Capítulo 1
Tomás roubou-lhe a última batata do prato e Leonor decidiu que, se algum dia o matasse, teria finalmente uma explicação razoável para dar à polícia.
— Essa era minha.
Ele mastigou devagar, sem o mínimo vestígio de remorso, olhando para ela do outro lado da mesa.
— Tecnicamente, estava no teu prato.
— É normalmente assim que funciona a propriedade privada.
— E, no entanto, já não está.
Leonor estreitou os olhos. Havia poucas coisas mais irritantes do que Tomás Vidal convencido de que tinha graça. Talvez apenas Tomás Vidal quando, infelizmente, tinha mesmo graça.
— Espero que te engasgues.
— Não esperas nada.
Não esperava.
Esse era, provavelmente, um dos problemas.
Tomás sorriu como se soubesse que tinha ganho e recostou-se na cadeira. Leonor desviou os olhos antes de cometer o erro perfeitamente evitável de ficar a olhar para ele durante demasiado tempo.
Seis anos de amizade tinham-lhe ensinado muitas coisas sobre Tomás Vidal. Sabia que odiava café sem açúcar, que dizia invariavelmente não ter fome antes de comer metade do prato dela e que passava a mão pela nuca quando estava nervoso. Sabia que telefonava enquanto conduzia porque, segundo ele, o trânsito era uma forma socialmente aceite de tortura. Sabia também que ficava insuportavelmente bem de mangas arregaçadas, embora essa fosse uma informação que teria preferido não ter armazenado com a mesma eficiência.
Conhecia-lhe os hábitos, os silêncios e grande parte das manias. Conseguia perceber, pela maneira como dizia um simples está tudo bem, se alguma coisa não estava. Sabia quando precisava de falar e quando precisava apenas de ter alguém ao lado.
Era possível conhecer uma pessoa quase de cor e, ainda assim, não saber o que fazer com aquilo que se sentia por ela.
Leonor era a prova.
O telemóvel de Tomás vibrou sobre a mesa. Ele baixou os olhos para o ecrã e sorriu antes mesmo de lhe tocar.
Foi um sorriso pequeno. Quase nada. Talvez outra pessoa nem tivesse reparado.
Leonor odiou-o imediatamente.
— Quem é?
Tomás continuou a escrever durante mais dois segundos antes de pousar o telemóvel.
— A Inês.
Leonor pegou no copo.
Não sabia quem era Inês.
Mas conhecia aquele sorriso.
— Inês — repetiu, como se o nome lhe dissesse alguma coisa.
Não dizia.
Tomás pegou novamente no garfo.
— Do projeto de Matosinhos.
— Ah.
Continuava a não dizer.
Leonor levou o copo à boca, mais para ganhar tempo do que por sede. Não havia razão nenhuma para conhecer todas as pessoas que entravam na vida de Tomás. Tinham trabalhos diferentes, amigos que não partilhavam e dias inteiros que aconteciam sem que um soubesse exatamente onde o outro estava. Era assim que funcionavam duas pessoas adultas com vidas próprias.
Ainda assim, não gostou de não saber.
— A do projeto de Matosinhos — disse, tentando recuperar terreno.
Tomás ergueu os olhos do prato.
— Não fazes ideia de quem estou a falar.
— Claro que faço.
Uma sobrancelha subiu-lhe devagar.
— Leonor.
— Tomás.
— Estás a fazer aquela coisa.
— Que coisa?
— A coisa em que não sabes do que estás a falar e começas a falar mais.
Leonor pousou o copo com toda a dignidade que conseguiu reunir.
— Eu sei perfeitamente quem é a Inês.
— Então diz-me.
— Não tenho de provar nada a ninguém.
O sorriso dele apareceu devagar.
— Não sabes.
— Não sei.
Tomás riu-se e Leonor acompanhou-o, porque rir era fácil. Tinha tido anos de treino a fazer parecer insignificantes as coisas que, dentro dela, ocupavam demasiado espaço.
— Conheci-a há umas semanas — explicou ele. — Está a acompanhar o projeto pelo lado do cliente.
Umas semanas.
Leonor passou o polegar pela condensação do copo. Não era estranho Tomás conhecer uma mulher de quem ela nunca ouvira falar. O estranho era perceber que essa mulher já existia há semanas no mundo dele e que, aparentemente, só agora acabara de atravessar a fronteira para o dela.
— E só agora é que estou a ouvir falar dela?
A pergunta saiu demasiado depressa.
Tomás, ocupado com o que restava no prato, não pareceu reparar.
— Não havia nada para contar.
Havia agora.
Leonor sabia porque conhecia a diferença entre os sorrisos dele. Conhecia o sorriso educado, o sorriso de quem estava prestes a dizer uma parvoíce e aquele descaradamente encantador que usava quando queria alguma coisa dela. Conhecia até o sorriso falso que Tomás achava bastante convincente e que, na realidade, lhe fazia uma covinha diferente junto à boca.
E depois havia aquele.
O raro. Involuntário. O que lhe aparecia antes de ele próprio perceber porquê.
Era esse.
— E agora há?
Tomás ficou calado apenas durante um segundo.
Foi suficiente.
— Talvez.
Leonor sorriu.
Tinha-se tornado extraordinariamente boa nisso.
— Olha para ti, Vidal.
— Não comeces.
— Eu nem disse nada.
— É precisamente isso que me preocupa.
Ela riu-se e estendeu a mão para uma das batatas que ainda restavam no prato dele. Tomás bateu-lhe nos dedos com o garfo.
— Essas são minhas.
— Tecnicamente, estão no teu prato.
Ele olhou para ela e Leonor sorriu.
Por alguns segundos, tudo voltou ao sítio. A facilidade. As provocações. A sensação de que não existia assunto suficientemente desconfortável para sobreviver muito tempo entre os dois sem acabar transformado numa piada.
Era esse o perigo de Tomás.
Com ele, quase tudo voltava sempre ao sítio.
Mesmo aquilo que talvez já devesse ter sido deixado cair.
— Ela é gira? — perguntou Leonor.
Tomás soltou uma gargalhada e abanou a cabeça, como se estivesse à espera daquela pergunta desde que começara a falar de Inês.
— Sabia que ias perguntar isso.
— Não perguntei se era inteligente, porque parto do princípio de que tens critérios mínimos.
— Que generosa.
— Estou a evoluir.
— É.
Leonor esperou, mas Tomás voltou tranquilamente ao prato, como se aquela resposta fosse suficiente.
— É o quê?
— Gira.
— Isso foi muito pouco convincente.
— Queres que faça o quê? Que te mostre uma fotografia?
Não.
— Sim.
Tomás pegou imediatamente no telemóvel.
Leonor arrependeu-se.
— Estava a brincar.
— Agora vais ver.
— Tomás, não quero saber assim tanto.
— Mentira.
Era.
Mas não pela razão que ele pensava.
Tomás encontrou o que procurava e virou o ecrã na direção dela. Leonor inclinou-se ligeiramente para a frente e olhou.
Foi quase irritante não encontrar nada para odiar.
Inês não parecia uma mulher construída especificamente pelo universo para lhe destruir a autoestima. Não tinha nada de ofensivamente perfeito, nenhuma característica que Leonor pudesse transformar numa antipatia instantânea e completamente injustificada. Tinha cabelo castanho, um sorriso bonito e uma expressão tranquila numa fotografia em que parecia estar a rir-se de alguma coisa fora da câmara.
Parecia simpática.
Que falta de consideração.
— Então?
Leonor devolveu-lhe o telemóvel.
— Tem cara de quem devolve o carrinho das compras ao sítio.
Tomás franziu o sobrolho.
— Isso é bom?
— Infelizmente.
Ele riu-se e voltou a olhar para a fotografia antes de bloquear o telemóvel.
Foi só um instante.
Mas Leonor viu.
Claro que viu.
Reparar em Tomás era uma espécie de profissão não remunerada que exercia há demasiado tempo.
— Vais voltar a sair com ela?
— Sexta.
Outra resposta demasiado rápida.
Leonor tentou manter o tom casual enquanto puxava o guardanapo para junto do prato.
— Segundo encontro?
Tomás mexeu-se na cadeira.
— Quarto.
Leonor ficou imóvel.
Quarto.
Havia números que não deviam magoar.
Aquele conseguiu.
Durante um momento, limitou-se a olhar para ele. Quatro encontros significavam quatro ocasiões em que Tomás se arranjara para ver aquela mulher. Quatro noites sobre as quais nunca lhe dissera nada. Quatro vezes em que Inês passara de uma desconhecida num projeto de Matosinhos para alguém cujo nome fazia Tomás sorrir para um telemóvel.
— Quarto?
— Não faças essa cara.
— Que cara?
— Essa.
Leonor abriu ligeiramente os braços.
— Esta é a minha cara.
— Conheço a tua cara há seis anos.
Pois conheces, pensou ela.
E talvez fosse precisamente por isso que precisava de ter mais cuidado com ela.
— E não me contaste?
Desta vez, Tomás percebeu.
O sorriso desapareceu-lhe um pouco e a expressão mudou para uma que Leonor conhecia igualmente bem. A cabeça inclinou-se ligeiramente. Os olhos demoraram-se nela.
— Leo…
Ela odiava quando ele dizia o nome dela assim.
Porque significava que vinha aí cuidado.
E Leonor preferia quase tudo a ser tratada com cuidado por Tomás.
— Estou a meter-me contigo — atalhou, antes que ele pudesse continuar. Encostou-se novamente à cadeira e fez um gesto vago com a mão. — Não tens de me apresentar relatório de atividades.
Tomás observou-a por mais um instante.
— Eu sei.
— Embora quatro encontros sem comunicação prévia constituam uma infração grave.
A tensão desapareceu-lhe gradualmente do rosto.
— Peço desculpa formalmente.
— Pedido aceite. Com multa.
— Quanto?
Leonor empurrou o prato dele na sua direção.
— As batatas.
Tomás riu-se.
E deixou-lhas ficar.
Leonor comeu uma como se aquilo resolvesse alguma coisa.
Era ridículo como uma pessoa conseguia partir-nos o coração sem sequer deixar de ser querida.
Quando saíram do restaurante, o Porto estava naquele estado indeciso entre chuva e humidade que fazia Leonor arrepender-se de todas as decisões relacionadas com o cabelo. O passeio brilhava sob as luzes da rua e o ar tinha aquele frio húmido que parecia atravessar a roupa sem se dar ao trabalho de pedir licença.
Leonor estendeu uma mão.
— Está a chover?
Tomás olhou para cima.
— Não.
Uma gota caiu-lhe na testa.
Leonor virou lentamente a cabeça para ele.
— Fascinante.
— Isto não conta como chuva.
— Cai água do céu.
— Humidade agressiva.
— És arquiteto. Devias ter mais respeito pela ciência.
Tomás passou-lhe um braço pelos ombros e puxou-a para junto dele enquanto atravessavam a rua. Fê-lo sem olhar para ela, ocupado a confirmar se vinha algum carro, com a naturalidade de quem repetira aquele gesto tantas vezes que já não precisava de pensar nele.
Leonor também não devia precisar.
Mas sentiu-lhe o calor através da camisa, o cheiro familiar do perfume e os dedos pousados no seu braço. Durante alguns metros, deixou-se caminhar assim, encaixada contra ele, enquanto Tomás continuava a falar de qualquer coisa a que ela já não estava verdadeiramente a prestar atenção.
Para ele, aquilo não significava nada de novo.
Era esse o problema.
Tomás podia abraçá-la, puxá-la para si, adormecer ao lado dela num sofá ou beijar-lhe a testa e continuar a habitar todos esses gestos com a inocência de uma amizade de seis anos.
Leonor nunca conseguira fazer o mesmo.
Casa.
Era sempre essa a palavra que lhe aparecia quando estava assim com ele. Não paixão, nem desejo, nem sequer futuro.
Casa.
E talvez tivesse sido esse o primeiro erro.
Chegaram ao carro de Leonor e Tomás largou-a para ela procurar as chaves dentro da mala. Ela começou a afastar recibos, um batom sem tampa e tudo o que parecia ter decidido acumular-se precisamente por cima daquilo de que precisava.
Tomás espreitou.
— Isto é um buraco negro.
— É um sistema de arquivo.
— Tens três recibos, um carregador que não funciona e…
Ele meteu a mão na mala antes que Leonor pudesse impedi-lo.
— Não mexas nas minhas coisas.
Tomás retirou a mão e olhou para o objeto que segurava.
— …uma colher?
Leonor arrancou-lha imediatamente da mão.
— Posso explicar.
— Claro que podes. O problema é que vais fazê-lo.
— Foi de um iogurte.
Tomás assentiu solenemente.
— Ainda bem que esclarecemos.
— Eu ia deitá-la fora.
— E, num momento de grande confusão, guardaste-a na mala.
— Acontece às melhores pessoas.
— Não acontece.
Leonor finalmente encontrou as chaves e destrancou o carro.
— Boa noite, Tomás.
— Espera.
Ele segurou-lhe no pulso.
Leonor parou.
A brincadeira desaparecera-lhe do rosto. Tomás olhava para ela com aquela atenção desconfortavelmente precisa que, em tantos outros momentos da vida, Leonor agradecera. Quando tinha de fingir perante toda a gente que estava bem, ele costumava ser a pessoa que percebia.
Naquela noite, era precisamente a última pessoa que ela queria que percebesse.
— Estás bem?
A pergunta apanhou-a desprevenida, embora não devesse.
— Porque não haveria de estar?
— Não sei.
— Excelente argumento.
Tomás não sorriu.
— Estás estranha.
Leonor sentiu o primeiro impulso de sempre: preencher o silêncio até deixar de haver espaço para perguntas.
— Estou cansada. Tive uma reunião de duas horas com uma mulher que acha que “experiência imersiva” significa pôr luzes cor-de-rosa numa parede, amanhã entro às oito e ainda tenho de responder a três e-mails quando chegar a casa. Se estou estranha, é provavelmente privação de sono ou vontade de cometer um crime corporativo.
Tomás ficou a olhar para ela.
Demasiado tempo.
— Estás a fazer a coisa.
Merda.
— Qual coisa?
— Explicar demasiado.
Leonor abriu a porta do carro.
— Vai para casa, Vidal.
Desta vez ele sorriu. Não porque tivesse acreditado nela — Leonor conhecia-o suficientemente bem para saber isso —, mas porque também sabia quando não devia insistir.
Era outra das coisas que tornavam tudo mais difícil.
Antes que ela entrasse, Tomás puxou-a para um abraço.
Leonor ficou imóvel durante uma fração de segundo.
Depois abraçou-o também.
Era nisto que Tomás era particularmente cruel sem alguma vez tentar sê-lo. Não nas grandes coisas. Nunca lhe fizera promessas, nunca lhe pedira que esperasse, nunca lhe dissera que um dia haveria alguma coisa entre os dois.
Era cruel nas pequenas.
Na facilidade com que a puxava para os braços. Na forma como lhe ligava só porque estava aborrecido no trânsito. Em saber quando ela estava a mentir sobre estar bem. Em lembrar-se de coisas que Leonor já nem se recordava de lhe ter contado.
Em saber exatamente como segurá-la.
— Manda mensagem quando chegares — disse ele junto ao cabelo dela.
Leonor fechou os olhos por um instante.
— Sim, pai.
Tomás afastou-se apenas o suficiente para lhe dar um beijo na testa.
— Idiota.
Ela entrou no carro antes que o rosto tivesse tempo de a trair.
Tomás fechou-lhe a porta e bateu duas vezes no tejadilho, um gesto tão habitual que Leonor nem se lembrava de quando começara. Ela ligou o motor e colocou as mãos no volante.
Ele já tinha dado dois passos em direção ao passeio quando voltou atrás.
Leonor viu-o pelo espelho e sentiu imediatamente uma coisa desagradável no estômago.
Baixou o vidro.
— Esqueceste-te de me roubar mais alguma coisa?
Tomás apoiou uma mão no tejadilho e inclinou-se ligeiramente para conseguir vê-la.
— Não.
Hesitou.
Foi uma hesitação pequena, mas Leonor soube que não ia gostar do que vinha a seguir.
— Acho que estou mesmo a gostar dela, Leo.
E ali estava.
Não uma declaração dramática. Não uma porta a bater. Não o tipo de frase que justificava seis anos de esperança a desmoronarem-se. Não havia sequer crueldade suficiente para Leonor poder zangar-se com ele.
Apenas oito palavras ditas num passeio molhado, por um homem que não fazia ideia do que acabara de partir.
Leonor obrigou-se a sorrir.
— Então espero que corra bem.
E a pior parte foi saber que uma parte dela falava verdade. Amava-o demasiado para desejar que lhe corresse mal. Só gostaria que aquilo que o fazia sorrir daquela maneira tivesse sido ela.
Tomás sorriu de volta.
— Obrigado.
Leonor subiu o vidro antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Só respirou verdadeiramente quando virou na primeira esquina.
Não chorou.
Isso teria sido demasiado simples.
Conduziu até casa com o rádio demasiado alto e uma sensação absurda de que alguma coisa tinha mudado, embora todas as ruas continuassem exatamente no mesmo sítio. Não havia nada de concreto para lamentar. Tomás continuava a ser Tomás. Continuava a ser o melhor amigo dela. Continuaria provavelmente a ligar-lhe no dia seguinte e a enviar-lhe coisas sem graça que achava engraçadas.
Ela não perdera uma relação.
Não perdera sequer uma possibilidade que alguém lhe tivesse prometido.
Tinha perdido uma esperança que alimentara sozinha durante tempo suficiente para começar a confundi-la com uma certeza.
E isso era bastante mais difícil de explicar.
Quando estacionou, o telemóvel vibrou no banco do passageiro.
Tomás: Não te esqueças de mandar mensagem quando chegares.
Leonor ficou a olhar para o ecrã. Segundos depois, apareceu outra.
Tomás: E a colher continua sem explicação aceitável.
Ela riu-se.
Baixinho, contra a própria vontade.
Porque, claro, ele conseguia fazer aquilo. Podia dizer-lhe que estava a apaixonar-se por outra mulher e, menos de meia hora depois, continuar a ser a pessoa que lhe arrancava uma gargalhada dentro de um carro vazio.
Leonor escreveu:
Leonor: Cheguei. Vai dormir.
A resposta apareceu quase imediatamente.
Tomás: Boa noite, Leo.
Leonor pousou o telemóvel com o ecrã virado para baixo e ficou alguns segundos sem sair do carro.
Talvez esse fosse o pior de amar Tomás.
Ele nunca precisava de lhe dar esperança. Leonor sabia perfeitamente como encontrá-la sozinha.