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De Ladra a "Madre"

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Summary

Lorena é a maior ladra de joias de São Paulo. Cínica, implacável e dona de uma mente que opera como um supercomputador tático, ela vive pelas próprias regras em um submundo gigantesco de neon e concreto. Mas quando um roubo inestimável no MASP dá errado, ela se vê encurralada pelo cerco policial. A sua única e improvável rota de fuga? Roubar as vestes pesadas de uma religiosa e assumir a identidade da austera Madre Amélia. O plano era claro e calculista: esconder-se no isolado Orfanato Filhos de Cristo até a poeira baixar e voar para fora do país. No entanto, as paredes de tijolos escuros da instituição abrigam um pecado muito mais letal do que qualquer crime de Lorena. O aparente dócil padre usa a fachada de caridade para operar uma rede internacional de tráfico, vendendo órfãos através de um catálogo mafioso para uma elite global intocável. Envolta em um mar de hipócritas, Lorena descobre que não é a única a esconder a própria pele. Um suposto noviço de olhos gélidos e destreza bélica, é, na verdade, um letal agente da Polícia Federal infiltrado. O que se inicia como um perigoso jogo de gato e rato entre a ladra e a lei rapidamente entra em combustão, transformando-se em uma aliança explosiva - costurada por desconfiança, adrenalina e uma tensão romântica que ameaça queimar os dois. Quando a data de uma grande "adoção" de órfãos é subitamente antecipada, Lorena é forçada a encarar a própria humanidade que jurou ter enterrado. Com uma milícia fortemente armada arrombado os portões e milhões em diamantes ao seu alcance, a maior raposa de São Paulo precisa decidir entre a sua tão sonhada liberdade ou a vida de inocentes. Para enfrentar os demônios de colorinho branco, ela descobrirá que rezar nunca será o suficiente. É preciso saber pecar.

Status
12h ago
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

01 | I¹


O alarme não soou como nos filmes de Hollywood. Não houve um zumbido elegante ou uma sirene rítmica que permitisse uma contagem regressiva charmosa. Foi um guincho estridente, agudo e metálico que parecia ter sido projetado especificamente para perfurar os tímpanos e estilhaçar qualquer resquício de sanidade. O som reverberou pelas paredes de concreto aparente do Museu de Arte de São Paulo, o icônico MASP, transformando o silêncio reverencial da galeria em um pandemônio de luzes estroboscópicas vermelhas.

Lorena xingou mentalmente, um palavrão criativo que envolvia a mãe do projetista do sistema de segurança e a fiação malfeita do sensor de peso. Ela estava a exatos três milímetros de substituir o cálice de ouro cravejado de rubis do século XVIII — uma peça recém-emprestada pelo Vaticano para uma exposição temporária — por uma réplica de chumbo perfeitamente balanceada. Seus dedos, calçados com luvas de látex ultrafinas pretas, ainda pairavam sobre a redoma de vidro blindado que havia acabado de ser erguida por um motor silencioso.

O plano era impecável. Ela havia passado as últimas três semanas estudando as plantas do museu, memorizando as rotas das patrulhas dos guardas noturnos (homens cansados que passavam mais tempo olhando para as telas dos celulares do que para as obras de arte) e decodificando o algoritmo de rotação das câmeras de segurança. Tudo havia sido calculado com a precisão de um cirurgião cardíaco. Mas o universo, como Lorena bem sabia, tinha um senso de humor sádico. Um maldito inseto — uma barata enorme, burra e suicida — havia decidido pousar exatamente sobre o feixe de laser infravermelho secundário, o qual ela não havia desativado por considerá-lo obsoleto.

— Sério isso? Uma barata? — ela sussurrou para o vazio, os olhos cravados na joia inestimável que agora estava fora de alcance. O teto de vidro acima dela começou a piscar em um escarlate violento.

Não havia tempo para luto. A regra número um de sua profissão não oficial era o desapego imediato. O cálice ficaria para trás. A prioridade agora era a sua própria pele, que ela estimava muito mais do que qualquer artefato histórico.

Lorena girou nos calcanhares com a agilidade de um felino. Seu corpo, vestido inteiramente com roupas táticas escuras e justas, fundia-se com as sombras oscilantes do salão. Ela correu em direção à saída de emergência norte, a sola de borracha de suas botas absorvendo o impacto contra o piso de madeira corrida. Atrás dela, o barulho de botas pesadas e os gritos confusos dos seguranças começavam a ecoar pelas escadarias.

— Alvo na galeria principal! Repito, invasão na galeria principal! — a voz estática de um rádio comunicador rasgou o ar.

Ela não olhou para trás. Com um empurrão violento, Lorena escancarou a porta de serviço que levava à escadaria de incêndio. O ar frio e úmido da madrugada paulistana bateu contra seu rosto, trazendo consigo o cheiro inconfundível de poluição, asfalto molhado e café requentado das barracas de rua. A Avenida Paulista fervilhava lá embaixo, um rio de concreto iluminado por faróis e letreiros de neon. Uma garoa fina e persistente caía sobre a cidade, transformando o asfalto em um espelho negro.

A descida foi um borrão de adrenalina. Lorena pulava os degraus de três em três, as mãos deslizando pelo corrimão de metal gelado, o corpo pendendo sobre o abismo do vão livre do MASP. Quando seus pés finalmente tocaram o chão de pedra portuguesa da calçada, o som das sirenes da Polícia Militar já rasgava o trânsito a alguns quarteirões de distância. O som característico do "uó-uó-uó" das viaturas paulistas fazia seu coração bater no mesmo ritmo frenético.

Ela precisava sumir. E rápido.

A Paulista, mesmo de madrugada, nunca dormia totalmente. Havia estudantes universitários perambulando, executivos insones fumando em frente a prédios espelhados, pessoas em situação de rua enroladas em cobertores nas marquises e cachorros vira-lata. Lorena baixou a cabeça e começou a caminhar em passos largos, forçando-se a não correr. Correr atrai olhares. Correr é o atestado de culpa de quem está fugindo.

Mas os giroscópios azuis e vermelhos já coloriam as fachadas dos prédios ao redor. Três viaturas cruzaram a avenida em alta velocidade, freando bruscamente em frente ao museu. Ela viu os policiais desembarcarem com as armas em punho. Um deles apontou na direção dela. Talvez tivessem visto seu vulto descendo as escadas. Talvez fosse apenas paranoia. Ela não ia pagar para ver.

À sua direita, as portas automáticas de vidro do Shopping Cidade São Paulo se abriram para deixar sair um grupo de funcionários da limpeza do turno da noite. Sem pensar duas vezes, Lorena mudou sua trajetória, esgueirando-se como uma enguia pelo espaço que se fechava e invadindo o ambiente climatizado.

O choque térmico foi imediato. O ar-condicionado do shopping estava regulado para temperaturas polares, e a iluminação artificial e ofuscante fez seus olhos arderem. Os corredores estavam majoritariamente vazios, exceto por alguns poucos seguranças e as equipes de manutenção que poliam o mármore do chão até que refletisse como um lago cristalino. A música ambiente — um jazz suave e irritantemente calmo — contrastava de forma bizarra com os batimentos cardíacos que martelavam nas têmporas de Lorena.

— Atenção, todas as unidades, a suspeita foi vista descendo a escadaria do MASP em direção à Avenida. — A voz de um rádio de polícia soou assustadoramente perto.

Lorena olhou de soslaio. Dois seguranças do shopping, alertados por algo em seus comunicadores, começaram a olhar ao redor com suspeita. E lá estava ela: uma jovem vestida de preto dos pés à cabeça, com botas táticas molhadas, respirando de forma irregular. Uma placa piscante a poucos metros de distância foi sua tábua de salvação. A silhueta de uma mulher de saia. O banheiro feminino.

Ela caminhou rápido, o rosto virado para o chão, os ombros encolhidos, e empurrou a porta pesada de madeira do banheiro, entrando no que ela esperava ser um santuário inexpugnável.

O ambiente interno do banheiro era um oásis de mármore branco e pias de porcelana impecáveis, iluminado por luzes de LED que não deixavam espaço para esconderijos. Mas a tranquilidade visual do local foi violentamente estilhaçada por um som que gelou o sangue de Lorena de uma maneira que nenhuma sirene de polícia jamais conseguiria.

Vinha da cabine número três.

Era um som gutural, aquoso e estrondoso. Um lamento biológico de proporções bíblicas. Parecia que um pneu de trator estava sendo esvaziado enquanto simultaneamente alguém despejava uma panela de ensopado fervente dentro de um bueiro.

Lorena paralisou. Seu instinto de sobrevivência entrou em conflito direto com seu instinto de preservação olfativa. O cheiro que começava a se espalhar pelo banheiro refinado do shopping era uma arma química. Cheirava a arrependimento, a comida de rua suspeita e a uma revolta violenta do trato gastrointestinal.

— Ai, meu bom Jesus amado... — uma voz trêmula, anasalada e cheia de dor ecoou de dentro da cabine número três, seguida por uma nova e explosiva sinfonia de horrores líquidos. — Perdoai os meus pecados, Senhor, mas por que eu fui comer aquele acarajé da rodoviária? Era dendê puro, Senhor! Tende piedade desta sua serva!

Lorena, mesmo com a adrenalina pulsando e a polícia no seu encalço, não conseguiu evitar uma careta de repulsa misturada com um choque cômico. De todas as coisas que poderiam cruzar seu caminho naquela noite de fracasso absoluto, uma crise de diarreia explosiva era a mais improvável.

Ela se aproximou sorrateiramente das pias, tentando fazer o mínimo de barulho possível enquanto o pandemônio continuava na cabine. Foi então que ela olhou para o próprio reflexo no espelho de parede inteira.

A respiração de Lorena falhou por um segundo, não pelo medo, mas pela análise fria de sua própria aparência. Seu disfarce de patricinha precisava entrar em cena. Com movimentos mecânicos e precisos, ela abaixou o zíper da jaqueta tática de neoprene escuro e a deixou cair no chão, revelando um top esportivo de alta compressão. Em seguida, soltou a fivela da pequena bolsa tática presa à sua coxa e desabotoou a calça justa, deslizando o tecido resistente pelas pernas até ficar apenas em roupas íntimas de compressão.

Com agilidade, ela abriu o compartimento impermeável da bolsa tática caída. De lá, puxou um tecido escuro e incrivelmente compacto. Com um chacoalhão, o material se desdobrou perfeitamente, revelando um slip dress de seda preta, de alças finíssimas, projetado com fios de memória para não amassar. Ela o vestiu rapidamente, o tecido frio moldando-se ao seu corpo com a perfeição de um plano B impecável.

Com um puxão no elástico que prendia seus cabelos, ela libertou a verdadeira Lorena. Uma cascata de cabelos incrivelmente loiros e ondulados caiu sobre seus ombros, volumosos e brilhantes como se ela tivesse acabado de sair de um salão de beleza caríssimo. O contraste era quase absurdo. No espelho, não havia a face de uma criminosa comum. A pele de Lorena ostentava um bronzeado dourado, radiante e perfeitamente uniforme. O formato de seu rosto era anguloso, com maçãs do rosto altas e sobrancelhas perfeitamente arqueadas sobre olhos amendoados e expressivos, de um castanho iluminado que brilhava com inteligência e astúcia.

Ela tinha apenas vinte e um anos, mas a maturidade de sua beleza impressionava. Mesmo ofegante, com um brilho de suor na testa, havia uma elegância inata em sua postura. A curva de seus lábios desenhava um sorriso natural e charmoso, destacando dentes perfeitamente brancos. Ela usava joias sutis, que pareciam ter custado uma pequena fortuna: uma corrente de ouro finíssima ao redor do pescoço, pequenas argolas de ouro nas orelhas e anéis delicados adornando os dedos de suas mãos macias — mãos que pareciam ter sido feitas para segurar uma taça de cristal em um restaurante luxuoso com vista para o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, e não para desativar sensores de pressão a laser no subsolo de um museu.

Lorena olhou para si mesma e balançou a cabeça. Seu disfarce de patricinha não ia funcionar. Se os policiais a vissem naquele vestido preto com aquela aparência de capa de revista em um corredor de shopping de madrugada, fariam perguntas. E Lorena odiava perguntas.

PRRRRRFT-SQUELCH. Mais uma explosão barulhenta vinda da cabine três trouxe Lorena de volta à realidade.

— Santa Maria, Mãe de Deus... eu sujei a barra! A barra do santo hábito! — a voz lá dentro choramingou em pânico, seguida pelo som desesperado de tecido pesado sendo esfregado. — O tecido é muito pesado, está encostando no chão molhado! Perdão, Senhor, mas eu preciso tirar tudo antes que o estrago seja irreversível!

O som de zíperes grossos e botões sendo abertos às pressas ecoou. Lorena olhou para o chão, na fresta entre a porta da cabine três e o piso de mármore. O que ela viu a fez parar. Um amontoado de tecido escuro e pesado escorregou para o chão de fora da cabine, empurrado pelo pé da religiosa na pressa do desespero intestinal para salvar a roupa. Um tecido preto, de corte austero, acompanhado de um véu com uma faixa branca, que pendia pateticamente pelo vão da porta.

A mulher na cabine era uma freira. Uma madre.

E as roupas dela, o hábito completo, estavam praticamente caídas e acessíveis, porque a urgência da situação havia obrigado a pobre religiosa a se despir em pânico antes de alcançar o vaso sanitário.

A mente criminal de Lorena calculava as variáveis mais rápido do que um supercomputador.

A polícia está lá fora. Estão procurando uma jovem de roupa escura e justa.

Ninguém questiona uma freira.

Ninguém suspeita de uma freira.

Freiras são invisíveis.

Um sorriso lento, cínico e absolutamente diabólico curvou os lábios perfeitamente desenhados de Lorena. O remorso não era uma emoção que habitava seu vasto catálogo de sentimentos. A moralidade, para ela, era uma linha imaginária inventada por pessoas que tinham dinheiro suficiente para não precisar cruzá-la.

Sem emitir um único som, pisando como um fantasma, Lorena se aproximou da porta da cabine três. Ela esticou a mão com unhas perfeitamente feitas e, com o toque suave de um batedor de carteiras experiente, puxou o véu branco e preto. Em seguida, puxou o longo e pesado vestido de tecido sintético grosso que compunha o hábito.

— Ei... espera aí... o que é isso?! Minhas roupas! — a voz da madre soou indignada e abafada, cortada por uma nova pontada de dor abdominal que a fez gemer. — Quem está aí?! Minhas roupas, por favor! Em nome de Deus!

— Deus ajuda quem cedo madruga, irmã. E, no momento, ele me mandou uma tábua de salvação — Lorena sussurrou para si mesma, ignorando completamente os apelos desesperados da religiosa.

Em menos de dois minutos, a transformação foi concluída. Lorena vestiu o hábito por cima do seu luxuoso vestido de seda. O tecido pinicava e cheirava a naftalina e incenso barato. Era quente, abafado e extremamente desconfortável. Ela pegou a vasta cabeleira loira e ondulada e a torceu em um coque apertado, enfiando cada fio rebelde sob a touca branca antes de ajustar o véu negro sobre a cabeça.

Ela se olhou no espelho novamente. A jovem deslumbrante e sedutora havia desaparecido. No lugar dela, havia uma figura solene, austera e piedosa. O contraste de seu rosto jovem e belo com as vestes severas dava a ela um ar de pureza inquestionável. Ela baixou os olhos, praticando uma expressão de mansidão ensaiada, entrelaçando os dedos finos na altura da cintura.

Perfeito.

— Devolva minhas roupas! Socorro! Eu estou nua e passando mal! Alguém me ajude! — a madre continuava gritando da cabine, batendo na porta de metal.

Lorena recolheu sua jaqueta, a calça de neoprene e a bolsa tática do chão. Com um sorriso puramente diabólico, ela se aproximou da porta da cabine três e jogou o amontoado de roupas pretas por cima do vão superior da porta, deixando-as cair direto no colo da freira em desespero.

— Toma, irmã. O Senhor mandou roupas novas pra senhora explicar pra polícia — murmurou com escárnio, enquanto a religiosa soltava um grito abafado de confusão lá dentro.

Antes de dar as costas, Lorena garantiu que a barra pesada e longa do hábito cobrisse inteiramente suas botas táticas molhadas. Ela alterou a distribuição do próprio peso, passando a pisar da ponta dos pés para os calcanhares, silenciando por completo a borracha contra o mármore. Com passos lentos, medidos e agora invisíveis, ela se dirigiu à porta de saída do banheiro.

Quando ela empurrou a porta e pisou no corredor brilhante do shopping, o caos a aguardava.

Quatro policiais militares — dois homens com os rostos tensos e duas mulheres com as mãos repousando perto dos coldres — caminhavam em passo acelerado na direção do banheiro. Eles pararam abruptamente quando deram de cara com a figura serena e piedosa da madre que acabara de sair.

"Meu Deus... Que inferno!", Lorena resmungou para si.

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