo roupa. Quando viu, nem perguntou.
"Deita ela na minha cama. Pega pano seco. Faz chá."
Era assim Andreia: acolhia primeiro.
A noite inteira Hélio ficou na cadeira do lado. Olhando.
No outro dia, sol batendo na janela de madeira.
A jovem abriu os olhos assustada. Quarto estranho. Cheiro de erva.
E na frente dela, *Hélio* segurando uma caneca de chá.
Quando os olhos deles se encontraram, os dois sentiram ao mesmo tempo.
Um calor no peito. Um nó na garganta.
Como se a alma reconhecesse a outra.
Ela levou a mão no peito, confusa.
"Eu... eu sou Maia" - sussurrou, com a voz rouca.
Hélio deu um meio sorriso, o primeiro em muito tempo.
"Eu sou Hélio. Você está segura aqui, Maia."
Andreia apareceu na porta com pão na mão. Olhou pros dois e disse baixinho:
"O riacho trouxe foi presente pra essa casa."








