Capítulo 1 -Entre inimigos.
DAEMON
Eu odiava aquele lugar antes mesmo de atravessar a fronteira.
Talvez *ódio* ainda fosse uma palavra gentil demais.
A carruagem avançava por uma estrada larga cercada por florestas densas, e eu observava pela janela os símbolos do Reino dos Lobisomens surgirem pouco a pouco entre as árvores. Estandartes. Postos de vigilância. Guardas patrulhando em forma humana e outros assumindo a forma de enormes lobos nas partes mais afastadas da estrada.
A porra toda parecia construída para lembrar qualquer visitante de uma única coisa:
**Kayon mandava ali.**
Só de pensar naquele nome, meu maxilar se contraiu.
Rei dos Lobisomens.
Alfa Supremo.
O homem responsável pela morte do meu tio Matheus.
Meu sangue ferveu outra vez.
— Olha essa merda — rosnei, acompanhando com desprezo dois lobisomens que observavam nossa comitiva passar. Minha voz saiu baixa, mas carregada de uma repulsa que eu nem tentava esconder. — Eles realmente se comportam como se fossem superiores a tudo que respira. Esses cachorros sempre foram arrogantes, mas, depois que Kayon assumiu o trono, ficaram ainda piores.
Brax, sentado diante de mim, desviou os olhos da janela.
Meu irmão estava tão irritado quanto eu.
Talvez mais.
— Lobisomens sempre tiveram essa porra dessa mania — respondeu Brax, com a boca curvada numa expressão de profundo nojo. — “Primeiros filhos da Deusa da Lua.” “Primeira criação.” “Sangue mais puro.” — Ele repetiu as frases num tom debochado, quase cuspindo cada palavra. — Como se isso transformasse todos eles numa espécie sagrada.
Soltei uma risada sem humor.
— Sagrada? São cães que aprenderam a usar coroa.
Brax sorriu.
Um sorriso cruel.
— Concordo.
Liver continuou calado.
Estava sentado ao meu lado desde que deixamos nosso reino, observando a estrada como se aquela viagem fosse apenas mais uma obrigação diplomática.
Aquilo me irritava.
Eu sabia que não era indiferença.
Conhecia meu irmão.
Quando Liver ficava daquele jeito — quieto demais, expressão neutra demais, mãos imóveis demais — significava que estava pensando.
E Liver pensando era quase sempre mais perigoso do que Brax ou eu gritando.
Passei a língua pelos dentes e voltei a olhar para fora.
— O pior nem são eles.
Brax levantou uma sobrancelha.
— Não?
— Vampiros.
A palavra saiu da minha boca como veneno.
A expressão de Brax mudou imediatamente.
A irritação que já existia em seu rosto endureceu até se transformar em puro desprezo.
— Finalmente falou alguma coisa sensata — respondeu ele, inclinando-se para a frente e apoiando os antebraços sobre os joelhos. — Eu consigo tolerar um lobisomem por algum tempo, se for absolutamente necessário. Vampiro, não. Aqueles cadáveres ambulantes vivem se comportando como se séculos de dinheiro, roupas caras e castelos transformassem a espécie deles em alguma coisa superior.
— E agora estão aliados — murmurei.
Aquilo era o que mais me incomodava.
Lobisomens e vampiros.
Kayon e Alaric.
Dois homens que, separadamente, já possuíam poder suficiente para desestabilizar reinos inteiros.
Juntos?
Era uma merda.
— Alaric — Brax pronunciou o nome com evidente repulsa, estreitando os olhos. — Outro filho da puta.
Eu ri.
— Rei Supremo dos Vampiros. Poderoso. Antigo. Rico pra caralho. E completamente desequilibrado.
— Louco — corrigiu Brax imediatamente. — A palavra é louco.
— Perigoso — acrescentei.
Brax apontou para mim.
— Perigoso porque todo mundo deixa aquele desgraçado fazer o que quer. O reino dele é rico demais, possui influência demais e, agora, para completar, resolveram misturar sangue com os lobisomens.
Meu estômago revirou.
Aquela família era uma aberração política.
Kayon tinha construído laços familiares diretamente com vampiros. Filhos eram criados entre os dois reinos, vínculos de sangue atravessavam as duas coroas e aquilo fazia com que qualquer conflito contra uma das casas inevitavelmente atingisse a outra.
Era quase impossível atacar um sem chamar o outro para a guerra.
— Eles ficam se fodendo entre si e chamam isso de diplomacia — murmurei, com desprezo.
Brax soltou uma gargalhada amarga.
— Exatamente.
Finalmente, Liver desviou os olhos da paisagem e olhou para nós.
Não falou.
Ainda.
Brax percebeu.
— Você pretende participar dessa conversa ou vai passar a viagem inteira fingindo que não está com vontade de arrancar a cabeça de alguém?
Liver manteve o olhar sobre ele durante alguns segundos.
Depois voltou para a janela.
— Estou ouvindo.
— Que maravilhoso — retruquei, já perdendo a paciência. — E o que acha de estarmos indo sentar diante do homem que matou nosso tio Matheus?
Nenhuma reação aparente.
Porra.
— Liver.
Dessa vez ele respirou fundo.
— Acho que vocês dois estão fazendo exatamente o que Kayon espera de nós.
Fiquei imóvel.
— Como é?
Liver finalmente virou o rosto.
Seus olhos estavam frios.
Controlados.
— Chegando dominados pela raiva.
Brax soltou uma risada seca e incrédula.
— Nosso tio está morto, Liver.
— Eu sei.
— Então demonstra, caralho! — Brax explodiu, a expressão se fechando numa mistura de dor e fúria. — Porque você está sentado aí como se estivéssemos indo discutir a porra de uma rota comercial!
O silêncio dentro da carruagem ficou pesado.
Liver encarou Brax.
Não levantou a voz.
Nem precisava.
— Não confunda silêncio com falta de ódio.
Aquilo fez até Brax parar.
Liver continuou, devagar:
— Tio Matheus era meu tio também. Eu cresci vendo aquele homem desaparecer por meses porque tinha a incapacidade absoluta de permanecer dentro do nosso reino. Ele adorava viajar. Adorava atravessar fronteiras, conhecer territórios, culturas e espécies diferentes. Quantas vezes nosso pai não reclamou que ele parecia incapaz de permanecer parado?
Minha mandíbula se contraiu.
Eu lembrava.
Todos lembrávamos.
— Foi exatamente numa dessas viagens que ele foi parar no Reino dos Vampiros — prosseguiu Liver, e, pela primeira vez, alguma coisa dolorida apareceu em seu rosto. — E foi lá que cruzou o caminho daquela mulher.
— Jade — cuspi o nome.
Liver assentiu.
— Jade.
Brax apertou os punhos.
— Aquela filha da puta transformou a erésthai do próprio companheiro numa prisão.
— Sim — respondeu Liver, e sua voz ficou ainda mais fria. — E eu não tenho dúvida nenhuma sobre o que penso dela.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Então eu disse:
— Mas quem matou tio Matheus foi Kayon.
Os olhos de Liver vieram para mim.
— Foi.
— Então não me pede para entrar naquele castelo fingindo que essa informação não existe.
— Eu não estou pedindo isso.
— Parece.
Liver se inclinou levemente para a frente.
— Estou pedindo para você lembrar que nós **não sabemos tudo o que aconteceu**.
Brax soltou um som de desprezo.
— Nosso tio está morto. Kayon o matou. Essa parte parece bastante clara.
— E é exatamente por isso que estamos indo ouvir o restante — respondeu Liver, agora com firmeza. — Não para absolver Kayon. Não para confiar em Alaric. E muito menos para aceitar qualquer merda que aqueles vampiros digam. Nós vamos ouvir porque agir sem conhecer os fatos seria burrice.
Passei a mão pelo maxilar.
Não gostei.
Mas ele tinha razão.
E eu odiava ainda mais quando Liver tinha razão.
Brax, no entanto, ainda fervia.
— Então por que caralho continuamos mantendo acordos com esses dois reinos?
Foi aí que Liver perdeu um pouco da paciência.
Ele se inclinou para a frente.
— Porque nosso reino estava perecendo.
Silêncio.
— Vocês sabem disso — continuou ele, olhando primeiro para Brax e depois para mim. — Sabem muito bem. Só não gostam de admitir porque admitir significa reconhecer que, neste momento, precisamos daqueles filhos da puta.
Brax fechou a expressão.
Liver apontou para a janela.
— Kayon é extremamente poderoso. O Reino dos Lobisomens é rico, militarmente fortalecido e possui aliados absurdamente influentes. Eles consolidaram relações com os fae, ampliaram rotas comerciais e agora ocupam uma posição estratégica que ninguém sensato ignora.
Depois fez um gesto vago, como se pudesse apontar para o Reino dos Vampiros mesmo àquela distância.
— E Alaric é ainda pior.
Soltei um som baixo.
Liver continuou:
— Aquele velho é um louco doente, perigoso, podre de rico e influente pra caralho. E agora as duas famílias praticamente se misturaram. Filhos. Netos. Casamentos. Sangue de vampiro e sangue de lobisomem compartilhando a mesma mesa e defendendo os mesmos interesses.
Ele recostou na poltrona.
— Isso é perigoso.
Brax apertou os punhos.
— Então vamos simplesmente aceitar essa porra?
— Eu não disse isso.
Brax inclinou o corpo para a frente, os olhos tomados de fúria.
— **Eles mataram nosso tio, Liver!** Kayon matou tio Matheus com as próprias mãos e agora esperam que a gente chegue lá, sente diante deles e aceite qualquer justificativa como três filhos da puta obedientes?
Liver o encarou.
— Eu já sei, irmão.
— Não parece!
— Eu sei exatamente quem matou tio Matheus — respondeu Liver, e, dessa vez, a raiva finalmente apareceu na voz dele. Baixa. Controlada. Muito mais ameaçadora justamente por isso. — E, se descobrirmos que Kayon matou nosso tio por crueldade, conveniência ou qualquer motivo diferente daquele que estão alegando, eu não vou esquecer.
Brax ficou em silêncio.
Eu também.
Ali estava.
A verdadeira face do meu irmão.
— E depois? — perguntei.
Liver olhou primeiro para mim.
Depois para Brax.
O rosto estava perfeitamente calmo.
Os olhos, não.
— Primeiro nós descobrimos exatamente o que aconteceu com tio Matheus.
Brax respirou fundo.
— E se aquilo que eles disserem não justificar a morte dele?
Liver sorriu.
Foi um sorriso mínimo.
Frio.
— Então nós nos vingamos.
Meu sangue aqueceu.
Brax também sorriu.
— Finalmente.
Liver ergueu uma das mãos.
— Mas nas sombras.
A satisfação desapareceu um pouco do rosto de Brax.
— Liver—
— Sem discursos. Sem ameaça dentro do território deles. Sem tentar atacar Kayon como um idiota. — A voz do meu irmão endureceu. — Vocês dois precisam colocar uma coisa na cabeça: vingança não serve para porra nenhuma se morrermos antes de executá-la.
Ele olhou diretamente para mim.
— Daemon, mantenha sua boca fechada.
Depois voltou os olhos para Brax.
— E você mantenha seu temperamento sob controle.
Brax soltou uma risada de puro deboche.
— Está pedindo milagres.
— Estou exigindo inteligência.
A carruagem começou a diminuir a velocidade.
Nós três percebemos.
Olhei pela janela.
A floresta terminou.
E diante de nós surgiu o castelo.
Enorme.
Imponente.
Construído quase inteiramente em **pedra branca**, erguendo-se sobre a elevação como uma fortaleza clara contra o verde escuro das montanhas. Torres altas refletiam a luz do dia, grandes muralhas cercavam a propriedade e os estandartes do Reino dos Lobisomens tremulavam acima dos portões.
Guardas ocupavam os muros.
Lobos enormes patrulhavam os acessos.
Mesmo à distância, aquele lugar gritava poder.
Minha repulsa voltou com força total.
— Que lugar do caralho.
Brax observava tudo com o mesmo desprezo estampado no rosto.
Liver apenas ajeitou a roupa.
— Lembrem-se.
A carruagem parou.
Do lado de fora, alguém abriu a porta.
Liver foi o primeiro a se levantar.
— Hoje somos príncipes diplomáticos.
Brax desceu logo depois.
— E amanhã?
Liver parou no último degrau.
Olhou para o castelo de pedra branca.
— Amanhã veremos.
Desci por último.
Meus pés tocaram o território dos lobisomens.
Ergui os olhos para a fortaleza de Kayon.
Para o castelo do homem que tinha matado nosso tio Matheus.
E pensei apenas uma coisa.
Eu odiava todos eles.
E aquela visita estava apenas começando.








