Capítulo 01
ANA
A sensação de estar sendo observada não passou no momento em que entrei na sala de aula. Pelo contrário. Parecia ter se prendido à minha pele, como um arrepio frio que se recusa a ir embora.
Sentei-me perto da janela, no fundo do corredor, exatamente onde costumava me esconder para passar despercebida. Apoiei os livros sobre a carteira de madeira e respirei fundo, tentando me convencer de que aquela reação era exagero da minha cabeça.
Era só o primeiro dia do semestre. Cidades pequenas criavam lendas urbanas sobre qualquer pessoa que parecesse diferente, e Wil certamente se encaixava nessa categoria. Ele era o tipo de rumor que caminhava pelas ruas.
"Wil nunca olha para alguém sem ter um motivo."
A frase do garoto desconhecido do pátio ainda ecoava na minha mente.
Quem era aquele rapaz? E por que ele falou como se estivesse me avisando de um perigo iminente?
A porta da sala se abriu, e o falatório dos alunos diminuiu gradativamente. Não era o professor que entrava.
Era ele.
Wil atravessou o limiar com uma calma calculada. Ele vestia uma jaqueta escura, as mãos afundadas nos bolsos, e parecia não se importar nem um pouco com o fato de estar atrasado ou com os olhares fixos que atraía. Havia uma aura pesada ao redor dele, algo denso e perigoso que fazia as pessoas ao redor prenderem a respiração.
Ele não olhou para o professor. Não olhou para os outros alunos.
Seus olhos escuros varreram a sala em um movimento lento... até encontrarem os meus.
Meu coração deu uma batida falsa no peito.
Wil não desviou. Ele caminhou a passos lentos pelo corredor entre as carteiras. Cada passo dele parecia ecoar dentro da minha cabeça. Para o meu absoluto infortúnio, a única carteira vaga na fileira do fundo era justamente a que ficava ao meu lado.
Ele puxou a cadeira, o som do metal arrastando no chão me fazendo estremecer levemente.
Wil se sentou. Ele exalava um perfume amadeirado, algo como chuva e fumaça, que instantaneamente preencheu o espaço entre nós.
— Você devia fechar a boca, Ana — a voz dele veio baixa, rouca, direcionada apenas para mim.
Senti meu rosto esquentar. Eu nem percebera que estava prendendo a respiração.
— Como você sabe o meu nome? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem cravadas na capa do meu caderno.
Wil virou o rosto devagar na minha direção. De perto, os traços dele eram ainda mais marcantes — marcados por uma intensidade que beirava o perigoso. Um leve sorriso de canto surgiu em seus lábios, o mesmo sorriso enigmático do pátio.
— Eu sei muito mais do que apenas o seu nome — ele murmurou, inclinando-se ligeiramente na minha direção, o suficiente para que eu sentisse o calor da sua presença. — Eu sei o motivo de você ter vindo para esta cidade.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Antes que eu pudesse responder, o professor bateu na mesa, dando início à aula. Mas eu já não conseguia prestar atenção em nada do que era dito na lousa.
Wil voltou o olhar para frente, mas a mensagem já tinha sido entregue.
Ele não estava ali por acaso. E eu já estava presa na teia dele antes mesmo de entender o jogo.
A aula pareceu durar uma eternidade, cada minuto, a presença de Wil ao meu lado pesava mais, Ele não anotou uma única linha no caderno. Permaneceu ereto, braços cruzados, o olhar fixo na lousa, mas a tensão que emanava dele mantinha todos os meus sentidos em alerta máximo.
Quando o sinal finalmente tocou, anunciando o fim do horário, reuni minhas coisas às pressas. Joguei os cadernos na bolsa com o coração disparado, querendo apenas sair dali e respirar ar puro.
— Ana — a voz dele cortou o barulho das cadeiras se arrastando.
Parei no meio do movimento. Mantenho o olhar fixo na alça da minha bolsa antes de criar coragem para encará-lo.
— O que você quer, Wil? — tentei soar firme, mas o tremor sutil na minha voz me traiu.
Ele se levantou devagar. Por ser consideravelmente mais alto, sua sombra praticamente me cobriu. Wil deu um passo em minha direção, diminuindo a pouca distância que restava entre nós.
— O rapaz do pátio... — ele disse, com a voz tão baixa que só eu poderia ouvir. — Fique longe dele.
Sobrancelhas franzidas, sustentei seu olhar.
— Você não manda em mim. Nem sequer te conheço. E ele só estava tentando me avisar...
— Avisar sobre o quê? — Wil interrompeu, dando mais um passo. A intensidade do seu olhar era quase física, queimando a pele do meu rosto. — Que eu sou perigoso? Ele não sabe de nada, Ana. Mas se você quer brincar com o perigo, certifique-se de escolher o monstro certo.
O ar congelou nos meus pulmões. Antes que eu pudesse formular qualquer resposta, Wil passou por mim, a jaqueta de couro roçando levemente no meu ombro. Ele saiu da sala sem olhar para trás, deixando para trás apenas o rastro do seu perfume amadeirado e um eco de ameaça no ar.
Minhas mãos tremiam quando terminei de fechar a bolsa. Caminhei até o corredor, que já estava se esvaziando, tentando organizar meus pensamentos.
Foi quando o vi novamente.
Encostado no batente da porta de saída do prédio, o outro rapaz do pátio me esperava. Ele não tinha a aura sombria de Wil, mas seus olhos carregavam uma preocupação genuína — e uma sombra de algo do passado que ele parecia carregar como um fardo.
— Ele já começou a agir, não foi? — o garoto perguntou assim que me aproximei.
Parei a poucos passos dele, abraçando a bolsa contra o peito como se fosse um escudo.
— Quem é você? — exigi saber. — E por que os dois estão agindo como se eu fosse algum tipo de troféu ou ameaça?
O rapaz suspirou, passando a mão pelo cabelo escuro.
— Meu nome é Gabriel — ele disse, a voz suavizando um pouco, mas os olhos mantendo a gravidade. — E eu não estou te tratando como um troféu, Ana. Estou tentando garantir que você não seja a próxima vítima dos segredos da família do Wil.
— Ele disse que sabe o motivo de eu ter vindo para esta cidade...
Gabriel travou. A menção às palavras de Wil fez os ombros dele ficarem rígidos.
— Ele disse isso? — Gabriel deu um passo à frente, baixando o tom de voz. — Ana, escute bem. Você acha que mudou para cá por causa do trabalho dos seus pais ou por uma escolha da sua família, não é?
— Claro que foi por isso — respondi, sentindo um nó doloroso se formar na garganta.
Gabriel balançou a cabeça devagar, com um olhar de pena que me fez dar um passo para trás.
— Não foi. O seu nome já estava escrito nesta cidade muito antes de você arrumar suas malas. E Wil esteve esperando por este dia a vida inteira.
O mundo pareceu girar devagar demais. O som da chuva torrencial batendo no teto do carro se transformou em um ruído abafado, distante, superado apenas pelo estrondo do meu próprio coração martelando no peito.
— O quê? — minha voz saiu como um sopro, quase inaudível. — Isso é mentira. Você está louco. Meu pai é um homem honesto, ele jamais...
— Jamais o quê, Ana? — Wil interrompeu, a voz mantendo um tom assustadoramente calmo e controlado. Ele não tirava os olhos da pista molhada, mas a rigidez nos seus ombros denunciava a tensão que o dominava. — Jamais tomaria uma decisão desesperada para salvar a própria pele? As pessoas fazem coisas inacreditáveis quando estão encurraladas. E seu pai esteve encurralado por muito tempo.
Pressionei as costas contra o banco de couro, sentindo um suor frio brotar na nuca. Minha mente lutava para desmentir cada palavra dele, para encontrar um buraco naquela história absurda. Mas, no fundo, uma memória incômoda começou a se contorcer: as conversas cochichadas dos meus pais de madrugada, as portas fechadas com pressa quando eu me aproximava, as chamadas telefônicas recusadas com as mãos trêmulas do meu pai nos últimos meses...
Tudo se encaixava de uma forma assustadora e perversa.
— Se... se isso for verdade — falei, tentando manter os dentes firmes para não tremer —, por que o Gabriel me avisou para ficar longe de você? Por que ele disse que você estava me esperando?
Wil deu uma risada curta e amarga, apertando um pouco mais os dedos sobre o volante.
— O Gabriel acha que é um cavaleiro de armadura reluzente — ele disse, com um veneno sutil gotejando de cada sílaba. — Ele acha que pode te 'salvar' do destino que já foi selado. Mas o que ele esquece de te contar é que a família dele fez parte do mesmo acordo. Ele não quer te proteger, Ana. Ele quer te tirar de mim porque a minha família ficou com o controle de tudo.
Ele reduziu a velocidade do carro. Olhei pela janela e reconheci a rua da minha casa. As luzes da varanda estavam acesas, cortando a névoa densa da chuva.
O carro parou suavemente em frente ao portão. O motor continuou funcionando em um rosnado baixo e constante.
Destravei a cinto de segurança com as mãos trêmulas e segurei a maçaneta da porta, desesperada para sair daquele ambiente claustrofóbico, repleto do perfume dele e de verdades indigestas.
— Espere — a voz de Wil veio grave, imperiosa.
Ele se esticou e segurou meu pulso. A pele da mão dele era quente, o toque firme, mas sem machucar — uma prisão da qual meu corpo estranhamente não tentou se esquivar de imediato. Um choque elétrico pareceu percorrer meu braço, subindo até meu peito.
Olhei para ele. No escuro do carro, iluminado apenas pelo brilho fraco do painel, os olhos de Wil brilhavam com uma intensidade quase predatória.
— Amanhã, no mesmo horário, no pátio — ele disse, a voz descendo para um tom rasgado e íntimo. — Não tente faltar. E não tente conversar com o Gabriel de novo. Se você quer a verdade inteira sobre a sua família, você vai ouvir de mim.
— E se eu não quiser saber? — perguntei, sustentando o olhar dele com a pouca coragem que me restava. — E se eu quiser fingir que nada disso existe?
Wil se aproximou só mais um pouco, a respiração dele roçando a curva do meu pescoço, fazendo cada poro do meu corpo se arrepiarem instantaneamente.
— É tarde demais para fingir, Ana. Você já atravessou a linha no momento em que olhou nos meus olhos hoje cedo. Agora... você é minha responsabilidade.
Ele soltou meu pulso devagar, os dedos dele deslizando pela minha pele antes de me liberar por completo.
Sem dizer mais uma palavra, abri a porta do carro e saí direto para a chuva. O ar frio e as gotas pesadas bateram no meu rosto, me trazendo de volta à realidade. Corri até a varanda cobertas, o coração disparado na garganta.
Antes de abrir a porta de casa, olhei para trás.
O carro preto de Wil ainda estava parado ali na rua, sob o temporal, as luzes traseiras vermelhas brilhando na escuridão como olhos vigilantes. Ele não foi embora até que eu girasse a chave e pisasse para dentro de casa.
Eu estava no meu lar, mas, pela primeira vez na vida, senti que nenhum lugar no mundo era mais seguro.
A porta se abriu e meu pai entrou, balançando o guarda-chuva molhado antes de apoiá-lo no suporte. Logo em seguida, minha mãe apareceu, carregando uma pasta executiva pesada, o rosto pálido e marcado pelo cansaço extremo.
— Ana? Filha, você já está em casa? — minha mãe perguntou, surpresa ao ver a luz da sala acesa. Ela tirou os sapatos com um suspiro pesado. — Desculpe a demora, o trânsito com essa tempestade na rodovia estava impossível.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando os dois. Eles pareciam tão comuns, tão frágeis diante do peso do mundo. Como aquelas duas pessoas poderiam ter negociado a minha vida com uma família perigosa?
— Onde vocês estavam exatamente? — perguntei, a minha voz saindo muito mais fria e cortante do que eu pretendia.
Meu pai parou no meio do caminho para a cozinha, franzindo a testa enquanto apoiava as chaves na mesinha. Ele trocou um olhar rápido e tenso com minha mãe antes de me encarar.
— No escritório, Ana. Você sabe como tem sido a transição dos nossos negócios para cá — ele respondeu, tentando forçar um sorriso tranquilizador que não chegou aos olhos dele. — Por que essa pergunta de repente? Aconteceu alguma coisa na faculdade?
Levantei-me do sofá devagar. Senti o peso do meu próprio corpo, a raiva e o medo se misturando em um coquetel sufocante.
— Uma pessoa hoje me disse uma coisa muito interessante na faculdade — falei, dando um passo em direção a eles, mantendo meus olhos fixos no meu pai. — Ele disse que a nossa mudança repentina para cá não foi por causa de uma oportunidade de trabalho. Ele disse que existe uma dívida antiga. E que a garantia dessa dívida... sou eu.
A cor sumiu completamente do rosto do meu pai. O sorriso falso evaporou, deixando apenas um horror silencioso e palpável. Ele cambaleou levemente para trás, apoiando as duas mãos na borda da mesa de centro como se estivesse perdendo o equilíbrio.
Minha mãe soltou um gemido abafado, levando as mãos à boca, com lágrimas brotando instantaneamente em seus olhos.
— Meu Deus... — sussurrou ela, olhando para o meu pai com desespero. — Ela descobriu. Eles contaram para ela.
— Pai? — minha voz falhou, um nó apertando minha garganta de um jeito doloroso. — É verdade? O que vocês fizeram?
O silêncio que se seguiu na sala foi mais pesado do que o som da tempestade lá fora. Meu pai abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos. Os ombros dele tremiam levemente, o retrato vivo de um homem que carregava um fardo insuportável havia anos e que finalmente havia sido pego pela própria ruína.
— Sente-se, Ana... por favor — a voz do meu pai saiu rouca, quase irreconhecível.
— Eu não quero sentar! — exigi, sentindo as lágrimas quentes começarem a rolar pelo meu rosto, misturando frustração e raiva. — Eu quero que vocês me expliquem que história é essa! Quem é Wil? E por que o meu nome está envolvido nisso?
Minha mãe deu um passo à frente, tentando me abraçar, mas eu recuei, cruzando os braços como se quisesse me proteger deles. Ela engoliu em seco, as lágrimas escorrendo livremente pelas bochechas dela.
— Nós não tínhamos escolha, filha — ela começou a explicar, com a voz embargada pelo choro. — Anos atrás, antes de você nascer, seu pai cometeu um erro terrível. Um investimento que deu errado, empréstimos com pessoas perigosas... a nossa família perdeu tudo. Nós fomos salvos da ruína total por uma única pessoa: o patriarca da família de Wil.
— Eles cobriram todas as nossas dívidas — continuou meu pai, levantando o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, cheios de uma culpa profunda. — Mas o preço exigido não era em dinheiro. Era um contrato de honra e sangue. Quando você completasse a idade adulta, você seria entregue para se unir à família deles, como forma de selar o acordo definitivo e garantir a paz entre os nossos nomes. Nós tentamos fugir, Ana. Mudamos de cidade várias vezes, escondemos você o máximo que pudemos... mas eles sempre souberam onde estábamos. A mudança para cá foi a única forma de evitar que eles destruíssem o pouco que restava da nossa vida.
As palavras caíram sobre mim como uma avalanche de gelo.
Tudo o que eu achava que sabia sobre a minha vida, sobre a proteção dos meus pais, sobre o meu próprio futuro... era uma mentira. Eu não passava de uma peça de xadrez em um tabuleiro sombrio, movida por regras que nunca concordtei em seguir.
— Vocês me venderam — sussurrei, horrorizada, sentindo o chão parecer desaparecer sob os meus pés. — Vocês usaram a minha vida como moeda de troca.
— Não foi assim... — meu pai tentou dar um passo em minha direção, mas eu ergui a mão, paralisando-o no lugar.
— Não se aproximem de mim.
Sem conseguir suportar olhar para eles por mais um segundo, dei meia-volta, corri escada acima tropeçando nos degraus e entrei no meu quarto, batendo a porta com tanta força que o som reverberou por toda a casa.
Tranquei a porta do quarto com a chave e me joguei contra ela, escorregando até sentar no chão frio. As lágrimas caíam sem controle, molhando o meu rosto e encharcando a gola da minha blusa.
A minha vida inteira era uma farsa. Eu não era uma estudante comum em uma nova cidade; eu era um prisioneiro com os dias contados, vigiada de perto pelo monstro que havia sido designado para me reivindicar.
Wil sabia de tudo. Desde o primeiro segundo, ele sabia exatamente quem eu era, por que eu estava ali e qual era o meu destino. E, por mais que meu cérebro gritasse para eu fugir, para juntar minhas coisas e sumir da face da terra, a lembrança do olhar dele no carro — intenso, possessivo, carregado de uma eletricidade sombria — fez meu estômago dar um nó confuso.
Eu estava encurralada. Não havia para onde fugir. Se meus pais tentassem me tirar daqui de novo, a família de Wil nos encontraria de novo. O cerco estava fechado.
Passei horas ali no chão escuro do quarto, ouvindo o barulho da chuva diminuir gradativamente até virar apenas um gotejar lento na janela. Minha mente girava em círculos, esgotada de tanto chorar e pensar.
Quando os primeiros raios de sol cinzentos começaram a cortar as frestas da cortina, anunciando a chegada de um novo dia, tomei uma decisão.
Eu não ia mais fugir. Se eles queriam a garota do acordo, teriam que me encarar de frente. Eu descobriria cada segredo por trás daquela história, nem que para isso eu tivesse que mergulhar de cabeça na escuridão que Wil representava.
Levantei-me do chão, o corpo dolorido e pesado. Lavei o rosto no banheiro, tentando apagar o rastro das lágrimas, e vesti uma roupa simples, mas que me fizesse parecer firme.
Quando o relógio marcou o horário de ir para a faculdade, desci as escadas em completo silêncio. Meus pais ainda dormiam — ou fingiam dormir — no quarto deles. Não deixei bilhete.
Peguei minhas chaves e saí de casa.
O ar da manhã estava fresco, carregado com o cheiro limpo da terra molhada após a tempestade. O céu ainda mantinha algumas nuvens cinzentas, mas o sol tentava romper por entre elas, desenhando sombras longas no asfalto da rua.
Caminhei até o ponto de ônibus e peguei o transporte até a faculdade. O trajeto foi silencioso, ocupado apenas pelos meus pensamentos acelerados e pela certeza de que o dia de hoje mudaria tudo permanentemente.
Assim que desci na entrada do campus, o fluxo de estudantes parecia normal, mas para mim tudo parecia diferente. Os corredores tinham um peso novo. As paredes pareciam fechar-se ao meu redor.
Parei no portão principal, respirando fundo para firmar os meus passos.
Foi quando o vi.
Encostado na mesma parede de tijolos escuros do pátio, com a jaqueta de couro preta e o olhar fixo diretamente em mim, estava Wil.
Ele não parecia surpreso por me ver ali. Pelo contrário. Havia um sorriso de canto nos lábios dele, um ar de triunfo silencioso e predatório de quem sabia exatamente que o destino havia cumprido o seu papel.
Wil desencostou da parede e começou a caminhar lentamente na minha direção, cortando o pátio com passos firmes e decididos. A multidão de estudantes parecia se abrir automaticamente para deixá-lo passar, mantendo distância daquela aura perigosa que o acompanhava.
Meu coração disparou violentamente contra as costelas, mas, desta vez, eu não abaixei a cabeça. Endireitei os ombros e esperei ele se aproximar, pronta para cruzar a linha definitiva.
O jogo estava prestes a começar. E eu não pretendia mais ser apenas a espectadora.








