Capítulo 1 - A noite antes da felicidade.
DRAVEN
O inverno havia coberto o reino do meu pai, Kayon, de branco.
Do lado de fora, a neve descia sobre as muralhas, os jardins e as árvores que cercavam o palácio, enquanto o vento batia contra as janelas altas. Por dentro, porém, o castelo parecia pertencer a outro mundo.
Estava quente.
Iluminado.
Cheio.
Comitivas continuavam chegando, nobres ocupavam as alas destinadas aos hóspedes, criados atravessavam os corredores carregando malas, vinhos e tudo o que uma concentração absurda de aristocratas aparentemente precisava para sobreviver alguns dias.
Mas naquela noite eu não queria pensar em política.
Não queria pensar em economia.
Eu queria beber.
E falar merda.
Felizmente, eu tinha companhia extremamente qualificada para ambas as atividades.
Nox estava largado numa poltrona diante da lareira.
Hendrik ocupava o sofá à minha frente, enquanto Alexander estava sentado ao lado dele, com uma garrafa entre os dois.
Eu estava em outra poltrona, já no terceiro copo e começando a considerar seriamente a possibilidade de aquele ser exatamente o estado de consciência apropriado para aquela noite.
Nox me observava havia tempo demais.
— Que porra você está olhando? — perguntei, estreitando os olhos para ele, desconfiado daquela expressão divertida demais.
Meu irmão abriu lentamente um sorriso debochado.
Conhecia aquele sorriso desde criança.
— Estou tentando decidir se você melhorou — respondeu Nox, girando o copo entre os dedos enquanto me analisava como se estivesse avaliando alguma coisa extremamente séria.
— Fisicamente? — rebati, levando a mão ao peito com falsa modéstia. — Impossível. Já nasci perfeito.
Alexander soltou uma risada baixa e virou o rosto para Hendrik, que fez uma careta imediatamente.
— A autoestima da família inteira foi distribuída para vocês dois? — perguntou Hendrik, olhando de mim para Nox com um meio sorriso divertido.
— Principalmente para mim — respondi, apontando para o próprio peito.
Nox balançou a cabeça, contendo o riso.
— Estou falando da perversão, seu filho da puta — esclareceu ele, apontando o copo na minha direção. — Melhorou? Virou um homem minimamente respeitável ou continua tão perdido quanto antes?
Arqueei uma sobrancelha.
— Ah.
Deixei o silêncio durar alguns segundos, fingindo analisar seriamente a pergunta, até perceber a curiosidade surgindo no rosto dele.
Então sorri.
— Não sei, irmão. — Inclinei a cabeça, olhando diretamente para Nox. — Você melhorou o seu?
O sorriso dele diminuiu.
Continuei, propositalmente inocente:
— Aquela dinâmica esquisita de “eu mando, você obedece”, “eu vou dominar você”, “ajoelha”... essas porras todas.
Nox simplesmente parou.
O copo ficou imóvel em sua mão.
A mandíbula travou.
Os olhos verdes se estreitaram na minha direção.
Hendrik, que até então estava recostado tranquilamente, franziu a testa e olhou para Nox.
Alexander fez exatamente o mesmo.
Eu não aguentei.
Comecei a rir.
Nox abaixou o copo com uma lentidão ameaçadora.
— Draven... — chamou ele, num tom baixo, claramente me avisando para não continuar.
— Sim, irmão? — respondi com a maior inocência que consegui fingir.
Ele respirou pelo nariz.
— Se eu fosse você, calava a boca agora.
Minha gargalhada aumentou.
— Ih, caralho. Acertei numa ferida.
Alexander inclinou o corpo para frente, visivelmente interessado.
— Espera. — Ele apontou discretamente para Nox. — Que história é essa?
— Nenhuma — respondeu Nox imediatamente, lançando-lhe um olhar que deveria encerrar o assunto.
Não encerrou.
Hendrik ergueu uma sobrancelha e sorriu.
— Pela cara dele, parece bastante uma história.
— Não existe história nenhuma — insistiu Nox, agora olhando para os dois.
Eu ainda estava rindo quando percebi que ele virou o rosto na minha direção.
O sorriso que surgiu nos lábios do meu irmão me fez parar.
Merda.
Nox havia acabado de encontrar a própria vingança.
— Ah... — murmurou ele, apoiando-se melhor na poltrona, subitamente satisfeito. — Já que o Draven resolveu abrir o passado...
— Nox — avisei, já sabendo exatamente para onde aquilo caminhava.
Ele ignorou.
— Acabei de lembrar de uma coisa.
— Filho da puta.
Nox abriu um sorriso enorme.
— Teve uma noite em que eu abri a porta do quarto do Draven e esse desgraçado estava fodendo uma vampira e uma loba ao mesmo tempo.
Alexander ficou imóvel por um segundo.
Então virou o rosto para mim, os olhos arregalados.
— As duas? — perguntou ele, antes de começar a rir.
Nox respondeu por mim, completamente satisfeito com a própria exposição.
— As duas.
Ergui meu copo com toda a dignidade que ainda me restava.
— Eu era um homem dedicado.
Hendrik soltou uma gargalhada alta e jogou a cabeça para trás.
Alexander se curvou para frente, já rindo abertamente.
— Espera aí — conseguiu dizer ele, olhando novamente para Nox. — Você abriu a porta e encontrou seu irmão nessa situação. O que você fez?
Nox levou o copo à boca e ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse ponderando uma decisão particularmente difícil.
Eu olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Nós dois começamos a rir antes mesmo que respondesse.
— Eu entrei — confessou Nox, dando de ombros como se aquela tivesse sido a escolha mais óbvia do mundo.
Alexander soltou uma gargalhada ainda mais forte.
— É claro que você entrou!
— Porra, eu já estava ali — justificou Nox, abrindo os braços.
Hendrik olhou para ele, incrédulo e divertido.
— Você também podia ter fechado a porta e ido embora.
Nox virou lentamente o rosto para o tio.
— Hendrik, olha na minha cara e me diz que você teria ido embora.
Hendrik abriu a boca para responder.
Parou.
Olhou para Alexander.
Alexander ergueu uma sobrancelha, já segurando o riso.
Hendrik soltou o ar e tomou um longo gole antes de admitir:
— Não. Eu provavelmente teria entrado também.
A sala inteira explodiu em gargalhadas.
— Obrigado! — falei imediatamente, apontando para ele. — Porque vocês dois estão rindo demais para quem tem um histórico muito pouco respeitável.
O sorriso de Alexander desapareceu parcialmente.
— Draven...
— Não adianta fazer essa cara — continuei, agora me divertindo ainda mais. — Eu lembro muito bem do Centro de Treinamento.
Hendrik levantou um dedo na minha direção.
— Escolhe muito bem as próximas palavras.
— Vou escolher. — Sorri. — Orgias.
Nox quase derrubou a bebida de tanto rir.
Alexander passou a mão pelo rosto.
— Filho da puta.
— Vocês faziam orgias naquele quarto — continuei, apontando para os dois. — E eu sei disso porque participei de algumas.
Hendrik arregalou os olhos numa falsa expressão de indignação.
— Você aparecia sem ser convidado.
— Eu era muito bem recebido.
Alexander soltou uma risada e balançou a cabeça.
— Pelas mulheres, Draven. Você era recebido pelas mulheres.
— Que eram justamente as pessoas cuja opinião me interessava naquele momento.
Nox bateu uma mão contra a própria coxa, gargalhando.
— Caralho, nós éramos um desastre.
— Nós éramos devassos — corrigi.
— Assumidos — acrescentou Alexander, sem demonstrar qualquer arrependimento.
Hendrik passou a mão pela mandíbula e assentiu.
— Muito assumidos.
Nox ergueu o copo, ainda sorrindo.
— À nossa absoluta falta de vergonha.
Erguemos os nossos.
— À falta de vergonha — repetimos juntos.
Os copos se tocaram.
E rimos outra vez.
Porque era verdade.
Antes delas, nós tínhamos feito uma quantidade impressionante de merda.
Fodido com uma parcela indecente da população.
Participado de festas que nenhum de nós teria coragem de descrever diante das próprias mães.
Acordado em lugares desconhecidos.
Misturado álcool, sangue, sexo e decisões péssimas com a confiança absurda de homens que acreditavam que nunca encontrariam nada importante o suficiente para fazê-los parar.
Até encontrarmos.
Pouco a pouco, as risadas diminuíram.
Nox se recostou novamente na poltrona e baixou os olhos para o próprio anel. O polegar dele passou pelo metal uma vez. Depois outra.
Quando levantou o rosto para mim, o sorriso ainda estava lá.
Só que não havia deboche daquela vez.
Havia carinho.
Havia entendimento.
— Ela te pegou de jeito, não foi, irmão? — perguntou Nox, num tom muito mais baixo.
Sorri quase imediatamente.
— Pegou.
Meu irmão me observou por alguns segundos, como se a resposta curta não fosse suficiente.
Então o canto de sua boca subiu.
— Não. Catherine não só te pegou de jeito. — Ele soltou uma risada baixa e balançou a cabeça. — Ela acabou com você completamente. Você virou escravo daquela mulher.
Eu poderia ter feito piada.
Poderia ter mandado Nox se foder.
Em qualquer outro momento da minha vida, provavelmente teria feito exatamente isso.
Mas não havia provocação verdadeira no rosto dele.
Nox sabia.
Ele entendia.
Então apenas sorri.
— Virei — respondi, sem desviar os olhos. — Com toda certeza do mundo.
Minha voz saiu mais séria.
— E viraria outra vez. Em todas as eternidades que me fossem dadas.
O sorriso de Nox suavizou ainda mais.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
Ele olhou para mim com aquela cumplicidade silenciosa que só existia entre irmãos.
— Que quando acontecesse com você, aconteceria desse jeito. — Nox girou novamente o próprio anel. — Sem volta. Sem metade. Você sempre fez tudo exageradamente, Draven. Era óbvio que também ia amar assim.
Aquilo me acertou de um jeito inesperado.
Soltei uma risada baixa.
— Olha você ficando sentimental.
— Vai se foder. Estou bêbado.
Hendrik riu, mas sua expressão também havia mudado.
Ele olhou para Alexander antes de falar.
— Eu entendo o que ele quer dizer. A melhor coisa que aconteceu comigo foi Elira.
Alexander sorriu imediatamente ao ouvir o nome dela.
— Para mim também.
Os dois trocaram um olhar tranquilo.
Não havia competição.
Nunca houvera.
Havia Elira.
Roman e Alister.
Os dois garotos que haviam transformado aqueles homens em pais completamente ridículos.
E agora havia uma menina crescendo dentro dela.
— Nossa família existe por causa dela — continuou Alexander, a voz carregada por uma felicidade tranquila. — Se alguém tivesse me mostrado anos atrás a vida que eu tenho hoje, eu provavelmente teria rido.
Hendrik assentiu.
— Eu também. E teria chamado a pessoa de louca.
Olhei para os dois.
— Agora vocês discutem sobre qual dos dois vai levantar primeiro quando os meninos choram.
Alexander fez uma careta.
— Isso é mentira.
Hendrik virou para ele.
— Você literalmente fingiu estar dormindo anteontem.
— Eu estava dormindo.
— Você respondeu “vai você”.
Comecei a rir.
Nox também.
Alexander levantou as mãos.
— Está bem. Uma vez.
— Três — corrigiu Hendrik.
— Vocês estão fodidos — concluí.
Hendrik sorriu.
— Muito.
Nox baixou os olhos novamente para o anel.
— Eu também.
Quando falou de Viviane, a expressão dele mudou daquele jeito que sempre mudava.
— Descobrir que ela era minha companheira predestinada foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Depois nasceram Amélia, Lisandra e Leander... — O sorriso dele cresceu. — E, um ano depois, Cedric apareceu para garantir que eu nunca mais tivesse um minuto de paz.
— Você gosta — falei.
Nox levantou os olhos.
— Eu amo essa porra toda.
E eu sabia.
Dava para ouvir na voz dele.
Eu também conhecia aquele sentimento.
Porque, quando pensei nela, todo o resto desapareceu por alguns segundos.
**Catherine.**
A mulher que tinha me destruído.
A mulher que tinha me reconstruído.
Aquela princesa refinada, sarcástica, inteligente pra caralho, dona de um temperamento que poderia colocar metade da corte de joelhos apenas levantando uma sobrancelha.
Minha amada.
Eu estava prestes a me perder naquela lembrança quando a porta se abriu.
Viviane entrou carregando Cedric.
— Nox, eu não aguento esse seu filho — reclamou ela, aproximando-se do marido com uma expressão exasperada.
Nox ergueu as sobrancelhas.
— Qual deles, minha linda?
Viviane lançou um olhar indignado.
— Leander já não é nosso. Ele pertence ao seu pai Kayon e ao seu avô Ulisses. Esse aqui é o seu problema.
Ela colocou Cedric nos braços dele.
— Eu estou tentando ficar com as meninas, mas ele não quer saber de mim. Só quer vir atrás de você. Então toma.
Nox levantou imediatamente, acomodando o menino contra o peito.
Cedric agarrou a camisa do pai como se estivesse reencontrando alguém desaparecido havia décadas.
Meu irmão riu, encheu o rosto do filho de beijos e depois passou um braço pela cintura da esposa.
Puxou Viviane para perto e a beijou apaixonadamente.
Quando se afastou, permaneceu com o rosto próximo ao dela, sorrindo.
— Eu faço tudo por você, minha rainha. Meu sol. Minha lua. Minha linda.
Viviane ficou alguns segundos encarando-o.
Então estreitou os olhos.
— Você está bêbado, não está?
Nox abriu um sorriso preguiçoso.
— Estou apaixonado.
Viviane arqueou uma sobrancelha.
Ela riu, deu outro beijo nele e saiu.
Estendi os braços.
— Dá aqui meu sobrinho.
Nox apertou Cedric contra o peito.
— Não.
— Para de ser psicopata.
Meu irmão me olhou desconfiado.
Antes que Nox pudesse responder, Cedric estendeu os braços na minha direção.
Abri imediatamente um sorriso vitorioso.
— Está vendo?
Peguei-o.
— Vem cá, meu querido. Meu bebezão. Meu lindão do tio.
Cedric apoiou a cabeça no meu peito e agarrou minha camisa.
Nox voltou para a poltrona.
Ficou nos olhando por alguns segundos.
Então sorriu.
— É... nem parece que amanhã meu filho vai entrar carregando suas alianças.
Meu peito apertou.
Baixei os olhos para Cedric.
Depois ergui lentamente meus olhos vermelhos para meu irmão.
Sorri.
— Nem parece mesmo que esse meninão bonitão do titio vai entrar com as minhas alianças.
Beijei a cabeça dele.
E então Catherine ocupou completamente meus pensamentos.
Porque chegar até aquela noite não tinha sido simples.
Tinha sido bonito.
Doloroso.
Caótico.
E, em muitos momentos, uma completa merda.
Mas, para entender como eu havia chegado ali, com meu sobrinho no colo e a certeza de que no dia seguinte minha vida mudaria para sempre, eu precisava voltar alguns anos.
Até o momento em que tudo realmente começou.
Até Catherine.








