Capítulo 1: O Despertar nas Ruínas
Capítulo 1: O Despertar nas Ruínas
O cheiro de enxofre e poeira queimada carregava o ar. Neblina espessa e colunas de fumaça cinzenta subiam lentamente em direção ao céu noturno, encobrindo as poucas estrelas que insistiam em brilhar. Ao redor, o silêncio não era de paz, mas de devastação.
E no centro daquela terra morta, sobre o solo coberto por brasas ainda incandescentes, um garoto estava ali, imóvel, aparentando estar desmaiado.
Sua consciência flutuava na escuridão, até que uma voz ecoou — não no ar, mas diretamente no fundo de seu ser. Uma voz ancestral, grave e fria como o gelo.
— Acorde... acorde. Desperte, Rei...
Os olhos do garoto se abriram bruscamente. Ele arfou, o peito subindo e descendo com violência enquanto o ar queimava seus pulmões. Suas mãos, sujas de fuligem e marcadas por pequenos arranhões, tremeram. Ao redor das pontas de seus dedos, uma tênue e misteriosa aura arroxeada oscilou por um segundo antes de se dissipar no ar.
— Quem está aí? Quem é você? Onde eu estou? Por que está tudo destruído? — sussurrou ele para a escuridão, a voz falhando em um tom infantil e aterrorizado.
Ele olhou para os próprios braços, para as ruínas ao redor e para o horizonte em chamas.
Passos pesados e firmes quebraram o silêncio da terra arrasada.
— Que ótimo... — uma voz feminina e ranzinza ecoou a poucos metros. — Todo lugar por onde passamos até hoje é um campo de batalha em ruínas, Mestre! Por que o mundo é assim? Só guerras e mais guerras... por conta de quê? Nada!
A jovem de cabelos alaranjados, segurando um pequeno graveto como se simbolizasse o cajado de seu mestre, parou abruptamente ao notar o corpo do garoto jogado entre os destroços. Seus olhos se arregalaram em uma mistura de surpresa e irritação defensiva.
— Olha... olha, Mestre! Parece ser alguém. Espera... acho que é uma criança. Afss... já não bastavam tantas guerras, agora uma vítima criança jogada no meio das cinzas!
Sem esperar pelo companheiro de viagem, a garota caminhou apressada na direção do menino.
— Vou até lá, Mestre. Sabe por quê, né? À primeira vista o senhor não parece ser muito legal, ha ha ha!
Ao se aproximar, o tom debochado da jovem deu lugar a um olhar de cautela e empatia reprimida. O garoto recuou instintivamente, encolhendo-se contra uma rocha destruída, com medo da aproximação da garota e de seu mestre.
— Ele parece estar machucado... — disse ela, ajoelhando-se devagar e estendendo a mão, de onde emanava um suave brilho azul-esverdeado de magia de cura. — Ei, garoto, calma... calma, não vamos te machucar. Só queremos te ajudar. Eu sei que o Mestre parece assustador à primeira vista, mas ele é legal. Deixa eu ver isso, posso tentar te curar. Espera, não se mexa, só vai arder um pouquinho.
— Quem são vocês? O que é isso que está fazendo comigo? — perguntou o garoto.
“Que magia é essa? Como ela foi capaz de curar meu ferimento? Isso é tão confuso, mas me sinto bem melhor agora...”, pensou ele.
A garota então soltou um berro com um tom de irritação:
— O quêêê? Quem somos nós? Nós é que te perguntamos isso! Afinal de contas, era você que estava jogado aqui no meio desta destruição em ruínas. Cadê a sua família, moleque? Qual é o seu nome?
Uma sombra alta e imponente projetou-se sobre os dois. Passos lentos e calmos se aproximaram. Sob um denso capuz escuro, olhos de um amarelo dourado brilhante observavam a cena. O homem trajava vestes pesadas de viajante e segurava um longo cajado de madeira rústica, cujas runas azuis entalhadas pulsavam com um brilho arcano.
— Acalme-se, Yuki — disse o ancião, sua voz grave e serena preenchendo o ambiente como um trovão distante. — É apenas um menino, vítima da guerra. Acho que é órfão... mas uma coisa eu sempre digo, aprenda isso, Yuki: o destino raramente cruza caminhos neste mundo por mero acaso.
Yuki levantou-se num pulo, cruzando os braços com ar de protesto.
O ancião aproximou-se mais do garoto e perguntou:
— Qual é o seu nome, jovenzinho?
O garoto olhou para as próprias mãos. A mente era um abismo em branco. Não havia memórias, não havia rostos, não havia passado.
— Eu... eu não sei — respondeu ele, a voz sumindo em um fio de desespero. — Não me lembro de nada...
— Como assim não se lembra de nada, nada mesmo? — interrompeu Yuki. — Como chegou até aqui?
— Eu... eu não sei, não lembro de absolutamente nada — respondeu o menino.
Um silêncio solene se instalava sobre a terra devastada. O velho mago deu um passo à frente, a luz azul de seu cajado iluminando levemente o rosto confuso do menino.
— Não se preocupe, meu jovem — declarou o Mestre com serenidade acolhedora. — O passado ficou para trás. A partir de hoje... você se chamará Homura Aken.
O garoto repetiu as palavras baixinho, testando o peso daquele novo nome em seus lábios.
— Homura... Aken... o que isso quer dizer...?
Yuki bufou, colocando as mãos na cintura e encarando o idoso.
— Mestre! Não bastam os nomes estranhos nas suas histórias, agora vai dar um nome muito estranho a este garoto?!
Enquanto continuava a resmungar, a garota olhou de relance para Homura e desviou o olhar, pensando consigo mesma: “Como se não bastasse... eu e o Mestre já estava difícil, agora pelo visto vai ser mais uma boca para alimentar...”
O Mestre, porém, manteve o olhar fixo no garoto. Sob a sombra do capuz, suas feições se fecharam em uma expressão indecifrável enquanto ele encarava os vestígios da energia roxa que ainda pairavam suavemente no ar ao redor de Homura.
“Será que realmente são vocês...?”, ponderou o ancião em seus pensamentos mais profundos, ciente de que a verdadeira tempestade daquele mundo estava apenas começando.
— Mestre, o que estava pensando aí, hein? — disse Yuki. — Não vai dizer que dormiu em pé de novo, ha ha ha!
— Não... — respondeu ele, calmo e sereno como sempre. — Depois eu te conto uma história. Agora vamos, está ficando muito tarde. Vamos achar um lugar para acampar por hoje.
Ele deu uma última olhada em Homura e falou:
— Venha, Homura, com a gente. Sempre há espaço e comida suficiente para quem necessita. Aposto que você está com fome e confuso, mas não se preocupe, não somos inimigos.
Yuki franziu a testa, respirou fundo e disse:
— Anda logo, moleque! Não fica olhando como se pedisse para mim te carregar, você já está bem grandinho para isso.
Vendo Yuki e o Mestre de costas caminhando, Homura se levantou e correu para acompanhar os dois.
Sombras no Caminho
O som do cajado do Mestre batendo contra o solo rochoso ditava o ritmo da caminhada. Conforme se afastavam do local em chamas, a fumaça espessa ia ficando para trás, dando lugar a uma noite fria e escura.
Logo à frente, Yuki mantinha o passo rápido, resmungando a cada cinco metros enquanto ajeitava a bolsa pesada nos ombros.
— Mestre, se a gente continuar andando nesse breu, nós vamos acabar caindo de um penhasco! E mais: só vamos montar acampamento lá para a meia-noite! — reclamou Yuki, olhando para o céu escuro antes de encarar o Mestre. — E tem mais! O meu estômago já tá fazendo mais barulho do que o fogo daquelas ruínas.
— A pressa só atrai o que espreita na escuridão, Yuki — respondeu o Mestre, sem parar de andar ou mudar o tom calmo de sua voz. — Paciência. O seu estômago pode esperar mais um pouco; a nossa segurança vem em primeiro lugar, você não acha?
— Mas Mestre! Uma fogueira quente, um pedaço de pão... qualquer coisa que seja! — Yuki continuou gesticulando no ar. — A gente resgata um garoto, o senhor inventa um nome estranho pra ele... Se não fosse isso, já teríamos chegado a algum lugar e eu já teria matado a minha fome! Mas nããão, o senhor insistiu em desviar a rota que o senhor mesmo planejou e acabamos aqui, resgatando um moleque que não se lembra nem do próprio nome, nem de como foi parar naquelas ruínas... E quem sofre com a caminhada sou eu!
Ainda caminhando de forma calma e serena, o Mestre respondeu:
— Como eu disse, Yuki: o destino raramente cruza caminhos por acaso.
Atrás dos dois, Homura caminhava em silêncio.
Seus pés ainda estavam um pouco trêmulos, mas a dor dos ferimentos tinha desaparecido graças à magia de cura da Yuki. Ele olhava para as próprias mãos, ainda sujas de fuligem, encarando a ponta dos dedos.
“Quem sou eu de verdade? E o que era aquela voz...?”, pensava Homura, sentindo o peito apertar de incerteza.
A voz grave e fria que o chamara de "Rei" antes de ele abrir os olhos ainda ecoava no fundo da sua mente. Não tinha sido um sonho. E a reação do Mestre... o olhar compenetrado do velho mago sobre a energia arroxeada — que só ele enxergara naquele milésimo de segundo antes de se dissipar no ar — não tinha passado despercebida.
— Ei, moleque! — a voz de Yuki cortou os pensamentos dele. A garota tinha virado para trás, andando de costas com um olhar desconfiado. — Tá caminhando parecendo que viu um fantasma. Não vai me dizer que tá com medo do escuro?
Homura piscou os olhos, voltando à realidade, e encarou a garota de cabelos alaranjados.
— Só... tô prestando atenção no caminho. Estou com muita sede, teria algo pra beber? — respondeu ele, tentando manter a voz firme. — E tentando entender tudo isso.
Yuki, revirando os olhos, disse:
— Assim você vai atrasar a gente mais ainda pra chegar no acampamento! Não dá pra aguentar um pouco?
Então o Mestre falou:
— Calma, Yuki. Não estamos muito longe. Vamos fazer uma pausa para beber água. E não caminhe de costas... Como você mesma disse, andando nesse breu não é muito difícil cair de um penhasco, ainda mais andando de costas, né? — disse o Mestre, sarcástico, com um leve sorriso de deboche.
Yuki soltou um suspiro de irritação com a piada do Mestre, retirando a bolsa das costas para pegar a água. Com um tom impaciente, falou:
— Pronto, já bebeu água, podemos seguir em frente. Já estou ficando estressada de estômago vazio.
Homura respirou aliviado e disse:
— Obrigado! — com a voz ainda frágil e cansada.
— É, te entendo. Mas não se acostuma, tá? — completou Yuki. — O Mestre é bondoso demais, só que os recursos são curtos. Você vai ter que ajudar em tudo, até mesmo a recolher lenha daqui pra frente!
O Mestre ergueu a mão esquerda, parando no topo de uma pequena elevação cercada por grandes formações rochosas.
— Chegamos — declarou o ancião, apontando para uma abertura na rocha que servia como abrigo contra o vento. — Vamos acampar aqui. Yuki, prepare as provisões. Homura, sente-se e descanse.
Yuki jogou a mochila no chão com um baque farto, soltando um suspiro de alívio exagerado, enquanto Homura se aproximou da beirada da rocha. Ele olhou para trás, enxergando ao longe a coluna de fumaça das ruínas de onde tinha acabado de sair.
Ele não sabia quem era, de onde tinha vindo ou o que significava aquele nome — Homura Aken. Mas olhando para as poucas estrelas que começavam a aparecer no céu, ele sentia que aquele era apenas o primeiro passo de um destino muito maior.








