Epílogo
O sol estava mais brilhante do que o normal naquela manhã. A chuva fina havia cessado há pouco, deixando o orvalho escorrer pelas folhas e se acumular nas pontas dos galhos. Eu passeava pela floresta sem pressa, brincando com os animais que encontrava pelo caminho. Naquela forma, ninguém me incomodava. Os outros espíritos costumavam me evitar quando eu era uma raposa, e eu não me importava. Na verdade, gostava daquela distância. A floresta era minha casa, os animais eram minha companhia e eu não precisava de muitas outras coisas para ser feliz.
Encontrei ele ainda pela manhã.
Estava sentado, observando um cervo. Eu nunca o havia visto naquela parte da floresta e, por algum motivo, parei para observá-lo. Ele era muito bonito, mas não era apenas isso. Havia alguma coisa diferente nele, algo que eu não conseguia explicar. Parecia pertencer àquele lugar e, ao mesmo tempo, não pertencer.
Talvez eu tenha ficado olhando por tempo demais, porque ele percebeu minha presença. Para minha surpresa, não me evitou. Apenas me observou de volta, como se também estivesse tentando descobrir o que eu fazia ali. Então começou a se aproximar.
— Raposinha, calma.
Fiquei imóvel, mantendo uma distância que ainda considerava segura. Ele continuou olhando para mim.
— O que você está olhando? Sou eu?
Ele continuava falando comigo. Será que já havia me visto antes? Será que sabia quem eu era ou estava simplesmente conversando com uma raposa?
Só descobri que ele estava perto demais quando já era tarde. Eu não poderia correr o risco de ele me pegar. Naquela forma eu era rápida, muito rápida, mas não era particularmente forte. Então corri para dentro da floresta e deixei aquele homem para trás.
Pelo menos foi isso que tentei fazer.
Porque, mesmo depois de chegar longe, não consegui parar de pensar nele.
Meu refúgio ficava escondido entre as árvores. Eu havia encontrado uma ótima caverna alguns dias antes. A entrada era pequena o bastante para que eu só conseguisse passar em minha forma animal, mas, uma vez lá dentro, podia me transformar e me movimentar tranquilamente. Era uma casa simples, mas segura, quente e seca. Eu não precisava de muitas coisas. Vivia daquilo que a natureza me oferecia e nunca havia sentido falta de mais nada.
Naquela noite, porém, aquele homem continuava voltando aos meus pensamentos.
Lindo.
Era isso que ecoava na minha cabeça.
Lindo.
— Será que ele vive aqui perto?
Perguntei ao coelho que estava aconchegado no meu colo. Ele levantou os olhos para mim e permaneceu em silêncio.
— Nunca vi ele aqui antes. Você já o viu? Ele também é um espírito da natureza?
O coelho apenas me olhava. Não era como se fosse me responder, mas eu o entendia de outras maneiras. Pela expressão dele, tive a impressão de que estava se divertindo com os meus questionamentos.
Demorei a dormir naquela noite. Quando finalmente peguei no sono, sonhei com ele.
E, quando acordei, já estava decidida.
Eu iria encontrá-lo novamente.
Saí da minha toca e fui direto para o lugar onde o havia visto no dia anterior. Ele não estava lá. Procurei durante todo o dia, mas não o encontrei. Voltei no dia seguinte. Nada. E no outro também.
Foi assim durante uma semana.
Quando eu já estava quase desistindo, aconteceu.
Lá estava ele.
Dessa vez, não me escondi.
Ele me viu e pareceu surpreso.
— Ah, você de novo!
Havia alguma coisa diferente em sua expressão. Ele parecia feliz por me encontrar.
Aproximei-me. Decidi que ficaria com ele naquele dia e, se tudo corresse bem até o final da tarde, talvez conversássemos.
Ele continuava olhando para mim.
— Vai me deixar te fazer um carinho hoje?
Ele perguntou enquanto soltava um risinho.
Eu permaneci ali.
Quanto mais tempo passava observando aquele homem, mais sentia que queria ficar perto dele. Era estranho. Nunca havia sentido aquilo com nenhum outro espírito, pelo menos não daquela maneira. Com os animais era diferente; com eles eu sempre havia me sentido assim.
O dia passou enquanto eu o acompanhava. Vi quando caminhou pela floresta, quando pescou e quando colheu algumas frutas. Acho que ele entendeu que eu pretendia ficar por perto, porque, de vez em quando, fazia alguma pergunta ou simplesmente falava comigo.
Eu não podia responder.
Mas continuava ali.
No final do dia, percebi que ele começava a arrumar suas coisas para ir embora. E então pensei que, se eu não falasse com ele naquele momento, talvez nunca mais tivesse a oportunidade de encontrá-lo.
Ele virou de costas por um minuto. Quando olhou novamente, eu ainda estava ali, mas não como antes.
Agora estava diante dele como eu mesma.
A expressão em seu rosto mudou imediatamente. Curiosidade, surpresa e, eu diria, um pouco de medo se misturaram enquanto ele me observava. Não disse nada de imediato. Apenas fiquei parada, olhando para ele e tentando entender o que se passava pela sua cabeça.
— Quem... quem é você?
— Veyra. Estive com você durante o dia hoje.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes. Pareceu um tempo muito longo para mim, embora talvez a expectativa de que ele me reconhecesse imediatamente tivesse feito aqueles segundos parecerem maiores do que realmente eram.
Então seus olhos se arregalaram um pouco.
— A raposinha?
Ele falou aquilo como se tivesse acabado de descobrir a resposta de uma charada.
Assenti.
— Como você fez isso?
Ele pensou por mais alguns segundos antes de perguntar:
— Você é um deles? Um daqueles espíritos da floresta? Achei que eles estavam extintos. Faz tempo que não vemos mais nenhum deles.
Ele começou a se aproximar.
Por instinto, dei um passo para trás.
Ele percebeu e parou.
— Não estamos extintos.
Foi tudo o que consegui responder.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Passei uma semana inteira procurando por ele e, agora que finalmente podíamos conversar, parecia que eu estava com medo.
Ou talvez não fosse exatamente medo.
Talvez fosse apenas a estranha sensação de estar diante de alguém que, até então, eu só havia observado de longe.
Antes que ele perdesse o interesse em mim, continuei:
— Eu estou sozinha, mas nós existimos.
Ele me observou por mais alguns instantes.
— O que você está fazendo aqui?
— Estou observando você.
— Por quê?
Ele parecia mais curioso do que incomodado.
Pensei por um momento.
— Porque você é diferente. O que você é?
Ele soltou a mochila que carregava, sentou-se novamente e apoiou os braços sobre os joelhos.
— Meu nome é Evander. Sou da nação da Terra. Você nos conhece?
— Sim. Quer dizer... não.
Fiz uma pequena pausa. Ele esperou que eu continuasse.
— Eu conheço a sua nação, mas nunca conheci ninguém de lá. Eu vivo aqui, na floresta.
Ele ouviu tudo com atenção.
— O que você veio fazer aqui? — perguntei.
— Vim conhecer a floresta. Fugir um pouco. Pescar.
Ele fez uma pausa e logo pareceu querer corrigir o que havia acabado de dizer.
— Não estou fugindo de nada. Estou conhecendo outros lugares. Os segredos da floresta.
Então me olhou.
Foi quando reparei de verdade em seus olhos.
Eram verdes.
Verdes até demais.
— Como você.
Meu rosto esquentou.
Não entendi.
Que sentimento era aquele?
Ficamos algumas horas conversando. Perguntei sobre o seu reino, sobre os lugares de onde ele vinha, e ele perguntou sobre a floresta. Descobri que não conhecia tanto do mundo quanto imaginava. Ele sabia coisas que eu nunca havia visto, e parecia interessado nas poucas coisas que eu podia contar.
Quando percebemos, já estava escuro.
Eu não queria que ele fosse.
Não queria me separar dele.
Evander começou a juntar suas coisas.
— Preciso ir, Veyra. Eles já devem estar sentindo a minha falta.
Observei enquanto ele colocava a mochila nas costas.
— Você vai voltar amanhã?
Eu precisava ouvir uma única resposta.
Ele sorriu.
— Sim. Amanhã, aqui.
Então foi embora.
Desapareceu na escuridão da floresta, e eu permaneci ali parada por mais alguns instantes, olhando para o caminho por onde ele havia desaparecido.
Só então voltei correndo para a minha toca.
Passei boa parte da noite contando tudo aos animais. Falei sobre como tinha sido conversar com ele, sobre as coisas que havia me contado e sobre a maneira como ele tinha me olhado quando finalmente descobriu quem eu era.
Contei tudo.
Ou quase tudo.
Não sabia explicar aquela sensação estranha que havia surgido dentro de mim.
A noite demorou a passar.
Eu só conseguia pensar no dia seguinte.
Só conseguia pensar nele.
No outro dia, eu estava lá.
As horas passavam, mas ele não aparecia. No começo, não me importei. Eu tinha esperado por ele na noite anterior, então imaginei que talvez tivesse algum atraso. Continuei andando pela floresta, brincando com os animais, observando as árvores e tudo aquilo que eu conhecia tão bem. Mas, conforme o tempo passava, comecei a sentir algo estranho.
Era tristeza?
Talvez solidão.
Fazia muito tempo que eu não sentia aquilo. Na verdade, eu nem me lembrava da última vez que havia me sentido sozinha. A floresta sempre esteve comigo. Os animais sempre estiveram comigo. Eu nunca precisei de mais nada.
Então, por que agora eu sentia falta de alguém que mal conhecia?
Sem encontrar uma resposta, me aproximei de um laguinho que ficava entre as árvores. Havia alguns peixinhos coloridos nadando em círculos, passando uns pelos outros sem pressa. Fiquei observando-os por alguns minutos. Sempre gostei de olhar os peixes. Eles pareciam tão tranquilos, como se não existisse nada no mundo capaz de preocupá-los.
Talvez eu pudesse aprender alguma coisa com eles.
Foi quando ouvi um barulho atrás de mim.
Virei rapidamente.
Lá estava ele.
Um sentimento tomou conta de mim quase no mesmo instante. Esse eu conhecia.
Felicidade.
Mas havia alguma coisa a mais. Uma sensação estranha, diferente de tudo o que eu já havia sentido antes. Começava com um frio na barriga, depois vinha uma empolgação que eu não conseguia controlar e, por fim, uma vergonha que fazia meu rosto esquentar.
Eu ainda não sabia o que aquilo significava.
— Você veio!
Ele sorriu.
Lindo.
— Eu disse que vinha.
— Você demorou.
Tentei não parecer chateada. Afinal, eu mal conhecia aquele rapaz. Não sabia se consegui disfarçar muito bem.
Ele pareceu não se importar.
— Precisei resolver algumas coisas antes. Estamos arrumando nosso acampamento. Acho que partimos amanhã.
Aquela sensação voltou.
Tristeza.
Solidão.
— Achei que você estava estudando a floresta. Já encontrou tudo o que precisava?
Ele ficou em silêncio por um instante antes de responder.
— Na verdade, já teríamos partido hoje. Mas eu prometi que viria te encontrar.
Meu coração apertou um pouco.
— Precisa mesmo ir?
Eu ainda tinha esperança de que ele ficasse. Não queria que ele fosse. Eu tinha acabado de encontrá-lo e já precisava pensar em uma despedida.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Preciso. Tenho responsabilidades.
Fez uma pequena pausa antes de continuar.
— Lembra que eu contei sobre o reino? Eu não contei que sou o príncipe regente.
Príncipe.
De repente, tudo fazia sentido.
Por isso ele parecia diferente. Por isso carregava aquele jeito de quem estava acostumado a tomar decisões e ser ouvido. Ele era diferente.
Ele era um príncipe.
— Príncipe...
Não consegui esconder minha surpresa. Aquilo mudava tudo.
Será que ele poderia realmente conversar com alguém como eu?
Não havia nada de especial sobre mim. Eu não era nobre. Não tinha um reino, um título ou qualquer coisa que pudesse me tornar importante.
Eu era só eu.
Talvez ele tivesse percebido o que estava passando pela minha cabeça, porque se aproximou um pouco e sorriu.
— Ei. Isso não muda nada. Podemos ser amigos.
Amigos.
A palavra doeu.
Eu não sabia por quê, mas doeu.
Até aquele momento, eu havia vivido sozinha sem jamais sentir que faltava alguma coisa. Minha companhia era a floresta. Minha família eram os animais. Eu nunca tinha sentido vontade, muito menos necessidade, de deixar tudo aquilo.
Mas, naquele instante, minha mente ficou em branco.
Olhei para ele e, antes que pudesse pensar direito no que estava fazendo, perguntei:
— Posso ir junto?
Ele pareceu surpreso.
Eu também.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
— Você tem certeza?
Pensei por um instante. Talvez fosse a primeira vez que eu estivesse fazendo algo sem saber exatamente o motivo.
Ainda assim, a resposta veio facilmente.
— Sim. Eu quero conhecer esse seu reino.
Ele pareceu refletir sobre aquilo.
Então assentiu.
— Se é isso que você deseja, sim. Você pode ir junto.
E, naquele momento, eu ainda não fazia ideia de que aquela decisão mudaria completamente a minha vida.








