Capítulo 1
PRÓLOGO
VALENTINA
O motor estalava abaixo de mim como um animal cansado.
Metal quente, gasolina, poeira fina grudada na pele e o gosto seco da estrada ainda na boca. A noite de Santa Aurelia se abria além do acostamento, pontilhada de luzes distantes na encosta, mas eu mal via a cidade.
Via Gael.
Ele tirou o colete e sentou na moto atrás de mim, uma das mãos no guidão, a outra segurando meu quadril como se ainda precisasse confirmar que eu não pretendia desaparecer antes de ele terminar de me irritar.
— Você está rindo de quê? — ele perguntou.
— Da sua cara.
— Minha cara está ótima.
— Sua autoestima também, posso ver.
A mecha branca havia escapado do coque e caía sobre a testa dele. O vento trazia cheiro de couro, suor e aquela colônia amadeirada que eu já conseguia reconhecer mesmo no meio de fumaça de escapamento. A sobrancelha branca do mesmo lado fazia qualquer expressão dele parecer mais dura do que era.
Ou talvez fosse dura mesmo.
Inverti minha posição e sentei de frente pra ele. Deixei minhas pernas por cima das dele. Perigosamente ciente do que esse encaixe podia gerar.
Gael Montalvo não precisava fazer esforço para parecer perigoso.
Isso era uma das coisas mais irritantes nele.
Outra era o fato de eu ter aprendido, contra toda lógica, que perigo e segurança podiam ocupar o mesmo corpo.
Ele inclinou o rosto.
— Continua me olhando assim e eu vou começar a achar que você gosta de mim.
— Não estraga essa noite falando asneira.
— Tarde demais.
A risada escapou antes que eu conseguisse segurar. O sorriso dele veio menor, quase preguiçoso. Não era o sorriso de presidente dos Dead Kings. Eu conhecia esse também — curto, calculado, o tipo que aparecia quando alguém acabava de cometer um erro e ainda não tinha percebido.
Aquele era só meu.
A ideia me atingiu e eu a empurrei para longe antes que criasse raízes.
O vento aumentou. Meu cabelo bateu no rosto e Gael afastou uma mecha dos meus óculos com dois dedos. O gesto era ridiculamente simples para alguém que tinha mãos capazes de apertar um guidão por horas, desmontar peças de motor e assustar homens adultos com um movimento de cabeça.
— Seus óculos estão tortos.
— A culpa é sua.
— De quase tudo que acontece com você, segundo você mesma diz.
— Finalmente aprendeu.
Ele soltou um som baixo, divertido, e eu olhei para a estrada além dele.
Duas motos paradas lado a lado. A dele escura, pesada, detalhes azul-royal quase invisíveis àquela luz. A minha ainda coberta da poeira clara que subia da estrada secundária. Dois coletes jogados. Duas coroas que não combinavam. Duas cidades dentro da mesma cidade.
Se alguém tivesse me dito meses antes que eu ficaria ali, no meio da madrugada, com Gael Montalvo perto o bastante para sentir o calor do corpo dele apesar do vento, eu teria perguntado quanto a pessoa havia bebido.
Se dissesse que eu confiaria nele com minhas costas...
Eu provavelmente teria dado uma cabeçada nela.
— Está pensando demais — ele disse.
— É meu cérebro. Tenho esse hábito, é inevitável.
— Perigoso também.
— Para você, principalmente.
Gael me puxou para si e me vim emcimadoseu colo.
O som das cigarras, dos motores esfriando e de um caminhão muito longe ocupou o espaço entre nós. Não havia ninguém por perto. Nenhum King. Nenhum Vulture. Nenhuma Mesa esperando uma decisão. Nenhuma cidade dividindo nossas cores como se uma faixa de asfalto fosse capaz de explicar décadas de orgulho.
Só nós dois.
O que talvez fosse pior.
Ele encostou a testa na minha.
— Ainda dá tempo de voltar.
— Para onde?
Gael não respondeu de imediato.
Gostei disso.
Ele nem sempre tinha resposta. Nem eu.
Os olhos verdes desceram até minha boca e voltaram.
— Não faço ideia.
— Ótimo começo.
— Você veio mesmo assim.
— Eu gosto de decisões ruins.
— Percebi.
Segurei a gola da camiseta dele e o puxei um pouco mais perto.
Não havia promessa naquela estrada.
Não havia juramento, aliança ou garantia de que no dia seguinte não voltaríamos a sentar em lados diferentes de uma mesa e discordar de alguma coisa importante.
Talvez fosse justamente por isso que funcionava.
Gael não precisava arrancar minha coroa para ficar ao meu lado.
E eu jamais pediria a dele.
Quando o beijei, o gosto era de café ruim tomado num posto quarenta quilômetros antes, poeira e aquela arrogância que ele carregava até quando estava calado.
Eu sorri contra a boca dele.
— Que foi? — murmurou.
— Nada.
— Mentira.
— Amanhã eu te conto.
— Amanhã você vai negar.
— Provavelmente.
Ele riu baixo, segurou minha cintura e começamos a nos esfregar. Não seria a primeira nem a última vez em cima de uma moto.
Atrás de nós, a moto dele continuava esfriando.
Nenhuma delas precisava seguir a outra. Não precisavam permanecer lado a lado.
Ainda assim, quando voltamos para a estrada, foi exatamente isso que fizemos.








