A Armada Invencível Das Excelentes Ideias (Pt Esp Eng Rus) by Lazaro Pablo Solorzano at Inkitt
Customize readability
Aa

A Armada Invencível das Excelentes Ideias (PT-ESP-ENG-RUS)

All Rights Reserved ©

Summary

Four childhood friends in the Brazilian city of São Teodoro have jobs, skills, a little money — and absolutely no adult supervision. So naturally, they decide to build a yacht. Told years later by Lázaro Pablo Solórzano, The Invincible Armada of Excellent Ideas is a darkly comic story about friendship, creative madness and that brief period in life when four dudes managed to turn their childhood fantasies into something real. They even built the yacht. Keeping it afloat was another matter.

Status
Complete
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
18+

A Armada Invencível das Excelentes Ideias

(Ilustração por Camila Cortez Gomes aka CamilaConElCorazon)

Vivem me perguntando…

Mas eu não faço a menor ideia do que responder.

Só que pergunta é o que não falta, e ignorar todas elas seria, no mínimo, falta de educação.

Principalmente quando eu ignoro perguntas de gente em quem confiei o bastante pra deixar ler meus rascunhos.

No geral, todo mundo quer saber dos detalhes das minhas aventuras no Tinder, mas, além do que já foi contado nas páginas do rascunho, não tenho mais nada a acrescentar àquelas histórias.

Só que ainda existem pessoas que conseguem olhar um pouco além e fazem perguntas que merecem uma resposta mais desenvolvida.

E é por isso que eu quero contar pra ti, caro leitor atento, a história de como eu e meus amigos construímos um iate e do que aconteceu com ele depois.

Pra tu entender melhor o quê, por quê, como, onde e quanto, vou ter que voltar ao passado.

Mais precisamente, ao primeiro ano da escola.

E contar como a roda da Fortuna juntou Lázaro Pablo Solórzano e José Fonseca.

Então.

Segunda semana do meu primeiríssimo ano de vida escolar.

Tu lembra da tua primeira semana na escola?

Eu lembro.

Não aconteceu nada demais.

A gente ficava sentado na sala, às vezes escrevia alguma coisa, às vezes cochichava, corria no recreio.

Basicamente, foi assim até a formatura.

Mas aquelas primeiras semanas eram especiais, porque naquela época tudo aquilo ainda era novidade.

E foi na segunda semana que eu resolvi finalmente prestar atenção nos colegas sentados perto de mim.

Porque, por algum motivo, durante a primeira semana inteira isso simplesmente não tinha passado pela minha cabeça.

Na terça-feira, antes da primeira aula, eu mal tinha terminado de arrumar minhas coisas quando olhei pra carteira à minha direita.

Ali estava José.

Já enorme naquela época.

Usava uma camiseta cinza.

A mochila também era cinza.

Aliás, José sempre teve um gosto excelente pra mochila.

Eu lembro de todas as mochilas que ele teve na escola.

As minhas eram piores.

Baixei os olhos pras coisas dele e vi O MEU ESTOJO!

Meu estojo com palmeiras e barquinhos.

Na mesma hora eu falei:

— Tu roubou meu estojo!

Dois segundos depois, José respondeu:

— Não.

Eu insisti:

— Tu roubou meu estojo! Esse aí é meu! Mostra o que tem dentro!

José abriu o estojo sem pressa.

Lá dentro tinha caneta, lápis e todo o resto.

Só que não eram os meus.

Abri minha mochila.

Meu estojo estava lá.

O conteúdo também.

José deu o veredito:

— A gente tem estojo igual. Bora ser amigo.

E foi assim que tudo começou.

Convivendo com José, descobri que nossos gostos, interesses e maneiras de ver as coisas coincidiam em muita coisa.

Não vou descrever em detalhes tudo o que aconteceu durante nossos anos de escola, porque aí eu teria que escrever um romance-rio tipo Os Rougon-Macquart, do Émile Zola.

E eu ainda nem terminei meu primeiro romance.

Além disso, ficar descrevendo aventura de escola é um negócio meio sem graça.

Ninguém lembra dessas coisas além de mim.

Nem Zé lembra de tudo.

É difícil ser o único guardião da memória.

Mas vou passar rapidamente pelas coisas que uniam nós dois.

Desde pequenos, eu e José éramos apaixonados por história, geografia e tudo que tivesse alguma relação com o mar.

Nós dois adorávamos — e adoramos até hoje — navios a vela.

A gente devorava a história da nossa terra e do país inteiro.

Pouca gente percebe de verdade o quanto isso é interessante e, eu diria, útil.

Mas eu não pretendo ensinar nada pra ninguém.

Vão tomar no cu.

As coisas mais interessantes e divertidas ficam pra gente.

Nas aulas de desenho, quando o tema era livre, eu e Zé desenhávamos navios, mapas do tesouro, mapas de expedições imaginárias e cenas dessas mesmas expedições.

Se mandavam escrever uma história sobre qualquer tema, era sempre algum acidente no mar, a descoberta de uma ilha nova e por aí vai.

Eu e Zé vivemos dizendo que nascemos na época errada e que deveríamos ter sido marinheiros descobrindo continentes novos.

Só que, sabendo hoje como essas coisas realmente funcionavam, chegamos à conclusão de que nascemos foi na época certa mesmo.

E graças a Deus não viramos exploradores, colonizadores nem bandeirantes de porra nenhuma.

Mas a vontade de viver umas aventuras “aquáticas” nunca foi embora.

Primeiro a gente fazia barquinhos de todo tipo e botava pra navegar nos lagos e açudes.

Depois deu na nossa cabeça de construir uma jangada.

O rio levou a gente pra bem longe e, quando finalmente percebemos isso, começamos a pedir socorro.

Uns pescadores trouxeram a gente de volta pra São Teodoro.

Levamos uma bronca desgraçada dos nossos pais.

Mas mesmo assim foi massa.

Paisagem bonita mais adrenalina.

Na adolescência, ficamos mais ocupados com problemas de adolescente, mas nossa atração pelas coisas de água só caiu uns 40% da potência nominal.

Depois a gente cresceu e nossas cabeças ficaram ocupadas com assuntos de “adulto”.

As fantasias de infância perderam mais uns 40%.

Mas em 2022 tudo mudou.

Os estudos acabaram.

Veio trabalho.

Vieram habilidades.

Conhecimento.

E, principalmente, a capacidade de nos organizar.

E dinheiro.

Então aquilo tudo que estava “reprimido” entendeu que aquele era o momento perfeito pra sair.

E saiu.

Na época eu estava lendo Mar Morto, do Jorge Amado.

A gente chegou à ideia por acaso.

Ou não.

Estávamos sentados na beira do rio quando, do nada, eu soltei:

— E se a gente fizer um iate?

Sim.

Assim mesmo.

Sem contexto nenhum.

A conversa era sobre cerveja.

Zé respondeu na hora:

— Bora.

Luís e Felipe pensaram durante quatro segundos.

— Bora.

E lá fomos nós.

Passei umas três semanas desenhando o projeto do futuro iate.

Primeiro achei um projeto pronto na internet.

Depois acabei refazendo praticamente tudo, porque a gente queria um iate especial.

Uma espécie de embarcação bimastro de passeio-pesquisa-entretenimento, com um guindaste a boreste pra mergulhar caixas de bebida no rio.

Pra gelar.

Não demorou muito pra surgir a questão do dinheiro.

Fizemos umas contas por alto pra saber quanto aquilo ia custar.

Claro que bateu uma tristeza.

Mas não desistimos.

Começamos pelo pequeno.

Luís e Felipe roubaram em algum lugar — e pedimos desculpas aos legítimos donos! — o que viria a ser nossos mastros.

Eles disseram que simplesmente tinham visto, no mato perto de um lago, uns pedaços de madeira compridos, finos na medida e perfeitamente retos.

E pegaram.

Já estavam largados lá fazia uma semana.

Todo o resto, porém, conseguimos honestamente.

A parte mais difícil foi começar a construir nosso encouraçado fluvial.

Depois que montamos a “estrutura” — que os profissionais me perdoem por usar essa palavra, mas duvido que meus leitores sejam grandes especialistas em terminologia naval —, as coisas ficaram mais fáceis.

E mais divertidas.

Mais divertido ainda foi tentar deixar o iate estanque antes mesmo de botar ele na água.

Depois veio o lastro.

Sabe o que a gente fazia com ele?

Assava areia.

Sim.

A gente assava areia na fogueira.

Pra depois não nascer nada nela.

Cascalho também.

E, como tu sabe — ou talvez não — pelo rascunho, nesse meio-tempo fizemos um monte de outras coisas.

Um barco, claro.

Depois saíamos nele com um prumo improvisado, sondando o fundo e procurando um lugar adequado pra lançar nosso iate na água.

A gente estava completamente mergulhado naquilo.

Cheio de entusiasmo.

E também consideravelmente endividado nos cartões de crédito…

Mas construímos o iate em menos de um ano.

Pra ser mais exato:

cinco meses.

Depois passamos mais dois meses sem conseguir botar ele na água.

Aquele período inteiro passou como se tivesse durado uma semana.

Aconteceu coisa demais.

A gente vivia a nossa ideia.

Nosso iate.

Depois do trabalho, a gente ia pra casa do Zé e dava tudo de si.

Zé, então, vivia fazendo alguma coisa.

Até hoje me impressiona o tanto que aquele homem trabalha.

E eu admiro isso.

Quando Zé pega uma coisa pra fazer, não larga fácil.

Por exemplo, ele montou sozinho o mecanismo do timão em questão de horas.

Depois esculpiu o próprio timão em madeira.

Só que aí não levou algumas horas.

Levou umas duas semanas.

E, admito, aquele timão ficou magnífico.

Bonito e confortável.

Zé é um cara excelente.

Só tem um detalhe:

bebe.

Embora, quando bebe, fique ainda mais inofensivo e carinhoso do que quando está sóbrio.

Eu, quando bebia, ficava muito ativo e falador.

Os irmãos só ficavam faladores.

Ativos, nem um pouco.

Aliás, durante aqueles meses a gente bebeu muuuuito.

Meio litro de cerveja antes de começar o trabalho.

Meio litro depois.

E um litro durante.

Quase todo dia…

Sim.

A gente é idiota.

Mas foi divertido.

O processo de construção do iate revelou em nós uma vontade escondida de criar coisas.

Felipe apareceu no “canteiro de obras” com uma bicicleta velha pra transformar numa espécie de carrinho de mão.

Só que eu, depois de uns copos de cachaça, cheguei à conclusão de que aquilo era um uso indigno de uma matéria-prima tão nobre.

Então propus transformar a bicicleta numa minimoto.

Uma semana depois, tínhamos uma minimoto.

Decidimos que ela faria parte da “divisão de pesquisa” do iate.

Quando desembarcássemos em alguma terra nova, um de nós sairia pra fazer reconhecimento montado naquela moto.

Depois resolvemos construir mais duas, pra cada membro da tripulação ter seu próprio “pônei de ferro”.

Spoiler:

não fizemos.

Deu preguiça.

Nosso iate ficava cada vez mais “equipado”, enquanto nossas habilidades na construção de embarcações e na fabricação de peças aumentavam a cada semana.

Zé comprou um torno pequeno e uma fresadora, e eu finalmente não precisava mais usar escondido as máquinas da firma depois do expediente.

Embora ninguém da chefia fosse contra.

Os irmãos Craveiro ficaram amigos de todo mundo que vendia madeira em São Teodoro e organizaram um fornecimento quase contínuo.

O porão do iate virou uma verdadeira casa flutuante.

Não vou ficar enumerando os detalhes.

Só digo que, além do alojamento e dos beliches, tinha um depósito separado pra birita, uma micro-oficina, uma garagem pra nossa futura “motocavalaria” e também um “arsenal”.

Sim.

Como é que podia faltar?

Durante a construção do iate, tivemos mais uma excelente ideia.

Dessa vez relacionada à melhor maneira de nos livrarmos das garrafas vazias.

Já adivinhou o que aconteceu depois?

Isso mesmo.

A ideia rapidamente deixou de ter qualquer relação com limpeza.

No fim, o “armamento” do nosso iate incluía algumas engenhocas feitas pelas nossas próprias mãos exclusivamente pra atirar em alvos.

Pra que a gente precisava daquilo?

Bom…

Era massa, pô.

A gente não pretendia atirar em ninguém.

Era só que o processo e o resultado deixavam nós quatro mais embriagados do que qualquer bebida forte.

Os vizinhos do Zé viviam espiando o que a gente fazia.

O que não era de se estranhar.

Quatro caras bêbados construindo um navio, bebendo, fumando, xingando alto e, de vez em quando, atirando em alguma coisa.

Graças a Deus ninguém chamou a polícia.

Acho que já estavam acostumados com a gente.

Às vezes eu me perguntava:

a gente parecia mais o Seymour Glass, do Salinger, ou o Erik, de O Fantasma da Ópera?

Depois que cresci, percebi que essa pergunta era idiota e que não tinha por que encher a cabeça com essas merdas.

Durante a construção, todos nós descobrimos um talento escondido:

o de deixar cada detalhezinho impecável.

Cada dobradiça.

Cada prego.

Cada parafuso.

Cada passada do pincel.

A gente tentava fazer tudo com o máximo de cuidado possível e com amor pelo nosso futuro iate.

Claro que isso não impediu a gente de cometer um monte de erros.

Mas o processo inteiro dava um prazer enorme pra nós quatro.

O iate deixou de ser só uma brincadeira.

Embora, tecnicamente, a gente estivesse construindo aquilo só pela brincadeira.

No fim, porém, ele virou mais um nó amarrando a nossa amizade.

E uma válvula de escape.

Problema no trabalho?

Ia fazer o iate.

Problema no relacionamento — no caso do Luís e do Felipe?

Iate.

Só queria esquecer tudo por algumas horas?

Iate.

Toda vez que a gente se reunia pra trabalhar nele, o serviço acabava aos poucos virando uma conversa comprida, daquelas de abrir o coração, acompanhada de planos pras futuras viagens pelo rio.

Foi nessa época que surgiu a ideia de “colonizar” uma ilha pra gente.

E depois fizemos isso mesmo.

O barco já estava pronto.

Na ilha, montamos também o lugar onde o iate ficaria.

Escolhemos um ponto onde não dava pra ver ele nem da água nem das margens.

Ali também construímos nosso acampamento.

E até fincamos um padrão.

Aliás, sobre o padrão.

Ele tem um pequeno segredo.

A gente não colocou aquilo num lugar aleatório.

Foi exatamente no ponto onde, depois de escolher a ilha como “nossa”, bebemos duas caixas de cerveja.

Voltar foi difícil.

Mas conseguimos.

No terceiro mês de construção do iate, consumo de álcool e demais atividades complementares, concluímos que já tínhamos conquistado a terra, construindo a minimoto, e conquistado a água, construindo o barco.

Logo, estava na hora de conquistar o céu.

Nossa primeira tentativa foram foguetes caseiros.

Como a gente fazia?

Não vou contar.

Sei como tu é!

Mas a cronologia dos acontecimentos eu conto.

Tudo começou com uma frase do Luís, dita sem pensar:

— Lá vai a ogiva!

Nosso inconsciente coletivo levou um tranco.

A ideia de lançar um foguete surgiu ao mesmo tempo na cabeça de todos nós.

E aí começou.

No início era uma coisinha pequena.

Depois fomos aperfeiçoando a ideia.

Três semanas mais tarde, um dos nossos foguetes atravessou o rio e caiu na margem do outro lado.

Nossa felicidade não tinha limite.

Nem nossa vontade de beber pra comemorar o lançamento bem-sucedido.

Voltar foi difícil.

Mas conseguimos.

Na vez seguinte em que nos reunimos, não falamos de outra coisa além do voo do foguete.

Até pensamos em instalar uma plataforma de lançamento no iate.

Depois desistimos.

Foi então que Felipe cometeu o erro de soltar:

— Rapaz… eu queria era atravessar o Mearim voando.

Não devia ter dito isso…

Nosso inconsciente coletivo chegou à conclusão de que estava na hora de construir nossa própria aeronave.

Caro leitor!

Cuidado com o que tu fala!

Senão as coisas podem mudar pra cacete.

Ou não.

Com a gente é sempre a mesma coisa.

Começamos a planejar e discutir nossa futura aeronave.

Onde arrumar um motor adequado?

Um avião pra quatro pessoas dificilmente a gente conseguiria fazer…

Agora dois aviões pra duas pessoas…

Aí já era outra conversa.

E lá vinha tudo outra vez.

A gente construía o iate e, ao mesmo tempo, discutia pra onde e como ia voar se aquilo desse certo.

Felipe propôs que, no futuro, a gente criasse um canal no YouTube chamado "CrazyMaranhaoPilots" e postasse nossas aventuras aéreas.

É divertido viver com uma imaginação desgraçada dessas.

Seymour Glass ou Erik?

Ah, vão se foder.

Só que dessa vez decidimos pelo menos terminar o iate primeiro.

E terminamos.

Depois de concluir a construção e enquanto esperávamos uma oportunidade de botar o iate na água, voltamos à ideia dos voos.

Aquilo se mostrou ainda mais complicado do que o iate.

Projeto de iate tu ainda consegue achar na internet.

Projeto de aeronave, por outro lado, já é um negócio bem mais cheio de frescura.

Além disso, praticamente cinco meses seguidos de entusiasmo começaram a cobrar a conta.

A euforia virou apatia e ceticismo.

Levamos um mês inteiro pra sair daquele estado.

Até que, do nada, uma ideia me acertou.

A gente precisava fazer alguma coisa mais simples.

Uma asa-delta, por exemplo.

Os caras gostaram.

E logo estávamos trabalhando de novo com o mesmo entusiasmo de antes.

Depois de construir um iate, parecia que aquilo ali a gente tirava de letra.

Mas não inventa de seguir nosso exemplo.

Duas semanas depois, tínhamos uma asa-delta.

E, por coincidência, surgiu também a oportunidade de finalmente botar o iate na água.

Depois de um lançamento solene — demorado e difícil pra cacete —, escondemos ele na enseada secreta da nossa ilha, comemoramos o sucesso como se deve e, aproveitando a ocasião, começamos a discutir como algum dia testaríamos a asa-delta.

E passamos a beber bem menos.

Pilotar bêbado não pega bem.

Quando saímos da bebedeira, descobrimos de repente que nenhum de nós queria ser o primeiro a pilotar a asa-delta.

Porque ninguém sabia pilotar.

E o risco era alto.

Deixamos a ideia pra depois.

Mas não pra sempre!

O pai do Luís e do Felipe tinha ensinado os dois a velejar quando eram pequenos.

Então depositamos toda a nossa fé nas habilidades deles.

Confesso que treinamos por bastante tempo.

O mais difícil era navegar contra a corrente.

Mas instalar motor?

Nós quatro recusamos de forma unânime e categórica.

Não tem graça.

Três meses depois, estávamos prontos pra nossa primeira viagem séria.

Aliás, por sugestão minha, batizamos o iate de Maria Clara.

Em homenagem à esposa do mestre Manuel, também conhecido como Manuel de Praxedes, um dos personagens dos romances de Jorge Amado e o mais habilidoso marinheiro da Bahia.

Ah, Jorge Amado…

Se ele soubesse como os livros dele mudaram a vida de um sujeito…

Todo sábado a gente saía pro trecho aberto do rio e treinava com nosso iate.

Era difícil.

Mas paciência, trabalho e o pai do Luís e do Felipe ajudaram a gente, em três meses, a dominar aquela arte.

Tá bom.

Só pegar o jeito.

Exagerei nesse negócio de “dominar a arte”.

O próximo passo era fazer uma viagem pelo rio.

Montamos uma rota.

Pelas nossas contas, seis dias seriam suficientes.

Combinamos a data.

Tiramos férias do trabalho.

Preparamos tudo que precisava:

cordas, velas sobressalentes, telefone via satélite, água potável, comida, cigarros, coletes salva-vidas — só por precaução, a gente também não era completamente sem medo —, fachos sinalizadores, foguetes de sinalização e, naturalmente, um estoque respeitável de birita.

Dois dias descendo o rio.

Quatro dias voltando.

Perfeito pra primeira vez.

É importante estabelecer metas realistas.

Então o dia chegou.

O dia em que Lázaro Pablo Solórzano, José “Polar” Fonseca, Luís e Felipe Craveiro realizaram um sonho em comum, pisaram no convés do iate Maria Clara e partiram.

Eu não queria transformar essa parte da história numa espécie de “diário de viagem”.

Ninguém gosta de descrição comprida de paisagem.

Então meu conselho pra ti, caro leitor, é simples:

vem pra São Teodoro, desce o rio Mearim e vê com teus próprios olhos.

Mais vale ver uma vez do que ouvir cem!

Na pior das hipóteses, o Google Maps resolve.

Ou umas fotos.

Mas é melhor experimentar pessoalmente!

Içamos as velas.

E seguimos viagem.

O que aconteceu durante aqueles seis dias?

Não é difícil imaginar.

A gente se revezava no timão, parava em várias ilhas e saía correndo por elas na nossa minimoto, nadava, deixava “placas comemorativas” nas ilhas visitadas e fazia todo tipo de besteira parecida.

Às vezes dormíamos em barracas nas ilhas.

Às vezes direto no convés do iate.

Passávamos horas jogando carta à noite, olhando a paisagem e sem conseguir acreditar direito que tinha dado certo.

A gente tinha construído um iate.

E agora estava viajando nele pelo nosso rio.

Éramos os riozeiros mais fodas que existiam.

Marinheiro é no mar.

No rio é riozeiro.

Sim.

Provavelmente foi a melhor viagem da vida de cada um de nós.

Só que, na volta, já não muito longe de São Teodoro, batemos em alguma coisa.

Uma pedra.

Uma rocha submersa.

Sei lá que porra era aquilo.

Demoramos pra perceber o que tinha acontecido.

Quando descobrimos a entrada de água, a situação já estava séria.

Zé desceu pro porão.

Depois voltou.

E, sem demonstrar emoção nenhuma, falou:

— Acho que a gente abriu um rombo.

Luís e Felipe ficaram em cima.

Eu e Zé descemos pra ver o que dava pra fazer.

A água entrava rápido.

Zé foi pra bomba manual.

Sim, nós tivemos o bom senso de instalar uma bomba.

Aliás, aquela porra não foi barata.

Eu fui procurar o rombo.

Achei do lado esquerdo, perto da proa.

Tentamos resolver sozinhos, mas entrava água demais.

Tivemos que começar a tirar com balde também.

Era pesado.

E não adiantava quase nada.

São Teodoro estava cada vez mais perto.

O nível da água no porão não baixava.

Muito pelo contrário.

Não conseguimos bombear a água pra fora.

Muito menos fechar direito o rombo.

Então fomos levando o iate em direção à margem e, ao mesmo tempo, transferindo nossas coisas pro barco que, prudentemente, tínhamos levado junto.

Tivemos que abandonar a Maria Clara perto da casa do meu avô.

Pelo menos conseguimos sair inteiros e salvar nossas coisas.

Em várias idas e vindas, tiramos tudo que ainda restava no iate.

Até a bomba a gente desparafusou.

Na verdade, levamos tudo que ainda tinha algum valor.

Empilhamos tudo no quintal da casa do meu avô.

Depois da evacuação de emergência, ficamos um pouco sentados na margem.

Depois cada um foi pra sua casa.

E a carcaça da Maria Clara ainda pode ser vista da margem até hoje.

Ninguém sabe como ela foi parar ali.

Além de nós.

Let Lazaro Pablo Solorzano know what you thought about this chapter!
Love this

0

Love this

Funny

0

Funny

Spicy

0

Spicy

Suspenseful

0

Suspenseful

Emotional

0

Emotional

Profound

0

Profound

Heartwarming

0

Heartwarming

Shocking

0

Shocking

Good Writing

0

Good Writing

Compelling Plot

0

Compelling Plot

Great Character

0

Great Character

Strong Dialog

0

Strong Dialog

Further Recommendations

PRACTICE MAKES PERFECT

Miriam0011: Hi, I just wanted to reach out and say how much I love your writing style. Your work always feels so engaging and well-researched. I was actually curious how do you usually approach your research phase before you start drafting? Looking forward to hearing from you!

Read Now
Sarah's Cowboys

Sheila Chasteen: Thank for this beautiful story of love, family and devotion .I loved all of the different characters. You brought them all to life. I hated to see it end. Maybe there will be a part 2??I would love to know what happens next. 💕💕💕

Read Now
Vengeance in the Veins

Sasha: I couldn't stop reading this, it was a romantic story that got me hooked until the last chapter.

Read Now
Thornhaven

Susan: Excellent story, well worth the read

Read Now
Before we burn : falling for the enemy

Cletus Gloria: Nice writing Short and lovely 👏

Read Now
Werewolf Hollow [GALATEA DATE TBA]

user-tYYAB62Jw9: I loved your/this story, thank you 😊 . Look forward to more writings. I was so invested in the kids. Curious who or which one is Annie's mate. Maybe Dylan since Collin is a werewolf. Although she'd also make a good Luna. Smiles 🙂

Read Now
Silenced: Book 1 of the Bound Trilogy

Artsy_Olivia: I love the work... I work with writers as a visual artist to adapt stories into webtoons, comics, character designs, and cover art, and your world naturally fits that space. I’d love to collaborate on bringing these visual elements to life if you're ever looking to expand the project.

Read Now
Pining for You | Red Logde Hearts - Book One

Alexandra: The same "this is amazing" or "this is so stressful" overly exaggerated lines and paragraphs get old after a while. One tiny scene can take an entire chapter and yet only a few sentences actually have details you can picture about the scene. The rest of it is just the same emotions explained over an...

Read Now
Cabin Fever

Neon_Avalonia: You can actually feel the solitude and it leaves a mark. The story keeps you engaged and you neever see what's ahead without getting bored. It does a lot with a little and its always appreciated. Thank you and keep it up

Read Now
A Armada Invencível das Excelentes Ideias (PT-ESP-ENG-RUS)