PRÓLOGO
No leito branco, o velho moribundo chama para perto de si o espelho jovem de sua face.
— Não te aflijas, pois não tardo a partir!
No rosto do filho, nenhum traço de emoção. Nos olhos, dor e gozo se confundem. Sentimentos envoltos de mistério.
— Às vezes, quando recordo o que deixarei para ti, pergunto-me se não pus no mundo aquele que aplaude a minha partida e na penumbra de um teatro sombrio, cerra as cortinas no meio de meu espetáculo.
— Não pai! Nunca desejei isso!
— Não? Você me matou! Eu não sei como... Ninguém sabe! Nisto puxaste a mim: És engenhoso e inteligente! Mas este teu olhar não me engana. Estás ansioso à espera da minha morte... E finalmente... O acesso… — Contendo-se, deixando de encarar o filho — A tudo que por direito te pertence...
— O senhor não sabe o que está dizendo, pai!
— Pai? Se eu soubesse o que tu virias a ser, sepultaria tua mãe viva dentro de um túmulo! Perdia o maior amor da minha vida mas nunca me envergonharia de ser pai de um ser repugnante e asqueroso, com a alma beijada pelo demônio da desgraça. Ao nascer, mataste metade de mim e viveste todos estes anos à espera da consumação do que iniciaste. Eis o momento, Arthur! Eis a morte a dançar sobre meu corpo! Convidaste-a para o baile; abriste portas e janelas e ela chega triunfal!
— Não fui responsável pelo falecimento da mamãe, se foi isso que quiseste dizer. Mamãe morreu porque não podia dar à luz. Era muito nova para isso!
— Não… Não! Tua mãe morreu por possuir uma ternura esmagadora de todas as minhas vontades. Ela escolheu te dar a vida; eu fiz o que ela ordenou. Chorei cada gota de sangue que ela pariu! Cada gemido de dor emanado dela era um grito profundo de desespero, lança bestial ferindo minha alma! Eu escolheria mil vezes te deixar morrer e não me arrependeria segundo algum pelo que deveria ter feito! E ao te abraçar pela primeira vez, contra meu peito, esmagar-te! Ver teu sangue se mesclar com o do ventre de onde saíste. Mas quis Deus, que ela te visse antes de partir e em suas derradeiras palavras, pedisse para cuidar do fruto sagrado do nosso amor. E eu...plantei a semente da minha destruição.
— O senhor, pode me odiar pai, mas eu te amo! Vim de muito longe na esperança de escutar uma palavra de carinho. Vim, porque necessitava de sua companhia, fria e dura sempre a me repudiar, mas a única que tenho na vida.
— Mentira! Vens de muito longe, para ter a certeza de minha iminente morte. Vens para ter a prova irrefutável que mais uma vez tua mente laboriosa esquematizou com precisão os detalhes de seu plano doentio de enriquecer as minhas custas! Mas tenho uma surpresa para você...
— Tiraste meu nome do testamento? Não importa! Se te deixa contente, faça! Assim, uma vez, pelo menos, poderia dizer que fiz meu pai sorrir!
— Ver-te matar essa carcaça que habitas seria hilário. Mate-se! Eu morreria feliz!
Respirações ofegantes de pai e filho ressoavam pelo quarto. A mão direita de Arthur ergueu-se bruscamente para conter uma lágrima que rolava em sua face.
— Tens uma irmã!
O silêncio gritava por entre frestas de janelas e portas, afligia os ouvidos de Arthur com o estampido das mais doces recordações amarguradas. Agora seus olhos, erguidos em direção ao pai, transformavam-se. De luminosos viraram olhos turvos! Profundos, como uma voz querida, agora ausente, revelara certa vez. Quando falou, aliviou a própria alma e finalmente a libertou.








