Entre Raças
A chuva caía sobre a cidade desde o início da madrugada.
Não era uma chuva forte. Era constante.
Daquelas que pareciam fazer parte da própria noite.
Nyra Valenhart observava as gotas escorrerem pelo vidro da janela enquanto girava distraidamente uma pequena moeda entre os dedos.
Do outro lado da janela, a floresta se estendia logo depois dos limites da escola. Escura, silenciosa e quase impossível de enxergar naquela chuva.
No lado oposto, a cidade permanecia iluminada.
Era sexta-feira à noite, e as luzes das casas e dos estabelecimentos permaneciam acesas na região onde as diferentes raças costumavam viver.
A escola ficava exatamente entre os dois lados.
Floresta de um lado.
Cidade do outro.
E nós, no meio.
A Academia das Raças era uma das instituições mais antigas destinadas à educação de jovens das três principais raças do nosso mundo.
Lobisomens.
Vampiros.
Bruxos.
Todos estudavam juntos.
Ou, pelo menos, era essa a ideia.
Na prática, cada raça tinha suas próprias necessidades.
Vampiros não podiam simplesmente sair por aí durante o dia. Alguns precisavam de proteção mágica, outros utilizavam objetos encantados e havia aqueles que simplesmente preferiam permanecer em seus dormitórios até o anoitecer.
Lobisomens tinham seus próprios problemas.
Principalmente durante a lua cheia.
Alguns ainda perdiam completamente o controle durante a transformação. Outros conseguiam manter a consciência e até controlar o próprio corpo.
Quanto mais experiente o lobisomem, maior a chance de dominar seus instintos.
Já os bruxos...
Bem.
Nós tínhamos magia.
E uma quantidade absurda de regras sobre como usá-la.
Por isso a Academia não era exatamente uma escola comum.
Tínhamos aulas específicas para cada raça, além das matérias que todos precisavam aprender.
História das Raças era uma delas.
E, infelizmente, era uma das matérias mais cansativas que eu já tinha tido o desprazer de conhecer.
Era mais um dia normal.
Aula de História das Raças.
Desde nosso primeiro ano na Academia, éramos obrigados a estudar as regras, histórias, culturas, conflitos e costumes de cada raça.
Precisávamos saber tudo.
Ou pelo menos era isso que os professores diziam.
Eu achava que saber tudo era um pouco exagerado.
Afinal, depois de tantos anos, eu já tinha ouvido aquela mesma história mais vezes do que conseguia contar.
— Ei — minha amiga sussurrou ao meu lado. — O professor vai chamar sua atenção de novo.
Continuei olhando para a moeda.
— Fazer o quê? Essa história eu ouço desde que entrei na escola.
Elara segurou uma risada.
— Talvez porque você nunca presta atenção.
— Eu presto.
Ela me encarou.
— Nyra.
— Às vezes.
Ela revirou os olhos.
Voltei a olhar para a moeda em minha mão.
Era de prata.
E não me queimava.
Infelizmente.
Porque, ao contrário do que muitos humanos acreditavam, prata não era apenas uma lenda urbana.
Ela realmente machucava lobisomens.
Não era exatamente como nos filmes, onde um simples toque fazia um lobisomem cair morto no chão, mas o contato prolongado podia causar queimaduras graves e dificultar a regeneração.
E comigo?
Nada.
Nunca aconteceu nada.
O que era um pouco estranho.
Principalmente porque meu pai era um lobisomem.
Um Alpha.
E não qualquer Alpha.
Ele pertencia a uma antiga linhagem de Alphas.
Uma linhagem que, por motivos que eu preferia não explicar, já não fazia questão de me considerar parte dela.
Meu pai era um Alpha exilado.
E eu era filha de uma bruxa com um lobisomem.
Mestiça.
Era assim que eu era chamada.
Nada muito especial.
Existiam muitos mestiços espalhados pelo mundo.
O que não existia, pelo menos segundo todos os registros conhecidos, eram híbridos.
A diferença parecia pequena.
Não era.
Mestiços eram aqueles que nasciam de pais de raças diferentes, mas manifestavam apenas uma das características sobrenaturais.
Eu, por exemplo, havia herdado a magia da minha mãe.
Minha parte bruxa tinha se manifestado ainda criança.
Minha parte lobo?
Nada.
Nenhuma transformação.
Nenhuma força fora do comum.
Nenhum instinto lupino.
Nem mesmo a sensibilidade à prata.
Aparentemente, eu não havia herdado nada da parte lobo.
Só a magia da minha mãe.
Talvez fosse melhor assim.
Afinal, ser filha de um Alpha exilado não era exatamente o tipo de herança que alguém desejaria carregar.
— Então vamos relembrar novamente as três raças — o professor disse, fazendo minha atenção voltar para a sala. — Alunos?
Alguns suspiraram.
O professor ignorou.
— Existem três raças principais em nosso mundo. Lobisomens, vampiros e bruxos. Cada uma possui características próprias.
Ele caminhou até o quadro.
— Lobisomens.
Uma garota respondeu:
— Força física, velocidade, sentidos aguçados e regeneração.
— Correto.
O professor escreveu algumas palavras no quadro.
— A transformação também faz parte da natureza dos lobisomens. Em geral, a lua cheia intensifica os instintos e torna o controle mais difícil. Porém, lobisomens experientes podem aprender a controlar suas transformações.
Elara cruzou os braços.
— Ele podia ter resumido isso em duas frases — murmurou.
— Concordo.
— Eu ouvi isso — o professor falou sem sequer olhar para nós.
Elara abaixou a cabeça.
Eu mordi o lábio para não rir.
— Vampiros?
Um garoto levantou a mão.
— Força, velocidade, sentidos aguçados, regeneração e longevidade.
— Exatamente.
O professor continuou:
— Vampiros possuem uma existência consideravelmente mais longa que humanos e outras raças. Porém, possuem uma limitação conhecida por todos.
— Luz solar — alguém respondeu.
— Sim.
Alguns vampiros da sala pareceram particularmente entediados.
Um deles estava sentado algumas carteiras à frente.
Cabelos negros.
Postura perfeitamente relaxada.
E olhos de um vermelho tão escuro que, sob a iluminação da sala, pareciam quase pretos.
Lucien Vhalerian.
Mesmo sem olhar diretamente para ele, era difícil não notar sua presença.
O sobrenome Vhalerian era conhecido por praticamente todos.
Uma das linhagens vampíricas mais antigas ainda existentes.
Lucien, aparentemente, não parecia se importar muito com isso.
Ou talvez apenas fosse bom em fingir.
— E finalmente, os bruxos — o professor continuou.
Agora alguns olhos se voltaram para mim.
Revirei os meus.
— Bruxos possuem como principal característica a capacidade de utilizar magia. Suas habilidades variam de acordo com treinamento, afinidade e, em alguns casos, herança familiar.
Essa parte eu gostava.
Um pouco.
Magia era interessante.
Pelo menos quando não precisava passar duas horas copiando teoria de um livro que provavelmente tinha mais de quinhentos anos.
— Dentro dessas três raças — o professor prosseguiu — existem diferentes estruturas familiares e sociais.
Ele escreveu no quadro:
CLÃS — COVENS — ALCATEIAS
— Vampiros normalmente se organizam em clãs. Bruxos, em covens. Lobisomens, em alcateias.
As divisões eram importantes.
Muito mais do que pareciam.
Porque nosso mundo sempre teve uma relação complicada com sangue e família.
O normal era que vampiros se casassem com vampiros.
Lobisomens com lobisomens.
Bruxos com bruxos.
Não era ilegal se relacionar com outra raça.
Mas, durante séculos, as famílias mais antigas fizeram questão de preservar suas linhagens.
Quanto mais antiga e menos misturada fosse uma família, maior era o prestígio e mais poderosa ela era.
E algumas famílias levavam isso extremamente a sério.
— Entre os vampiros — o professor explicou — temos a Casa Vhalerian, uma das linhagens nobres mais antigas ainda existentes.
Olhei discretamente para Lucien.
Ele continuava prestando atenção na aula.
Ou fingindo muito bem.
— Entre os lobisomens, temos a linhagem Ravenholt, conhecida por sua longa sucessão de Alphas.
Elara ajeitou o cabelo castanho-claro e ergueu discretamente o queixo.
Olhei para ela.
— Está se achando importante?
— Eu sou importante.
— Convencida.
— Realista.
Segurei uma risada.
— E entre os bruxos, temos a linhagem Aurevyn, conhecida pela preservação de conhecimentos mágicos antigos.
Uma garota na primeira fileira ajeitou a postura imediatamente.
Seraphine Aurevyn.
Ela tinha aquele tipo de comportamento que fazia parecer que o próprio sobrenome estava estampado na testa.
Insuportável.
E ela sabia disso.
Claro que aquelas eram apenas algumas das famílias nobres.
Existiam dezenas de outras linhagens espalhadas pelo mundo.
Algumas antigas.
Algumas novas.
Algumas extremamente poderosas.
E outras que ninguém conhecia.
Mas havia uma questão que sempre fazia a sala ficar mais silenciosa.
A mistura entre raças.
— Agora chegamos a uma parte importante — o professor disse.
Eu já sabia o que vinha.
— O que acontece quando indivíduos de raças diferentes têm filhos?
Alguns alunos começaram a cochichar.
O professor esperou até que a sala se calasse.
— Existem algumas possibilidades.
Ele escreveu no quadro.
PRIMEIRA: NENHUMA MANIFESTAÇÃO.
— Em alguns casos, a criança não manifesta nenhuma habilidade sobrenatural.
Uma segunda linha apareceu.
SEGUNDA: UMA ÚNICA MANIFESTAÇÃO.
— Essa é a situação mais comum. A criança pode herdar apenas uma das características dos pais.
Ele apontou para o quadro.
— Uma criança de uma bruxa e um lobisomem pode nascer manifestando apenas magia.
Olhei para minha moeda.
— Ou apenas as características lupinas.
Continuei olhando para ela.
Era exatamente o meu caso.
Até onde eu sabia.
— E existe uma terceira possibilidade — o professor continuou.
Ele escreveu:
TERCEIRA: DUAS MANIFESTAÇÕES.
A sala ficou um pouco mais silenciosa.
— Extremamente rara.
Um garoto levantou a mão.
— Professor, isso já aconteceu alguma vez? Alguém realmente conseguiu herdar as duas linhagens?
O professor olhou para ele.
— Senhor Elias Morcant.
— Sim?
— Existe apenas um registro considerado confiável.
Alguns alunos se inclinaram para frente.
— E o que aconteceu?
O professor fechou o livro que segurava.
— A criança não sobreviveu.
A sala ficou em silêncio.
— Alguns registros afirmam que morreu durante o parto. Outros dizem que sobreviveu por aproximadamente um ano.
Ele respirou fundo.
— O caso aconteceu durante a Guerra da Convergência.
Todo mundo conhecia aquela história.
A guerra que havia acontecido ha 25 anos atrás, quando grupos de diferentes raças começaram a exigir liberdade para formar famílias e relacionamentos sem que suas linhagens fossem consideradas contaminadas.
Clãs contra covens.
Alcateias contra clãs.
Famílias inteiras divididas.
No final, algumas das antigas leis foram modificadas.
Mas as tradições permaneceram.
E o híbrido daquele período acabou morto durante a guerra.
Desde então, nenhum outro caso havia sido confirmado.
Pelo menos oficialmente.
O professor voltou a escrever no quadro.
— Por isso, a preservação das linhagens continua sendo um assunto importante para muitas famílias.
O sinal tocou.
Finalmente.
A sala inteira pareceu respirar novamente.
— Graças aos deuses — Elara murmurou.
Começamos a guardar nossas coisas.
— Você não acredita em deuses — falei.
— Não preciso acreditar para agradecer.
— Justo.
Saímos da sala junto com os outros alunos.
O corredor estava cheio.
Alguns vampiros caminhavam em direção às áreas mais protegidas da Academia.
Lobisomens se reuniam próximos às portas que davam para a floresta.
Bruxos carregavam livros, grimórios e objetos que provavelmente deveriam estar dentro de mochilas.
Era apenas mais uma sexta-feira.
Nada de especial.
Pelo menos, para mim.
— Você vai para o dormitório? — Elara perguntou.
— Depois.
— Vai praticar?
— Talvez.
Ela me olhou com desconfiança.
— Você disse “talvez” ontem.
— E pratiquei.
— Por duas horas.
— Exatamente.
— Isso não é talvez.
— Para mim é.
Ela riu.
Seguimos pelo corredor até a parte mais antiga da Academia.
Meu lugar favorito.
Ali os corredores eram mais vazios e as janelas maiores.
Era possível ver a floresta através delas.
Quando chegamos à sala de prática, Elara parou na porta.
— Eu vou comer.
— Você acabou de almoçar.
— Isso foi há quatro horas.
— Lobisomens realmente comem desse jeito?
— Você quer continuar sendo minha amiga?
— Sim.
— Então não questione.
Ela entrou no corredor contrário.
— Até depois, Nyra!
— Até.
Entrei sozinha na sala.
Fechei a porta.
Finalmente, silêncio.
Coloquei a mochila no chão e caminhei até o centro do espaço.
As salas de prática eram protegidas por encantamentos antigos para impedir que um feitiço mal executado destruísse metade da Academia.
O que era ótimo.
Porque eu já tinha feito isso uma vez.
Uma vez só.
Talvez duas.
Estendi a mão.
Respirei fundo.
Concentrei-me.
A magia começou como sempre.
Uma pequena sensação quente na palma da mão.
Depois, um brilho fraco.
Fechei os olhos.
— Vamos...
Uma pequena chama surgiu acima da minha mão.
Sorri.
Era simples.
Um dos primeiros feitiços que aprendi.
Mas ainda gostava de praticá-lo.
Movimentei os dedos lentamente, fazendo a chama dançar no ar.
Para a esquerda.
Para a direita.
Mais alto.
Mais baixo.
Até que a chama aumentou de repente.
— Ah.
Apaguei imediatamente.
Fiquei olhando para minha mão.
Depois sorri.
— Acho que estou melhorando.
Peguei minha mochila e saí da sala.
Era apenas mais um dia na Academia.
E, para mim, era exatamente assim que deveria ser.








