Capítulo 1 - O perfume.
NOX
Acordei cedo demais naquela manhã.
E já acordei puto.
O cheiro estava ali novamente.
Fraco. Quase apagado. Uma porcaria de vestígio perdido no ar, mas suficiente para fazer meu lobo despertar dentro de mim com a delicadeza de uma avalanche.
**Companheira.**
Aquela maldita palavra.
Havia meses eu sentia aquele perfume. Às vezes aparecia num corredor, outras vezes num jardim, no meio de uma multidão ou simplesmente carregado pelo vento. E sempre acontecia a mesma merda: eu seguia, ficava perto o bastante para acreditar que finalmente encontraria sua dona e, então, o cheiro desaparecia.
Aquilo estava me frustrando de uma maneira fodida.
Saí dos aposentos ainda abotoando a camisa e fui procurar Draven. Talvez ele pudesse ajudar. Sendo um grande filho da puta, havia também uma possibilidade considerável de ele me atrapalhar apenas pelo prazer de me ver enlouquecer, mas eu estava disposto a correr o risco.
Não encontrei o desgraçado.
Então pensei em Catherine.
Ela era inteligente, observadora e conhecia praticamente todo mundo que chegara para o casamento. Poderia me ajudar a descobrir quais vampiras estavam hospedadas no castelo.
Também não encontrei Catherine.
Provavelmente estava se escondendo de Draven.
O que era particularmente engraçado porque Draven também parecia estar se escondendo dela.
Dois futuros soberanos.
Dois completos idiotas.
Ao meio-dia, Elira conseguiu piorar minha situação.
— Você vai entrar com Viviane.
Fiquei olhando para minha irmã.
— Eu vou o quê?
Elira nem levantou os olhos dos papéis que organizava.
— Entrar com Viviane. Catherine entra com Draven.
— Não.
Ela finalmente me encarou.
— Não foi uma pergunta, Nox.
— Lira, você não pode simplesmente decidir isso e—
— Posso. É meu casamento.
— Isso é abuso de poder.
Elira apoiou os papéis sobre a mesa e me lançou aquele olhar irritantemente calmo de quem já tinha vencido a discussão antes mesmo de ela começar.
— Resolve suas merdas sem fazer drama. Isso já passou tempo demais. Você foge dela, ela foge de você, vocês ficam vermelhos, ninguém articula uma frase decente... já deu.
Abri a boca.
Fechei.
Porque aquela peste tinha razão.
— Você é uma irmã horrível.
Elira sorriu.
— E você vai ficar lindo de mãos dadas com a Viviane.
Saí antes que ela percebesse que meu rosto estava esquentando.
Viviane.
Porra.
Eu nunca tive vergonha de conversar com mulher.
Na verdade, meu problema sempre foi o contrário. Eu falava demais, flertava demais, provocava demais e geralmente descobria tarde demais quando deveria ter mantido a boca fechada.
Mas Viviane era diferente.
Sempre tinha sido.
Havia alguma coisa naquela mulher que me deixava estranhamente consciente de mim mesmo. Eu começava pensando no que dizer, depois pensava demais, então percebia que estava pensando demais e, quando dava por mim, preferia desaparecer.
Patético.
Talvez Catherine pudesse me ajudar.
Ou talvez Viviane pudesse me ajudar a encontrar Catherine.
Minha linha de raciocínio já estava uma merda.
Faltavam três horas para a cerimônia quando minha mãe invadiu meus aposentos carregando meu terno como se estivesse transportando a própria coroa real.
Ela já estava pronta e, ainda assim, parecia mais nervosa do que todos os noivos juntos.
— Mãe, calma. Está tudo correndo bem.
Minha mãe me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— Nox, você não entende! É o primeiro casamento de um dos meus filhos. Tudo precisa estar perfeito. Lindo. Absolutamente perfeito. Ai, minha Deusa!
Ela soltou um gritinho animado.
Eu comecei a rir e a puxei para um abraço.
Minha mãe era linda. Os cabelos negros e longos caíam sobre as costas, os olhos violetas brilhavam de felicidade e aquele jeito absurdamente amoroso dela fazia até homens capazes de comandar exércitos virarem crianças quando estavam por perto.
Uma das melhores coisas sobre nossa família era que praticamente não envelhecíamos.
Eu teria minha mãe daquele jeito por séculos.
E, pensando pelo lado realmente importante, eu também continuaria bonito e gostoso para caralho pela eternidade.
A vida sabia recompensar um homem.
Eu estava terminando de me arrumar quando Draven entrou sem bater.
— Nox, porra, troca de parceira comigo.
Olhei para ele através do espelho.
— Bom dia para você também.
— Estou falando sério. Eu não vou entrar com Catherine.
Virei devagar.
Draven estava nervoso.
Draven.
Nervoso.
Aquilo era maravilhoso.
— Por quê?
Ele começou a andar pelo quarto.
— Porque eu vou travar, caralho. Vou falar alguma merda. Talvez tropece. Sei lá! Todo mundo está dizendo que ela está linda de morrer. Gostosa pra caralho.
Cruzei os braços.
— Estão certos.
Draven parou.
Virou a cabeça lentamente.
— Como assim, “estão certos”?
Sorri.
— Passei um tempo com ela quando você foi para o reino do tio Alaric.
Os olhos dele se arregalaram.
— Você fez o quê?
— Passei um tempo com ela.
— E POR QUE CARALHOS VOCÊ NÃO ME CONTOU?
Comecei a rir.
— Porque eu não sabia que precisava apresentar relatório das minhas conversas.
Draven se aproximou.
— Como ela está?
Rápido demais.
Interessado demais.
Meu sorriso aumentou.
— Ah.
Ele fechou a cara.
— Não começa, Nox.
— Está maravilhosa.
Draven permaneceu em silêncio, esperando.
Resolvi torturá-lo.
— Os cabelos estão enormes. Negros, ondulados, quase chegando à cintura. Aqueles olhos acobreados dela estão ainda mais intensos. Ela ficou mais elegante, mais segura... e continua usando preto como se tivesse sido pessoalmente criada para arruinar a sanidade dos outros.
Draven ficou parado.
Piscou.
Passou as duas mãos pelo rosto.
— Porra.
— Exatamente.
— Eu estou fodido.
Gargalhei.
Talvez eu e Draven tivéssemos exatamente o mesmo problema com aquelas duas.
Simplesmente deixávamos de funcionar perto delas.
Depois de quase uma hora de interrogatório, chantagem emocional e Draven repetindo que provavelmente passaria vergonha diante de todos os reinos, acabei concordando.
Eu entraria com Catherine.
Ele entraria com Viviane.
Pareceu uma ótima solução.
Até o grande filho da puta comentar casualmente:
— Passei um tempo com Viviane também quando você estava fora.
Parei de ajeitar o punho da camisa.
— Como é?
Draven sorriu.
— Nada.
— Draven.
— Estamos atrasados.
— Como ela está?
Ele sorriu ainda mais.
— Interessante.
— Interessante é o caralho. Fala direito.
Antes que eu pudesse arrancar qualquer informação dele, a porta se abriu.
Soren entrou.
Aquele merdinha de quatorze anos era tudo aquilo que eu e Draven definitivamente não éramos na idade dele.
Alto demais, robusto, bonito pra caralho e com os olhos violetas de mamãe. O pior era que Soren não fazia esforço nenhum. Era quieto, educado, observador e praticamente ignorava as garotas que viviam tentando chamar sua atenção.
Eu tinha orgulho dele.
E também achava um desperdício absurdo de talento.
— Irmãos, está na hora — avisou Soren, olhando primeiro para mim e depois para Draven. — Se vocês atrasarem, Lira mata os dois.
Draven pegou o paletó.
— Finalmente alguém sensato nessa família.
— Não se inclui nessa frase — respondi.
Descemos juntos.
Em algum momento, Draven desapareceu com Soren, enquanto eu fiquei próximo da entrada conversando com um oficial da guarda.
Ou melhor, ele conversava.
Eu fingia escutar.
— Teremos dois homens na ala norte, outros quatro próximos à saída dos jardins e—
Eu assentia.
Não tinha entendido porra nenhuma.
Minha cabeça estava ocupada demais pensando que queria aquela cerimônia terminada, uma garrafa inteira de alguma coisa forte e, se possível, alguém interessante na minha cama.
Desde Catania, eu não transava com ninguém.
Nenhuma mulher.
Por meses.
Aquilo já estava começando a parecer uma grave falha administrativa.
O guarda continuava falando sobre rotas de segurança quando aconteceu.
O perfume.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Dessa vez não era fraco.
Não era um vestígio.
Era forte.
Envolvente.
Tão absurdamente familiar que meu coração disparou antes mesmo que eu entendesse o motivo.
Meu lobo se levantou dentro de mim com uma violência que quase me tirou o ar.
**Companheira.**
As mãos fecharam ao lado do corpo.
O guarda continuava falando.
Eu não escutava mais.
Virei.
E tudo parou.
O castelo.
A movimentação.
Os convidados.
A cerimônia.
Tudo.
Porque caminhando na minha direção estava a criatura mais bonita que eu já tinha visto em toda a porra da minha existência.
Por alguns segundos, pensei que meu cérebro tivesse simplesmente desistido de funcionar.
Então reconheci aquele rosto.
Viviane.
E, finalmente, entendi quem eu vinha procurando havia meses.








