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Por que Félix Kruspe parou de beber (PT-ESP-ENG-RUS)

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Summary

Félix Kruspe has just moved from Porto Alegre to São Teodoro to be with the woman he loves. College is over. His parents are far away. His girlfriend is beside him. For the first time in his life, Félix feels completely free. Naturally, he decides to celebrate. What begins as a perfectly pleasant morning with a bottle of cachaça gradually turns into an increasingly long day involving family, old friends, new friends, arguments about restaurants, questionable opinions about pizza, unexpected international diplomacy, and considerably more alcohol than anyone probably needed. Why Félix Kruspe Quit Drinking is a darkly comic story about freedom, friendship, love, bad judgment, and how easily a great day can become the kind of story people keep telling you about afterward.

Status
Complete
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
18+

Por que Félix Kruspe parou de beber

(Ilustração por Camila Cortez Gomes aka CamilaConElCorazon)

Félix Kruspe tinha se mudado dos arredores de Porto Alegre pra São Teodoro fazia duas semanas.

Muita gente acharia essa decisão, pra dizer o mínimo, pouco racional.

Mas a mulher que Félix amava era de São Teodoro.

Então por que não passar um tempo vivendo no mundo da pessoa que tu ama?

Félix já tinha estado em São Teodoro antes, mas nunca tinha ficado mais de dois meses.

Agora faculdade, provas e todas as outras preocupações da vida de estudante tinham ficado pra trás.

A vida inteira estava pela frente.

Acho que muita gente conhece essa sensação:

o futuro brilhante tá prestes a começar.

Principalmente quando os pais ficaram longe, a pessoa que tu ama tá do teu lado e finalmente dá pra simplesmente aproveitar a vida.

Durante aquelas duas semanas, Félix aproveitou como pôde.

A euforia de um lugar novo.

Manhã.

Uma manhã quente nos braços da mulher que ele amava.

Félix saiu da cama com cuidado pra não acordar a namorada, pegou os cigarros no bolso da camisa xadrez azul e preta pendurada no armário, abriu a janela e acendeu um.

Aquilo sim era liberdade!

Podia fumar dentro do quarto, com a janela aberta.

Antes Félix não podia se permitir tamanho luxo.

Só que aquela não era uma manhã comum.

Era especial porque Félix estava com muita vontade de beber.

E até de ficar bêbado.

Eles vinham bebendo havia quase duas semanas.

E naquele dia a vontade estava simplesmente absurda.

Em cima da mesa havia uma garrafa de Pitú.

A melhor cachaça.

Bom.

Quer fazer?

Faz.

Félix serviu um copo.

Não.

Beber sozinho não tinha graça.

Não vou acordar minha princesa.

Deixa ela descansar.

Ah.

Tive uma ideia.

Serviu um segundo copo, vestiu um short e desceu pro térreo.

O pai da namorada estava sentado na sala vendo TikTok.

— Senhor! — disse Félix, alegre e solenemente, numa solenidade completamente falsa. — Chegou a hora de tomar uma!

Senhor Pai olhou pra Félix e abriu um sorriso.

— Bom… se chegou, chegou!

Beberam.

Conversaram.

Félix voltou pro quarto.

A namorada já estava acordada, sentada na cama, olhando alguma coisa no celular.

Então levantou os olhos pra Félix.

Aqueles olhos castanhos e lânguidos tinham capturado Félix desde o primeiro dia em que se conheceram.

E quando ela sorria…

Não.

Não é bem assim.

Quando não sorria, tinha cara de mulher fatal.

Mas bastava sorrir e mostrar os dentes grandes e brancos, que se destacavam ainda mais contra a pele morena, e de repente virava a garota mais gentil do mundo.

Até um pouco tímida.

Um sorriso diz mais sobre uma pessoa do que ela própria consegue contar.

Essa era a magia do rosto dela.

Félix era completamente louco por aquilo.

Não vou entrar em detalhes sobre por que os dois gostaram um do outro.

Às vezes acontece.

Duas pessoas simplesmente se amam e escolhem uma à outra todos os dias.

Mas com a gente, caro leitor, uma coisa dessas obviamente não vai acontecer.

Nem cria esperança!

Félix se aproximou devagar da cama.

Arrancou o celular da mão da namorada.

— Ei, eu tava vendo uma mensa…

Félix segurou ela de um jeito que não conseguia mexer os braços e beijou.

— Que se fodam as mensagens…

Beijou de novo.

— Tá faltando alguma coisa…

— O quê?

— O gosto de cachaça na tua boca…

Félix levantou e serviu dois copos de cachaça.

Beberam.

Depois serviu outro pra ela.

— Pra gente ficar empatado.

Ficaram empatados.

Durante a hora seguinte, a garrafa de cachaça desapareceu por completo, e Félix e a namorada ganharam cada um mais alguns chupões nos ombros e no peito.

— Ah, a Eliana me mandou mensagem. A gente combinou de se encontrar hoje.

— Beleza.

Uma hora depois, o idílio foi interrompido pela fome.

E pela vontade de beber mais.

Tiveram que se vestir e descer pro térreo em busca de mantimentos.

Senhora Mãe alimentou generosamente a filha e o namorado dela.

Satisfeito, bêbado e feliz, o casal voltou pro quarto.

Mas a vontade de beber de Félix continuava aumentando.

Então tiveram que sair.

Era um dia quente e perfeitamente normal no Maranhão.

E, como todo mundo sabe, no calor o álcool bate ainda mais forte.

A ida até a loja pra comprar cachaça acabou virando uma pequena expedição de duas horas, com paradas pra descanso.

Nas paradas, fumavam.

Bom.

Tu já entendeu o sofrimento envolvido nessa missão.

E então estavam de volta ao quarto.

Abraços de novo.

Idílio de novo.

E mais 700 ml de cachaça desapareceram sem ninguém perceber…

Às onze da manhã bateram na porta.

Senhora Mãe.

— Hoje é aniversário da nossa vizinha, dona Adalgisa. Não esqueçam de passar lá nem que seja só um pouquinho.

E a gente já tava bêbado.

Ótimo estado pra visitar dona Adalgisa.

Dona Adalgisa sempre gostava da gente.

Naquele dia também gostou.

Todo mundo achou muito engraçado e até meio fofo a gente ter aparecido bêbado na festa.

A conversa rapidamente foi parar nas lembranças da juventude, nas aventuras de solteiro…

Bom.

Tu entendeu.

A geração mais velha sabe contar essas coisas sem entrar em detalhes indecentes.

Diferente da nossa.

A gente devia aprender com os adultos.

A comida da dona Adalgisa era simplesmente maravilhosa.

E também tinha cachaça…

Ao fim de uma hora, havia uma garrafa de cachaça a menos na mesa.

— Félííííx… — a namorada dele falou quase num sussurro. — A Eliana me mandou mensagem de manhã… a gente marcou pras quatro…

Já eram três.

Depois de se despedirem calorosamente de dona Adalgisa e desejarem mais uma vez tudo de melhor pra ela, o casal partiu em direção ao centro.

O calor aumentava.

No lugar combinado, sentados no banco preferido deles, estavam Eliana e o namorado.

O namorado segurava uma garrafa de um litro e meio de Coca-Cola.

Os dois casais se cumprimentaram.

— Daqui a pouco chegam Samara e talvez Mateus, aí a gente vai sentar em algum lugar — anunciou Eliana.

— Onde? — perguntou Félix.

— Não sei, a gente acha alguma coisa, eu vi ali…

— Pra que caralho tu quer sair daqui? — interrompeu o namorado.

— E por que eu tenho que ficar aqui?

— Pra que gastar dinheiro em restaurante?

— Porque eu quero!

— Trabalhar tu não quer, né?

— E tu?

— Eu pedi demissão semana passada! Dinheiro eu tenho! Tu que vive reclamando que não tem dinheiro pra nada!

— Tu tá jogando dinheiro na minha cara?

— Pra que caralho ir pra outro lugar? A gente tá bem aqui, tomando cachacola!

— Ô, me dá um gole! — Félix estendeu a mão.

Recebeu a garrafa.

O namorado da Eliana, por algum tipo de magia, conseguia misturar cachaça com Coca-Cola de um jeito que ficava até gostoso.

Mesmo já estando quente.

Passou a garrafa pra namorada.

Samara e Mateus chegaram.

De mãos dadas.

Cumprimentaram todo mundo.

Tomaram cachacola.

Depois de uma breve discussão sobre o caminho, o clima — reclamando do calor, os fracos —, quem tinha visto quem e quem estava simplesmente em choque com o quê, Samara perguntou:

— Então, pra onde a gente vai?

Eliana:

— Bora pro JapanBox!

JapanBostox! — comentou o namorado. — Eu não piso naquela merda!

— O quê? A gente vai continuar sentado num banco bebendo igual um bando de fodido?!

— E o que é que tu tem contra isso?

— E por que eu deveria gostar?! Gente normal vai pra algum lugar!

— Qual é a diferença entre ficar bêbado num banco e ficar bêbado num restaurante onde cozinheiro e garçom nem lavam a mão depois de cagar?

— Casal normal não fica bebendo em banco! Né? — olhou pra Félix e pra namorada dele.

— É, a gente bebe lá em casa — respondeu a namorada de Félix.

Todo mundo riu.

Menos Eliana e o namorado.

— Levanta essa bunda ou eu vou sem ti! Pra que caralho eu preciso de ti?!

— Eu não piso no JapanBostox!

— Gente, bora pra outro lugar — disse Samara. — Metade da cidade tá no JapanBox.

— É mesmo — acrescentou Mateus.

— Bora comprar mais cachaça! — sugeriu Félix, brincando, e tomou mais um gole da garrafa.

— Apoiado! — disse o namorado de Eliana.

— Vai tomar no cu! — berrou Eliana pra ele.

— Bora andar e entrar em algum lugar onde a gente ainda não foi — sugeriu Samara, fazendo um gesto pra Félix passar a garrafa de cachacola.

O namorado de Eliana:

— Eu nunca fui numa loja de cachaça. Bora pra lá!

Eliana:

— Cala essa porra dessa boca!

O namorado:

— Continua falando merda e ninguém vai pra lugar nenhum.

Eliana:

— PARA DE JOGAR DINHEIRO NA MINHA CARA!!

O grupo saiu em busca de um estabelecimento.

Os três primeiros não satisfizeram as exigências estéticas do grupo em relação à fachada e, portanto, foram ignorados.

A fachada do quarto, feita num estilo antigo, pareceu atraente.

Decidiram entrar pra avaliar o interior.

Eliana e o namorado foram primeiro.

Atrás deles, Félix e a namorada.

Fechando a coluna, Samara e Mateus, abraçados.

De vez em quando Mateus fazia cócegas em Samara de maneiras diferentes.

Ela reagia com bastante intensidade.

Depois Mateus arrumava carinhosamente o cabelo dela.

A entrada do restaurante era protegida por uma porta grande, pesada e de madeira.

O namorado de Eliana abriu a porta com força e entrou.

Na volta, a porta pesada quase acertou Eliana em cheio.

Félix conseguiu salvar a amiga colocando a mão no caminho a tempo.

— Filho da puta — resumiu Eliana sobre o namorado.

Todo mundo riu.

— Caralho, tu é bruto mesmo — disse Félix, rindo.

— Como assim?

— Quase matou a Eliana com a porta.

— Ela que segure.

— Ela não consegue segurar essa porta.

— E eu com isso?

— Podia ter segurado pra ela.

— Eu não sou capacho.

— Entendi.

O grupo continuou rindo.

Depois de examinar o interior, Eliana decretou:

— Aqui é uma merda.

O grupo saiu pra examinar outros estabelecimentos.

Mas, durante a meia hora seguinte, absolutamente todos receberam da Eliana a mesma avaliação:

— Aqui é uma merda.

Pra falar a verdade, todo mundo, com exceção dela, estava pouco se lixando pra onde iam sentar.

Desde que fosse confortável, tivesse pouca gente, fosse barato e a comida prestasse.

Mas ninguém conseguia resistir à pressão de Eliana.

Nem queria.

Era divertido ver ela brigando com o namorado.

Então, de maneira completamente inesperada, Eliana escolheu uma pizzaria.

Recebeu a avaliação:

— Ah, aqui tá bom!

Decidiram sentar numa mesa da varanda.

Enquanto esperavam o pedido, pegaram cachaça pra tornar a espera mais agradável.

Eliana e o namorado entraram no modo carinho.

Ficaram abraçados e, de vez em quando, se beijavam.

— Será que eles têm alguma coisa… mais seca… sei lá, o que tem no bar? — perguntou Samara, olhando pro meio da mesa.

Ninguém sabia.

Era a primeira vez de todos ali.

— Vou descobrir — disse Mateus e foi depressa até o bar.

Todo mundo acompanhou ele com os olhos.

— Quando é que vocês dois vão transar? — perguntou Eliana pra Samara.

— Hahaha, como assim? — perguntou Samara.

— Ela perguntou quando vocês vão começar a transar — esclareceu o namorado da Eliana.

— Pra quê? — perguntou Samara, com uma incompreensão bastante teatral.

— Ah, para de graça — disse Eliana.

— A gente é só amigo. Eu não quero estragar ele. Ele é tão bonzinho.

— É, eu entendo. Homem tem que ser homem — disse Eliana. — Não um filho da puta…

Olhou pro namorado.

— Vai tomar no cu! — respondeu ele.

— Por que tu tá sendo grosso comigo?

Silêncio.

— Eeeeei.

Silêncio.

— Tu tá normal?!

— Me deixa em paz.

Mateus voltou.

Explicou pra todo mundo o que tinha no bar.

Samara então anunciou que tinha mudado de ideia.

Pediram mais cachaça.

E nesse exato momento chegaram as duas pizzas.

Quais?

Não importa.

Não quero abrir o apetite dos leitores.

O massacre das pizzas e da cachaça, naturalmente, foi acompanhado por uma conversa interminável.

Primeiro sobre pizza.

Depois sobre lugares onde serviam pizza.

E, claro, chegou a inevitável discussão:

onde é que a pizza era melhor?

Um amigo do namorado da Eliana tinha ido à Itália não fazia muito tempo e dissera que a pizza de lá era mais ou menos.

A brasileira era muito melhor.

Na verdade, qualquer comida no Brasil era muito melhor.

Principalmente no Nordeste.

— Se tu tivesse ido pra outros estados, não falava tanta merda — Eliana ria dele.

— Não enche meu saco.

— Tu tá querendo dizer que São Teodoro tem uma culinária mais variada que São Paulo?

— Eu falei mais gostosa.

— Então São Teodoro é melhor que São Paulo?

— É melhor se tu parar de falar merda.

— O quê?!

Ela se afastou dele de repente.

— E nem chega perto de mim!

— Foda-se.

— Félix, fala aí: onde é melhor, São Teodoro ou Porto Alegre? — perguntou Eliana.

— São Teodoro!

— Então fecha essa boca — disse o namorado dela.

— Hahaha, eu entendo por que tu acha isso — disse Eliana, olhando pra namorada de Félix e sorrindo. — Mas assim… o que tu vê… hã… o que tem em Porto Alegre? Tem muito lugar pra comer?

— Tem. Bastante.

— E comida do Sul?

— Também tem bastante.

— Não… quero dizer… como ela é?

— Ah… mais fácil provar do que explicar.

— Ai, eu queria tanto conhecer Porto Alegre. Vocês iam poder me levar em todos os lugares…

— Félix, leva ela embora daqui e afoga no Guaíba, por favor. Eu te pago — interrompeu o namorado dela.

Todo mundo caiu na risada.

Pediram mais cachaça.

Depois mais.

Eliana e o namorado voltaram pro modo carinho.

Félix e a namorada também estavam abraçados.

Samara então estava praticamente deitada em cima de Mateus.

A magia do álcool.

Mateus ficou consideravelmente mais animado e tomou conta completa da conversa.

Agora o tema era a problemática da construção de estradas no estado do Maranhão.

Samara saiu de cima dele e passou a olhar pro centro da mesa.

No calor da discussão, chegaram à conclusão de que a infraestrutura ruim não se explicava apenas pela corrupção e pela pobreza do estado.

O clima também era culpado.

— Eu… tô com sede… — disse Samara, com voz de quem estava à beira da morte.

Mateus virou imediatamente pra ela.

— O que tu quer que eu traga?

Silêncio.

— Não sei…

— Água? Alguma coisa doce?

Silêncio.

— Eu não sei…

Mateus mal encostou o braço nela…

— EU NÃO SEI! — disse Samara, quase chorando, e abaixou a cabeça de repente.

Mateus abraçou ela como quem tenta consolar.

Todo mundo ficou olhando pros dois.

Em silêncio.

Mateus cochichou alguma coisa no ouvido dela.

Depois beijou o rosto dela.

Samara virou a cabeça bruscamente e bagunçou o próprio cabelo.

Mateus começou a arrumar.

Ela bagunçou de novo.

Ele arrumou outra vez.

— Eu tô com sede… — disse Samara novamente.

Mateus levantou e, cambaleando, foi em direção ao bar.

Quando já estava longe o bastante:

— Por que tu tá tratando ele assim? — perguntou Eliana, rindo.

— Porque sim! — respondeu Samara, ofendida. — Quando ele começa a falar… Eu já pedi um milhão de vezes pra ele se comportar normalmente quando bebe, mas ele não escuta e começa a falar sem parar, encher o saco de todo mundo! Ele irrita todo mundo! Depois fica reclamando que ninguém quer namorar com ele! Quantas vezes eu já falei: “Por favor, se comporta como gente!”

Mateus voltou com alguma bebida.

— Ó, eu trouxe pra ti…

— O que é isso?! — Samara cortou ele na hora.

— É…

— O QUE É ISSO?!

Algumas pessoas nas mesas próximas viraram pra olhar.

— É que…

— O que foi que tu me trouxe?!

— Tu tava com sede e eu…

— Eu falei que não sabia!

— Mas eu…

— Tu vive me pressionando!

Samara levantou da mesa, foi pro outro canto da varanda e parou junto à parede com os braços cruzados.

O grupo trocou olhares em silêncio.

— Vai acalmar ela — disse Eliana pra Mateus.

— Eu não entendi porra nenhuma. De novo essas crises dela…

— Talvez tu tenha magoado ela.

— Como?

— Bora lá. Tu pergunta.

Mateus e Eliana foram atrás de Samara.

— Finalmente vazou. Bora beber pra comemorar — disse o namorado de Eliana.

Beberam.

Depois o namorado dela levantou e também foi até Samara.

Félix e a namorada ficaram sozinhos.

— Meu Deus, eu tô chocada. Eles não mudaram nada desde a escola. Não. Ficaram piores…

— Eu não vejo meus colegas desde a formatura.

— Eu também não… graças a Deus!

Se abraçaram forte e trocaram alguns beijos.

Tudo diante dos olhos de Félix estava flutuando.

Ele tentava olhar pra um ponto, mas o ponto fugia pra esquerda toda vez.

A namorada dele, por outro lado, encarava atentamente um grupo da mesa ao lado.

Três homens.

— Félix, tu tá ouvindo? — ela sussurrou.

Félix, na verdade, não estava ouvindo absolutamente nada.

— Félíííx…

— Hã?

— Tu tá ouvindo?

— O quê?

— O que esses caras tão falando?

Ela indicou a mesa ao lado com os olhos.

Félix forçou a audição o máximo possível.

Naquele estado!

Não conseguiu entender nada.

O grupo na mesa ao lado comia pizza e bebia, aparentemente, vinho.

Ou talvez nem fosse pizza.

Já não dava pra entender porra nenhuma.

De repente Félix conseguiu distinguir uma palavra:

“patero”.

Patero…

Patero…

Argentinos!

Félix e a namorada arrastaram as cadeiras um pouco pra longe da própria mesa.

E um pouco mais perto dos argentinos.

Era difícil entender sobre o que estavam falando.

Na verdade, tudo já estava difícil.

E escutar conversa alheia é feio.

Quem gosta disso?

Além do mais, não queria ofender os estrangeiros.

Embora…

Se eles são gaúchos, que tipo de estrangeiro eles são pra mim?

Eu também sou gaúcho!

Mesmo que meus antepassados tenham vindo pro Brasil pra escapar do serviço militar pouco antes da Primeira Guerra Mundial.

Ainda sou gaúcho.

Eles provavelmente também são.

E gaúcho sempre entende gaúcho.

Félix arrastou a cadeira até a mesa ao lado, colocou a mão no ombro de um dos caras e falou:

— ¡Hola, cabrón!

Silêncio.

Os estrangeiros abriram um sorriso.

— ¡Hola, mi hermano! ¡Mi cabrón!

Félix, a namorada e os argentinos se abraçaram.

Começou uma conversa numa espécie de portunhol.

Quanto tempo conversaram e sobre o quê?

Não importa.

O importante é que viraram amigos imediatamente.

Beberam cachaça.

Combinaram de se encontrar em território neutro.

Em algum lugar de Montevidéu…

O que aconteceu depois, Félix não lembrava.

De repente, estava naquele mesmo banco perto do qual o grupo tinha se encontrado.

Na mão, um copinho.

No copinho, cachaça.

A galera conversava animadamente sobre alguma coisa.

E depois disso…

Escuridão.

Félix acordou num quarto branco.

A cabeça doía.

O corpo inteiro estava dolorido.

Havia um cheiro estranho no ar.

As mãos e os pés estavam amarrados à cama.

Com ataduras.

Onde eu tô?!

O rosto dói.

Na virilha tem alguma coisa que definitivamente não deveria estar ali.

Que porra é essa?

Ele vestia um avental hospitalar descartável.

Como eu vim parar aqui?

Félix mordeu a faixa da mão direita até arrebentar.

Depois soltou a esquerda.

Debaixo do lençol viu um tubo indo até…

Bom.

Tu entendeu.

Tirou o tubo.

Aquilo foi extremamente desagradável.

Depois soltou as pernas.

Levantou da cama.

Foi até a porta.

De repente a porta abriu, e entrou uma mulher mais velha de jaleco.

— Opa! Bom dia! Acordou!

— Bom dia… onde eu tô?

— Adivinha!

— Ah, para…

— No hospital! Mais precisamente no Hospital São Januário.

— E como eu vim parar aqui?

— Tu entrou em coma alcoólico.

— O QUÊ?!

— É. Dormiu bem? — A mulher riu.

— Cadê minhas coisas?

— Na mesinha. Teu celular não parava de tocar!

Merda.

Vinte ligações perdidas dos pais.

Dezessete da mãe.

Três do pai.

Foram escolher justo agora pra ligar.

Félix ligou pra namorada.

— Oi, amor! Como tu tá?

— Que porra aconteceu?! Tão dizendo que eu entrei em coma!

— Meu Deus, Félix, eu fiquei desesperada!

— O que aconteceu depois da pizzaria?!

— Tu não lembra? Meu Deus… A gente conversou com aqueles argentinos, depois o pessoal voltou, bebemos mais, aí resolvemos ir sentar no banco lá no centro, bebemos de novo. Depois eu tava no telefone, e quando desliguei tu tava deitado no chão com a sobrancelha aberta e falando numa língua que ninguém entendia. A gente não conseguiu estancar o sangue e chamou uma ambulância. Quando ela chegou, tu apagou. No hospital disseram que ia ficar tudo bem. Depois nossos pais vieram buscar a gente. Meu pai não tá aí contigo? Ele falou que ia ficar no hospital até tu acordar.

— Teu pai?!

— É. Relaxa. Ele tá tranquilo com isso.

Senhor Pai entrou no quarto carregando uma sacola de frutas.

— Entendi, amor. Depois eu te ligo.

Depois de conversar um pouco com Senhor Pai, Félix decidiu ligar pros próprios pais.

Pro pai.

A mãe com certeza ia querer saber por que precisou ligar dezessete vezes.

— Oi, pai. Tu ligou?

— Oi, filho! Tua mãe quase arrancou minhas orelhas: “Félix não responde! Félix sumiu!” Eu falei pra ela: não fica atormentando o menino, deixa ele viver em paz! Ela chegou até a ligar pros pais da tua namorada!

— É… eu… dei uma sumida.

— E tá certo! Não tem que passar a vida inteira prestando conta pra mãe.

— Vou ligar pra ela pra não ficar preocupada.

— Liga. Mas tu faz mal em incentivar. Daqui a pouco ela não larga mais do teu pé! Fez muito bem em ir morar longe. Acho que eu também devia ir pra São Teodoro…

Então falou de propósito mais alto:

— VOU ARRUMAR PRA MIM UMA MULATA LINDA DE UNS VINTE E TRÊS ANOS! IGUAL À DO FÉLIX!

— Mas a minha nem é mulata…

— Não contraria teu pai! E VOU ME DIVERTIR COM ELA! JÁ CHEGA DESSA CARA AZEDA DE VELHA!

— ENTÃO VAI PRO INFERNO! — a voz da mãe veio de longe. — E SOME DA MINHA FRENTE!

— COMO É MESMO O NOME DA TUA AMIGUINHA? MARISA? NOME BONITO! O QUÊ? ELA GOSTA DE HOMEM MAIS VELHO? OOOOOH, ENTÃO É PERFEITA PRA MIM!

— Vai pra onde tu quiser, desde que pare de empestear o ar desta casa!

— Pois eu vou mesmo!

— Vai! Vai!

— Viu como eu acabei com tua mãe? Hehehe! Aprende com teu pai, isso ainda vai ser útil na vida! Bom, a tua parece normal. Boa menina. Fico feliz por vocês. Vai descansar. Só acalma tua mãe.

Pausa.

— E não esquece de tomar uma pra curar a ressaca!

Meu Deus.

Que horror.

Beber até entrar em coma…

Quanto foi que eu bebi?

Que pesadelo.

Acho que tá na hora de diminuir o ritmo.

É.

Não vou mais beber.

Senão um dia eu bebo até morrer e nem percebo.

Desde então, Félix nunca mais bebeu álcool.

Let Lazaro Pablo Solorzano know what you thought about this chapter!
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