Coleira De Sangue by Kuro at Inkitt
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Coleira de Sangue

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Summary

Eu me chamo Mari. Tenho 24 anos, uma dívida que não é minha, e nenhuma saída. Meu pai morreu escondendo um segredo grande demais pra caber numa herança: um empréstimo que não passava por banco nenhum, feito a um deputado com um sobrenome antigo demais pra ser só político. Vinícius Andrade Castelo tem um brasão com o crânio de um pássaro mordendo uma rosa, mãos calmas demais pra alguém tão perigoso, e uma proposta que eu não tive escolha além de aceitar: casar com ele e pagar a dívida com o resto da minha vida. Eu achei que seria só um contrato. Assinar papel, morar numa casa enorme, sorrir em fotos que ninguém ia acreditar de verdade. Não sabia da gargantilha que ele mesmo prendeu no meu pescoço. Não sabia das regras que ninguém explica, só ensina, uma obediência pequena de cada vez até eu nem lembrar quando comecei a obedecer. Não sabia que, debaixo daquela casa silenciosa demais, existe algo trancado há muito mais tempo do que eu consigo entender — e que talvez seja exatamente o que eu esteja destinada a virar. Cada dia eu descubro um pouco mais sobre o que meu pai realmente fez, sobre o que aconteceu com minha mãe, sobre o que Vinícius é de verdade por trás do terno caro e do sorriso de político. E o mais assustador não é o medo. É perceber que, aos poucos, uma parte de mim está começando a gostar de obedecer.

Genre
Romance
Author
Kuro
Status
16h ago
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 — O Acordo

Eu tenho 24 anos e uma lista inteira de coisas no meu corpo que aprendi a evitar olhar de frente.

Um metro e sessenta, o suficiente para eu precisar de banquinho pra pegar coisa no armário de cima e insuficiente pra qualquer coisa mais. Cabelo liso, preto, pesado, que desce até a cintura porque cortar dá trabalho e decisão, duas coisas que ando evitando ultimamente. Uso óculos de grau desde os catorze — armação grande, grossa, do tipo que a atendente da ótica jurou que ia “modernizar meu visual” e que eu uso há dez anos sem nunca ter certeza se ela mentiu. Lábios carnudos que sempre pareceram grandes demais pro resto do rosto quando eu era adolescente, hoje eu nem reparo mais, só reparo quando mordo por nervoso e ficam vermelhos por horas.

O resto do corpo eu prefiro não descrever nem pra mim mesma. Peitos pequenos, isso eu digo rápido e sigo em frente. Bunda grande, coxas que se tocam, cintura fina mas que nunca foi fina o bastante nem quando eu tentei — e eu tentei, teve uma época que eu tentei bastante. Meu ex-namorado tinha um jeito de olhar pra esse corpo que eu levei anos pra entender que não era carinho, era inventário. E quando ele achou um inventário mais magro, mais comprido, mais parecido com o que a internet dele achava bonito, ele foi embora sem nem brigar direito. Isso foi há cinco anos. Eu ainda não olho espelho de corpo inteiro sem pensar nele primeiro.

Conto isso porque é importante você entender de onde eu vim antes de contar pra onde eu fui.

O telefone tocou três vezes antes de eu atender. Eu estava no meio de um turno — trabalho de casa, atendimento por chat pra uma empresa de telefonia, o tipo de emprego que paga o suficiente pra eu não precisar sair de casa, o que, sendo sincera, era o ponto principal. Fones no ouvido, três abas abertas, uma xícara de café esquecida do lado já com nata na superfície. Meu pai tinha saído dois dias antes dizendo que ia “resolver uma coisa” e não tinha voltado pra dormir. Eu não estranhei tanto quanto deveria. Ele andava esquisito fazia semanas, mas “esquisito” parou de significar alarme faz tempo, quando é a única palavra que sobra pra descrever alguém que você ama.

Na terceira ligação eu atendi porque o número era da delegacia.

O resto daquele dia eu só lembro em pedaços, sem ordem certa. Minha própria voz perguntando “tem certeza que é ele” três vezes seguidas, como se a pergunta fosse mudar alguma coisa na quarta vez. O corredor do IML parecendo comprido demais pra uma coisa daquele tamanho caber nele. Alguém segurando meu cotovelo quando minhas pernas decidiram, sem me consultar, que não iam mais sustentar o resto de mim.

Disseram câncer primeiro. Depois disseram alguma insuficiência súbita. No fim ninguém me deu uma resposta que fechasse de verdade — o coração dele parou, de um jeito que os médicos descreveram com palavras técnicas demais pra significar qualquer coisa. Eu assinei papel sem ler nenhum. Tinha gente demais fazendo perguntas que eu não sabia responder.

A resposta de verdade veio oito dias depois, num escritório com ar-condicionado forte demais, sentada na frente de um advogado que evitava me olhar enquanto falava.

— A dívida do seu pai não é pequena — ele disse, ajeitando uma pasta que eu suspeito estar ali só pra ele ter o que fazer com as mãos.

Eu sabia que meu pai cuidava da contabilidade de algumas empresas pequenas da cidade fazia anos — nada glamouroso, planilhas e reunião chata de quinta-feira, o tipo de trabalho que ele resumia em duas frases cansadas no jantar antes de mudar de assunto. O que eu não sabia, e que o advogado explicou devagar, como quem explica pra uma criança, era que uma dessas empresas fazia parte — “de forma indireta”, ele repetiu duas vezes, como se a palavra amaciasse alguma coisa — de uma rede de negócios ligada a Vinícius Andrade Castelo. Deputado. Empresário. Um nome que eu conhecia de outdoor e de matéria de jornal, o tipo de rosto que aparece sorrindo ao lado de gente importante em foto oficial.

Meu pai tinha pegado dinheiro emprestado. Muito dinheiro. De um jeito que não passava por banco nenhum, com juros que não estavam escritos em contrato nenhum que qualquer tribunal reconheceria, e que agora, com a morte dele, tinham virado dívida minha por herança — ou, mais precisamente, tinham virado um problema que eu, sozinha, sem mais ninguém pra dividir o peso, não tinha como resolver.

— Existe uma proposta — ele disse por fim, ainda sem me olhar.

Passei os três dias seguintes tentando qualquer coisa antes daquela. Liguei pro banco e ouvi risada educada disfarçada de “infelizmente não é possível”. Procurei parentes distantes que mal lembravam meu nome. Pensei em vender o apartamento onde morava desde que minha mãe morreu, fiz as contas, vi que não cobria nem um décimo do valor. Chorei no banheiro entre um atendimento e outro, fingindo pro sistema que eu tinha ido no banheiro mesmo, só banheiro. Passei uma madrugada inteira olhando o teto pensando na Duda e na Carol, minhas únicas amigas de verdade, que se mudaram pra fazer faculdade em outro estado assim que puderam e hoje mandam, no máximo, mensagem de feliz aniversário. Não tinha ninguém pra ligar às três da manhã. Fazia anos que não tinha.

Isso também não era novidade. Desde os doze anos, desde que minha mãe morreu — de um jeito rápido e mal explicado que ninguém da família gostava de detalhar, um “problema no coração” genérico demais pra ser verdade — eu fui encolhendo meu próprio mundo, devagar, sem perceber que estava fazendo isso. Primeiro foram as faltas na escola, que viraram meses, que quase viraram um ano inteiro perdido, até meu pai — com toda a falta de jeito que ele tinha pra essas coisas — conseguir me puxar de volta a tempo de terminar o ensino médio com um ano de atraso e nenhuma explicação que satisfizesse os professores. Depois foram os amigos, um por um, não por briga nenhuma, só por eu ter parado de responder mensagem até a mensagem parar de vir. Um psicólogo do posto de saúde, uma vez, entre uma consulta de vinte minutos e outra, disse rápido um nome pro que eu sentia às vezes. Eu prefiro não repetir esse nome nem pra mim mesma. É mais fácil chamar de cansaço.

No quarto dia depois da proposta, eu voltei no escritório e disse sim antes mesmo do advogado terminar de repetir os termos.

Não foi uma decisão. Foi a ausência de qualquer outra.

O casamento aconteceu duas semanas depois, num cartório e não numa igreja, salão pequeno e frio demais, testemunhas que eu nunca tinha visto na vida e nunca mais veria de novo. Vinícius chegou sete minutos atrasado, me cumprimentou com um aperto de mão — não um beijo, nem um abraço, um aperto de mão, formal, como se estivéssemos fechando qualquer outro tipo de contrato — e passou a cerimônia inteira com uma expressão que eu não consegui decifrar. Não era desprezo. Também não era nada parecido com interesse. Era mais como se ele estivesse resolvendo um problema de logística e eu fosse, naquele momento, a peça que faltava pro problema se resolver.

Ele era mais velho do que eu imaginava pelas fotos de jornal — ou talvez não fosse velho, exatamente, mas tivesse esse jeito de quem carrega mais tempo do que aparenta, um cansaço antigo atrás dos olhos que não combinava com o resto do rosto, ainda liso, ainda bonito de um jeito que incomodava mais do que agradava. Alto — do tipo que me fazia sentir ainda menor do que já sou. As mãos grandes, calmas, nunca pareciam apressadas mesmo fazendo algo rápido. Quando ele finalmente me olhou de verdade, no momento de assinar os papéis, foi um olhar longo, avaliativo, que percorreu meu rosto, meus óculos, o cabelo que eu tinha preso mal-feito — um olhar que não parecia estar vendo uma esposa. Parecia estar conferindo um inventário. Eu conhecia bem esse tipo de olhar. Só não esperava sentir alguma coisa quando ele veio de um estranho.

— Você vai se mudar hoje — ele disse, a única frase inteira que me dirigiu no cartório, num tom que não era bem ordem, mas também estava longe de ser pedido. — Tem um carro esperando lá fora.

Eu assenti porque não tinha mais nada além de um apartamento vazio, uma caixa com coisas da minha mãe que eu nunca tive coragem de abrir, e a certeza recém-adquirida de que a vida que eu conhecia tinha acabado de trocar de dono.

No banco de trás do carro, olhando a cidade passar pela janela — as ruas que eu conhecia desde criança encolhendo no retrovisor, dando lugar a bairros que eu só via de longe, muros cada vez mais altos, ruas cada vez mais vazias — eu me peguei pensando, com uma clareza fria que me assustou mais do que o medo em si: eu nem sei o nome do meio dele.

Era tarde demais pra isso importar.

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