Capítulo 1 — O quarto
O rapaz estava deitado de lado no chão, entre a cama e a parede, e fazia algum tempo que tinha parado de sentir frio.
O quarto era pequeno para o que ele tinha sido. Um colchão sem estrutura, uma mesa baixa encostada na janela, roupas no canto que já tinham passado da fase de precisar ser lavadas. Na mesa, o que sempre ficava na mesa. Três copos, dois com restos antigos o bastante para ter criado uma película por cima. A cortina estava fechada havia dias, e a luz que entrava pelas frestas era a única maneira de saber que ainda era tarde.
Os nós dos dedos da mão direita estavam abertos e mal fechados, com a casca escura de uma briga de alguns dias antes. Ele não lembrava direito com quem. Lembrava de ter começado, isso sim, e de que o outro tinha caído, e de que ninguém tinha ficado do lado dele quando a porta do bar se fechou. Havia uma mancha roxa nas costelas que doía quando ele respirava fundo, então ele não respirava fundo.
Ele não pensava em nada. Não era uma decisão, nem um vazio bonito; era só o que acontecia. Desde que aquilo tinha virado rotina, pensar tinha deixado de ocupar espaço. Havia o antes, que era ruim, e havia o depois, que era menos ruim, e o intervalo entre os dois tinha encolhido até não sobrar mais nada além do intervalo. Não era festa. Fazia muito tempo que não era festa. Não havia ninguém em volta para ser festa.
A respiração estava mais lenta. Ele não percebeu.
Não havia nada para perceber. Nenhum aperto no peito, nenhum alarme, nenhuma das coisas que as pessoas imaginam. Só um peso confortável nas pernas, subindo devagar, e um sono que não era bem sono. Ele pensou, sem palavras, que ia dormir um pouco. Tinha pensado isso em outras tardes.
Entre um movimento do peito e o seguinte, o silêncio ficou mais longo.
A pele em volta da boca perdeu a cor primeiro. Depois as pontas dos dedos, que ficaram acinzentadas de um jeito discreto, como mão que passou tempo demais na água. Um dos braços estava dobrado embaixo do corpo numa posição que doeria, se ainda doesse alguma coisa.
O peito subiu mais uma vez.
E então parou de subir.
O ar-condicionado do apartamento de cima ligou, vibrou por alguns segundos e se acomodou num zumbido contínuo. Na rua, um carro passou com o som abafado. Na mesa, os copos continuaram onde estavam.
Ninguém entrou. Ninguém ligou. O telefone estava descarregado em algum lugar embaixo das roupas, e fazia três dias que não tocava. Antes disso, a última chamada tinha sido de um número que ele não atendia mais, e antes dessa, de alguém cobrando. Não havia ninguém no mundo esperando notícia dele. Havia gente que ficaria aliviada em não ter.
O quarto ficou quieto por muito tempo.
E então o ar entrou.
Entrou de uma vez, como se alguém tivesse puxado, e a garganta se fechou em volta dele e devolveu tudo num espasmo que sacudiu o corpo inteiro. A cabeça bateu na quina da cama. Veio uma segunda respiração, pior que a primeira, e uma terceira, e o coração achou um ritmo qualquer e começou a bater rápido demais, como se tivesse uma dívida para pagar.
Ela não sabia onde estava.
Essa foi a primeira coisa: não saber. Não havia teto de hospital, nem luz branca, nem gente gritando por cima dela. Havia um chão de madeira sintética a dois dedos do rosto e um cheiro que ela não reconheceu de imediato e que depois reconheceu como sendo dela mesma.
A segunda coisa foi a náusea.
Veio antes de qualquer pensamento, e não deu tempo de levantar. Ela vomitou de lado, ali mesmo, e a única coisa útil que conseguiu fazer foi virar a cabeça para não se engasgar. O corpo tremia dos pés aos ombros, um tremor grosso, que não tinha nada a ver com frio e não obedecia vontade nenhuma.
Tentou se apoiar no braço e o braço não respondeu. Estava dormente da axila até a ponta dos dedos, um peso morto preso nela, e quando finalmente mexeu foi com um atraso errado, como se o comando chegasse meio segundo depois. Ela caiu de volta.
A dor de cabeça veio em seguida, e não se parecia com nenhuma que ela conhecia. Não latejava. Era uma pressão sólida atrás dos olhos que crescia a cada batida do coração e fazia a luz das frestas doer de verdade.
Havia alguma coisa muito errada com o corpo.
Não era só o mal-estar. Era a distância. As mãos no chão, na frente dela, eram grandes demais, com dedos compridos, nós saltados e cascas escuras nas juntas. Havia uma mancha na dobra do cotovelo que ela não quis olhar de perto. Os ombros ocupavam um espaço que não era o dela. O peito subia de um jeito que não era o dela.
Ela abriu a boca e o que saiu, rouco, arranhado, foi:
— Eu tô morta.
E a voz que disse isso era de homem.
Foi o que a derrubou de vez. Não a náusea, não o tremor. A palavra dela saindo daquela garganta. Uma frase que ela teria dito cem vezes na vida, do jeito de sempre, e que agora voltava para os ouvidos dela grave, estranha, dita por outra pessoa.
Ficou parada no chão por um tempo que não conseguiu medir, respirando pela boca, esperando que aquilo se desfizesse e virasse outra coisa. Sonho, anestesia, febre. Qualquer coisa.
O quarto continuou onde estava.
Em algum momento o cansaço venceu. Não foi sono, foi desligamento: o corpo encerrou o expediente no meio da tentativa de entender, e ela apagou com o rosto virado para a parede.
Quando voltou, a luz nas frestas tinha mudado de lugar.
Estava mais fraca e vinha de outro ângulo, e isso queria dizer horas, talvez um dia. A dor de cabeça continuava, mas tinha perdido um pouco da força. O tremor tinha diminuído. A sede era quase insuportável, seca, arranhada, a língua grudando no céu da boca.
Dessa vez ela conseguiu sentar.
Levou tempo. Precisou se apoiar na cama, subir o tronco em etapas, esperar a tontura passar entre uma e outra. Cada músculo doía como se tivesse trabalhado dias seguidos, e o braço que tinha ficado embaixo do corpo trazia a marca funda da posição. Mas ela sentou, de costas para o colchão, e finalmente olhou o lugar inteiro.
Era um apartamento ruim.
Não era pobre do jeito que ela conhecia pobreza. Era largado. Tinha um sofá que um dia custou caro, agora com o estofado manchado e um rasgo no braço. Tinha um relógio caro no chão perto da porta, do tipo que alguém joga em cima de um móvel e que escorrega e fica. Tinha caixas de entrega vazias empilhadas na cozinha, misturadas com louça suja, e um buraco na parede do corredor na altura exata de um punho. Embaixo da porta, três envelopes que ninguém tinha aberto, o de cima com uma faixa vermelha.
Era a casa de alguém que tinha tido dinheiro e tinha parado de se importar com o que fazia com ele. Com o dinheiro, com a casa, consigo mesmo.
Na mesa baixa, junto da janela, estava o resto.
Ela olhou por alguns segundos e entendeu. Não precisou de nome, não precisou reconhecer nada. A disposição das coisas, a repetição delas, o jeito como ocupavam a mesa inteira sem parecer fora do lugar. Aquilo não era de uma noite. Era de uma vida.
E ela estava sentada no chão ao lado, dentro do corpo de quem tinha vivido aquela vida.
A náusea subiu de novo e ela engoliu com esforço.
Havia uma garrafa de água perto do pé do sofá, pela metade. Ela se arrastou até lá, porque andar ainda não era uma possibilidade, e bebeu tudo de uma vez, e metade voltou. Bebeu o resto mais devagar. Ficou encostada no sofá com a garrafa vazia na mão.
Então deixou a coisa chegar.
Ela era uma garota de vinte anos que trabalhava em turnos de oito horas em pé, seis dias por semana, e dormia no ônibus na ida e na volta. Tinha sido boa aluna. Tinha sido a melhor aluna, na verdade, daquelas que os professores param no corredor para dizer que é uma pena. Queria ser médica desde os treze anos, e não era um querer de enfeite: sabia o nome das especialidades, quanto tempo levava cada uma, a nota de que precisava.
O que ela não sabia era como fazer aquilo caber.
O turno não fechava com a grade. Era só isso, no fim. Não houve tragédia, ninguém proibiu, não existiu um dia em que ela decidiu desistir. Houve um ano em que tentou dormir quatro horas por noite e estudar no intervalo do almoço, e depois um ano em que não tentou mais, porque parou de pagar a taxa da inscrição e depois parou de abrir a mensagem que lembrava da taxa. Os livros ainda estavam com ela, numa caixa embaixo da cama, e ela não olhava para a caixa.
E aí tinha sido uma quarta-feira.
Lembrava do sinal, da faixa, do fone num ouvido só porque o outro lado tinha quebrado. Lembrava de ter olhado. Tinha olhado, tinha certeza. Depois a memória ficava branca e curta, e não havia dor guardada nela, nenhuma. Só o barulho, que não parecia barulho de acidente, e o chão perto do rosto.
Ela tinha morrido. Era um fato, e ela aceitou como fato, porque o contrário exigia explicações que não existiam.
E agora estava viva.
Viva dentro de um corpo que não era dela, num lugar que nunca tinha visto, com mãos que não obedeciam direito e uma voz que assustava. Viva num apartamento onde ninguém tinha aparecido para ver se alguém ali dentro ainda respirava.
Ela olhou para a mesa outra vez. Depois para as mãos. As juntas abertas, a mancha no braço, as unhas que ainda não tinham recuperado a cor. Aquele corpo tinha brigado, tinha quebrado coisa, tinha sido deixado sozinho até o fim, e pelo buraco na parede e pelos envelopes fechados, ninguém tinha feito força para que fosse diferente. Talvez ninguém tivesse conseguido. Talvez ele não tivesse deixado.
O dono daquele corpo estava morto. Ela sabia disso do mesmo jeito que sabia que ela mesma tinha morrido: pelo que sobrou.
— Ele morreu — disse, para o quarto, com a voz dele. — Morreu disso.
Não havia outra leitura possível.
E ela continuou sentada no chão da casa dele, respirando com os pulmões dele, com a garrafa vazia na mão, até a luz da fresta sumir de vez.








