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A História Constrangedora de Vivi Coimbra (PT-ESP-ENG-RUS)

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Summary

Vivi Coimbra is shy, self-conscious, and determined not to look like it. So when she starts seeing a twenty-year-old vocalist with an impressive talent for talking about himself, she decides to take a chance and step a little further outside her comfort zone. One afternoon in São Teodoro, Vivi brings him to meet her friend Amélie. There is music. There is alcohol. There are several questionable decisions. And, as usual, everybody involved is convinced they know exactly what they are doing. The Awkward Story of Vivi Coimbra is a darkly comic tale about insecurity, friendship, trying to grow up too quickly, and the kind of evening that becomes much funnier only after enough time has passed.

Status
Complete
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
18+

A História Constrangedora de Vivi Coimbra

(Ilustração por Camila Cortez Gomes aka CamilaConElCorazon) 

(Os materiais usados nesta história — conversas, vídeos, áudios e por aí vai — foram gentilmente cedidos por um cara que me pediu pra não revelar o nome, porque senão alguém arranca a cabeça dele, além de outros participantes desta mesma história.)

2015

Amélie: “Coelhinha, oi”

“Eu tô em choque”

“Tipo, muito”

Vivi: “Amélie, o que aconteceu?”

Amélie: “Tô em choque”

“Descobri um monte de coisa nova sobre meu namorado”

Vivi: “O que foi?”

Amélie: “Eu não sinto que dá pra confiar nele”

“Tô com medo de ele só PARECER confiável, sem SER de verdade”

Vivi: “Eu desconfiava”

Amélie: “Ele é um frouxo”

Vivi: “Me conta o que aconteceu. Amélie, tô contigo”

Amélie: “Tu sabe que eu fui com as meninas e com ELE no JapanBox.

A gente tava na nossa mesa preferida.

Na mesa do lado tinha uns caras olhando pra gente. A gente também olhava pra eles. Eles sorriam. A gente sorria de volta. Um deles piscou pra mim. Eu pisquei de volta, só por educação, e ELE começou a ficar com CIÚME. Perguntou por que eu tava piscando pro cara. Eu tô em choque”

Vivi: “Meu Deus!”

Amélie: “Eu falei que não tinha nada demais. Ele ficou OFENDIDO”

Vivi: “Como assim ofendido?”

Amélie: “Falou que ELE NÃO FICA PISCANDO PRA OUTRAS MENINAS. E ainda bem! Queria ver se ele piscasse pra outra menina!”

Vivi: “Ele tem complexo”

Amélie: “Depois um daqueles caras escreveu no celular: ‘Número?’

A gente resolveu zoar e escreveu de volta: ‘Tua mãe é puta’”

Vivi: “😂😂😂”

Amélie: “Eles vieram até a nossa mesa e começaram com aquele negócio de ‘Tu tá falando da minha mãe por quê?’ e tal, ficaram agressivos. Aí eu falei pra ELE: ‘Fala alguma coisa’, e ele ficou CALADO. Depois os caras foram embora. Quando eu perguntei por que ele não falou nada, ele disse: ‘E por que eu vou comprar briga pelas tuas amigas se foram elas que provocaram?’ ELE CULPOU as meninas por tudo. Eu simplesmente tô em choque”

“As meninas concordam que ele podia muito bem ter dado um soco na cara do mais falador e acabado com aquilo ali, mas ELE FICOU CALADO olhando ora pros caras, ora pras meninas”

“Decepcionada”

Vivi: “Que babaca”

Amélie: “Tu vem hoje?”

Vivi: “Vou”

Amélie: “Com o cara?”

Vivi: “A gente só saiu junto”

Amélie: “Quantas vezes?”

Vivi: “Três”

Amélie: “Te levou até em casa? Pegou na tua mão?”

Vivi: “Sim”

Amélie: “Ele tá caidinho por ti”

“Tu ainda não falou nada pros teus pais?”

Vivi: “Não”

Amélie: “Eu também não fico prestando conta pros meus pais”

“Espero vocês. Vou avaliar o candidato”

Vivi fez a lição de inglês no Duolingo, vestiu seu vestido preto preferido, meia-calça preta, coturnos pretos da Dr. Martens e pegou a bolsa preta.

O delineado só ficou bom na terceira tentativa.

Mas a asa esquerda ficou um pouco mais curta que a direita.

De novo.

Tudo bem.

Vai que ninguém percebe.

Claro que vão perceber.

Chega.

Tem gente esperando.

Vivi saiu de casa e seguiu em direção ao ponto de encontro com passos decididos.

O calor onipresente de fevereiro.

Ele estava esperando no lugar combinado.

Merda, e se ele perceber que a asa esquerda ficou mais curta?

Será que o pó não esfarelou?

Parada no sinal, Vivi tirou rapidamente um espelhinho da bolsa e conferiu a maquiagem.

Mexeu um pouco na franja.

Não.

Não tinha como esconder o delineado.

Precisava deixar a franja crescer mais.

O pó estava no lugar.

Nenhum sinal de bronzeado.

Sinal verde.

Vivi seguiu com aquele andar de quadril.

Um homem barrigudo ficou olhando fixamente pra ela.

Vivi fingiu que não percebeu, embora aquele olhar estivesse quase fazendo ela sentir náusea.

Ela se aproximava dele.

Frio na barriga.

O que eu digo depois de “oi” e “como tu tá”?

Vamos direto pra casa da Amélie ou conversamos mais um pouco?

E se…

— Oi… — merda, saiu sozinho…

Ele levantou os olhos do celular.

Usava uma calça skinny preta, rasgada e desbotada; uma regata preta desbotada, com as cavas enormes, cortada de uma camiseta do Bring Me the Horizon; Vans azuis desbotados; o cabelo tingido de preto, com mechas brancas e franja até o queixo; alargadores nas orelhas; nas costas, uma mochila preta que já tinha visto dias muito melhores.

— Ah, oi!

Se abraçaram.

Ele soltou rápido demais.

Eu tenho certeza de que ele gosta de mim?

Talvez ele só não seja muito de contato físico.

Na tela do celular dava pra ver duas rachaduras enormes no vidro de proteção.

— Como tu tá?

— De boa. E tu?

— Também…

Silêncio.

Ele simplesmente olha nos meus olhos.

Pra onde eu olho?

Tenho que falar alguma coisa?

— E aí, tá pronta?

— Tô…

— Tu é decidida, hein. Normalmente todo mundo fica fazendo doce…

— Eu não sou igual a todo mundo…

— Sei como é. Eu também não. Ser igual a todo mundo é uma merda, não é?

— É.

— Meus pais ficam com aquele papo de trabalho, estudo… Pra que porra serve tudo isso? Tu nasce e morre, acabou! Quando é que vive? Em qual emprego?

— Concordo.

— Pra mim, vida mesmo é música. Eu sou uma pessoa muito criativa.

— Eu também…

— No nosso último gig, aquilo sim foi vida. Pena que tu não tava.

— É, não deu pra eu ir, mas quero ir no próximo.

— Gig é um acontecimento, sério. Tudo é foda. A melhor parte começa no soundcheck…

— É verdade…

— Tu manja de soundcheck?!

— Manjo…

— É bom demais quando tu liga o instrumento e começa simplesmente a tocar qualquer coisa que vem na cabeça, aí entra a bateria: tum-tá-tududum-tu-dum-tu-dum… e o baixo faz: bom-bam-bo-bo-bam, aí entra a letra tipo: ÉKSTELÉBÃÃÃM DÂNIGMÂ SÊUZED!

Ele gritou alguma coisa incompreensível que vagamente lembrava inglês.

— É… Isso é simplesmente bom demais…

— Quero ver o soundcheck de vocês.

Vivi pegou na mão dele, meio sem jeito.

Ele apertou a mão dela.

Não.

Parece que gosta de mim mesmo.

— Então, bora?

— Bora… Só vamos passar numa farmácia primeiro.

— Bora.

Continuaram andando em silêncio.

Ele claramente tinha exagerado no desodorante.

Mesmo assim, por baixo dele ainda dava pra sentir o bafo de álcool, o cigarro e o suor.

— Teu nome é Scott mesmo?

Por que eu não consigo olhar nos olhos dele?

— Eu quero mudar meu nome. Todo mundo me chama de Scott.

(Daqui em diante, ele pronuncia nomes, títulos e termos estrangeiros com sotaque americano.)

— E qual é teu nome de verdade?

— Meus pais me deram um nome horroroso.

— E por que Scott?

— Como assim?

— Eu… hã… — meu Deus, será que ele ficou irritado?! — queria te entender melhor. Scott é um nome legal…

— É que eu sou vocalista, curto muito vocal extremo, Bring Me the Horizon e comecei a cantar porque queria ser igual ao Oliver. A galera até me chamava de Oliver. Mas eu não quero ser só uma cópia do Oliver, então peguei o segundo nome dele: Scott. E meu nome completo é Scott Avril.

— E Avril vem de quê?

— Tu não conhece Avril Lavigne?

— Aaaaaah… viajei, hahaha…

Pronto.

Agora ele acha que eu sou burra.

— Hahaha, normal, acontece. Principalmente depois de um litro de uísque e dois selos de LSD. Eu sempre me senti meio que uma reencarnação da Avril Lavigne. Gosto de me vestir parecido, gosto do estilo dela, das músicas, gosto de simplesmente gritar quando dá vontade, meter o louco, quebrar tudo…

Ele riu alto.

Entraram na farmácia.

— É… depois de ácido fica pesado mesmo…

— Ô, tu também usa ácido?.. Me vê uns discos de algodão… Esses dias mandei um oitavo de um selo e fiquei ouvindo Tool… Isso… Foi uma viagem absurda. Tool combina demais com ácido… Valeu… Parece outro nível…

— Hahaha… total…

Ele parou no meio da porta.

— Tu trouxe?

— O quê?

— Selo. Tu tá com algum selo de LSD aí?

— Por quê?..

Dá um pouco de medo ele ter parado bem no meio da passagem…

— Ah, se a gente tomar, vai ficar tudo perfeito… Faço até um desconto no piercing pra ti.

— É… não tenho.

— Ah, qual é?

— Eu… não tenho…

— Eu só perguntei de boa.

— Eu sei… Mas não tenho… Talvez minha amiga tenha… O meu já acabou…

— Poooxa…

Quanta decepção na voz dele.

Será que ele já não gosta mais de mim?

O que eu faço?

Vivi segurou a mão dele de novo.

Continuaram andando.

Scott Avril começou a falar da música nova dele.

— Eu tava bêbado pra caralho e, do nada, senti vontade de escrever uma música sobre uma fase da minha vida… não das melhores…

— Dor sempre ajuda a escrever…

— …A gente tava muito louco naquele dia, o baixista da banda vomitou no próprio amplificador, tem até vídeo! Aí eu tava lá sentado, fumando… Sabe quando vem sozinho? O começo é assim: I feeeeeel…

Depois veio mais alguma coisa incompreensível em screaming.

— Massa…

— Aí a guitarra entra tipo: tá-rá-rá-ri-rá-déu-déu… blast beat na bateria, baixo no slap…

— Meio Asking Alexandria…

— E o BMTH?

— Sei lá, eles tão meio fracos nisso. Esse negócio todo de “Draaaauuuunn”… não curto.

Chegaram à casa da Amélie.

— A casa da tua amiga é boa.

— É… eu também gosto…

Vivi tocou a campainha.

Scott começou a cantarolar “Drown”, fazendo caretas.

Literalmente três segundos depois, Amélie abriu a porta.

Provavelmente estava esperando atrás dela.

— Oi, coelhinha.

— Oi.

Vivi e Amélie se abraçaram.

— Oi.

Scott abraçou as duas de uma vez.

Todo mundo sorriu.

Vivi e Amélie riram, meio sem graça.

Foram pro quarto da Amélie.

— Tu canta? — Amélie perguntou a Scott.

— Canto. Sou vocalista de uma banda. A gente é tipo BMTH, só que mais pesado e mais agressivo…

— A Vivi me falou da banda, mas não contou tudo… Ela fica com ciúme de ti.

Amélie deu um sorriso malicioso.

Vivi ficou tão vermelha que dava pra perceber até por baixo da maquiagem.

— Uma ex minha tinha muito ciúme de mim, mas eu mesmo não sou ciumento. Acho que ciúme vem de falta de confiança.

— E por que ela tinha ciúme?

— Ela era meio… certinha demais. Mesmo quando eu pegava outras, eu contava tudo pra ela. Sempre fui honesto.

— Tu já ficou com muitas meninas?

— Ah… umas quatorze… Poucas.

— Dá pra perceber…

Amélie sorriu de novo.

Entraram no quarto.

— Quem vai beber o quê? Não quero ninguém sóbrio demais aqui.

Amélie olhou pra Vivi com um sorriso.

— Eu gosto de uísque.

— Finalmente alguém que entende de bebida. Vem, Vivi, me ajuda a pegar os copos.

— Vou deixando minhas coisas prontas — disse Scott.

Amélie e Vivi foram pra cozinha.

Em silêncio.

Entraram.

— Ele é legal. Bonito. Desinibido.

— Tu acha que combina comigo?

— Com homem experiente é mais fácil tu se soltar. Quantos anos ele tem?

— Vinte.

— Foi ele que te chamou?

— Foi.

— Tem iniciativa. É assim que tem que ser.

Amélie pegou uma garrafa do uísque do pai, uma de Malbec pra si e rum branco pra Vivi.

Vivi levou os copos.

— Tu precisa se soltar — explicou Amélie.

Vivi estava muito tensa.

As duas voltaram.

Scott já tinha deixado as coisas dele prontas.

Beberam.

Depois mais uma.

Depois outra.

— Onde dá pra fumar aqui? — perguntou Scott.

— Vem, vamos lá fora.

Foram pro quintal.

Scott fumava Bond vermelho.

Amélie fumava Dunhill e ofereceu um pra Vivi.

— Eu não gosto desses cigarros comuns de mercado. Não têm gosto.

Fumaram.

Scott continuava falando da banda.

— Eu curto pra caralho metalcore, deathcore, easycore, emocore, post-hardcore. Agora tá rolando um renascimento real do metalcore. É tipo o glam metal dos anos 80, só que agora…

Ele rosnou um trecho de alguma música.

— Total… Eu também gosto de 30 Seconds to Mars — disse Vivi.

— Mars é mais ou menos. Chester grita melhor.

Quando voltaram pra dentro, Amélie falou pra Vivi:

— Ele é empolgado, hein…

A cabeça de Vivi já estava girando um pouco.

No caminho pro quarto, Scott não parava de soltar growls e screams.

Entraram.

— Bora tomar mais uma, assim… pra melhorar a coordenação motora… e como anestesia.

Scott sorriu pra Vivi.

— Eu não tenho medo de dor…

A voz de Vivi tremia, fosse de nervosismo, fosse dos três copos de rum branco.

Beberam mais uma.

Scott tomou o uísque sem fazer careta.

Amélie bebeu o Malbec elegantemente enquanto observava Scott e Vivi.

Vivi praticamente se obrigou a engolir o rum branco, embora já mal sentisse o gosto.

Meu Deus.

Por que isso é tão difícil?

Vivi terminou o copo e sentou na cama da Amélie.

Já estava ficando difícil ficar em pé.

Além disso, certas coisas não se fazem em pé.

— Bom… eu tô pronta…

A voz saiu ainda mais fraca.

Decidiu.

Então agora tem que fazer.

— Então bora — disse Scott, alegremente, mexendo nas coisas dele. — Relaxa, não vai sair muito sangue.

Amélie sentou numa poltrona ao lado da cama com a taça de Malbec na mão.

Scott se aproximou de Vivi.

Vivi fechou os olhos.

Um segundo.

Dois.

Scott tocou com cuidado o lábio inferior dela.

Vivi começou a suar.

Um segundo.

Dois.

Três.

Uma dor aguda.

As lágrimas apareceram quase imediatamente.

O delineado começou a escorrer.

— Porra… tem que tentar de novo… Pera aí, aguenta.

Scott não conseguiu de primeira.

Vivi começou a tremer.

Amélie filmava o processo inteiro.

— Coelhinha, pega na minha mão.

Amélie sentou ao lado de Vivi e segurou a mão dela.

Mais uma tentativa.

Dor de novo.

Pior.

Parece que Scott errou o lugar.

Mesmo depois de quatro copos de rum branco, ainda dói.

Dói muito.

— Tem certeza que tu quer do lado esquerdo? Normalmente fazem do lado direito, fica mais sexy.

Vivi não conseguia responder.

— Fazer igual a todo mundo é uma merda — Amélie respondeu por ela.

Scott mexeu nas coisas de novo.

Vivi chorava sem conseguir parar.

As lágrimas simplesmente saíam.

Amélie continuava segurando a mão dela.

— Coelhinha, tá tudo bem. Já tá quase acabando.

Depois de algum tempo, Scott finalmente terminou.

— Pronto. Acabou.

— Muito bem, coelhinha.

Vivi abriu os olhos com dificuldade.

Por causa das lágrimas, mal conseguia enxergar.

Levantar foi difícil.

Foi até o espelho.

A maquiagem tinha escorrido toda.

Mas o piercing ficou bonito.

Valeu a pena?

Agora estava difícil demais pensar.

— Proponho uma comemoração — disse Amélie, servindo mais bebida.

— Ô! Tu tem selo de LSD, né? A Vivi falou que tu tinha.

Amélie travou por um instante.

— Selo…

— É. Se tu me der um, faço teu piercing de graça!

— Hã… já não tenho mais. Eu tinha meio selo dois dias atrás, mas acabou…

— Poxa… Não sobrou nada mesmo?

— Não. Pra que eu ia mentir?

— Caralhoooo… Querem fumar um baseado?

— Hããã… a gente é mais de ácido. Abre a mente… maconha… não é muito a nossa.

— Eu gosto de fumar depois de um trabalho bem-feito.

— Bom… bora fumar… Mas a gente vai ficar só no cigarro…

Foram fumar.

As pernas de Vivi já estavam funcionando muito mal.

— Tua casa é boa mesmo. Tem espaço pra caralho.

— É…

— Meu quarto, porra, é metade do tamanho do teu. O da minha mãe também.

— Tu mora com tua mãe? — perguntou Amélie, levantando a sobrancelha direita.

— Agora, sim. Minha mãe teve um mini-AVC, então tô ficando com ela por enquanto. Ainda bem que a gente ganhou uma grana boa com a banda justamente nessa época. Deu pra comprar todos os remédios e essas coisas.

— Nossa… e… precisa de ajuda com alguma coisa?

Amélie hesitou.

— Não, valeu. Isso foi há seis meses. Agora eu só fico de olho nela.

— Bom… isso é meio que… nobre… legal.

— Ué, vou largar minha mãe como?

Scott voltou a falar da banda e começou a contar várias histórias engraçadas de shows.

Depois de algum tempo, Scott começou a passar mal.

Amélie primeiro não entendeu o que estava acontecendo.

Depois entendeu.

— PUTAAAAAAAAA QUE PARIUUUUUUUUU! — gritou Amélie.

Vivi demorou um pouco pra entender o que estava acontecendo.

Scott se agachou.

Depois deitou no chão.

Amélie ficou parada, em choque.

— VIVI, PUTA QUE PARIU, ISSO É UMA DESGRAÇA, VIVI, O QUE A GENTE FAZ?!?!?!

Vivi também estava piorando.

O último copo de rum branco tinha sido demais.

E ainda por cima vários cigarros seguidos.

Sendo que aquela era só a segunda vez que ela fumava na vida.

A primeira tinha sido um mês antes.

Amélie foi até Scott e começou a sacudir ele.

— Levanta! Vai, levanta!

Mas Scott simplesmente ficou deitado, murmurando alguma coisa.

— ISSO É UMA DESGRAÇA, VIVI, MEUS PAIS CHEGAM DAQUI A POUCAS HORAS!!!!!

Vivi conseguiu se aproximar de Scott com dificuldade.

Tudo diante dos olhos estava balançando.

— VIVI, QUE PORRA A GENTE FAZ COM ELE?! O QUE EU VOU FALAR PROS MEUS PAIS?!

— Talvez… ele levante?

— PUTA QUE PARIUUUUU, CHEGA DE FAZER ISSO NA MINHA VARANDA!!!

Mas acho que Scott não ouviu o pedido da Amélie.

Amélie correu pra dentro.

Depois voltou com um balde de água e uns panos.

— Toma, me ajuda a limpar isso aqui! Eu vou arrumar tudo lá no quarto!

Vivi pegou um pano.

Que sensação estranha.

Parece que o corpo não é teu.

Mas ao mesmo tempo é.

E pensar é tão difícil.

E tão fácil ao mesmo tempo.

Tá.

Tem que limpar.

Meu Deus, eu tô muito mal.

Vivi limpava o chão ora com movimentos lentos e frouxos, ora com movimentos rápidos demais.

Scott continuava murmurando alguma coisa.

Vivi também começou a murmurar, narrando a própria faxina:

— Tá… agora aqui… e mais… assim…

A cabeça dela girava cada vez mais.

Até ficar sentada estava ficando difícil.

Vou deitar só um segundo.

Talvez melhore…

Vivi deitou no chão e olhou pra cima.

Nuvens…

De repente, Vivi passou ainda mais mal.

Vai ter que limpar de novo…

Vou ficar só cinco minutos aqui e depois eu limpo…

Pouco depois, Amélie apareceu.

— MEU DEUS, VIVI, PUTA QUE PARIU, PRA QUÊ?!?!?!

Vivi sentiu vergonha.

Mas, ao mesmo tempo, não estava nem aí.

— Vivi, levanta! Para de ficar deitada!

Amélie tentou levantar Vivi do chão, mas não tinha força suficiente.

Amélie correu pra colocar a varanda em ordem.

Depois tentou arrastar Scott.

Pra ele, tinha ainda menos força.

Amélie pegou o celular e ligou pra alguém.

— Vem pra cá AGORA!.. Não, não tô brava… AGORA!.. EU TÔ FALANDO PRA TU VIR AGORA!.. MAS QUE TIPO DE HOMEM TU É?!.. TU VAI BATER NA CARA DE QUEM?! CAPAZ É DE QUEBRAREM A TUA!!!.. VEM PRA CÁ, EU TÔ MANDANDO!

Vivi estava com sono.

Mas, por algum motivo, não conseguia dormir.

Que estado estranho…

Os olhos fechavam sozinhos…

Vivi acordou na própria cama.

Com seu pijama preferido.

O piercing no lábio não estava mais lá.

Os locais das perfurações doíam muito.

Os pais não brigaram com Vivi.

Só disseram que o namorado dela devia tomar mais banho e usar menos desodorante.

Só que ela e Scott nunca mais se falaram.

Amélie escreveu:

“Morar com a mãe aos vinte anos é coisa de homem sem futuro. E o nome dele é ridículo — GUSTAVO.”

Além disso, Vivi ficou proibida de sair de casa por três meses.

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